The Sages
11 11 - Profecia
Notas iniciais
— Hailey? Você está bem?
Não respondo nem olho para Sohan. Continuo com o olhar fixo na janela ao meu lado, embora não esteja prestando atenção na paisagem do lado de fora. Só consigo pensar no sonho que acabei de ter.
Aquilo foi real demais: Elena, Liz, Mackenzie e tudo o que elas disseram. Até o nome que Elena citou – Johanna – me soa real agora. Eu quero desesperadamente entender o que acabou de acontecer e o que tudo isso significa.
Sohan estala os dedos diante dos meus olhos e me obrigo a me virar para ele. Posso ver a preocupação em seu rosto, e por isso me esforço para dar um sorriso singelo.
— Estou. Só tive um pesadelo.
— Ah – ele diz, mas vejo que não caiu nessa. – Nós estamos chegando. Preparada?
Olho pela janela de novo. Já está de manhã. Faz menos de vinte quatro horas desde que saímos de casa e parece que minha última conversa com Sophie e Liz foi há semanas. Mas logo, logo isso tudo acabará, e vou poder vê-las de novo. Estou ansiosa por isso, o suficiente para ficar reparada.
— Estou – respondo.
Ele assente.
— Accha hai.
Não demoro muito para entender: “Que bom”, em hindu. É a primeira vez que Sohan diz algo em sua atual língua nativa.
Me viro para dar uma olhada nos outros três. Dustin e Michele estão acordados, mas Paco continua dormindo com a cabeça apoiada no ombro da brasileira.
— Ele deve ter demorado para conseguir pegar no sono – ela diz. – Eu o avisei para não comer tantas balas...
Eu rio. Michele afasta uma mecha de cabelo da testa dele e o sacode gentilmente para acordá-lo. Paco se mexe, mas não abre os olhos.
— No quiero ir a la escuela hoy, mamá — balbucia.
— Estão animados para falar em suas línguas nativas hoje? Vamos, Paco, acorde. Você não vai pra escola.
O menino finalmente abre os olhos, devagar, sorri para mim e olha pela janela.
— Onde estamos?
— Chegando. – Eu me volto para Dustin. – Está tudo bem?
Dustin está quieto demais. Eu esperava que ele fizesse uma brincadeira com Paco, mas ele não para de encarar as costas da minha poltrona. O chamo de novo e ele finalmente ergue os olhos para mim. Nunca vi sua expressão tão dura assim.
— Sim. Só tive um sonho ruim.
— Ah... Bem, eu também tive. E tenho que falar com vocês sobre isso depois – aviso.
Michele e Paco assentem. Dustin, no entanto, dá de ombros e vira o rosto para a janela. Franzo a testa. Antes que eu possa dizer algo, Sohan me cutuca e manda eu me preparar para o pouso.
. . .
Pousamos no Aeroporto Internacional Bem Gurion, em Tel Aviv – é daqui que vamos para Jerusalém. Depois de conferirmos tudo, procuramos a melhor forma de chegar ao nosso destino. Perguntamos para alguns israelenses, e usamos o árabe na maior parte das vezes, já que a maioria não tem fluência no inglês. Finalmente, um deles diz que a melhor forma é pegarmos uma van, que já está de saída. Agradecemos o senhor corremos para alcançar o veículo.
O motorista diz que o preço da viagem e nos lembramos de um pequeno detalhe: não estamos com o dinheiro daqui, Novo Shekel. Então, tenho uma ideia e um traço de esperança e verifico os bolsos da calça. As notas de dólares que deixei aqui se transformaram em NIS. Pago o homem e nós cinco entramos na van. Sento-me ao lado de Dustin, mas ele se remexe, desconfortável, e vai para o lado de Sohan. Este, Michele e Paco olham para mim e para ele. Eu dou de ombros enquanto Dustin só vira o rosto e permanece em silêncio. Decido deixar isso de lado por ora.
Mais uma pessoa entra e o motorista dá a partida. Logo, logo chegaremos ao nosso destino final. O que nos espera lá é um mistério.
. . .
