The Same Heart
6 Uma esperança.
Notas iniciais
Skye Martinez
Rosie estava sentada do lado de Beth, olhando para as suas mãos, estava calada, mas podia perceber que bem. Vou até ela e sorrio.
—Tudo bem?
—Sim – ela diz sorrindo.
—O que te preocupa?
—Se estamos preparadas para isso – ela diz parecia insegura ao dizer isso. – Nunca matei uma daquelas coisas mãe, cresci no hospital, tenho nove anos e não tenho noção disso – Rosie suspira, sua inocência era uma das coisas que mais gostava de preservar nela, no entanto, eu sabia que ela não era boba, sabia o que o mundo lá fora se tornou, sabia que era muito diferente do Grady.
—Eu sei, nem eu estou preparada – digo – Mas vamos ficar como essas pessoas ficaram. Como Maggie ficou e eu prometo que nunca vou deixar nada acontecer com você.
—E se algo acontecer com você? – ela pergunta com lágrimas nos olhos – Não conseguiria seguir em frente.
—Não gosto de pensar nisso – digo – Mas se algo acontecer, você segue Maggie, segue esse grupo, viva, apenas isso.
—Será que um dia vou ficar forte como Maggie ou Beth? – ela pergunta limpando rapidamente a lágrima que ameaçou cair.
—Irá, muito – digo – Sei que vamos passar por muita coisa, fome, sede, cansaço, momentos muito ruins – digo – Mas teremos que aguentar.
—Eu sei o que aconteceu no Grady, mamãe – ela diz – Eu sei o que acontecia com as mulheres, uma vez Clara me contou sem querer que a mãe dela tinha marcas roxas pelo corpo. Foi por isso que saímos de lá?
A sua pergunta me pegou de surpresa, uma surpresa que eu sabia que ficou visível. No entanto, Rosie nunca foi tão clara quanto naquele momento, e doía saber que fiz tanto esforço para nada, no fim, a verdade sempre vem.
—Não podíamos continuar lá com isso, você sabe.
—Eu sei – diz ela – Por isso que quando aquele homem disse aquilo, eu sabia que você iria, não só por Maggie, mas por você e por mim.
—Quando você cresceu tanto? – pergunto para mim mesma beijando sua testa. – Eu e um grupo vamos ir à busca de um lugar para ficarmos, você irá ficar aqui e fazer tudo que Beth mandar, tudo bem?
—Mas mãe – ela protesta, mas eu nego.
—Tenho que me inteirar no grupo – digo – Eu tenho que fazer isso, você entende?
Rosie suspira e assenti.
—Te amo – digo beijando sua testa novamente.
Levanto-me e Beth apenas assente, ouvirá a conversa. Direciono-me até o pequeno grupo que estava em uma roda, todos concordaram com a ideia, até mesmo gostaram. Eu realmente espero encontrar algo lá, seria terrível não ter nada. Meu pai havia abandonado aquela casa quando minha mãe morreu, e eu acabei por cuidar dela às vezes, não sabia que ele havia voltado e ele nem mesmo botou a venda, esperava que tudo estivesse lá.
—Então – diz Rick – Vamos nós cinco, ficaremos atentos, sem chamar atenção. – diz ele – Já conversei com Abraham, se algo der errado vamos atirar para o alto e vamos correr para a estrada, se tudo der certo, eu volto e vamos esconder o caminhão e vim pra cá – ele diz e eu assinto.
Estava nervosa, não podia negar. No entanto, eu precisava fazer isso, precisava ir até lá, ver como estavam às coisas. Uma parte minha tinha esperança de que meu pai estava sobrevivendo lá, caçando e passando as noites naquele lugar que já me deu muito medo. Eu queria vê-lo, pois depois de tudo que passei esquecer as coisas que ele disse seria muito melhor do que viver com essa angustia no peito.
Mesmo assim, estava tremendo. Não tinha roupas apropriadas, apenas as do hospital, que eram horríveis para o mundo ali fora. Olho a minha volta, o grupo parecia acabado, eu tinha que conseguir, tinha que ter algo lá, dar uma esperança a eles, era isso que precisavam um descanso.
