The Sages
16 16 - Batalha
Notas iniciais
É hoje.
Nenhum de nós estava preparado para isso. Hoje, as trevas supostamente vão emergir com toda a sua força e nós teremos nossa batalha final. Depois, desapareceremos do planeta Terra. Para sempre.
É muita informação em cinco minutos.
– Então o que estamos esperando? – Paco indaga, já pulando da cama. – Vamos logo para a igreja!
– Paco está certo – Dustin diz. – Mesmo que as trevas não tenham emergido ainda, temos que estar lá quando elas o fizerem. Precisamos ser mais rápidos.
Eles até podem estar certos, mas... Não sei. Esse, entre todos os fatos que ouvi hoje, ainda parece um pouco surreal para mim
– Você sabe à que horas isso vai acontecer? – Pergunto a Mackenzie.
– Isso eu não pude ver. Sei que será antes do anoitecer. Mas nunca é garantido quando se trata desses seres. Eles não escolhem uma hora exata para atacar. Quando veem uma chance, atacam.
Eu acredito nela? Mackenzie fez coisas ruins com a gente e com outras pessoas, porém ela tinha sempre uma causa maior. Seu propósito sempre foi proteger a Terra e nos ajudar a ter mais força e disciplina. Pelo menos, é o que ela diz. Devo acreditar nisso também?
Olho bem em seus olhos e ela não desvia. Sei que sabe o que estou pensando. L.C sabe todas as dúvidas que ainda tenho sobre sua honestidade, e eu sei que ela não vai se dar ao trabalho de responder. Ela quer que eu as responda por mim mesma. Certo, Mackenzie?
Ela sorri e assente com a cabeça.
– Pelo amor de L.C, Hailey! – Paco grita. É tão estranho ouvir essa expressão com a própria L.C na minha frente. – Não temos tempo a perder!
– Fique calmo, Paco – digo sem tirar os olhos da mulher de branco. – Não podemos chegar lá já partindo pro ataque. Precisamos de um plano.
– Não temos tempo para um plano!
– Não, ela está certa – Sohan concorda comigo. – Não podemos ser imprudentes agora.
– Então vocês querem ficar aqui tentando elaborar a estratégia perfeita e só depois tomar uma atitude de verdade?
– Eu tenho que concordar com Paco dessa vez – Dustin assume. – Tudo bem em traçarmos uma estratégia, mas acho que seria bem melhor se fizéssemos isso no caminho. Até porque, quando vermos o tamanho do perigo, podemos planejar algo bem mais eficiente.
– Estou com eles – diz Michele. – Mas também acho que você precisa sossegar, Fogo. Ficar estressado assim vai mais atrapalhar do que ajudar.
O menino cruza os braços e revira os olhos. Não parece muito disposto a sossegar.
– Certo – eu cedo. Me levanto da cama. – Mas nada de avançar com tudo de uma vez só.
– Tá, então vamos, né?
Paco vai sozinho e calado se abaixar para vasculhar debaixo da cama em que estava, onde deixamos nossas espadas. Enfia o braço, depois a cabeça, depois o resto do tronco. Dustin vê suas pernas balançando e começa a rir baixinho, e nós, com exceção de Mackenzie, acabamos o acompanhando.
– Não estou achando. – Paco volta rápido e vê nossos sorrisos. – Estavam rindo do meu bumbum?
– Er... Como assim, não achou? – Dustin consegue mudar de assunto. – Nós deixamos as espadas aí hoje mesmo e ninguém mexeu de novo.
– É, não teria nem como. Nós chegamos no hotel e já fomos pro refeitório, e... – Michele para na hora, e tenho certeza de que chegou à mesma conclusão que eu.
Um monstro apareceu no refeitório e possuiu um corpo humano para nos atacar. E se tivesse mais deles possuindo outras pessoas, como um funcionário do hotel? Eles devem ter cópias do hotel ou pelo escadas para alcançar a janela. Deixamos nossas espadas sozinhas por muito tempo, e os monstros se aproveitaram de novo da nossa distração.
– Que saco! – Paco grita. – O que Jerusalém tem contra a gente? Mal tivemos paz desde que chegamos!
– Fica difícil manter a calma desse jeito – murmuro. Olho para Mackenzie, que permanece parada no mesmo lugar e só nos observando. – Você sabia disso?
– Não fazia ideia – ela responde. – Sabia que os monstros se reergueriam hoje, mas não sabia como fariam isso. Estou no mesmo barco que vocês.
– Então é melhor dar o fora, porque estamos naufragando aqui – o Fogo resmunga.