Confesso que fico surpresa ao chegarmos a Jerusalém. A imagem que sempre tive daqui – mesmo sabendo que ela era errada – era de uma cidade deserta, com areia para todos os lados, com apenas algumas pessoas fiéis à sua religião e catedrais. É errado e até mesmo preconceituoso pensar assim, eu sei, mas nunca tive o menor contato com esse país, nem neste e nem em outros corpos.
À minha direita, Michele se inclina para olhar melhor pela janela da van e suspira.
— Uau. Eu sempre achei que Jerusalém fosse, sei lá, onde Judas perdeu as botas, mas até que é uma cidade bonita.
Começo a assentir, mas franzo as sobrancelhas e olho para ela.
— Onde Judas fez o quê?
Ela ri da minha expressão.
— Desculpe. É uma expressão do meu país. Quis dizer que pensava que Jerusalém ficasse no meio do nada.
— Ah. Mas por que Judas?
Michele dá de ombros e continua observando a paisagem.
— Quem sabe? Não sei a origem de metade das expressões de lá. Eu já tive um vizinho que dava vários palpites para suas possíveis origens. Minha vó dizia que ele era um grande xarope.
Até penso em perguntar o que ela quer dizer com “xarope”, mas desisto e me volto para a janela. Sei que Michele percebeu isso porque ela começa a rir.
Em árabe, o motorista pergunta onde queremos descer. Na mesma língua, peço para que ele nos deixe no primeiro hotel barato que encontrar. Ele concorda e nos leva até lá.
Descemos da van juntamente com outros passageiros. Dustin se apressa e entra no hotel antes de todos nós. Contenho uma reclamação; posso conversar com ele em outra hora. Jogo minha mochila nos ombros e agarro a alça da minha mala. A caminho da portaria do hotel, levo um susto quando Paco me abraça pela cintura.
— O que é isso? – Pergunto com um sorriso.
— Nada. – Ele se afasta e sorri como uma criança de verdade para mim. É a primeira vez que noto como seu sorriso infantil é fofo. – Só tive um bom sonho.
Pelo menos alguém aqui teve.
Abro mais o sorriso antes de o menino correr atrás de Dustin e Michele. Sohan passa ao meu lado e olho para ele pouco antes de seu sorriso singelo ser escondido.
Dustin finalmente abre a boca e, ao lado de Sohan, tenta convencer a recepcionista do hotel a deixar Paco dormir no mesmo quarto que eles, já que cada quarto tem duas camas. A discussão dura algum tempo até que a moça decide ceder e nos dá as chaves. Nós combinamos de nos encontrar no refeitório assim que deixamos nossas coisas perfeitamente seguras em nossos quartos.
Chegamos todos juntos. Cada um pega seu prato e nos sentamos numa mesa vazia que fica no canto da sala, o lugar mais escondido disponível. Sentado diante de sua comida, Paco esfrega as mãos e sorri.
— Barriga llena, corazon contento — ele fala. “Barriga cheia, coração contente”.
— Spenisa ata hai — Sohan retruca. “Chega de espanhol”. Paco dá de ombros enquanto ele dá uma garfada em sua comida e olha para mim. – E então? Não tinha um sonho para nos contar?
Baixo os olhos para o meu prato.
— Você não esquece, hein?
— É a ansiedade. Estou curioso para ouvir sobre esse sonho.
Olho para os outros. Michele e Paco também parecem bem interessados, mas Dustin ainda não olha para mim. Certo. Vou perguntar qual foi o sonho dele assim que terminar meu relato.
Conto tudo, desde as batidas no piso de madeira até a fala enigmática de Mackenzie. Todos escutam em silêncio enquanto falo. Quando termino, o silêncio permanece na mesa, mais intacto que a comida em meu prato, até eu mesma resolver quebrá-lo.
— Não sei o que isso significa por enquanto, mas nós vamos descobrir. Sei disso.
Paco sorri. Eu olho para ele, esperando que ele diga algo, mas o garoto apenas volta a comer. Já que os outros também não se dispõem a dizer algo, me volto para Dustin.
— E qual foi o seu sonho?
