The Sages

12 12 - Julgamento


Notas iniciais
Oi pessoal! Queria das as boas vindas à mais nova leitora, livegw. É um prazer, Live! Esse capítulo ficou menor que o anterior, mas ainda assim, espero que gostem. Acho que algumas dúvidas vão começar a ser esclarecidas, hehe. Have fun!

“Julgamento”. Essa palavra me dá arrepios quando Mackenzie a repete. Olho para meus braços e de início me espanto por não estar mais machucada, mas então me lembro que Angélica não tinha um talho no braço.

Isso não faz sentido. Estou com o corpo de Angélica, mas ainda me sinto e penso como Hailey. Penso em perguntar aos outros se eles também se sentem assim, mas não consigo abrir a boca. E o pior é que acho que há algo de Angélica dentro de mim agora, pois percebo que só paralisei porque Dustin – bem, Gregory – voltou a me encarar.

Balanço a cabeça. Não é hora para isso.

– Angélica, Gregory, Tafari, Kimberly, Kwan... É bom vê-los novamente – diz Mackenzie, e sinto uma vontade enorme de socar sua cara. – Uma pena que a ocasião não seja muito feliz.

– O que você fez com a gente? – Sohan, ou Kwan, pergunta.

– Eu? Eu não fiz nada. Vocês próprios causaram esse julgamento.

Aí está ele de novo, o arrepio.

– Antes de começarmos, porém, quero que entendam que estou fazendo isso pelo bem de vocês.

– Você faz muita coisa estranha pela gente – diz Paco-Tafari.

– Lamento por isso – diz a mulher, mas seu sorriso não me deixa acreditar nela. – Mas esse julgamento é necessário para vocês seguirem em frente.

Credo. Ela fala como se fôssemos almas penadas que precisassem de perdão para chegar ao além e reencarnar.

– E por que demorou tanto tempo para nos julgar? – Pergunta Michele no corpo de Kimberly. – Por que só está fazendo isso agora?

Lady Crystal dá um passo a frente.

– Eu estava esperando que vocês descobrissem mais sobre sua própria história. Assim, depois de serem julgados, vocês terão a capacidade de descobrir o resto.

Isso tudo é loucura demais. Olho para a porta e imagino como seria se alguém entrasse aqui agora...

– Todas as entradas estão trancadas – Mackenzie diz olhando para mim. Odeio quando lê minha mente. – Não há com o que se preocupar.

Me remexo, desconfortável.

– Como vai fazer esse julgamento? – O Gregory com voz de Dustin pergunta.

– Eu não farei nada. Vocês é que vão dizer tudo: o que fizeram e o que sentem em relação a isso. Quando tirarem todo o peso de suas costas, estarão livres. Quem quer começar?

Trocamos olhares nervosos uns com os outros, como se mandássemos uma mensagem mental do tipo “Eu não vou começar isso”. Por fim, a Terra suspira e dá um passo a frente.

– Bravo, criança. – Mackenzie aplaude elegantemente. – Pode começar.

Ela suspira e dá uma última olhada para nós. Já tinha quase me esquecido de como Kimberly era: uma britânica bonita, com um rosto fino e bonito, mesmo com seu nariz empinado. Seus cabelos castanhos ondulados caem em cascata pelas costas e os olhos eternamente castanhos têm um brilho elegante em seu rosto – apesar de ela nunca ter sido tão elegante quanto parece.

– No meio de uma situação crítica de nossa última missão, eu abandonei o grupo para proteger um amigo humano e tirá-lo de perto.

Terra faz uma pausa. Todos nós permanecemos em silêncio e ela continua:

– Nós estávamos lutando contra uma horda de monstros, e de repente eu vi que alguns iam até ele. Deixei meus irmãos de lado e derrotei aquele grupo, mas mais monstros tinham me seguido e o atacavam pelas minhas costas.

Ela abaixa a cabeça e junta as mãos.

– Não era para Patrick ter ido para a França. Mas nós nos conhecíamos desde que eu cheguei à Inglaterra, com cinco anos, e foi ele que me fez gostar dos humanos. Achei que não conseguiria completar aquela missão sem ele. Então, quando arrumei uma desculpa que iria trabalhar na França, disse que tinha arrumado uma vaga para ele também e ele foi comigo. Claro que tive que contar tudo, mas Patrick continuou do meu lado e até quis conhecer os outros. Só que eu traí sua confiança. Não consegui defendê-lo.

