The Safe Place
4 Capítulo 4 – Família. Cuidados
Notas iniciais
–Então você estuda na Forks High School há quase três anos? – O pai de Emmett me perguntou.
Eu quase não conseguia me concentrar em suas palavras. O sabor irresistível daquela carne com batatas estava tomando conta de mim. Há quanto tempo não comia algo tão saboroso como aquilo?
–Ouvi dizer que os professores são ótimos. – ele continuou. Balancei a cabeça positivamente engolindo.
–São sim. Estudo lá desde o primeiro ano do ensino médio e não tenho do que reclamar. – confirmei.
– Então querida, como são seus pais? Você podia voltar aqui qualquer dia e trazê-los também. – Carmen sorriu docemente e eu fiquei triste em ter que desanimá-la.
–Mãe, ela não gosta de falar desse assunto. – Emmett cortou me deixando sem graça. Abaixei a cabeça, limpando a boca com o guardanapo.
–Porque não? Eu disse algo errado? – ela logo se preocupou. Voltei a encará-la.
–Não, tudo bem. É que minha mãe foi embora há três anos e família não é um dos meus assuntos favoritos. – expliquei envergonhada.
–Ah querida, me desculpe. – Carmen passou a mão sobre a mesa, segurando a minha. Senti de novo aquela sensação deliciosa de familiaridade, de união. Porque minha casa não podia ter esse clima tão reconfortante?
–Tudo bem, não faz mal. Já nem ligo mais pra isso. Com tempo a gente se acostuma, sebe. – me amaldiçoei mentalmente por ter dito isso. Era como se eu estivesse me fazendo de coitadinha e odiava a sensação de pena voltada a mim.
Eu não era digna de pena. Talvez se eu fosse uma filha melhor meu pai não fizesse o que faz comigo, talvez se eu fosse uma pessoa menos antissocial o pessoal no colégio me tratasse melhor. Se eu era a culpada pelo meu próprio sofrimento então não merecia pena, certo?
Vi o olhar de tristeza de Carmen e me senti pior ainda.
–Ah gente, me desculpe. Eu não... Eu não gosto de me fazer de coitada. Por favor, desculpe. – tentei consertar meu momento de fraqueza. Abaixei a cabeça encarando minhas mãos, mexendo os dedos nervosamente.
–Não tem que se desculpar, em nenhum momento você se fez coitada, querida. Sei como isso deve doer, pode desabafar se quiser tudo bem? – A mãe de Emmett se levantou vindo em minha direção. Me abraçou delicadamente e nunca me senti tão bem nos braços de uma pessoa quase estranha pra mim. Era como abraçar minha mãe novamente.
–Obrigada dona Carmen. – falei quando me soltou, envolvendo suas macias e delicadas mãos nas minhas.
–Nada de dona, mocinha. – ela riu.
–Desculpe. – murmurei, acho que corando.
–Ela tem o péssimo hábito de se desculpar a cada frase dita. – Emmett comentou sorrindo. – É uma boba mesmo. – ele brincou, me fazendo rir de leve, ainda encarando minhas mãos e as de Carmen juntas.
–Filho, não fala assim. – a mãe dele o censurou.
–Ela sabe que estou brincando, não né Rosalie?! – ele riu bagunçando meus cabelos.
Depois do jantar, Emmett insistiu em mostrar todo restante da casa. Isso é o andar de cima.
O quarto dele era uma completa desordem. Até o meu, com as colchas e travesseiros velhos, estava mais organizado e apresentável que o dele.
–Nossa, passou um furacão por aqui? – perguntei da porta. Ele riu, entrando e sentando na cama. Continuei na porta.
–Digamos que eu ainda esteja me organizando. – se jogou na cama, encarando o teto, com as mãos atrás da cabeça.
– E essa organização vai demorar quantos anos? – perguntei rindo.
–Que garota mais implicante você. – ele pareceu sério e achei que tinha estragado algo entre nós nem sequer havia começado direito.
–Eu estava brincando. Des... – Nem pude terminar de falar e um travesseiro atingiu meu rosto em cheio. – Ei!
–Toda vez que você se desculpar vou jogar algo em você, ok? – ele brincou, mas no fundo parecia querer dizer que realmente faria isso.
–Ok, ok. — me dei por vencida.
Descemos e fomos assistir um pouco de TV. Estava passando Premonição 3, minha série de filmes favoritos. E por incrível que pareça a de Emmett também.