Ele olha para todos os lados, menos para mim. Sua atitude está começando a me dar nos nervos.
— Nós precisamos ouvir, Dustin. Deve ter sido algo muito sério, não é?
— Não. Quero dizer... – Ele aperta as mãos uma na outra e continua, olhando para a mesa. – Foi estranho. Não foi exatamente um sonho; foi mais um flash repentino. Estávamos nós cinco lá, mas estávamos em nossas primeiras formas. O cenário estava totalmente escuro. Éramos só nós ali, lado a lado. Até que a Luz se levantou e foi embora.
Fico olhando para ele, instigada, porém não digo nada. Até que ele finalmente olha para mim.
— Eu sei que é uma coisa boba e sinto muito mesmo por ter te evitado por todo esse tempo. Mas o que eu senti foi muito forte. Uma tristeza e uma decepção profundas, reais, como se você realmente tivesse nos abandonado. Não sei o que aconteceu em nossa primeira missão, mas sei que jamais faria isso. Sinto muito.
Forço um sorriso para consolá-lo, enquanto uma sensação muito ruim toma conta de mim, ainda que eu não saiba o porquê.
— Que estranho. Eu também tive um sonho com nossas primeiras formas, mas foi totalmente o oposto – conta Paco. – Sonhei que a Luz estava conosco, nos protegendo. Eu também senti algo muito profundo e real, mas foi bom: carinho, calor e segurança.
Sorrio para ele. Isso explica sua onda de afeto repentina. Paco se vira para mim e retribui com seu sorriso infantil – de uma criança humana, não de um ser com séculos de vida. Pensar nisso também me dá uma sensação estranha, mas tento ignorá-la.
Reparo que Michele e Sohan permanecem calados desde o meu relato. Quando olho para eles, vejo que estão apenas brincando com suas comidas.
— O que foi?
— Bem... – Michele começa. – Quando estávamos no hospital, eu e Sohan fomos visitar suas irmãs enquanto você dormia. Nossa intenção era apenas torcer por elas e lhes passar alguma força. Não houve nada de estranho com Sophie. Mas, quando chegamos ao quarto de Liz...
Michele se interrompe e olha para Sohan, num pedido silencioso para que ele continue. Também o encaro até que ele começa a falar.
— Liz acordou assim que entramos no quarto. Ela se sentou na cama e ficou nos encarando, sem dizer nada. Seu olhar era... Assustador. Não tinha nada de infantil e inocente nela. Era como olhar para uma mulher muito experiente e de idade avançada.
— E aí, do nada, nossas cabeças começaram a doer – Michele prossegue. – Ao mesmo tempo. Liz não tirava os olhos de nós e não se mexia. Vimos flashes de imagens, mas não deu para distingui-las. A dor só parou quando Liz se acomodou na cama de novo e voltou a dormir.
— Nós não quisemos te contar nada para não te preocupar ainda mais. Já tinha coisas demais acontecendo, suas irmãs foram internadas, seu namorado tinha morrido... Tentamos nos convencer de que aquilo não teve importância alguma e ignoramos o fato. Só que agora você teve esse sonho...
Estou chocada. E um pouco revoltada também. Eles tinham que me contar! Liz é minha irmãzinha, e para descobrir se ela está envolvida de algum modo com nossa história, eu preciso de detalhes como esse. Sei que a intenção foi boa, mas é algo que eu precisava saber.
— Nos perdoe, Luz – pede Michele. – Não queríamos magoá-la.
— Não... Não estou magoada. Mas vocês têm que me contar essas coisas. Na próxima vez que algo estranho assim acontecer com qualquer um, me falem. Não importa o que esteja acontecendo, não importa qual seja meu fardo, me contem.
Eles assentem e eu solto um suspiro.
— Tudo bem. Agora que estamos em Jerusalém, temos que descobrir o que fazer. Podem terminar de comer. Eu vou tentar descobrir alguma coisa.
Eles não dizem nada. Mas, assim, que me levanto, sinto algo quente descendo do meu nariz e tocando em meu lábio superior. Passo a mão. É sangue.