Estava sentada esperando todos se prepararem até que Maggie aparece do meu lado, ela me entrega uma arma, e uma faca e sorri.
—Eu sei que tem boa pontaria, mas usar facas é mais inteligente, apenas use a arma se realmente precisar – ela diz e eu olho a faca, lembrando-me de coisas que não queria.
—Não sei se serei boa para esse mundo, Maggie – sussurro – Não sei se poderei proteger Rosie de tudo, e eu tenho muito medo disso. Porque lá dentro eu a protegia, sabia com o que estava lidando, mas aqui...
—Você irá aprender – diz Maggie – Como eu aprendi.
Olho para a minha melhor amiga suspirando, era tão bom tê-la. Em poucas horas eu havia percebido sua mudança. Não só na sua aparência, com os cabelos maiores, a sujeira em sua pele e a coloração bronzeada dela. Era mais do que só o exterior. Maggie estava diferente até mesmo no jeito de falar, mais confiante, mais atenta. Tudo a sua volta era motivo para se questionar.
—Ei – ela diz e eu volto a olhar para ela – Você vai conseguir. Você é Skye Martinez, a mulher que ficou sozinha cuidando de uma criança em um mundo incerto – diz Maggie – Estamos em um novo mundo onde você também pode se adaptar como se adaptou antes. Você consegue.
Assinto sorrindo, seguro firme a faca em minha mão enquanto a arma boto na barra da minha calça, prendendo junto com a minha peça intima. Seguimos o caminho mais perto, eram apenas duas ruas e chegávamos à rua sem saída da minha casa, a rua que eu tanto conhecia.
A cidade estava tão silenciosa que podíamos ouvir a todo instante o barulho, aquele murmúrio que era bem baixo no Grady, ali era alto, tão alto que me irritava. Eu reconhecia tudo. O bar do Joe, as casas de Marie e Karla, a padaria do Sr. João. No entanto, tudo estava mudado, o sentimento de morte estava ali, presente, um caos. E nunca pensei que ficaria tão triste com isso.
Tento não pensar nas vidas que nunca mais vou ver, ou no cheiro de pão fresco que nunca mais irei sentir. Estava tão envolta de meus pensamentos, que só percebi que tinha alguns deles quando alguém me puxou. O susto quase me fez gritar, mas uma mão parou na minha boca, olho para os lados vendo Maggie, Glenn e Rick do outro lado da rua. Atrás de mim estava Daryl, ele me olha com raiva, e me sinto culpada no mesmo momento. Aquele ato poderia matar todos.
Glenn dá a volta no prédio e depois ouço um barulho, o grupo de errantes acaba por se distanciar aos poucos, apenas respiro com normalidade quando Maggie saiu de trás do prédio, cruzando a rua.
—Está tudo bem? – Maggie pergunta pegando a minha mão, apenas assinto, ainda com vergonha da minha falta de atenção.
—Aquilo podia ter matado todos nós – diz Daryl com raiva, tentando controlar sua voz, olho para ele, já não basta à vergonha que sinto, ele tinha que falar algo. – É assim que quer proteger aquela criança?
—Daryl – Maggie exclama, mas já era tarde, ele estava saindo.
Aquilo havia me atingido, pois era a realidade, era o que iria acontecer. Se eu continuasse a viver como no Grady não poderia ajudar em nada, não poderia cuidar de Rosie, muito menos fazer parte do grupo.
—Está tudo bem? – ela pergunta novamente.
—Sim, desculpa – digo e dou as costas, seguindo o grupo.
Desta vez sou mais atenta a tudo a sua volta.
—Primeira regra: – ouço o sussurro de Rick ao meu lado – Olhos atentos a tudo. Segunda regra: Faça silencio, mesmo nos lugares mais pacatos, eles estão em todos os lugares. Terceiro: Aprenda com erros, e não os deixe abaixar a cabeça.
