The Safe Place
5 Capítulo 5 – Ele está aqui mesmo?
Notas iniciais
Quinta – feira. Finalmente, o fim de semana está chegando.
Levantei rapidamente para me arrumar. Hoje Emmett disse que iria ficar comigo e com as meninas durante o intervalo. Será mesmo?
Por mais estranho que pareça, cada célula do meu corpo gritava e torcia pra que sim, que ele se juntasse a nós. Mas um pequeno grupo de neurônios contraditórios dizia: “Ele só está esperando você cair na dele pra te chutar e brincar com sua cara, como todos os outros”.
Esse pequeno grupo estava vencendo.
Saí de casa vestindo meu velho jeans, tênis cinza, blusa de malha parecida com a que Carmen havia me emprestado, só que esta era branca e sem botões ou decote, e o moletom dos Lakers da Allie por cima.
Pude notar enquanto descia as escadas meu pai esparramado no sofá com um cigarro pendendo da boca e a garrafa de bebida barata no chão.
Por mim ele nem precisaria voltar para casa.
Encarei, já no ponto de ônibus, minha primeira “carona” se aproximar. Me sentei no assento da janela, encostei minha cabeça nela aumentando o volume da voz melodiosamente dramática e carregada da Lana Del Rey em Young And Beautiful, deixando meus pensamentos vagarem pra uma realidade onde eu encontraria alguém que me amasse mesmo quando eu não fosse jovem e bonita.
[...]
Sala de aula. 3º tempo.
Eu não estava mais aguentando a falação sobre conjuntos, subconjuntos, números infinitos, imaginários ou reais. A senhora Carlin consegue deixar matemática mais chata do que achei que seria possível.
Tão logo o sinal bateu e pudemos ir para a próxima classe. Inglês.
O senhor Henrick já estava na sala, escrevendo no quadro-negro, quando entrei e vi Emmett sentado numa cadeira exatamente no meio da sala.
Alice me cutucou sorrindo e eu olhei para baixo tentando não rir.
Ela e Bella haviam surtado quando contei que havíamos nos encontrado no armazém perto de casa que seus pais eram donos, que ele havia me chamado para dar uma volta pela cidade e ainda que havia me levado pra jantar na casa dele.
A baixinha surtou mais com a possibilidade de ter um amigo agora, já que disse que segundo ele iria ficar com a gente durante o intervalo. Ainda mais um amigo gato e todo forte – palavras da Alice, não minhas.
Emmett estava conversando com Jasper, mas não consegui ouvir sobre o que era. Alice e eu nos sentamos lado a lado nas ultimas carteiras e Bella na minha frente.
Quando todos estavam acomodados, Sr. Henrick começou um assunto entediante sobre verbos.
Cavei minha mochila procurando meus óculos. Sentar na última carteira dificulta enxergar o que está escrito no quadro, ainda mais quando a letra do professor é quase minúscula como do Sr. Henrick.
Coloquei no rosto a velha e simples armação retangular marrom- escura, me sentindo ridiculamente mais nerd que o normal.
Notei quando Maggie, sentada na segunda carteira, longe, mas não o suficiente, me olhou fazendo careta da insatisfeita. Depois se virou para Tanya e Mary-Kate e começou a cochichar.
Pronto, a graça com minha cara iria começar. Estávamos na metade da aula e meu posto da palhaça já estava sendo preenchido por mim com graça pelo jeito.
O professor nos indicou a página da apostila em que deveríamos fazer os exercícios e se retirou pedindo silencio e dizendo que iria até a diretoria.
–Sabe Tany, eu não entendo com alguém feia consegue ficar mais feia ainda, não acha? – Maggie falou consideravelmente alto, fazendo muitos de seus amiguinhos virarem para trás e nos encararem.
Fingi que não era comigo. Abaixei a cabeça e me concentrei nos exercícios.
–Nossa amiga, além de feia é surda. – Tanya riu.
–Pois é, meninas. Ou talvez, ela seja tão lerda que não entendeu que é com ela que estamos falando. – Essa foi Mary-Kate. – Ô lesada, é surda ou o quê? – Uma bolinha de papel atingiu minha mesa, me fazendo erguer a cabeça sobressaltada.
Bells se virou para mim, pegou a bolinha de papel e jogou no chão. Seu olhar pedia “Ignore”. Foi o que fiz. Ou tentei fazer.
–Acho que ela não vai falar com a gente hoje. Poxa, que peninha. – Maggie fez cara de desapontada, mas ainda estava rindo.
–Sabe o que é Maggie, ela se finge de inteligente, mas tá parecendo uma tapada com esses óculos ridículos. – Tanya falou fazendo grande parte da sala rir.
Algumas pessoas, as que não perdiam seus tempos nos insultando, apenas continuaram concentradas no dever.