Olho para meus irmãos e sei que eles também notaram, pois os quatro imediatamente se levantam. Um monstro está por perto. Mas onde? Olhamos em volto, mas não encontramos nada de suspeito.
Limpo o sangue do nariz com a gola da camisa e já me preparo para executar uma magia. Aos poucos, algumas pessoas notam nosso comportamento estranho e cochicham entre si. Enquanto olho para a direita, vejo uma que nos observa, mas não cochicha com ninguém sobre isso. Só... nos observa. Nessa situação, não tem como eu não achar estranho.
Sabendo que os outros Sábios estão de olho nas outras direções, continuo prestando atenção nesse homem estranho. Continuo o encarando e ele não liga a mínima para isso. Até que se levanta, dá um passo e, num piscar de olhos, some da minha vista. Eu me assusto, e a próxima coisa que registro e uma faca sendo enterrada em meu braço.
Dou um grito de dor e chamo a atenção dos outros. O homem já sumiu de novo. Pausadamente, digo para eles ficarem atentos e Dustin pede para que todos formem um círculo ao meu redor enquanto ele tira a faca do meu braço com cuidado. Mordo o lábio inferior, aperto os olhos com força e enfio as unhas na minha perna até o fim do processo. Depois, Dustin me lança um sorriso fraco e se junta ao círculo.
O pânico já se instalou no salão. Todos deixaram suas refeições de lado para fugir aos gritos, mas a porta se fecha de repente e ficamos presos aqui. As pessoas se juntam no canto do refeitório enquanto meu círculo protetor não sai do lugar.
— Eles se disfarçam de humanos agora?! – Paco exclama.
— Não devíamos estar tão surpresos com a evolução deles – diz Dustin. – Apenas fiquem focados. Ele pode aparecer a qualquer momento, e talvez até traga reforços.
Os outros três assentem e continuam em silêncio. O único som presente aqui é o gemido de medo de algumas pessoas. Também fico de olho enquanto estanco o sangue com minha própria mão. Deve ser por causa da dor, mas começo a ficar tonta e pisco com força para recuperar o foco da visão. Então, algo parece eclodir dentro de meu peito e eu tusso sangue.
Michele repara e se vira para mim.
— Luz?
— Cuidado!
Ela se volta para frente no exato momento em que o homem-monstro joga a faca em sua direção. Terra se abaixa no último segundo. Do outro lado, Paco também se esquiva e a lâmina é cravada na parede. Todos nós olhamos para ela, chocados.
— Que força – murmura Dustin.
Sohan resmunga algo e esfrega o polegar no indicador.
— Rugiet: Exoritur Procella!
Rajadas furiosas de vento invadem o salão e preciso me segurar para não ser levada com ele. Os ventos cortantes avançam na direção de nosso inimigo, mas não consigo ver o resultado porque Água se colocou na minha frente.
— Maldito! – Urra o Vento. Fica claro que o ataque não foi um sucesso.
— Luz!
O grito do Fogo me assusta. Imediatamente olho para cima e vejo a faca voando até o teto e mergulhando até mim, com uma cauda de trevas saindo do cabo.
— Se abaixem! Comburet: Sui Interitum!
Duas rajadas de fogo são lançadas até a faca e a envolvem num casulo flamejante, antes de explodi-la. Protejo meu rosto com o braço saudável, esperando que fragmentos do objeto caiam sobre mim, mas parece que as chamas os incineraram também. Realmente... Paco pode ser pequeno, mas a força de Tafari continua nele.
— Eu tenho que sair daqui! – Grito. – Eu sou o alvo. Se continuar aqui, vocês vão continuar correndo perigo!
— Então que assim seja! Você não vai sair da nossa vista, Hay – diz Dustin.
“Hay”. Esse apelido parece ter uma força muito maior agora. Faz eu me sentir mais humana, de algum modo.
Ficamos em silêncio por um tempo, apenas olhando ao redor, até que Michele se vira de novo. Mas ela não olha para mim; olha para o chão.
— Ah não...