Olho para Rick e sorrio, assentindo, ele aperta meu ombro e volta a andar. Fazer silêncio era fácil para mim. No Grady eu precisava fazer silêncio ao invadir a dispensa para pegar comida para as mulheres do lugar, precisava fazer silencio para tudo. Então, depois do acontecimento anterior, o caminho foi tranquilo, claro que vimos muitos deles, mas era tão natural para o grupo quanto era passar roupa para mim.
Depois de virar a esquina à rua se abriu, e então vi a minha rua sem saída. A rua que antes era cheia de vida, agora estava morta, como todo o resto. Andar ali merecia mais cuidado, tudo parecia fazer um eco horrível, como se estivéssemos andando no hospital novamente.
As folhas voavam livres pelo chão, enquanto as janelas das casas estavam quebradas ou com madeiras. Os jardins antes perfeitos estavam grandes e feios, nada mais era bonito, eu não via mais as crianças brincando na rua, mas a bola que elas usavam para jogar futebol estava lá, no quintal.
Quando chego a minha casa demoro a passar pela grama que já tomava todo o local, era doloroso, e um sentimento horrível preenchia meu peito, de uma forma avassaladora. A última vez que estive ali foi quando a vizinha que agora talvez estivesse morta também, me ligou avisando que uma ambulância estava na minha casa. A última vez que estive ali foi para um velório. E a sensação agora não era diferente, aquilo parecia o velório de todas as minhas lembranças boas em Atlanta.
Tudo estava morto, como o mundo.
Tento abrir a porta mais estava trancada, Daryl fez o sinal de que ia arrombar, mas eu o paro com o braço. Agacho-me e pego a chave reserva que ainda estava ali, como me lembrava. Abro a porta e então entro, sendo seguida pelo resto do grupo.
A casa estava como eu lembrava, no entanto, a poeira e o cheiro de mofo se faziam presentes. Vejo Rick fechando a porta e depois dando leves batidas, fico observando as ações deles, o modo como eles sempre eram cautelosos em tudo, e então eles começam a se separar. Vou seguindo escada acima antes de ir ao porão, precisava ver o quarto dos meus pais.
O quarto deles continuava com a mesma decoração, um papel de parede com flores que minha mãe escolheu, estava debotado, mas ainda era lindo. A Bíblia e o terço na escrivaninha, os lençóis e o cobertor que eu botei da última vez que limpei a casa, tudo me fazia querer voltar na época em que eu podia abraça-los, uma sensação nostálgica e densa percorria o lugar, como a poeira, era assim que eu me sentia.
—Ei – ouço uma voz grossa e quase pulo de susto, olho para trás e vejo Daryl. – Vamos ao porão.
—Tudo bem – digo ao homem.
Não sabia o que sentir quando se tratava de Daryl. Senti algo por todos no grupo, um sentimento bom para cada um deles. Já Daryl tudo que eu pensava era uma incógnita, seu jeito, suas ações, tudo nele me intrigava de um modo assustador. Ele era fechado e arrisco.
Qualquer coisa o deixava bravo, no entanto, pude perceber que tudo aquilo que Beth disse era verdade, ele pensava no grupo antes dele. E isso eu admirava.
Desço as escadas quando vejo Maggie empilhando alguns enlatados e guardando duas garrafas de água. Olho para Daryl que continuava atrás de mim e fiz um gesto com a cabeça, indo para o lado de trás da casa. O quintal ali estava muito pior do que o da frente. Suspiro e abro caminho entre a pequena mata que havia se formado ali, vejo o caminho de pedras que meu pai havia feito para chegar ao esconderijo, como eu chamava quando mais nova. No fim descobri que era apenas um porão no subsolo que meu pai quis construir por causa da guerra que se aflorava cada dia mais, depois de tudo, eles usaram aquele lugar como uma reserva de comida, água e depois de algum tempo para os vícios do meu pai como bebidas e algumas armas de caça.
Abro a porta de madeira e acabo por tossir repetidas vezes com o mau cheiro do local, era como se tivesse algo podre ali, sem contar o cheiro de mofo. No entanto, Daryl não pareceu ligar para isso. Ele vai à frente, descendo a escada de madeira, o sigo, sendo encoberta pela escuridão. Quando desço as escadas acabo por ligar a luz.