– Cale a boca, Paco, você só está deixando todo mundo mais nervoso – bronqueia Dustin. – Se não tiver nada de útil para dizer, fique quieto ou eu vou ter que enfiar água em seu nariz.
O garoto desvia o olhar e coça o nariz. Não sei se o obedeceu por respeito ou por simples medo de ser afogado. Acho que um pouco dos dois.
– Hailey – Michele me chama – não dá mais pra esperar. Nós temos que ir para a igreja agora.
Eu concordo. Não era o que planejava, mas acho que os monstros não se importam muito com nossos planos.
– Tudo bem. Vamos logo.
Paco é o primeiro a sair correndo, seguido por Dustin, Michele e Sohan. Quando eu já estou para sair também, Mackenzie me chama.
– Espero que tenha entendido que omiti a verdade por tanto tempo porque ela é suja demais.
– Eu nunca concordaria com essa omissão, Lady Crystal. Mas eu te entendo.
– Obrigada. E também espero que saiba que meu poder não é ilimitado. Eu não tenho controle sobre tudo o que acontece com vocês.
– O que quer dizer com isso?
– Quero dizer que nem tudo pelo que vocês passam tem um dedo meu no meio. Você sentiu algo estranho ao sacar sua espada, não sentiu?
Faço que sim. Foi mais que algo estranho; foi uma das piores sensações que já senti nesses séculos todos.
– Não se esqueça, minha filha: não há uma luz que não crie uma sombra.
Antes de eu conseguir perguntar, Mackenzie começa a desaparecer. Fecho a porta antes que sua luz ofuscante me cegue.
. . .
Assim que saímos do hotel, meu nariz volta a sangrar e percebo o quão errada estava sobre esperar antes de agir.
A rua está infestada de feras de variados tamanhos. Elas brotam das ruas como ervas daninhas, causando destruição e medo por onde passam. Mas o pior de tudo é a igreja. Mesmo estando longe, podemos ver a nuvem escura sobre ela, e a energia negativa está muito pior do que nunca.
Sempre sabemos quando chegamos ao fim de uma missão porque a energia negativa que as trevas transmitem se intensifica, e então sabemos que a “Grande Fera” está chegando. Mas dessa vez é diferente. A energia nunca esteve tão forte, e mesmo que eu saiba que já está acabando, minha mente ainda não assimilou o fato.
– Não temos tempo para enfrentá-los – Dustin diz. – Vamos direto ao ponto. Quando eliminarmos o que quer que esteja na igreja, todas essas feras vão desaparecer também.
– Sim, mas até lá elas já terão atacado todas essas pessoas – contrario. – Não podemos ignorar isso.
– Hay, eles vão continuar reaparecendo até determos sua fonte. Não podemos fazer tudo pelos humanos.
– Vamos fazer o seguinte: – Paco propõe – corremos para a igreja, derrotamos o monstrengo o mais rápido possível e livramos Jerusalém dos monstros. Será pior se nos preocuparmos esses monstros pequenos primeiros, Luz. O que faremos se perdermos nossas espadas de vez?
Pior que ele está certo. Se perdermos nossas espadas, perderemos nossa principal fonte de poder. E aí sim estaremos perdidos.
Não me agrada a ideia de deixar tanta gente com o risco de morrer. Odeio fazer sacrifícios. Mas se pararmos agora, não vamos conseguir fazer mais nada.
–... Tá legal. Então vamos ser rápidos.
Só que, quando nos viramos para continuar nosso caminho, nos deparamos com um Efrat paralisado e com uma expressão estranha, como se ele tivesse visto algo muito assustador. Vê-lo assim, de repente, também nos assusta e nós paramos.
– Efrat? – Eu o chamo. – Você está bem?
Ele nem se mexe. Me aproximo cautelosamente dele, e sinto que meus irmãos também se aproximam de mim.
– Efrat? Por favor, volte para casa. É perigoso aqui fora.
O ancião finalmente se move. Infelizmente, é para apertar meu pescoço. Suas mãos ganham uma forma maior do que ele deveria ter, com sua idade e seu físico, e um ódio sem sentido aparece em cada traço de sua expressão. Sinto como se meu pulmão gritasse, exigindo ar para alimentá-lo, e meu nariz gritasse de volta que não tem jeito. Posso escutar os outros gritando para Efrat me soltar enquanto puxam seus braços. É só quando meu pulmão começa a arder de uma forma insuportável que Sohan toma coragem de dar um belo soco em seu rosto.