Ela então esfrega o polegar no indicador, mirando no chão, até esferas luminosas marrons saírem do meio deles. Depois, junta as palmas das mãos com força e velocidade, mantendo as esferas entre elas, e logo as bate contra o piso sob seus pés. Os outros também observam.
— Indurat: Cunabula Gaia!
Um buraco enorme se abre ali tão de repente que solto um grito. Nenhum de nós cai, mas posso ouvir um som inumano vindo de baixo do chão.
— Dustin, pode afogá-lo? – Ela pede.
— Com todo o prazer, irmã.
Então, Dustin esfrega o polegar no indicador e os aponta para o fundo do buraco.
— Mergunt: Mare Irae!
O buraco se enche de água num instante. No começo ela é calma, porém logo começa a se agitar demais. Ouço novamente o grito do monstro antes de ver sua garra emergir e submergir logo em seguida. Michele franze o cenho.
— Esse é resistente.
— Deixe comigo – digo.
Eu me levanto, tiro a mão totalmente vermelha do ferimento e esfrego o polegar no indicador. A pata do monstro volta a aparecer e eu aponto para ela.
— Clare: Caelestia Lamina!
As esferas de luz em minha mão se juntam e se transformam numa comprida lâmina de luz que desce velozmente para o buraco. Muita água é jogada em nós, junto com a nuvem negra que antes era o monstro.
Ficamos em silêncio, ofegando e olhando enquanto Michele tapa o buraco. Só tiramos os olhos dali quando ouvimos passos vindo em nossa direção.
— Não acredito...
O senhor de idade que diz isso é nativo daqui, mas fala em inglês. Isso é, de certo modo, reconfortante.
— As Cinco Espadas... Vocês existem mesmo. Não são apenas uma lenda...
Meu corpo fica enrijecido. Como ele sabe quem nós somos?
O senhor dá um sorriso meio desajeitado, como se não sorrisse há anos, e se ajoelha a nossa frente. Nós cinco trocamos olhares surpresos e nervosos.
— Esperei muitos anos pela sua chegada. Cheguei a pensar que fossem apenas um mito... Por favor, me perdoem por isso.
Ele acha que somos deuses ou algo assim?
— Ah... Não tem motivos para pedir perdão, senhor. Mas como assim, nos esperou? Sabia que viríamos?
Ele ergue o rosto para mim.
— Ora, mas é claro. Estava na profecia. “Quando a humanidade seu destino traçar/ os seres de luz, à terra santa irão chegar...”
— A... Profecia?
Estou tão confusa quanto Paco. Já sabia que alguns livros raros registravam nossas atividades na Terra há muito tempo, ainda que com poucos detalhes, mas não sabia que existe um povo que preserva versos sobre nós e nosso destino.
— Senhor? – O chamo. – Será pode nos mostrar essa profecia?
Os olhos do idoso brilham de lágrimas de felicidade, e isso me deixa ainda mais ansiosa.
— Seria uma honra ser seu guia, senhorita. Mas antes, permita-me tratar de vosso ferimento.
Eu concordo. Ele se levanta com cuidado e faz uma reverência antes de nos pedir para segui-lo. Meu cérebro está com um nó, mas caminho a frente de meus irmãos.
O resto das pessoas que continua aqui nos observa em silêncio e abre passagem para nós. Caminhos até a porta através de um corredor cercado de pessoas e o senhor nos conduz até seu quarto. Os garotos ficam na porta, a postos para qualquer coisa que possa acontecer, e Michele fica ao meu lado enquanto o homem enfaixa bondosamente a minha ferida. Quando termina, pergunta se estou bem para ir e eu afirmo. Juntos, saímos do hotel.
. . .
O senhor – que se apresenta como Efrat – diz que está nos levando à Igreja de Todas as Nações. Ficamos em silêncio durante todo o caminho. Tenho certeza de que os outros quatro estão tão nervosos quanto eu; afinal, ninguém esperava esse reconhecimento. Mackenzie dissera em seu bilhete que tínhamos que desvendar o resto de nossa história. Parece que essa hora chegou.