A luz era fraca e apenas estava no meio da sala, era a luz reserva, e ainda funcionava, o que foi um alivio.
Daryl acaba logo por achar algo pelo qual se preocupar, a bebida do meu pai. O cheio não estava tão ruim depois que me acostumei, era como estar do lado de fora, o cheiro impregnava em tudo.
—Vou chamar os outros – ouço Daryl – Aqui parece ser bom para uma noite.
Olho para Daryl e assinto, voltando a olhar pelo local. Fico olhando para todos os lados até que vejo uma figura, algo no chão.
Um arrepio passa por todo o meu corpo, aquele mau pressentimento que sempre sentia quando algo ruim iria acontecer. Meu coração começa a bater de modo descontrolado, ando devagar, passo a passo, até que chego perto do colchão, no lugar com pouca energia. Toco o ombro do homem, e ele resmunga os movimentos fracos.
—Pai – sussurro, respirando pesadamente.
Era meu pai, eu reconhecia pelo casaco que eu havia dado há ele de natal quando pequena, talvez ele estivesse desidratado, talvez estivesse doente, se fosse esse o caso poderia leva-lo ao Grady, não me importaria, faria tudo por ele. Agora estando aqui fora percebo o quanto a vida é algo miserável, quem dirá as brigas.
Agacho-me e toco mais uma vez seu ombro, até que ele me olha e um grito de horror saiu da minha boca.
Seus olhos antes azuis estavam opacos e sem vida, seu rosto bonito estava desfigurado. Sou pega de surpresa quando ele se joga em cima de mim com uma força que não pensei que tinha. Sua boca abre e fecha de modo frenético, como se sentisse que minha carne estava em perfeito alcance. Sinto as lágrimas banharem a minha visão, deixando tudo pior.
Os soluços escapavam enquanto eu tentava o tirar de perto de mim, ele me agarra mais forte e solto mais um grito de horror. Eu tinha que fazer algo, precisava sobreviver, por Rosie e por Maggie. Sinto meus músculos arderem com a força que exercia para tirá-lo de mim. O seguro com a mão esquerda com força enquanto deixo meu joelho em sua barriga para que ele não caísse em cima de mim, com a mão direita tateio pelo chão a minha faca, procurando aonde a deixei cair, olho para o lado e a vejo perto o suficiente, seguro o pescoço de meu pai com força, sentimento o tecido se dissolvendo pela minha mão. Logo as gotas estavam caindo em meu peito.
Minha respiração estava ofegante, escuto as escadas, mas precisava ser rápida, não podia ser salva, com um último grito para me dar força, pego a faca e enfio em sua garganta, passando até o cérebro. Meu pai para, enquanto o sangue caía por cima de mim como uma cascata pelo meu busto.
Um cheiro pobre quase me fez vomitar, o jogo para o lado enquanto sinto alguém me tirar de cima do corpo, tento sair de perto da pessoa, eu estava desesperada, tremendo e a adrenalina agora ia embora, deixando apenas a dor de ver meu pai assim, a pessoa me virá para si e vejo que era Daryl, seu olhar era de pavor.
—Ele te mordeu? Você está bem? – ele diz insistindo em segurar meu braço, nego apenas e ele acaba por alisar meu braço de forma tímida. Olho para Daryl, a visão embaçada, agarro seu tronco antes mesmo de pensar, o abraçando.
Ele não devolve o abraço, parecia paralisado com o ato, no entanto, eu estava desesperada e só precisava disso. Acabo por me afastar e sussurro.
—Desculpa.
Eu estava sendo patética, eu nem mesmo o conhecia, só estava provando para todos que era fraca demais para esse mundo. Tento controlar meus soluços que eram altos, ouço novamente as escadas.
—Skye? – ouço Maggie, olho para trás e tiro meus braços de Daryl.
—M-Meu pai – sussurro.
—Ele te atacou?
—Não – digo olhando para seu corpo agora totalmente sem vida.