Caio no chão e tomo o máximo possível de ar com a boca. Michele se abaixa ao meu lado e tenta me acalmar, mas só consigo me concentrar na cena um Efrat habilidoso se defendendo dos três garotos. Eu não consigo acreditar que o monstro tenha simplesmente o encontrado por aí e o possuído; escolheu Efrat de propósito, porque ele foi a único aqui com quem criamos algum laço, mesmo que pequeno. Queria que hesitássemos.
– Vamos nos atrasar desse jeito – Terra observa. – Rapazes! Parem de lutar! Isso é exatamente o que ele quer!
Sohan grita de volta:
– Não até ele sair do corpo de Efrat!
Dito e feito; o indiano consegue acertar o velho e este é empurrado para o chão. Logo depois um círculo roxo aparece no peito de Efrat e um monstro sai de lá.
A grande fera quadrúpede recua enquanto mostra suas presas, tal como um gato se sentindo ameaçado. Sohan, com uma fúria repentina, cria uma lança de vento na mão e a joga para perfurar o crânio da criatura. E então, silêncio total.
– Justo quando eu começo a gostar dos humanos de novo – Sohan diz –, essas bestas tentam estragar tudo.
Dustin toca o ombro do Vento e se abaixa ao lado de Efrat. Sua expressão faz eu ter um péssimo pressentimento.
– Acho melhor vocês verem isso.
Michele me ajuda a levantar e nós cinco fazemos uma roda ao redor do pobre ancião. Dou só uma olhada e já fecho os olhos, porque não quero que registrar muito a imagem. Mas não dá muito certo. Efrat está desacordado, o círculo do qual o monstro possuidor saiu se transformou em um buraco horrível. Sua carne parece ter sido queimada por dentro. E o cheiro... Estou fazendo muita força para não vomitar.
– Eu não vejo nenhuma vantagem em termos visto isso, Dustin – Paco fala, enjoado.
– Foi mal. É só que, se Efrat teve esse destino depois de ser possuído por uma fera, então deve ter acontecido o mesmo com o que enfrentamos no refeitório. Seu corpo foi abandonado num lugar que não pudemos vê-lo nem sentir esse cheiro desgraçado.
Embaixo da terra, aposto. Não sei como o monstro conseguiu entrar sem cavar um buraco e deixar o corpo do pobre homem lá, mas ele sumiu e depois apareceu em sua forma original abaixo de nossos pés, então deve ser por aí.
– Michele, por favor, enterre Efrat para Hailey poder abrir os olhos de novo – pede Sohan.
Sério que eu sou a única com os olhos fechados?
Michele concorda e sinto a chão tremer com seu poder. Quando ela acabar, toca em meu braço e diz que já posso abrir os olhos, e assim o faço. O corpo sumiu e o cheiro não está tão forte quanto antes. Tudo o que restou de Efrat é um volume de terra no meio da rua que marca onde foi enterrado.
– Sinto muito – murmuro para ele. – Prometo que terá um enterro adequado quando acabarmos com isso.
– Como você está, Hay?
Dustin nem espera eu responder. Se aproxima de mim e analisa cuidadosamente meu pescoço.
– Dói quando toco?
– Um pouco.
– Está roxo. Aquela coisa te pegou de jeito. Se quiser descansar antes de...
– Dustin – o interrompo. – Não tem a menor condição de eu descansar justamente agora. Posso lidar com um pescoço meio roxo.
–... É claro que pode. Esqueci que estava falando com Hailey Miller.
Nós sorrimos um para o outro.
– Eu realmente não sei o que isso significa, mas obrigada.
– Crianças, eu odeio estragar a conversa – Paco fala –, mas nós temos que ir. Agora.
Ele está certo. O caminho a nossa frente está cheio de monstros que continuam fazendo muito bem seu trabalho de alimentar o caos. Mas são muitos para enfrentarmos agora. Meus irmãos estão certos: temos que nos focar na fonte agora.
Peço desculpas mentalmente às possíveis próximas vítimas dessas feras e guio o grupo até a Igreja de Todas as Nações.
. . .
Se ainda havia alguma dúvida sobre nosso destino ser mesmo a igreja, acabou agora. Mesmo sem termos passado pelo portão, sangue desce novamente pelas minhas duas narinas com a detecção do monstro lá dentro. Trato de limpá-lo logo.
– Muito obrigado, nariz da Hailey – zomba Paco. – Nós nunca teríamos percebido as trevas aqui se não fosse por você.
Não dá nem para brigar com ele. Qualquer aviso é mesmo desnecessário. A igreja emite uma energia negativa tão forte que a alguns metros dela já pudemos nos sentir mais pesados. E pensar que hoje mesmo eu me senti mais leve do que nunca nesse mesmo lugar...