Finalmente chegamos. A Igreja é uma construção de tamanho médio, com um uma cerca de ferro na frente, em que cada lado tem um pequeno portão. Há um mosaico na parte superior, logo acima de uma sentença em latim. Cubro os olhos com a mão para tampar o sol e leio o que está escrito em voz baixa: “Ofereceu orações e súplicas com grande clamor e lágrimas, foi ouvido por causa de sua reverente submissão”. Há uma sentença acima da porta também, que diz “Ficai aqui e vigiai comigo”. Me pergunto se temos alguma coisa a ver com essas frases.
— Como você está? – Dustin me pergunta.
— Estou bem. A ferida dói mais quando eu me lembro dela.
— Ah. Então esqueça que eu perguntei. – Ele sorri e pisca para mim. – Finjamos que essa conversa nunca aconteceu.
Eu rio e o agradeço pela preocupação.
Efrat abre as portas e entramos num grande salão. O lado de dentro parece típico de uma igreja católica para mim, então a única coisa que me chama a atenção aqui é a parte da frente; abaixo do altar há uma rocha grande e disforme protegida por uma cerca baixa cruzada com pontas apontando para fora e para dentro e figuras metálicas de aves na direita, na esquerda e no centro.
— Nossa Igreja foi construída ao redor deste sagrado monumento – Efrat conta. – Acreditamos que foi aqui que Jesus orou antes de ser preso. É algo de grande valor e que é muito bem preservado e respeitado. Porém, muitos anos atrás, meus antepassados encontraram nela versos que não pertenciam à Bíblia e os esconderam, fazendo deles um segredo de família que foi passado de geração para geração. Nós acreditamos e louvamos a nosso Deus, entretanto nós também acreditamos nos seres que estes versos mencionam. Cremos que os versos sejam a última a oração que Jesus fez aqui.
Efrat se aproxima da pedra e se abaixa lentamente. Passa um braço por cima da cerca e passa a mão em um canto. Um nuvem pó se levanta a medida que o senhor vai limpando aquela área. Ao terminar, ele recolhe a mão agora suja e faz um gesto para que a gente leia o que está escrito ali. Troco olhares com os outros e nós avançamos juntos.
Os versos também estão em latim e em letra pequena, o que me faz forçar mais a vista para conseguir ler.
“As Cinco Espadas à Terra irão descer
E de geração em geração, seu povo irão proteger
Entre os humanos eles lutarão
E pelos humanos eles morrerão
Para seu erro, então, corrigir
E seu futuro garantir.
Mas seu último destino está marcado;
Quando a humanidade seu destino traçar
Os seres de Luz à terra santa irão chegar
E pela espada amaldiçoada o mal será selado.”
Olho para meus irmãos, tentando ver em seus olhos se eles estão tão chocados quanto eu. Estão.
— Mas... Isso... Bem... Como o senhor soube que nós somos esses seres de luz?
— O terceiro verso diz que vocês lutarão entre nós. O que vi naquele refeitório foi um grupo de jovens com poderes mágicos que estão além da capacidade humana. Só podiam ser vocês.
Meneio a cabeça e leio o último verso de novo. “Espada amaldiçoada”. Se eu fui amaldiçoada ao quebrar a Primeira Regra...
Pensar nisso agora me deixa ainda mais nervosa. As consequências dessa maldição ainda não ficaram claras, e temo que isso só aconteça quando os outros realmente precisarem de mim.
— Esse papo de morte não é no sentido literal, é? – Indaga Michele.
— Senhorita, não se deve levar todas as palavras da profecia ao sentido literal.
— É verdade. Pode estar se referindo à quando nós deixamos a Terra para descansarmos – Sohan a tranquiliza.
— Se for assim, tudo bem. Tenho certeza de que isso é bem mais tranquilo do que morrer – diz Paco.
— E qual seria exatamente o destino que a humanidade traçou? – Dustin questiona.