Agacho-me e olho pelo seu corpo, vendo se ele tinha alguma mordida, no entanto não encontro nada. Levanto-me e vou até o seu colchão e então eu acho, um pote de remédios e água.
—Ele se matou – sussurro olhando para Maggie – Ele...
—Não pense nisso, tudo bem? – fala Maggie ao meu lado, e assinto.
—Vamos limpar aqui antes de chamar os outros – diz Daryl – Deveria se limpar – Daryl diz olhando para mim e eu assinto mais uma vez.
Reviro as coisas dele até que acho uma carta. Pego-a, botando em meu bolso na calça e me levanto, seguindo até o lado de fora. O sol estava se pondo agora, teríamos meia-hora de sol. Maggie me segue, eu sabia o que ela falaria, sempre sei.
—Não é culpa sua – ela diz.
—Eu estou bem – digo simplesmente – Só acho que você e Glenn deveriam voltar e chamar os outros, o sol está se pondo.
—Skye...
—Eu não tinha mais esperanças – digo olhando para ela – Ter te encontrado viva foi como ganhar na loteria nesse mundo, não achei que o raio cairia mais do que uma vez no mesmo lugar.
—Eu vi você pegando uma carta, acha que ele escreveu algo sobre você?
—Talvez – digo – Ou talvez seja só algo antigo.
—Tudo bem – ela diz me abraçando e eu suspiro.
—Vou ver se tem algo da minha mãe para usar – digo.
—Achamos água ali em baixo, pegue um pouco e se limpe – ela diz.
Suspiro e faço o que ela pede, enquanto Rick e Daryl limpavam o lugar. Tomo um banho de gato, apenas limpando o sangue do meu corpo. Ainda tinha roupas da minha mãe como eu me lembrava, eram as roupas que ela guardava de sua adolescência, ainda lembrava-me dela me contando as coisas que ela fazia, solto uma risada ao lembrar-me de tudo. A calça ficou boa em meu corpo, já a blusa estava larga e ia até a metade de minha coxa, no entanto, era melhor do que a blusa ensanguentada e branca do Grady.
Nos pés boto uma meia e uma bota antiga, a usávamos para caçar quando mais nova. Pego também um casaco de moletom que podia ser de bom uso para Rosie e até para mim no inverno.
Quando termino de me arrumar já estou me sentindo melhor. Mesmo que ainda esteja me sentindo horrível pelo acontecimento passado. Desço os degraus e vou até o quintal, vejo Daryl cavando um buraco e vou até ele, pego seu braço e falo.
—Eu faço isso – digo.
—Você já teve que mata-lo – diz Daryl, seu olhar era intenso, e tenho que admitir que me senti perdida nele por um momento – Pode deixar que faço isso.
—Tudo bem – sussurro.
O vejo trabalhando, ele faz uma cova média, depois vejo que meu pai estava enrolado em um lençol. Pego a sua cabeça e Daryl seu corpo, o botamos na cova e então o ajudo a botar a terra por cima, tudo isso demorou quinze minutos, no máximo. Agacho-me e suspiro. Daryl não disse nada, só ficou presente.
Não sabia o que falar, nem mesmo como agir. Só pego a carta em meu jeans e a abro.
Era a sua caligrafia.
Eu sou um velho burro, que adora fazer burrices e mais burrices.
Era isso que a carta dizia, depois tinha um grande vazio, linhas e mais linhas vazias, e no final da página, nas quatro últimas linhas estava mais um paragrafo.
Um velho que só faz burrices tinha que terminar fazer uma. Deixei minha filha de lado, minha neta de lado, minha mulher se foi e agora o mundo também se foi. Todas as burrices acumuladas depois de anos, resultam em uma só coisa: Morte. Que bom que eu vou embora dessa merda em grande estilo, Elvis sentiria inveja.
Solto uma risada, revirando os olhos, ele estava bêbado quando escreveu. Lembro quando era mais nova, ele adorava cantar as músicas do Elvis quando estava bêbado, e vivia dizendo que fazia burrices. Não fico triste por não ver uma declaração ou um pedido de desculpas, isso não é um conto de fadas e eu sabia que meu pai não daria o braço a torcer, mesmo se estivéssemos juntos nesse momento.