Eu me lembro de Patrick. Era um homem bom e bonito. Tinha a mesma idade de Kimberly, vinte anos, e a química que existia entre eles era insuperável. Patrick também era simpático e logo todos nós simpatizamos com ele. Ele aceitou bem nossa realidade e até fazia brincadeiras com isso – das quais Tafari e Kwan nunca riram. Mas quando ele morreu, achamos que a Terra iria desistir de sua missão. Tentamos confortá-la, porém, nada adiantava. Foi aí que eu disse a ela que tinha a obrigação de concluir seu dever para vingar seu amigo. Terra nunca fraquejou de novo depois disso, embora também nunca tenha me dado uma resposta.

Acho que ela também está pensando nisso agora, porque olha para mim antes de seguir seu relato.

– Eu me sinto muito arrependida por tê-lo levado comigo para a França e o envolvido nisso tudo. Me arrependo por não ter conseguido me desgrudar dele para deixá-lo em segurança. Mas mais do que tudo, me arrependo por ter sido tão humana naquela época. Por ter amado Patrick como um irmão durante tantos anos. Sei que não foi minha imprudência que foi culpada naquela noite, e sim o meu coração. Ele devia estar na França, trabalhando em seu emprego antigo, estudando, com a família. Mas eu...

– É o suficiente, querida – Mackenzie diz suavemente.

Kimberly funga e limpa as lágrimas do rosto. Volta para o lugar onde estava, entre Tafari e Kwan, e o Fogo logo envolve seu ombro com um braço e a puxa para que ela possa chorar em seu ombro largo. Vento, por outro lado, parece tenso.

– Já que Terra teve a valentia de começar, acho que seria mais do que propício se Vento continuasse – L.C sugere.

Todos olhamos para ele, confusos. Kwan olha para nossa ex-chefa, torna a baixar a cabeça e dá um passo a frente. Sua imagem, ao contrário da de Kimberly, nunca saiu da minha cabeça. Ele tem cabelos negros com uma franja curta e repicada, com os olhos sempre verdes se destacando em seu rosto branco com algumas pintas espalhadas. Ele tem um ar tão inocente que me assustei na primeira vez que vi a raiva em seu olhar.

– No século passado, eu saquei a espada antes de me reunir com os outros e liberei a maldição. Fiz isso para proteger meus amigos humanos que andavam comigo quando fui surpreendido por um monstro enorme. Eu consegui matá-lo sozinho, mas quando me virei para meus amigos, eles estavam ainda mais assustados depois de terem visto meus poderes. Acharam que eu fosse algum tipo de aberração e fugiram. Eu sacrifiquei meu bom desempenho naquele século e a única coisa que obtive em troca foi a perda de meus melhores amigos humanos. Fiquei arrependido, mas principalmente revoltado. Tive raiva da atitude dos humanos. Parei de querer me envolver com um.

Ele para. Começa a falar de novo, mas para no meio da palavra e olha para Kimberly. Seus olhos estão marejados. Nunca vi Kwan assim. Ele sempre me pareceu mais revoltado do que triste.

– Naquele dia em que fomos atacados por uma horda de monstros, estava segurando vários deles quando vi que Terra tinha ido até Patrick. Fiquei nervoso porque ela parecia estar priorizando a segurança de um humano ao invés de priorizar a nossa. Então, parei de lutar contra os monstros que ela deixou de lado e me concentrei em outros. Só que... Esses monstros que eu larguei mataram Patrick.

Kimberly soluça e Kwan se vira totalmente para ela.

– Eu meu arrependo muito disso, irmã. Peço que me perdoe. No fundo, eu só estava com inveja por você ter um amigo que continuou te amando mesmo quando soube de tudo. Eu me proibi de simpatizar com Patrick. Disse a mim mesmo que ele seria só um estorvo, e depois que ele morreu, me obriguei a pensar que seria melhor assim. Mas não foi. Nunca foi.

Kimberly soluça ainda mais alto e tampa o rosto com as mãos. Kwan baixa a cabeça de novo e volta ao seu lado, mas Terra se aproxima ainda mais de Tafari. Porém Mackenzie olha para mim e para Gregory e diz que o Fogo deveria ser o próximo.

O homem musculoso solta a britânica hesitantemente. Eu passo por trás do Água e a abraço de lado, aceno com a cabeça para Tafari e ele devolve o gesto antes de dar um passo a frente.

Tafari era mesmo o mais diferente do grupo. Pensava isso na época e agora penso de novo. Ele é um homem alto, de pele negra, musculoso. Seu rosto tem traços firmes e sua cabeça está livre de cabelo. Ele tem um ar sério, mas é bem mais bondoso do que parece.

