The Same Heart
7 E se o inferno voltasse como uma bomba?
Notas iniciais
Skye Martinez
Os dias se passaram. E a cada dia que se passava eu me sentia melhor, mais livre. Não posso dizer que o grupo todo me aceitou, e eu não conseguia confiar nas pessoas do grupo cegamente como eu confiava em Maggie ou Beth. No entanto, já estava começando a me adaptar ao modo de viver do grupo.
O caminhão não durou muito, então estamos a pé a mais ou menos uma semana.
Minhas pernas doíam muito, não podia negar, mas nem por isso eu parava. Rosie estava cada dia mais próxima de Carl e Judith, e por algum motivo que nem mesmo Rick sabia explicar, Carl se apegou muito a minha filha. A mesma coisa é com Daryl, mas ele eu passei a observar mais de perto.
Mesmo que ele ficasse sempre na dele, falando duas palavras a cada quatro horas, tudo nele me intrigava e me fazia querer o observar. Todas as vezes que estávamos em possível perigo, por algum motivo ele se aproximava de Rosie. Lembro-me que quando tivemos que realmente matar um grupo de errantes, ele que a protegeu.
Ainda consigo lembrar-me do modo como fiquei agradecida por aquilo, eu estava com medo naquele momento, eu não queria, mas estava e em um segundo, quase Rosie é mordida.
Depois daquele dia fiquei ainda mais atenta. Minhas habilidades com a faca estavam começando a ficar melhores, minha mira continuava boa, a única coisa era a insegurança, a bendita insegurança de não saber o que fazer no momento em que precisam de mim. Esses momentos me matam me fazem pensar se realmente sou boa para a minha filha ou se estou botando tudo a perder.
Mas não iria desistir. Em nenhum momento de minha vida precisei de alguém para me proteger, não seria agora que seria diferente, eu só precisava de coragem, e esquecer qualquer coisa que me ligasse aos anos no Grady, mesmo que fosse difícil.
Ainda não havia conseguido me abrir com Maggie, conversamos muitas vezes, na verdade, estávamos mais próximas do que nunca. Mas por algum motivo eu sentia vergonha de dizer aquilo para Maggie, vergonha de sua reação.
Eu havia sido abusada e havia matado.
Era uma coisa que na minha cabeça merecia uma pena, merecia ficar em minha mente me culpando. Minha ética ainda estava ali, todos os anos que passei estudando para no fim, matar a sangue frio. Era algo difícil de fazer, pelo menos para mim. Mas eu precisava aprender, eu precisava desligar esse meu lado passado. Nada importa mais.
Apenas paramos no fim da tarde, resolvemos adentrar na mata e fizemos um tipo de armadilha para nos avisar de possíveis errantes, assim daria tempo para fugir se algo acontecesse. Vi Abraham, Rosita e Tara arrumando as armadilhas, enquanto o resto ajudava a arrumar as bolsas que ainda carregávamos.
Vejo Carl tentar acender uma fogueira com gravetos e me aproximo. Ouço-o bufar e sorrio. Agachando-me ao seu lado.
—Faça assim – digo mais baixo para ele não se assustar. Carl me olha e me vê fazendo – Esfregue mais aqui em baixo, começa o fogo mais rápido. – digo e começo a ver faíscas – Vem aqui, faça você. Vou pedir para Rosie procurar por pedras, quando ela chegar com elas você bota elas assim – digo indicando os lugares – E quando terminar, bote gravetos como se fosse uma estrela.
—Tá bom – Carl diz sorrindo.
Ele começa a fazer o que eu digo e me levanto indo até Rosie.
—O que as duas estão aprontando? – pergunto a Rosie e Maggie que riam.
—Tia Maggie estava falando de uma vez que vocês caíram em um lago – Rosie diz rindo me fazendo rir também.
—Que tal as duas pararem de rir de mim e irem me ajudar procurando pedras e gravetos para a fogueira?
—Sim senhora – diz Maggie batendo continência e Rosie a imita. Reviro os olhos sorrindo e faço um sinal para Maggie ficar de olho em Rosie.
Dou as costas as duas e começo a me distanciar um pouco, procuro por pedras e gravetos, mas aquilo era mais uma desculpa para pensar. Agacho-me a uma árvore quando vejo alguns galhos secos e começo a ajuntá-los, no entanto, não pude deixar de prestar atenção em Daryl se aproximando de Beth.