–Acho que vocês ainda não perceberam que algumas garotas, como ela, de óculos não só parecem inteligentes como também ficam até mais bonitas. A questão é saber desvendar a beleza que tem por trás dos óculos. – Emmett se pronunciou virando de lado, para encarar Maggie e piscou.
Eu arregalei os olhos com isso. Bella e Alice se entreolharam, depois olharam para mim e começaram a rir baixinho.
–Qual é novato, não estraga a graça. – Maggie pediu, jogando os cabelos para trás e se endireitando na carteira.
–Não tem muita graça quando você fica sem argumentos, não é? – Ele falou pra ela. A sala toda estava em silencio agora, mas logo retornaram os cochichos.
Maggie não lhe respondeu, apenas deu de ombros e começou a retirar o esmalte rosa choque das unhas como se aquilo fosse a tarefa mais interessante do mundo.
Emmett se virou na cadeira, me encarando. Depois sorriu me mostrando as covinhas, e piscou pra mim.
Como ele teve coragem de cortar a brincadeirinha fútil da Maggie e amiguinhas para me defender?
Balancei na cabeça sorrindo, voltando a encarar minha apostila. O professor retornou a sala pedindo silencio para corrigir os exercícios.
Eu ainda não estava conseguindo acreditar no que houve ali quando o sinal bateu nos dando 20 minutos de intervalo.
O trio de bitches saiu primeiro da sala, sendo seguido per seus admiradores indiscutivelmente idiotas.
–Vamos comer? Meu estômago já está devorando meu rim, gente. – Allie comentou enquanto guardávamos nosso material de volta na mochila.
–Como se isso fosse possível! – Bella comentou e caímos na risada. Só havia nós mesmos na sala, podíamos nos divertir um pouco né?!
–Tá ok, você vai à cantina Alice? – perguntei.
–Vou sim, preciso pegar algo decente e saudável. Tipo um hambúrguer gigante. – outra vez nós gargalhamos.
–Como pode ser tão pequena e comer tanto? – Perguntei a Bella quando Alice saiu da sala.
–Não faço ideia.
Sentamos em nossos lugares e ficamos esperando Allie voltar. Bells abriu um saco de batatas fritas e me ofereceu. Virei-me para ela e comecei a comer. Ela estava totalmente concentrada num livro e comia sem nem olhar para o lanche. Não quis ficar apenas olhando, resolvi pegar o celular e colocar os fones de ouvido.
Escolhi uma música da minha infinita playlist. Lana Del Rey obviamente. Enquanto ouvia uma das poucas músicas mais animadas, digamos assim, curtindo o ritmo de Lolita com os olhos fechados, senti alguém me cutucar.
–O que foi Bella? – perguntei abrindo os olhos.
–Viu, eu não disse que Lana Del Rey deixa ela fora de órbita? – ela comentou com alguém atrás de mim.
Virei o corpo para encarar com quem Bella falava e só quis enfiar minha cabeça num buraco quando vi Emmett sorrindo atrás de mim.
–É eu percebi, te chamei umas dez vezes Rosalie. – ele riu, puxou a carteira do meu lado e se sentou. – Estava procurando vocês pelo colégio todo. Eu saí com o pessoal quando o sinal bateu e achei que vocês tinham saído junto.
–Não, só a Allie saiu pra comprar comida. – Isabella respondeu.
Eu ainda estava encarando seu rosto. Ele estava mesmo ali? Deveria, porque Bella também o estava vendo. Não era mais uma peça que minha imaginação estava pregando. A não ser que eu estivesse dormindo e sonhando.
–Rose?! – Bella puxou um dos fones de ouvido e eu despertei.
–O que você está fazendo aqui? – perguntei ainda sem acreditar.
–Eu te disse que ia ficar com vocês no intervalo, não disse? Então. A menos que queira que eu saia... – ele deixou a frase morrer.
Seus olhos verdes cristalinos pedindo para que eu abaixasse a guarda e o deixasse se aproximar.
–Não, não. Claro que pode ficar. Só que... Ah, sei lá. Não estava acreditando mesmo que você fosse... – nem consegui terminar o que diria. A voz altamente aguda de Alice me cortou.
–Ah meu Deus, ele está aqui mesmo?!
–Não, é o fantasma do aluno novo. Búuu... – Bella fez ‘’barulhinho de fantasma’’ e tremeu os dedos, tirando sarro da baixinha.
–Af Bella, pare de ser chata. – Allie resmungou se aproximando. Ela se sentou na carteira ao lado de Bella e começou a devorar seu lanche.
–Então, ficou tudo bem com você Alice? Sabe, depois do incidente no banheiro. – Emmett perguntou olhando para ela.
–Ficou sim, estou ótima. – ela deu um sorriso meio sem graça. – Obrigado.
Bella voltou a dar total atenção a seu livro e Alice a comida. Emmett e eu ficamos em silencio. Eu não sabia o que dizer. Há dois minutos nem acreditava que ele estava ali mesmo. Ouvi-o coçar a garganta, talvez um tanto desconcertado, ou só quisesse puxar conversa. Mas eu não sabia por onde começar.