Ele sempre fez burrices e continuaria fazendo elas. Mesmo vivo.
Ele era um ogro e bruto, mesmo assim o amava, pois ele era o meu pai. O homem que me proporcionou essa vida.
Ele tirou sua vida, e foi à burrice mais corajosa que ele já fez em toda a sua existência.
Daryl Dixon
Eu tinha uma teoria para a ruiva a minha frente. Ou ela queria se matar, ou era um imã de problemas. Eu mal havia saído do porão quando ouvi seu grito, e mal tinha decido as escadas quando a vi cheia de sangue. Tudo que eu podia concluir é que eu continuava sentindo algo que me fazia querer protege-la, essa sensação parecia não passar em nenhum momento.
Era estranho e desesperador sentir isso. Pois com Beth, Carol ou Sofia eu tinha um motivo, já com Skye, com ela não tinha motivo algum, talvez fosse sua filha, Rosie. Ela parecia ser mais forte que a mãe. Mais forte no sentido emocional, vi-a chorar uma vez enquanto Skye vivia chorando, talvez a ruiva tentasse mascarar tudo a sua volta enquanto a filha sabia o que estava acontecendo. Com Carl foi à mesma coisa, Lori sempre tentava mascarar tudo a sua volta, mesmo que fosse duro.
No entanto, o sentimento protetor ainda estava ali e não queria sair de jeito nenhum, e isso era horrível. Eu me sentia responsável por cada vida que entrava no grupo, algo em mim sempre queria fazer mais, se tornar mais. Todavia, mesmo eu gostando de burlar as regras, seguiria o meu intuito e me afastaria de Skye e Rosie, no entanto, não parecia fácil, e não era. Ela era nova no local e ainda por cima, uma garota perdida.
Eu tinha que admitir isso. Ver ela daquela forma depois de matar um errante, mesmo ele sendo seu pai, foi no mínimo uma grande resposta. Ela não estava pronta para isso.
E mesmo que eu queira me afastar, eu não podia, era mais forte do que eu. Não pelo fato de ser ela, mas sim por sua filha e por Maggie, as duas precisavam daquela ruiva, não aguentaria mais ver perdas, é horrível se sentir imponente. E eu tenho um sério problema de achar que eu posso mudar tudo, e mesmo que seja impossível toda vez que uma vida se perde eu sinto que podia ter feito algo.
Como Noah, foi ridículo levarmos ele para lá, era obvio que eles iriam querer ele de volta. No entanto, as ideias sempre aparecem depois, e isso é uma grande merda.
Eu deveria ter deixado ela de lado, enquanto ela lia a carta, era um momento intimo dela, mas não consegui, continuei ali, observando-a. Algo nela me lembrava a minha mãe, não nas atitudes, minha mãe não era nem metade dela, mas sua aparência. Minha mãe quando nova tinha uma aparência angelical.
Como Skye.
Sou pego de surpresa com o seu olhar, e acabo por desviar o meu.
—Quando você acha que ficarei pronta para tudo isso? – ela pergunta e eu volto a olhá-la, sem entender. – Quando me tornarei forte o suficiente? Ou não conseguirei?
—Só o tempo dirá – digo.
—Seja sincero – ela diz soltando uma risada – Eu sei que já deve ter pensado nisso.
—No que?
—Que sou uma mulher morta – diz ela olhando para mim, um olhar que penetrava até mesmo a minha alma. Skye era transparente, talvez ela não percebesse isso, nem mesmo as outras pessoas além de Maggie percebiam, mas ela era tudo nela denunciava o quão esgotada ela estava.
—Se depender do nosso grupo não vamos deixar isso acontecer.
Ela me olha e assente suspirando. Eu queria dizer algo, mas não digo apenas me afasto como prometi que faria.
Skye Martinez
Todos estavam no porão. Rosie estava bem, Carl e Judith também. O resto do grupo parecia estar bem melhor com aquela “folga” de tudo. E ficava feliz por estar proporcionando isso para todos. Comemos bem, cozinhando algumas coisas do lado de fora e depois entramos quando ouvimos os gemidos intermináveis daquelas coisas.