– Eu fui o que mais demorou para se reunir com os outros no século passado simplesmente porque eu não tive coragem de sair de casa – ele conta, e é muito estranho ver um homem desse tamanho com a voz de uma criança de oito anos. – Minha família era pobre e muito grande, então não quis deixá-los na mão, mesmo sabendo que eles iriam entender. Mas os monstros sabiam que eu estava lá. Atacaram nossa casinha, procurando por mim, e não consegui proteger todo mundo. Os únicos que sobreviveram foram dois de meus irmãos pequenos. Eu os escondi até terminar de queimar o que tinha sobrado dos monstros. Quando acabei,ajudei a enfaixá-los e disse para que cuidassem um do outro a partir dali e fui embora. Nunca me perdoei por não tê-los ajudado mais do que isso e não ter-lhes dados nenhuma explicação. Sempre quis voltar à Terra depois da missão para ver como eles viveram depois daquilo. Só espero que tenham conseguido sobreviver... E que tenham me esquecido.

Mackenzie assente e o agradece. Tafari vem para o meu lado e eu ponho a mão em seu braço.

A mulher brilhante a nossa frente inclina levemente a cabeça para o lado e olha, sorridente, para Gregory.

– Que tal você ser o próximo, querido?

Ele olha para mim antes de ir para frente. Gregory é magro, ainda que não tanto quanto Kwan. Sua pele é clara, tem cabelos castanhos escuros muito mais arrumados do que os de Dustin. Os olhos azuis brilham em seu rosto de uma maneira estranha. É como se ninguém pudesse decifrar o que ele está pensando ou sentindo, nem se convivesse com ele por anos e anos.

– Teve um dia, no século XX, em que eu me esqueci totalmente de quem sou. Bem, me permiti esquecer. Eu me deixei levar por inteiro pelo meu lado humano e beijei a Luz.

Me sinto desconfortável e percebo que os outros ficam do mesmo jeito.

– Se eu dissesse que me arrependo, seria mentira, Sei que foi um erro; independente de nossos corpos, somos irmãos. Mas naquela época, eu, Gregory, realmente gostava de Angélica, e sabia que isso ia além do amor fraterno. No fundo, queria beijá-la desde o começo.

Ninguém diz nada. Eu juro que também não sabia disso. Sempre pensei que o que aconteceu naquele dia foi um deslize das duas partes, e não que Gregory queria aquilo. Saber disso muda muito as coisas e faz com que eu me sinta péssima.

– Eu lamento que tenha começado toda essa bagunça – ele continua. – Disso eu me arrependo. Mas é só disso.

Mackenzie, pela primeira vez na história, fica surpresa. Só ver isso acrescenta dez pontos no meu espanto.

– Obrigada, querido. Pode voltar ao seu lugar... – Ela olha para mim. – Luz? Quer dar um fim nisso?

Com certeza. Faço que sim com a cabeça e largo Kimberly. Tafari dá um passo em sua direção, pronto para emprestar seu ombro de novo, mas ela diz que já está bem.

Passo ao lado do Água e sinto o peso de seu olhar nas minhas costas. Não olho de volta. Apenas espero que ele pare com isso.

– O meu erro e do Gregory foi o mesmo, isso é óbvio. Mas acabei de descobrir que o que sentimentos em relação a ele é diferente.

Torço as mãos. Não queria dizer isso desse jeito. Na verdade, não queria dizer isso de jeito nenhum. Mas minha vontade de acabar com esse julgamento de uma vez supera isso.

– Eu não sentia nada pelo Gregory além de amizade. Ele era meu maior companheiro naquele século. De alguma forma, estávamos sempre juntos. Ele me ajudava a tomar decisões como líder e refrescava minha cabeça quando estava tensa. Mas naquele dia, quando acordamos no meio da noite e ficamos conversando e brincando juntos, Gregory me beijou. – Respiro fundo e fecho os olhos. – Eu não queria aquilo. Nunca pensei nele naquela forma. Só que meu lado humano gritou, dizendo que, se recusasse aquele beijo, perderia sua amizade. Fiquei com medo de perdê-lo e deixei que me beijasse.

Abro os olhos e me viro para Água. Ele desvia o olhar para baixo, mas continua olhando para ele.

– Eu me arrependo disso. Tenho vergonha não pelo beijo em si, e sim por ter te enganado. Desculpe, Gregory. Você sempre foi o Água para mim.

O garoto ergue a cabeça para mim e dá um sorriso fraco. O retribuo.

– Muito bem, crianças. Os parabenizo por sua coragem. – Mackenzie ergue os braços, levantando seu manto branco com eles. – Agora, quero que saibam que os perdoo por tudo isso.

Eu olho para ela.