—Está tudo bem? – ouço-o perguntar a Beth, não consigo observar sua expressão, mas me demoro ali.
Lembro no Grady o quanto Beth falava sobre o seu grupo, mas na maioria das vezes o nome de Daryl era o único que nunca passava sem ser dito. Eles eram muito próximos, talvez pelo tempo que ficaram sozinhos. Algo dentro de mim queria saber se eles tinham algo ou não. Sei que não sou mais uma adolescente e que nem deveria pensar nisso em um apocalipse zumbi, mas nos dias em que passei caminhando, pude pensar mais do que deveria, e Daryl sempre estava lá. Mesmo indiretamente.
E que percebi que minha curiosidade por Daryl, na verdade, era atração.
Uma atração idiota que eu estava tentando anulá-la a cada dia. Eu sabia que não deveria estar tentado ouvir algo, mas seria bom se eu soubesse que algo rolava entre Beth e Daryl, pelo menos assim algo dentro de mim pararia de querer saber mais sobre ele. Eu nunca tentaria nada se Beth estivesse apaixonada por ele.
—Está – ela responde depois de alguns segundos – É só que... Estamos sem direção, e estava pensando que talvez pudéssemos tentar algo em Richmond. – meu coração se aperta ao ouvir sobre a comunidade de onde Noah vinha, ele sempre falava dela para mim. Da sua mãe, sua avó e seus irmãos.
—O que é isso? – Daryl pergunta.
—Uma comunidade, Noah estava indo para lá. Voltando para a sua família – ela diz – Acho que é uma boa possibilidade.
—Precisamos falar sobre isso com Rick, acho que ele gostará disso – ele diz, muito baixo e quase não consigo escutar por conta da certa distancia. – E tem a brabinha e Rosie. Sei que Carl consegue aguentar, mas elas...
—Também pensei nisso – diz Beth. Não posso deixar de me sentir emocionada por incluíram Rosie nisso. Decido me levantar para levar parte dos gravetos para Carl e depois volto meio minuto depois.
—Noah me contou sobre o local, foi bem vago, mas deu para perceber que havia algo de errado. Você teve...
Paro no lugar ao ouvir aquilo, algo dentro de mim se fecha, paro o movimento ao ouvir isso. As imagens de Hill voltam em minha mente e minha respiração acaba por falhar.
—Não – ela diz – Nunca me prestaria a isso. Eu matei o único policial que tentou – Beth diz e sinto meus olhos se embaçaram me sentindo feliz por ela não ter tido a cicatriz que eu tinha. – Preferia morrer a ser abusada.
A felicidade se dissipa.
—Fico aliviado...
Não fico muito tempo para ouvir o resto, fico atordoada e sinto nojo de mim, se eles pensavam assim de um abuso, imagina quando soubesse que eu havia sido abusada, eu havia sido usada... Deixo os galhos caírem e começo a caminhar tentando apenas parecer que ainda procurava por galhos e pedras. Com os minutos me distancio do acampamento e então me sento no chão.
As lagrimas são impossíveis de segurar. Será que nunca me sentirei segura de novo? Nunca me sentirei pronta para esquecer aquele dia? Aquele homem?
Tantas perguntas que pareciam que me assombrariam para sempre. Fico um tempo chorando, tempo o suficiente para meu estoque de lágrimas começarem a sessar.
Até que escuto um barulho e ergo o olhar. Me atento, e simplesmente esqueço um pouco o assunto. Observo o lugar que já começava a ficar mais escuro até que vejo, não um ou dois errantes, vários. Eles pareciam perdidos e não estavam vindo em direção ao acampamento, mas se vissem o fogo, com toda certeza estaríamos perdidos.
Olho para o chão vendo um pouco de areia ali, tiro meu casaco tentando fazer silencio e pego areia o suficiente. Respiro fundo e lembro-me do que meu tio disse. Ponta dos pés olhe para o chão sempre, não pise em lugares com muitas folhas.
Começo a andar devagar sempre parando e olhando para trás, vendo se eles seguiam para cá, um ou dois vinham em direção oposta, qualquer barulho chamaria todos eles.