— Acredito que a humanidade esteja indo pelo caminho errado, senhor – Efrat responde. – Há tanto caos e discórdia no mundo, causados por nossa própria raça... Pessoas matam irmãos e irmãs, colocam sua própria espécie no caminho da extinção, direta e indiretamente. Não tenho gosto em admitir isso, mas nossa raça está se perdendo cada vez mais. Mas vocês... Vocês irão corrigir isso. É o que a profecia diz e é no que eu acredito.
É verdade. Eu fico chocada em ver humanos matando outros humanos com uma violência selvagem, esgotando a água que sustenta a eles mesmos, desperdiçando alimentos ao invés de usá-los para salvar outras pessoas. É insano demais para mim. E o pior é ver como as coisas só pioram com o passar do tempo.
Minha atenção se volta para outro verso. “Seu último destino está marcado”. Eu penso, mas o único sentido que consigo extrair dessa sentença é que esta é nossa última missão. Eu só não entendo direito por que nós tivemos que esperar até que a maldade humana deixasse as trevas ainda mais fortes para acabar com isso. Não seria mais fácil selá-las quando ainda eram fracas?
— É desconcertante – murmuro.
— É mesmo. E aí não diz como e quando vai ser nossa última luta. Você vai selar as trevas, isso está claro, mas como? – Dustin indaga.
Michele arqueja.
— Espera. Aí diz que essa é nossa última vinda à Terra?
Faço que sim com a cabeça.
— É o que parece.
— Mas o que vai acontecer conosco quando acabarmos aqui? Vamos desaparecer?
— Provavelmente nós só vamos ficar em nosso mundo e viveremos apenas em nossas formas originais – palpita Sohan.
— E nem nosso mundo nós entendemos completamente... – O ex-Aqua Boy suspira. – Que vida.
Eu me levanto, contudo ainda mantenho o olhar fixo nos versos. Sinto algo muito errado, só não sei o que é de onde vem. Mantenha a calma, Hailey. Vai ficar tudo bem.
Fique calma, Johanna.
Pisco e levo a mão à cabeça. Essa voz não é minha e ainda assim me parece muito familiar. Uma pontada de dor me atinge.
A voz volta: Eles vão ficar bem.
Cambaleio involuntariamente para trás.
— Hailey? O que você tem?
Saia da minha cabeça, penso.
Ela me ignora totalmente. Elena vai cuidar deles. Vai ficar tudo bem.
Elena?
Sinto um peso enorme nas costas de repente e caio de joelhos. Os outros gritam e correm em minha direção, mas algo que não consigo ver os impede de continuar. Quando consigo levantar a cabeça, vejo que eles pararam por conta própria e que seus olhos arregalados de surpresa apontam para algo atrás de mim.
Uma voz conhecida e nada reconfortante ecoa pelo salão:
— Não esperava menos de meus filhos. Sempre tão espertos... Estão quase lá.
Me viro com muita dificuldade para Mackenzie, com muita surpresa. Ela está brilhando de novo. Efrat murmura algo, mas, quando L.C o vê, abana a mão em sua direção. O pobre senhor é lançado contra a parede e perde a consciência.
— Ei!
— Ele não tem permissão para ver isso.
— Isso o quê?! Uma maluca que trai a confiança dos outros?! – Explodo.
Mas ela olha para mim e sorri, inabalável.
— Não. Ele não tem permissão para presenciar seu julgamento. – Ela estala os dedos e sinto meu corpo tremer. É extremamente desconfortável. – Espero que estejam prontos para saber as reais consequências de seus erros, crianças. Acreditem em mim: é para o bem de todos.
Olho para os outros para ver sua reação. Porém, congelo assim que vejo sérios olhos azuis me encarando. Não são os mesmos olhos brincalhões de Dustin. Estes são olhos repletos de pecado e culpa. São os olhos de Gregory.
Consigo desviar o olhar dele me foco nos outros. O pequeno espanhol agitado, a brasileira gentil e o indiano responsável não estão mais aqui também. Agora só vejo um jamaicano poderoso, uma inglesa de classe e um coreano muito inteligente. Eles também me encaram e sei o que estão vendo: uma francesa arrependida e cheia de dúvidas na cabeça. Estão vendo Angélica.
Estamos de volta às nossas formas do século XX.
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