– Você nos perdoa?

– Não haveria como não perdoar, querida. Sou sua mãe e as mães sempre perdoam. Porém, o meu perdão não é a questão mais importante aqui. A pergunta que não quer calar é: vocês perdoam a si mesmos?

Meus quatro irmãos se entreolham, sem entender. Mas eu entendo. Entendo perfeitamente.

No fundo de meu ser, de meu ser verdadeiro, eu nunca me perdoei pelo século XXI. Eu e o Água iniciamos o “século da perdição dos Sábios” e nunca consegui tirar da cabeça que poderia ter impedido isso. Só precisava ter sido sincera. Água não sairia do meu lado nem se quisesse. Estamos fadados a ficar todos juntos. E daí que eu não correspondesse a seu sentimento humano? O que vale sempre foi a nossa missão como as Cinco Espadas e nossos meios para concluí-la.

... Certo? Às vezes, eu nem sei mais o que é mais importante aqui.

– Somente quando vocês puderam afirmar que se perdoam, estarão livres para trilhar o resto de sua jornada. Livrem-se desses pecados, desses pesos que vêm carregando desde o século passado – L.C diz.

Pela primeira vez, tenho que concordar com ela. Eu reflito muito. Posso esquecer o que aconteceu? Já perdoei Gregory, mas posso me perdoar?

Eu olho para ele e vejo que ele também está olhando para mim. Gregory assente e eu faço o mesmo. Eu posso. Ele também pode.

– Eu me perdoo – dizemos juntos.

Lady Crystal olha para nós e sorri.

– Muito bem, crianças. Mais alguém?

Kimberly respira fundo e olha para Kwan.

– Eu me perdoo. E perdoo o Vento também.

Kwan sorri – deve ser a primeira vez que vejo um sorriso nesse rosto – e a segue.

– Então, eu também posso me perdoar.

– Eu me perdoo também – conclui Tafari. – Aquilo já passou.

Concordo com ele. Fizemos o que pudemos fazer na época, errando e acertando. Mas essa época já passou. Temos que esquecer. Vai ser difícil, mas temos que fazer isso.

Pensar assim faz com que algo se abra na minha cabeça. De repente minha mente se clareia, e me sinto... Livre. Percebo que meu corpo está brilhando. Ele treme de novo, só que dessa vez não é tão desconfortável quanto antes. Nem preciso olhar para baixo ou para algum espelho. Sei que estou no corpo de Hailey porque eu me sinto incrivelmente melhor assim.

O Fogo no corpo de Paco começa a pular de alegria no meio da igreja e vejo que ele também está feliz por voltar à essa forma. Olhando para os outros, vejo rostos contentes e aliviados. Michele se põe nas pontas dos pés para dar um abraço em Sohan, que se surpreende, mas corresponde. Dustin se vira para mim e sorri com os polegares levantados. Depois, Paco pula até ele e o empurra, gritando que voltou ao normal, e de repente os dois começam uma guerra de empurrões cada vez mais fortes.

– Odeio interromper o adorável momento de alegria entre irmãos, mas ainda temos assuntos importantes a tratar – Mackenzie fala. – Como por exemplo, o bom senhor que os acompanhava.

Efrat! Me esqueci completamente dele. Começo a correr até o pobre idoso que foi jogado contra a parede, mas L.C me interrompe.

– Não o acorde ainda, Luz.

– Mas ele pode estar ferido!

– Não. – Mackenzie vem até mim e põe a mão em meu ombro. Sinto um formigamento passageiro com seu toque. Sinto vontade de dar um tapa nela agora mesmo, proibi-la de chegar perto de mim, mas algo me impede e eu fico quieta. – Ele não pode ver o que está acontecendo aqui agora, simplesmente porque ele não entenderia. Eu posso dar um jeito nele.

Dar um jeito? Ouvindo isso de Mackenzie, fico com certo medo. Contudo, ela apenas estala os dedos e uma luz engole Efrat, que desaparece em seguida.

– Ele está bem – garante a moça. – Não precisa ter tanto medo de mim, criança.

Engulo em seco.

– Bem...

– Não importa. – Lady Crystal abana a mão no ar. – Por agora, quero que saibam que estou orgulhosa de vocês. Foram corajosos. Poucos são os que conseguem confessar tudo e ainda se perdoar logo de primeira.

Poucos? Poucos o quê? Abro a boca para perguntar, mas Mackenzie me interrompe de novo.

– O caminho daqui para frente está aberto – ela sorri. – Desejo-lhes toda a sorte do universo. Adoraria dizer mais coisas, porém, tenho algo muito importante para fazer agora. Nos vemos em breve.