– Vocês estão prontos? – Eu pergunto.
– Não acho que temos muito tempo para ficarmos prontos – o Fogo opina –, então vamos fingir que sim.
– Dá pro gasto.
– Lembre-se que nós somos cinco, Luz – diz o Vento. – Você não precisa carregar nenhum peso sozinha.
– É isso aí – Terra o acompanha. – Líder ou não, estamos todos juntos nessa. Não precisa se considerar totalmente responsável por qualquer coisa que possa acontecer lá dentro.
Sorrio, emocionada com a preocupação deles, embora isso me deixe sem graça também.
– Têm certeza de que eu sou a irmã mais velha?
– E quem mais seria? – O Água responde. – Vamos, mana. Está na hora.
Respiro fundo e caminho até a entrada da igreja. Giro a maçaneta lentamente e, com ajuda de outras quatro mãos, abro a grande porta.
Todos nós entramos já preparados para encontrar uma onda enorme de trevas. Mas, ao invés disso, o que encontramos é o mesmo salão vazio e quieto de antes. A única diferença é que nossas espadas estão caídas diante da rocha sagrada.
Nos olhamos, estranhando. A presença das trevas é clara lá fora, mas aqui está muito mais leve... Isso não pode estar certo.
– Pegamos as espadas ou não? – Paco murmura.
– Bem... Isso pode muito bem ser uma armadilha – eu respondo.
– Mas precisamos delas.
Ninguém o contraria. É óbvio que precisamos das espadas. O risco é grande, porém, não é como se tivéssemos todo o tempo do mundo para pensar. Pessoas estão morrendo lá fora nesse exato momento.
– Fiquem atentos – recomendo. – E tomem cuidado, por favor.
Meus irmãos concordam. Avançamos lenta e cautelosamente, passando pelo corredor no meio dos bancos. Olho para os lados o tempo todo, e só ao chegar no final do trajeto que me concentro em minha espada. Bem no meio. Me dando uma sensação ruim ao invés da segurança que sempre me passou.
O primeiro a recuperar sua espada é Sohan. Michele o segue, assim como Paco e Dustin. Eu sou a última a me mover. Que medo bobo. Se os outros pegaram suas espadas sem nada acontecer, então está tudo bem.
... Errado.
Assim que levanto minha arma, aquela sensação horrível volta. Meus ombros são empurrados para baixo como se alguém colocasse quilos de pesos sobre eles, meus braços fraquejam, sinto uma pontada de dor na nuca e fico tonta por um instante. Os outros quatro percebem meu mal estar e se aproximam de mim. Só digo para se afastarem.
O salão se escurece de repente. O peso das trevas finalmente se mostra presente aqui dentro. E é da rocha, o monumento sagrado dessa igreja, que a pata gigante do nosso novo adversário se ergue.
As garras enormes da criatura se ficam no chão e a outra pata aparece em seguida, fazendo a mesma coisa. A fera as usa como apoio para levantar o resto de seu corpo: gigante, feito puramente de escuridão, com a forma instável e se movendo como nuvens de sombras. Seus olhos são duas esferas brancas irradiando uma luz sinistra. E eles me encaram e me fazem paralisar.
– Hailey!
Uma lufada de ar me lança para trás. Estava tão hipnotizada pelo monstro que nem tinha notado sua pata indo me esmagar.
Os outros Sábios também conseguiram se esquivar. O lugar onde estávamos agora é ocupado por uma pata gigante que deve ter aberto um buraco. Suas garras se contraem, deixando riscos fundos no piso. A fera continua me encarando. Vou mesmo ficar aqui sentada, para ser um alvo fácil de novo?
Não. Reúno toda a coragem que encontro e me levanto. Tento encarar o monstro de forma tão ameaçadora quanto ele, mas logo vejo que não dá o mesmo resultado paralisante, pois ele levanta a pata e a balança de novo. Só que dessa vez o alvo é Michele e Sohan, juntos no canto direito do salão.
Michele usa sua magia a tempo para erguer um muro na frente dos dois. Porém a pata da fera consegue quebrá-lo e bate na parede. Só consigo voltar a respirar quando vejo que Sohan os tirou da mira com outra rajada de vento.
Concentro minha magia na espada e agito a lâmina na direção do pulso da fera. Um corte amarelo de luz sai da lâmina e se expande no caminho até seu alvo, que é cortado ao meio. Começo a comemorar por dentro. Mas aí eu o vejo se regenerando, e minha animação volta à estaca zero. A criatura me encara de novo. Minha respiração acelera com o nervosismo. Saber que precisamos acabar com isso o mais rápido possível também não ajuda em nada.