Olho para frente e vejo a fogueira, dava para ver, eu tinha que ser rápida.
Passo pela barreira que Abraham e Rosita fizeram até ver Rosie, ela quase começa a correr, mas faço um sinal para ela fazer silêncio. Olho para Rick e ele entende o recado, pedindo para todos começaram a arrumar as coisas em silêncio.
Vou até a fogueira e jogo a areia, vendo o fogo se dissipando, bato nela com o pé e então ela logo se apaga. Pego minhas coisas e pego a mão de Rosie, olho para o lado e novamente Daryl estava ao meu lado, no entanto, não o observo muito, ainda tinha a conversa que ouvi em minha cabeça.
Naquela noite não dormimos, nem mesmo conseguimos pregar o olho. Continuamos andando pela rodovia, sem rumo, todos cansados demais para tentarem falar. Rosie já estava cansada o suficiente para piscar de forma mais lenta.
—Filha – murmuro – Vem. – falo referindo-me ao seu colo.
—Mãe, eu sou grande o suficiente – ela diz, sorrio e acaricio seus cabelos.
—Eu sei – murmuro – Consegue aguentar?
—Só preciso de um pouco de água – ela murmura.
—Aqui – ouço Daryl falar e logo Rosie está com uma garrafa na mão sorrindo. Olho para Daryl e agradeço com o olhar, sorrindo minimamente, ele assente e começa a andar um pouco mais a frente.
Desvio o olhar de suas costas e decido por me concentrar em ficar em pé. Finalmente decidimos parar ao ver um tipo de proteção de concreto, parecia estar em construção, uma construção que nunca seria acabada.
Estava sentada a um bom tempo, olhando para Rosie em meu colo. A faca que Daryl deu a ela em seu recém-cinto, ainda queria agradecê-lo pela faca, só não sabia como.
Sento-me então com Rosie ao meu lado enquanto ela parecia entretida com alguma coisa na sua cintura.
—O que é isso? – pergunto para ela, seus olhos se direcionam a mim, parecia indecisa e então tirou de sua cintura uma faca média, parecia ser de caça, como a minha só que mais antiga. –Quem te deu essa faca?
—Não fique brava – diz Rosie e então percebo que acabei por exceder meu tom de voz, passo a mão nos cabelos de Rosie e suspiro.
—Desculpe-me filha – digo – Eu só não estou ligando as coisas ainda. Só não gosto de ver isso, ainda não me acostumei. – digo e pego a faca, olhando-a – Quando eu ganhei a minha primeira faca de caça eu tinha dez anos, um ano a mais do que você. E eu sei que deve pensar que é hipocrisia minha, mas eu sei o que está sentindo. Quando ganhei minha primeira faca, ganhei minha primeira responsabilidade – digo – Isso é mais do que uma arma contra errantes, Rosie... É a sua nova responsabilidade, é como uma caneta mortal, você deve usar com sabedoria. Ela tem que se tornar parte de você... Se não, nada fará sentido.
—Como sabe tantas coisas? – pergunta Rosie.
—A família de meu pai inteira amava caçar era como uma tradição. E como eu era a única filha, tive que fazer a transição. Fui à primeira menina a caçar na família – digo – Meu tio que me disse isso e foi ele que deu a minha primeira faca, ninguém me achava capaz, mas ele acreditava... Ele me deu uma chance de mostrar que eu conseguia.
Rosie pega a faca e eu arrumo-a em sua mão, era como voltar a ter a idade dela, ainda podia ouvir meu tio falando enquanto as lágrimas desciam de meus olhos. Não fora fácil aprender quando se era a única menina, e por isso não queria isso para Rosie, mas o mundo fez isso necessário, e no fim, mesmo que eu lutasse continuaria sendo uma Martinez.
—Daryl deu essa faca para mim – Rosie diz e então volto a olha-la, realmente estava espantada. – Eu não estava conseguindo dormir, e ele estava com a faca na mão, comecei a fazer perguntas, ele me ignorou, mas no fim me deu a faca – ela diz – Ele disse que eu precisava proteger a todos nós.
Não sabia o porquê daquele sentimento, mas tudo que queria fazer era dizer algo para Daryl. Talvez para ele fosse apenas um favor, uma preocupação a menos, mas me sentia mais acolhida com aquele ato. Sentia-me bem sabendo que alguém se importava com Rosie além e Maggie e Beth.