Agora todos pareciam dormir menos eu. Não conseguia pregar os olhos, nem mesmo por um segundo. Sinto a presença de meu pai em todo lugar.
Era incrível como o mundo havia parado para mim, não achei que isso realmente fosse tão grave, ou pelo menos tentava não pensar muito naquilo. No fundo eu não tinha esperanças para sair daquele lugar.
Agora eu estava aqui, na minha antiga casa, enquanto me sentia sozinha, mesmo tendo Maggie, Beth e Rosie. Minha filha merecia muito mais do que isso, muito mais do que jamais sonhou, ela é uma menina brilhante, inteligente, esperta e rápida. Mesmo crescendo naquele hospital sujo nunca perdeu sua inocência e seu jeito.
Diferente de mim, diferente do que sou hoje.
Não conseguia entender como conseguiria protege-la sendo que nem mesmo consigo segurar uma faca sem lembrar-me de tudo que fiz sem sentir meu corpo todo protestar e sentir aquela dor que senti ao ver Hill morto.
Matar alguém é algo que permanece com você, não importa se a pessoa merece ou não, aquilo sempre está ali. E aquele sentimento, mesmo depois de anos, ainda estava ali, me assombrando. Não sei quanto tempo fiquei apenas olhando Skye, mas foi muito. Acabei percebendo Judith no colo de Rick que estava em pé.
Nunca vi uma criança tão quieta, talvez o mundo a fez mudar também, mesmo que tão pequena já tendo que enfrentar tudo. Levanto-me e vou até Rick.
—Pode deixar que cuido dela – digo – Você precisa descansar.
Rick parecia o que menos dormia ali, logo atrás de Daryl que percebi que estava dormindo depois de passar quase a noite toda acordado como eu.
—Você também precisa dormir – diz ele cansado.
—Eu já dormi, perdi o sono há poucas horas... Estou bem – digo.
—Vou aceitar desta vez – diz Rick e eu assinto pegando Judith. Ela se ajeita em meus braços enquanto ainda estava agitada.
Pego a papinha que tinha feito dando um pouco para ela. Ter achado esse lugar ainda com comida ajudou bastante no meu plano de deixar a aveia toda para Judith.
A pequena precisava se alimentar e Rosie entendia isso, entendia tanto que até mesmo pediu para que eu fizesse isso. Minha filha mesmo com nove anos tinha uma alma pura. Eu sabia que ela podia se tornar forte como todos ali.
Depois de um tempo as primeiras pessoas acordam. Se não me engano Sasha e Tyresse conversavam em um canto, enquanto Maggie e Glenn estavam se olhando.
Ando até Rosie e me sento com Judith ainda em meu colo. Minha filha se mexe e abre os olhos, seus olhos verdes estavam atentos a tudo e ela torce o nariz, solto uma risada fraca e sussurro.
—Ainda não se acostumou?
—É difícil – ela diz se levantando e se sentando ao meu lado passando os dedos por Judith. – Deve ter sido difícil para ela.
—Com toda certeza – digo.
—Carl me contou que eles tinham uma prisão – ela diz – Ele é bem fechado.
—Já passou por muita coisa – digo – E só tem quinze anos.
—Às vezes acho que estou sendo inconveniente em perguntar – ela diz e me olha.
—Perguntar não faz mal, insistir na pergunta é que não pode – digo – Pergunte uma vez, a pessoa dirá se for à hora.
Rosie assente e encosta a cabeça em meu ombro enquanto beijo seus cabelos.
—Maggie falou que vai me ensinar a usar uma faca – ela diz – Mas que vai perguntar para você se posso.
Rosie diz de modo calmo, e sinto algo em meu peito. Uma mistura de medo e aceitação. Eu não queria deixar, ela era nova demais, nove anos, e uma arma era responsabilidade demais para alguém que estava embarcando em um lugar desses.