Ouço outro barulho. A outra pata do monstro atingiu o lado esquerdo da igreja, onde Dustin e Paco estavam. Graças aos céus, eles também conseguiram se safar, e agora avançam com tudo para cima do inimigo. Sohan e Michele os seguem e eu decido enfim fazer o mesmo.
– Terra! – Dustin grita. – Me levante!
Nossa irmã obedece prontamente. Com uma pisada forte no chão, ergue um pilar de terra sob os pés do Água, que pula já desferindo um corte na cabeça do monstro. Porém, mesmo o acertando, ele é atingido por uma espécie de rugido de trevas que o lança para o meio do corredor.
– Dustin!
– Estou bem! – Mas sua voz trêmula diz o contrário.
Quero recuar para ajudá-lo, mas também temos nossos problemas aqui. A energia negativa do monstro aumentou, o que também aumentou a gravidade nessa área. Está cada vez mais difícil de mover a espada. Isso sem contar que os cortes que conseguimos desferir são praticamente inofensivos.
É enquanto eu e Paco atacamos seu braço esquerdo que a pata do monstro se ergue novamente sobre nós. Dessa vez, Sohan não consegue nos mandar para longe. Grito para que o Fogo se deite logo no chão e eu faço o mesmo. Quando a mão gigante chega perto de nós, levanto a espada de modo que sua palma se perfura na lâmina. Preciso fazer uma força considerável para manter essa coisa enorme afastada.
– Paco, saia daqui.
– Mas...
– Vai logo!
O menino demora mais um pouco até rolar para fora do alvo. Dou um jeito de enfiar a lâmina ainda mais fundo na pele do monstro. É aí que, talvez por isso ou por uma ajuda de fora, que a pata se dissolve numa fumaça roxa. Ofego involuntariamente e acabo a trazendo para dentro de meus pulmões.
Minha visão fica embaçada na hora. Tenho aquela sensação péssima de querer vomitar e não conseguir. Ao invés de vômito, o que sai da minha boca é uma combinação nojenta de baba e sangue. Minha cabeça parece estar prestes à explodir. Tudo o que consigo pensar é que o monstro deve ter soltado essa fumaça fedorenta de propósito.
– Ele quer a Hailey! – Posso ouvir alguém gritando. – Protejam-na!
Queria poder ter condições para mandá-los ficarem longe. Não que isso fosse adiantar em alguma coisa.
Sinto suas auras protetoras se aproximando e sei que estou novamente no meio do meu próprio círculo de segurança. Mas não é aqui que eu quero ficar. Eu quero protegê-los, e não ser protegida.
Mesmo com o corpo reclamando, eu me levanto. Michele imediatamente se vira para mim, prestes a protestar, mas é interrompida por uma onda de trevas que faz todos nós fraquejarmos. É poder demais. Nunca tivemos que lidar com um monstro assim antes. O que aconteceu para ele ganhar tanta força?
Minha última conversa com Mackenzie me volta à mente. “Não há uma luz que não crie sombras”, ela disse. Será que...
Quando outra onda sombria chega, Sohan tenta nos proteger com um domo de vento, mas ele não acaba se desfazendo no final. Dustin – que parece ter tido algum osso danificado com a queda –, Paco e Michele agitam suas espadas para lançar cortes mágicos. Me junto a eles. Só que, quando desferimos o golpe, a magia que sai das lâminas mal têm poder o suficiente para tocar o monstro.
– Ele absorveu o poder das espadas antes de chegarmos! – Dustin percebe. – Elas estão cada vez mais fracas!
Se a luz cria sombras, então nós criamos essa criatura?
... Eu criei?
Pensando bem, a cada século, nosso último inimigo fica mais forte. Isso significa que...
Não tenho muito tempo para pensar agora. O monstro balança a pata mais uma vez e Michele, no último instante, nos levanta num pilar de terra, que acaba tendo a base quebrada. Uma bolha de água nos envolve e nos aterrissa em segurança no chão, nos salvando de uma queda dolorosa.
– Temos que nos afastar – digo. – Vamos voltar para a porta e tentar analisar a situação.
Os outros concordam. Só que, quando nos viramos, vemos mais pequenas feras invadindo a igreja, a maioria ocupando a entrada.
Nunca fiquei com tanto medo. Pela primeira vez em séculos, sinto as sombras se sobrepondo à luz.
Fale com o autor