Como não sabia o que dizer, simplesmente devolvi a faca a ela e disse.
—Sabe segurar uma faca? – pergunto e ela nega como pensei que negaria. Levanto-me e pego minha faca de caça, era menos antiga que a de Daryl, no entanto, era minha desde meus dez anos. Levar uma lembrança tão antiga comigo me deixava triste, triste pelo o que o mundo é agora.
Era difícil ligar os pontos, o apocalipse parecia estar começando agora para mim e para Rosie, não era como todos os outros. O sofrimento deles era claro, no entanto, eu também tinha o mesmo semblante. Posso não ter vivido nas ruas, não tive tantas perdas, no entanto, sentia-me assim como cada um. Eu já matei para sobreviver, já menti, já passei fome, porém, em um contexto diferente.
Não seria difícil me acostumar com tudo aquilo. Meu único pensamento era em Rosie, e com isso suspiro, precisava tirar de minha cabeça a ideia de que a protegeria para sempre, retardar seu aprendizado era um erro, e pensar em minha morte era um erro maior ainda. No entanto, não podia negar que o mundo sempre fora cruel, ele não melhoria com um apocalipse zumbi.
Olho para os olhos atentos de Rosie, ela olhava os meus movimentos com a faca.
—Segure-a com firmeza, sinta ela – digo – Ela tem que se tornar parte do seu corpo.
As mãos pequenas de Rosie ainda não suportavam a estabilidade que a faca pedia, no entanto, ela parecia confiante no que fazia.
—Firmeza, parte do corpo – ela sussurra como um mantra ou quando eu estudava para a minha prova de matemática.
—Não ache que em poucos dias terá a faca em seu domínio – digo – Ela demora a ser manuseada com perfeição. E nunca entre em desespero. – digo. E Rosie continua treinando, ainda tentando fazer movimentos rápidos – E não se esqueça, ela não é brinquedo...
—Tudo bem – Rosie diz sorrindo e se levanta indo falar com Beth.
Ainda conseguia lembrar-me da alegria dela durante os dias. Ela não havia matado nenhum errante e se dependesse de mim não mataria tão cedo, no entanto, ela ficava treinando sua mira em árvores pelo caminho junto com Carl e Beth e ela estava ficando boa.
Passo minha mão pelo seu rosto angelical e suspiro. Eu queria tanto e ao mesmo tempo não podia dar nada. No momento, tudo que eu tinha era meu amor. Porém eu a protegeria de tudo e de todos se possível, nem que minha vida fosse à chave para isso.
Não percebo quando adormeço, mas sou acordada por Beth enquanto ela sorria. Fiquei um pouco desconfortável, mas havia botado na cabeça que esqueceria tudo isso. Eles não precisavam saber e não iam saber se depender de mim, mas a minha mente era a minha maior inimiga no momento.
Levanto-me agradecendo por ela ter me acordado e percebo que tirando Glenn e Maggie, eu era uma das únicas que ainda estava dormindo. Passo água no rosto e vejo que eles haviam conseguido em uma pequena lagoa perto dali, olho para os lados ao perceber que Rosie não estava ao meu lado e a vejo com Daryl. Como sempre ela estava falando, mas desta vez tinha uma flecha na mão, Daryl acabou por rir do que ela disse e devo admitir que parei um pouco por conta do seu sorriso.
Era lindo.
Tento desviar o olhar, mas não consigo. Ele fala algo para Rosie, algo que a deixa animada e então ela vem em minha direção, desta vez sou rápida em desviar o olhar.
—Mamãe, você acordou. – ela diz sorrindo com a flecha de Daryl na mão.
—Sim – digo sorrindo e ela começa a contar que Daryl disse que faria um arco para ela e ensinaria ela a fazer flechas também, segundo ele, arco e flecha eram mais a cara dela do que armas de fogo, e ele estava certo.
Fico feliz e não nego que amava ver Rosie animada com alguma coisa. Fico conversando com ela sobre como eu participava de campeonatos de arco e flecha e Rosie fica ainda mais animada.
—Vou contar para Beth que você era uma arqueira – ela diz animada e sai correndo. Retenho a minha vontade de dizer para ela não correr se não iria se machucar. Decido por só arrumar minhas coisas caso Rick decidisse sair do local.