Mas matar pessoas que voltaram à vida depois de mortas também era uma responsabilidade e tanto, viver se tornou difícil. E até se você respirar você se arrisca. Estava em uma batalha, mas tinha que aceitar. Rosie precisava se defender, precisava saber usar armas, e eu tinha que me acostumar que agora o mundo é diferente, o mundo não é mais o mesmo.
Respiro fundo e olho para ela.
—Como você se sente quanto a isso?
—Com medo – ela diz – Mas acho que posso.
Rosie estava com a testa franzida, mas seu cabelo loiro-morango ainda caia em cachos angelicais até o seu pescoço, ela continuaria a mesma afinal de contas, mas estaria mais preparada.
—Eu também tenho que aprender.
—Mas Maggie disse que você tem uma ótima mira.
—Eu tinha – digo.
—Vamos aprender juntas então – diz ela animada.
—Sim, vamos. – digo sorrindo com a sua animação.
Algo em mim sabia que eu precisava deixar, ela precisava se proteger. Talvez eu não consiga sobreviver a isso, e tenho que ter certeza de que ela consegue.
Começo a ver agitação depois de uma hora no máximo. Eles acordavam cedo, mas já pareciam bem melhores do que no dia anterior. Entrego Judith a Carl enquanto arrumava a minha pequena bolsa, ali na sala havia algumas facas de caça e pistolas. Eles pegaram também algumas armas para levar até o caminhão.
Vou até o grande baú de meu pai e vejo as facas de caça, eram as minhas armas preferidas, eu podia caçar esquilos e coelhos com ela, e se ajeitavam as minhas mãos com perfeição. As pego enquanto ouço a escada, já estávamos indo embora, não tínhamos destino, mas Rick disse que não podemos abusar da sorte de ficar em um único lugar. Principalmente em Atlanta.
Giro as facas em minhas mãos até que vejo Maggie se aproximar.
—Vai usar as facas? – ela pergunta.
—Sim – digo – Vou tentar aprender com elas novamente.
—Você foi campeã de tiro ao alvo, tanto com arma quanto com faca – diz Maggie desconfiada – Você treinava Skye. Não adianta mentir para mim.
Eu realmente não estava surpresa com as deduções de Maggie, até porque nos conhecíamos há anos, mais do que a idade de Carl. Olho para ela e suspiro.
—Algumas coisas aconteceram no hospital e...
—Já estão prontas? – pergunta Rick. – Estamos esperando vocês.
—Sim – digo jogando as facas na bolsa pegando meu antigo cinto.
Olho para Maggie como se falasse “depois”, e então sigo Rick.
O caminho de volta a floresta foi tranquilo, ou melhor, tranquilo para quem já estava acostumado a sempre ter aquelas coisas perto. Para mim no mínimo foi assustador, e agora eu entendia o porquê do alerta ligado vinte e quatro horas por dia, ali era impossível viver normalmente, a qualquer momento aquelas coisas apareciam.
E a cada momento eu deixava a ideia de não incluir Rosie de lado. Eu precisava disso.
Chegamos ao caminhão depois de meia hora de caminhada e de esconderijos para não sermos pegos por hordas e errantes em pequenos grupos. Meia hora e eu já estava exausta psicologicamente.
Entramos no caminhão depois de botarmos a gasolina que tinha em minha casa.
Nosso objetivo agora era estar o mais longe de Atlanta. E foi assim que seguimos de caminhão, em silêncio, enquanto esperávamos mais uma chance da vida.
Meus olhos começaram a dar sinal de cansaço logo que senti os solavancos, Rosie estava deitada comigo enquanto Daryl estava na minha frente. O caipira com toda certeza era o único que me intrigava ali além de Sasha e Abraham.
Ele era um misto de caipira com um “pai” do grupo, e mesmo que esse pensamento seja ridículo era assim que eu o via. Um cara que não sabia lidar com os sentimentos, mas que fazia de tudo por uma vida. Por isso acreditava que sua fé em mim era real, ele queria que eu conseguisse por conta de minha filha, estava em sua cara.
Estava cansado de perdas.
Meus olhos se fecham devagar enquanto eu ainda observava os seus olhos verdes, e foi com a imagem deles que fui dormir.
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