Ela tira a mão de meu ombro e se afasta. Seu brilho aumenta mais; está prestes a desaparecer. Antes que isso aconteça, fecho os olhos e me aproximo dela, me forçando a segurar sua mão.

– Espere. Você tem que me explicar algumas coisas.

O brilho de L.C se dissipa e posso abrir os olhos para mirar seu sorriso vazio.

– Pois não?

Tenho muitas dúvidas na minha cabeça e sei que ela sabe exatamente quais são. Mas nós duas queremos que eu mesma fale, então decido começar pela que é menos importante no momento.

– No refeitório do hotel, lutamos com um monstro que tinha assumido o corpo de um humano. Foi obra sua, não foi? Não são suas réplicas que têm essas habilidades evoluídas.

Minha ex-chefa inclina a cabeça e diz suavemente:

– Não é assim, querida. Para começar, eu não faço mais réplicas. Só as fiz para dar uma lição em vocês. – O jeito que ela diz isso é tão natural, como se ela desse uma “lição” em alguém todos os dias, que meu rancor por ela volta e ganha mais espaço. – E depois, minhas réplicas apenas copiavam as habilidades dos monstros originais. Elas não eram evoluídas por si próprias. O que aumenta a força de seus inimigos é a fonte deles. Mais alguma pergunta?

Espero um pouco para absorver a informação e continuo o questionamento:

– Aquele meu sonho com Liz e Elena. Você estava lá de verdade, não é? O que aquilo significava? E o que quis dizer com “vocês precisavam”?

O sorriso de Mackenzie desaparece e de repente sua expressão fica triste.

– Ah, querida. Isso é algo que faz parte de sua história e eu não posso lhe dar essa resposta agora.

– E como espera que nós descubramos uma coisa assim?

– Não. Você descobrirá isso. É algo que só você pode fazer, sozinha. Mas não se aflija. A resposta está mais perto do que parece.

Ela se afasta de mim e volta a brilhar.

– Agora, se me derem licença, tenho algo realmente importante para fazer.

Consigo fechar os olhos segundos antes de ela desaparecer daqui em um clarão capaz de cegar qualquer um.

Ninguém diz nada nem se move por algum tempo. Aproveito esse intervalo para respirar um pouco. Só agora percebo que meu braço não dói mais, e quando tiro a faixa dele, vejo que meu ferimento está completamente curado. Balanço o braço, contente por pelo menos uma coisa boa acontecer depois dessa resposta de Mackenzie. Só o que ela fez foi me deixar ainda mais tensa com essa história toda.

– E agora? – Paco indaga.

– Agora... Agora, eu preciso falar com Elena.

Isso não me agrada muito, mas ela em minha única chance. Elena é a única, além de Mackenzie, que sabe o que aconteceu em nossa primeira passagem pela Terra, e saber o que aconteceu lá ajudaria em muita coisa: entender os sonhos de Dustin e Paco, essas tais reencarnações de Elena e a permanência de sua memória em cada uma delas, e o que Lady Crystal realmente é de onde ela realmente vem. Já estamos tão acostumados com ela que nunca questionamos isso, mas parando para pensar agora, não sabemos nada sobre nossa suposta mãe.

– Elena? Como vai falar com ela? – Pergunta Dustin.

Paro para pensar. O olhar que vi na Liz de meu sonho é aquele mesmo olhar maduro que ela tem quando começa a falar coisas suspeitas, das quais ela não se lembra depois. Se Elena tiver mesmo reencarnado em Liz, sua consciência ainda está em segundo plano. Pessoalmente, eu prefiro que fique assim, mas dessa vez nós precisamos dela.

– Tenho que despertá-la em Liz – murmuro. E olho para Dustin. – Você está com seu celular?

– Está no hotel.

– Ele tem pacote de internet?

– Tem. – Dustin dá de ombros. – Não a uso faz um tempo, então ainda deve ter alguma coisa.

– Ótimo. E você tem mesmo todo mundo do colégio na sua lista de amigos do Facebook?

– Bem, não todo mundo, mas muita gente. O que está querendo fazer, Hay?

Eu paro. É isso mesmo que quero fazer? Quero mesmo correr o risco de perder Liz e deixar a consciência de Elena dominá-la? Não. Mas meu instinto diz que essa é minha única saída se quiser descobrir tudo, e resolvo segui-lo.

– Preciso falar com uma pessoa.

Notas finais
É isso, pessoal. Já sabem o procedimento: qualquer coisa, crítica construtiva, elogios, um alô, podem colocar nos comentários. Até mais!