Eu já havia aprendido que neste mundo não podemos ficar em um lugar assim aberto por muito tempo. Paro com meus pensamentos quando percebo certa movimentação na reunião que eles estavam fazendo desde que acordei.
—Nós íamos atravessar o país por você – o homem ruivo que se me recordo se chamava Abraham gritou, sua fúria era tremenda fazendo seu parceiro Eugene tremer. Maggie havia me falado sobre a briga entre eles, e conseguia entender Abraham, ele deixou tudo e todos para seguir com Eugene e acabou em uma mentira.
—Se temos que andar, então nós iremos andar – Daryl diz batendo de leve no peito de Abraham, sinalizando que aquilo precisava acabar.
—Temos que andar por um tempo, quando mais perto de Richmond, melhor.
Sem falar nada começo a andar quando o grupo decide que era a hora de ir. E minhas pernas já estavam fraquejando quando decidiram que era a hora de parar e procurar um lugar para passarmos a noite. Algumas pessoas queriam continuar, mas eu entendia Rick neste ponto. Judith não podia ficar tanto tempo a deriva, sem um teto e água.
O mingau daria para mais uma semana, e estava sendo direcionado apenas para ela, e agradeço por pelo menos isso ser do consenso de todos.
Andei até o grupo que estava reunido novamente sem tirar os olhos de Rosie. A garota ajudava Beth a cuidar de Judith, estava feliz por vê-la assim, mais falante e como a velha Rosie que sempre fui acostumada a ter.
—Temos que nos separar em duplas – diz Rick – Pelo mapa temos duas opções de rodovia mais a frente, para duas vilas distintas. Acho que o grupo maior espera no meio dessa divisão, enquanto os paralelos acham algum lugar seguro.
—Ainda acho que se separar não é uma boa ideia – murmuro.
—Concordo com Skye – diz Sasha e nem mesmo percebi que havia falado tão alto.
—O que Skye disse? – pergunta Rick para mim e fico calada esperando a bronca que logo viria, e por um momento me senti petrificada, como se a qualquer momento ele fosse me bater e pedir por algo que não podia dar. – Skye?
Acabo acordando do transe e suspiro.
—Acho que não deveríamos nos separar – digo – Eu sei que não sou experiente, mas sei que sempre acontece algo. Acho melhor irmos para a mesma direção e então os grupos paralelos tentam achar um lugar seguro – digo.
Rick pareceu analisar e assentiu.
—Sem contar que assim temos chance de todos se encontrarem novamente se algo acontecer – diz Maggie sorrindo para mim.
—Então, tudo bem – diz Rick – Qual direção escolheremos?
Logo o destino estava traçado. Voltamos a andar e voltei ao meu posto ao lado de Rosie. Mesmo que confiasse em algumas pessoas do grupo ainda não conseguia a deixar andando livremente, algo dentro de mim se sentia mais segura se ela estivesse ao meu lado. Mesmo que ela tenha nove anos, e que o tempo tenha passado rápido, Rosie não conseguiria sobreviver sozinha.
Ela tinha um temperamento difícil, essa ânsia por liberdade que eu conhecia muito bem, no entanto, no fundo não estava preparada ainda.
Quando chegamos ao ponto entre duas ruas, Rick para. Seria ali que o grupo maior ficaria esperando enquanto as duplas se separariam. Aquele parecia ser o ponto mais tranquilo da nossa trajetória e era melhor escolher um lugar onde teríamos ponto para escapar. Era uma ótima tática.
—Glenn e Maggie – Rick diz – Eu e Michonne. Abraham e Sasha e Daryl e Skye – diz Rick me fazendo olhar para eles – Os outros podem ficar aqui, ajudando a cuidar um dos outros, qualquer coisa suspeita se escondam, se algo de errado acontecer iremos nos encontrar no cruzamento de todas as ruas a uns duzentos quilômetros ao norte.
Todos assentiram menos eu.
—Rosie, fique do lado de Beth, por favor! – digo e vou em direção de Rick que estava com Michonne. – Rick?
—Sim.
—Tem mesmo certeza de que devo ir? – pergunto – Olha, eu não quero atrapalhar e...