–E aí, quem é essa Lana do Rei, ou seja lá o que for, que te deixa em outro mundo praticamente? – perguntou quebrando o silencio.
–É só uma cantora bêbada depressiva. Acredite em mim quando digo que você vai dormir se escutar qualquer música dessa daí. – Alice falou dando de ombros. A fuzilei com os olhos e ela voltou a comer, desviando o olhar para janela.
–Escute aqui dona Alice Brandon, jamais subestime a genialidade musical de uma rainha, ok? Você que não compreende a musicalidade dela. É tudo tão.. Profundo. Me acalma. – expliquei.
–Dá sono. – ela resmungou.
–Vocês duas, quantas vezes eu vou ter que repetir que gosto cada um tem o seu?
–Exato. No meu caso, prefiro o velho e alto rock and roll. – Emmett comentou.
–Ah você é dos meus então. – Bells sorriu e Emmett levantou a mão fazendo-a bater a dela contra a sua. Até parecia amigos faz tempo.
–Rock me dá dor de cabeça. – revirei os olhos.
–E Lana Del Rey me dá sono. – Alice falou rindo, outra vez, me irritando.
–E One Direction é infantil. – Bella comentou e eu ri da cara de indignação que Allie fez.
–Jamais fale isso dos meus meninos, ok? – Ela ameaçou.
–Eles são tão gays! – Emmett riu.
–Não são nada. – Alice negou.
–Ah são sim, super! – Bells confirmou rindo. Emmett e ela caíram na risada coma cara de insatisfeita que Alice fez.
–Tá bom, já chega. Vocês vão fazer a minha baixinha chorar. – Fui até Allie e abracei. – Viu como é chato quando discutem sobre algo que você gosta?
–É, é, tem razão. Desculpe Rosie. – ela pediu e eu beijei sua bochecha.
–Ah Emmett, a blusa da sua mãe ficou na minha casa. Me esqueci de trazê-la, desculpe. Posso levar lá mais tarde? – perguntei.
–Eu posso ir buscar na sua casa quando sairmos.
Fiquei meio indecisa se seria mesmo uma boa ideia deixá-lo ir até minha casa. Bom, eu não precisava entrar, então não veria meu pai. Hesitei, mas acabei aceitando.
–Tá, pode sim. – me sentei outra vez em meu lugar.
Alice continuou comendo, agora ouvindo música também. Bella voltou atenção total para o livro e Emmett resolveu dividir os fones de ouvido comigo. Coloquei para tocar ‘Carmen’, só para ver o que ele achava da música que tinha o nome da mãe dele.
–É bom sim. – falou depois de uns minutos em silêncio.
–É incrível, umas das minhas favoritas. – sorri, o encarando.
Então nossos olhares se prenderam e, novamente, senti aquele estranho conforto que até agora só ele provocava. Acho que me perdi em seus olhos verdes, porque só me dei conta de sua aproximação quando seu hálito adocicado bateu contra meu rosto. Soltei um suspiro baixo e fechei os olhos. Acontecesse o que tivesse que acontecer, se eu fechasse os olhos poderia aproveitar mais.
Senti os dedos de Emmett acariciando minha bochecha. Talvez eu estivesse vermelha por estar com um garoto perfeito e minhas duas melhores amigas na sala.
E quando pensei que finalmente o beijo viria...
–Hey novato! – abri os olhos subitamente vendo Maggie e as amiguinhas entrando na sala. –O que está fazendo com essas perdedoras? – ela se aproximou e eu revirei os olhos.
Emmett tirou um dos fones e me entregou, depois de virou para ela.
–O que é? – perguntou sem a menor vontade.
–Vem a galera do time quer falar com você sobre o teste. – Ela puxou ele pela mão. Vi Emmett me lançar um olhar que pedia desculpas e depois ser arrastado de um lado por Maggie e do outro por Mary-Kate.
Enfim, eu sabia que mais cedo ou mais tarde elas viriam atrás dela. Alegria de pobre dura pouco!
Minutos depois o sinal bateu e a turma entrou nada animada, seguida pelo professor.
A aula de inglês continuaria ali, por isso nem saímos da sala. A turma de alunos entrou e cada um foi para seu lugar agitados e falantes. O professor pediu silencio e continuou o assunto entediante sobre verbos.
Emmett, de volta a sua carteira, sempre virava para poder me encarar. Ele sorria e eu sorria de volta sem jeito, balançava a cabeça e abaixava o olhar para o caderno. Quando voltava a olhá-lo ele ainda estava lá, sorrindo com aquelas covinhas fofas nas bochechas para mim.
Em certo momento meu olhar cruzou com o de Maggie e pude ver a raiva que transparecia em seus olhos azuis. Eu a estava a irritando simplesmente pelo fato de Emmett estar olhando pra mim. Ela não deixaria isso barato, deixaria?
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