—Maggie que pediu, e eu acho que você tem capacidade – diz Rick. – Você precisa aprender. Daryl não é o melhor professor, mas tem experiência. Se quiser também Maggie pode trocar com Daryl.
—Não, tudo bem – digo – Agradeço pelo voto de confiança. Farei meu melhor.
Digo sorrindo e Rick aperta meu ombro.
Era estranho o fato de confiarem tanto em mim, mas acho que uma boa parcela era porque Maggie confiava em mim, e dava para ver o quanto todos eram próximos. Vou até a minha bolsa e pego meu cinto o prendendo, junto dele a arma que Maggie me deu no dia anterior e as minhas facas, me olho no reflexo do caminhão e me sinto estranha.
Meu reflexo era terrível. Cabelos presos em uma traça, a rosto e o corpo magros demais e a sujeira já se fazia presente, mas havia algo a mais, um brilho diferente em meus olhos. Mesmo nesta situação, mesmo tendo vários fatores negativos do que positivos, eu me sentia viva.
Finalmente eu me sentia viva.
—Mãe – ouço Rosie – Você vai ir com eles de novo?
—Sim, querida. – digo sorrindo.
—Nada que eu faça vai fazer você ficar né – ela diz mais como uma afirmação do que como uma pergunta, ela suspira e diz. – Eu vou aprender, é só... Eu não gosto de te ver indo, tenho medo de você não voltar.
—Mas eu vou voltar – digo a abraçando – Eu sempre vou voltar – murmuro.
Ela sorri assentindo e vai em direção a Beth e Judith. Não tive tempo de conversar com Beth ainda, foram poucas palavras desde o hospital, vou em direção a ela, me sentando.
—Tudo bem? – pergunto para ela.
—Ainda estou triste – ela diz sincera. – Noah era tão bom...
—Realmente – digo – Ele me ajudou muito. Mas é bom ver você e Maggie juntas novamente.
—Pensei que nunca mais a veria – diz Beth olhando para Judith – Pensei que nunca mais veria Daryl, Rick... Mesmo tendo esperança, eu sempre pensava no “E Se”.
—Ele sempre está presente na nossa vida. O “E Se” serve apenas para confundir. Nunca confie totalmente nele. – digo e Beth sorri.
—Acho que Daryl está te esperando – ela diz e olho para o caçador, os outros grupos já estavam andando.
—Me deseje sorte.
—Você consegue Skye – Beth diz me fazendo sorrir.
Levanto-me e começo a andar em direção a Daryl. Ele não diz nada, apenas começa a andar e eu o seguiria, era claro. Iriamos para a direção Leste.
O cenário não era tão diferente do de Atlanta, tirando que ali eram casas e não prédios. Tudo parecia ter o mesmo cenário melancólico e deprimente. Às vezes se você se concentrar podia imaginar como eram antes, com a grama aparada, as janelas limpas. Depois de andarmos por um tempo, Daryl para.
—Acho que é um bom lugar para começar – ele diz e me entrega uma bolsa – Bote tudo que achar útil. Eu fico com o andar de cima e você com o de baixo.
—Tudo bem – é tudo que digo.
Eu estava nervosa, não podia negar isso. Mas depois da terceira casa, foi fácil me acostumar, não encontrei nenhum errante, nenhum mesmo. Apenas Daryl encontrou um no andar de cima de uma das casas. Na rua, em vez de matarmos eles, nós nos distanciávamos.
A minha bolsa não tinha tantas coisas, apenas alguns alimentos que achei. Daryl sempre observava as casas, mas chegamos à conclusão que aquela área era movimentada demais para passarmos a noite, movimentada no sentido de errantes. Estávamos andando até que Daryl me puxa, quase grito antes de sentir sua mão em minha boca. Seu corpo se colou com o meu e pude sentir seus músculos se contraindo. Não pude negar que fiquei vermelha quando senti seu corpo no meu.
–Se esconda – ele sussurra em meu ouvido e depois ele me solta, andando de volta para a rua principal, pelo vidro consigo ver o grupo de errantes que se formaram em frente a um galpão. Fico parada, não consigo me mover, eu precisava saber se Daryl estava bem, fico olhando para os lados e depois volto sempre para o reflexo no vidro.
Quando perco Daryl de vista começo a me desesperar. Como chamar errantes? Eu sabia que precisava fazer barulho ou alguma chama, qualquer coisa do tipo. Ando até uma das casas um pouco longe do jardim onde Daryl pediu para que eu me escondesse, mas não sem antes olhar para trás e ver Daryl atrás de um dos carros, suspiro aliviada e continuo com o meu plano. Faço uma pequena fogueira no quintal, era só para chamar mais a atenção deles quando ouvisse o barulho, eu só precisava de tempo.
Olho para trás novamente vendo que Daryl havia arrumado um problema, chamou atenção dos errantes. Respiro fundo, tentando lembrar-me das aulas que tive sobre autocontrole ainda com Dawn. Abro a porta daquela casa e entro tentando ser rápida, pego algumas coisas que fariam barulho o suficiente naquela rua sem saída e então subo os degraus da escada. Entro no quarto com a sacada, não sem antes ver se tinha algum errante escondido e fecho a porta, caso tivesse algum na casa.
Dali consigo ver o fogo se alastrando pela grama seca do jeito que queria que acontecesse, olho para Daryl a quase duzentos metros de distancia, ele estava ficando cercado. Respiro fundo e então começo a jogar os objetos de alumínio da sacada, eles caem do lugar com um som oco. Logo consigo ver boa parte dos errantes mudando de direção. Jogo todos os objetos de uma vez, o barulho é ainda maior.
Boa parte dos errantes desiste da ideia de ficar com Daryl e suspiro aliviada. Ouço batidas na porta e percebo que não estou sozinha nesta casa.
Vou ate a porta botando uma cômoda só para me dar tempo, pego mais alguns objetos no banheiro do local e então vou à sacada novamente vendo que os errantes se aproximavam do fogo como bobos, volto a jogar algumas coisas sem que eles me vissem e então quando vejo Daryl se ver livre da maioria dos errantes, faltando apenas dois para ele matar, dou a volta e tiro a cômoda de frente da porta, abro-a e logo dois errantes entram cambaleando.
Com certa força, chuto um dos errantes que se aproxima e derrubo a cômoda em cima dele, então o outro se aproxima o empurro contra a parede e então aperto o seu pescoço cravando a faca em sua cabeça. A sensação de mata-lo por contra própria foi um misto. Algo como medo e orgulho, uma sensação de liberdade.
Sinto algo pegar meu pé e caio seca no chão, batendo a cabeça. Olho para o chão e vejo que era aquele errante, o chuto me desviando de seu aperto forte, mas não consigo, então com dificuldade pego a minha faca e corto a mão do errante, tirando-a de meu pé. Levanto-me um pouco tonta e aperto a cômoda contra o chão, ouvindo o barulho dos ossos quebrando. Logo seus braços param de se mexer. Aproximo-me então dele e acerto sua cabeça.
O seu sangue podre expira por minha roupa, limpo meu rosto e olho no espelho vendo que havia machucado a minha cabeça. Não dou importância e simplesmente vou até o outro quarto, olho para a janela e vejo que conseguiria pular até o muro. Olho para a parte da frente vendo os errantes ainda entretidos com o fogo.
Olho para o chão, vendo que com toda certeza se eu não conseguisse me segurar no muro seria o meu fim. Lembro-me então de todos os meus anos sendo escoteira, algo deveria valer. Respiro fundo e não penso apenas pulo. Quase sinto que não iria conseguir até finalmente conseguir sentir minha mão se segurando no concreto, pego um impulso e consigo ficar sobre o muro, vejo três errantes naquela parte do jardim da outra casa.
Pulo para o outro lado e sigo até os errantes, chuto um enquanto cravo a minha faca em outro. Sentia-me viva, e com a adrenalina presente em meu sangue. Eu sabia que excesso de segurança e confiança podia levar a morte, mas eu estava assim no momento.
E preferia pensar nisso do que no medo.
Viro-me botando o pé em cima do errante que se levantava e começo a chutar a sua cabeça, esmagando-a com força. Olho para trás e então vejo o errante perto demais, acabo por tropeçar e caio no chão com ele em cima de mim. Tento não entrar em desespero, mas então me lembro de meu pai e minha respiração começa a ficar mais rápida, não podia chorar, não podia ter feito tudo isso para no fim um simples errante me morder.
Mordo os lábios e então o empurro para o lado, me virando rápido ficando em cima dele. Tateio meu cinto e pego uma das facas cravando em seu pescoço até com força, tiro a faca e então termino o serviço acertando sua cabeça.
O cheiro de podre quase me deixa tonta, no entanto, me levanto. Daryl deveria estar vasculhando a casa na qual ele me deixou. Resolvo ir pela parte de trás e pulo os muros até estar no jardim daquela casa, entro nela, e então pego minha faca.
Começo a andar devagar e fico atenta, andando pela casa. Ia entrar em um quarto quando quase grito com o susto que a imagem do homem saindo do quarto, esse homem era Daryl. Solto um suspiro e sorrio.
—Graças a Deus – murmuro.
—Quando eu digo para você se esconder, é para se esconder – ele diz duro me olhando, meu sorriso se vai.
—Eu salvei sua vida.
—Mas podia ter morrido – ele diz – Se algo te acontecesse nunca me perdoaria – ele diz e aquelas palavras tem um peso muito maior do que o desejado em mim, um tipo de sentimento que aquecia o meu peito. – O que houve com a sua cabeça? – ele pergunta se aproximando e tocando o ferimento, e só naquele momento percebo o quanto arde, sua mão ao contrario do que imagino me toca com certa delicadeza, ela era áspera, mostrava o quanto ele havia sofrido.
Lembro-me do que meu pai dizia: “quanto mais calos na mão, mais histórias, mais luta”.
E Daryl era inteiramente marcado, mostrando que ele era como um lago de aparência rasa. Ele parecia ser raso, mas era mais profundo do que qualquer oceano.
—Eu estou bem – murmuro olhando para ele.
O clima não era mais de ódio ou raiva. Ele parecia preocupado, por um momento Daryl me deixou vê-lo através de seus olhos, foi tão rápido que talvez outra pessoa não percebesse, mas eu percebi.
—Não faça mais isso – ele diz duro novamente se afastando. – Vamos voltar pela mata.
—Você não vai dizer um “muito bom” ou “muito obrigado por salvar a minha vida” – pergunto sentia a raiva voltar, eu havia feito algo bom, mesmo que de um jeito errado.
—Obrigado por quase me matar de susto e quase se matar – ele diz com uma ironia que não parecia ser típica dele. – Vamos logo.
Meu sangue ferve, passo por ele batendo em seu ombro, mas não sem antes murmurar um “babaca”. Eu estava irritada e quando eu estava irritada ignorava tudo da pessoa, então estar andando mais a frente que Daryl era uma das minhas táticas, depois que passamos pelo amontoado de errantes me permiti ficar mais afastada dele.
E ele não pareceu ligar realmente. Fico perdida em pensamentos enquanto ando, e eu sabia que isso era um erro, mas tinha que me acostumar ainda. Percebo que algo está errado quando ouço Daryl dizer.
—Skye corre – ele murmura alto o suficiente para que eu perceba, olho para trás o vendo sendo enforcado por um homem, desta vez obedeço-o, no entanto alguém me pega pela cintura, me jogando no chão. Olho para cima, vendo um homem alto e forte com um sorriso no rosto.
—Desculpa por isso, docinho – ele diz e vejo seu punho indo em direção ao meu rosto e depois apenas a escuridão.
(...)
Acordo um pouco atordoada, no entanto quando percebo que alguém mexia em mim acordo de vez em um súbito. Respirando com dificuldade.

Meu rosto doía e meu corpo todo parecia pegar fogo. Olho para meu tronco e vejo que estava apenas de sutiã, enquanto um dos homens estava em cima de mim, prestes a abrir a minha calça. Olho para o lado, vendo Daryl preso e se remexendo enquanto o outro tinha uma garota com ele também.
Desespero-me com as lembranças e com a dor que elas me causam. Eu precisava sair dali, precisava pensar em algo. Tento agarrá-lo, mas tudo que ele faz e rir. Meus tapas e socos não faziam efeito algum.
Eu estava sem opção e tinha que ser rápida novamente, no entanto tudo parecia perdido. E se eu não conseguisse escapar? E se o inferno voltasse como uma bomba? E se isso nunca acabasse?
O "E se" parecia muito maior do que a situação. O "E se" parecia me perseguir, e eu não sabia como agir naquele momento.
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