–Que coisa extremamente nojenta, não é? Incrível! – Ele falou empolgado, quando a garota ruiva do filme teve pregos disparados na cabeça e o sangue começou a escorrer por sua boca.
–Já assistiu o ‘5’? Depois que vi fiquei com trauma de fazer cirurgia ocular. O laser queima os olhos da garota. Eu é que não sou louca de fazer isso, vai que o médico me deixa sozinha lá como fez com ela e a morte vem me visitar? – falei e ele riu.
–E porque você precisaria fazer uma cirurgia desse tipo?
–Eu não preciso, mas poderia se quisesse. Eu uso óculos e posso fazer a cirurgia a laser para descartá-los de uma vez. Mas obviamente não vou fazer. – Eu ri, escondendo o real motivo de não poder fazer tal cirurgia. Era cara demais, nunca arrumaria o dinheiro. Não agora. Talvez um dia quando tivesse trabalhando...
–Sério que usa óculos? – assenti. – Tá aí uma coisa que quero ver. – ele sorriu me encarando.
–Vai ver amanhã na aula. Mas quase nunca uso. Me sinto mais ridícula que o normal com eles. – Revirei os olhos.
–Impossível você parecer ridícula. – Emmett falou abrindo um sorriso encantador pra mim. As covinhas marcando as bochechas. Outra vez a vontade imensa de apertá-las surgiu e eu a dominei.
Voltei a encarar a televisão, um tanto sem graça pelo que ele disse.
Alguns minutos depois Carmen nos trouxe pipoca coberta de leite condensado. A empolgação de Emmett pela guloseima foi tanta que ele acabou batendo no em minha mão e derramando refrigerante em minha blusa.
Dessa vez foi ele quem disparou um pedido de desculpas pra mim e Carmen acabou o repreendendo por ser tão afobado.
–Tudo bem, não foi culpa dele. – Falei, não querendo que ele levasse bronca por uma coisa tão boba como refrigerante em minha blusa velha.
–Vem querida, vou te dar uma blusa seca pra vestir. – Carmen pegou minha mão, me puxando do sofá.
–Não, não precisa. Está tudo bem, de verdade. – neguei não querendo incomodar outra vez. Poxa, eu só dou trabalho para as pessoas.
–Aceita logo, Rosalie, estou em sentido culpado. – Emmett disse cruzando os braços na frente do corpo. Revirei os olhos e subi as escadas em direção ao quarto de Carmen com ela.
–Toma aqui, é a menor que eu tenho, acho que vai ficar certinha em você. – ela me passou uma blusa azul escura de malha com mangas cumpridas e quatro botões na gola que fechavam um pequeno decote em V. – Vou sair pra você se trocar.
–Obrigado. – agradeci, me virando enquanto ela fechava a porta atrás de si.
Encarei a porta para ter certeza de que ninguém veria. Tirei rapidamente a blusa molhada. Havia um espelho grande o suficiente para e ver meu corpo todo. Parei, analisando as marcas nos meus braços e costas. Todos os hematomas roxos, só um atrás do pescoço, o mais recente, ainda vermelho.
Porque isso tinha que acontecer, não queria ficar sendo toda marcada pelo resto da vida. Não poderia usar um biquíni se fosse numa piscina, não poderia usar blusas sem manga, pois as marcas nos braços ficariam expostas. Também nunca arrumaria um namorado, afinal quem ia querer desfilar por aí com uma garota cheia de manchas roxas pelo corpo?
–Rosalie, você já... Ah meu Deus! – Estava tão perdida em meus pensamentos ridículos sobre minha realidade que não notei quando Carmem colocou a cabeça por uma fresta da porta querendo saber se eu já havia terminado.
Arregalei os olhos tentando cobrir o máximo do meu corpo estendendo a blusa na minha frente.
–Querida, o que aconteceu? – ela perguntou se aproximando. Recuei alguns passos, visivelmente com medo. Não com medo dela. Medo do que ela fosse pensar. – Rose, eu não vou te machucar.
–Eu sei Carmen, me desculpe. – Passei a gola da blusa o mais rápido que pude, vestindo-a completamente. Só então notei que ela havia me chamado de Rose, como fazia a mamãe e agora as meninas.
Ela se aproximou, tirando meus cabelos, que ficaram presos, de dentro na gola. Segurou em minha mão, tentando sustentar meu olhar. Suspirei pesadamente sabendo que começaria um interrogatório que queria evitar.
–Eu caí da escada. Está tudo bem. – menti.
–Caiu da escada? Tem certeza? – Ela arqueou uma sobrancelha, não acreditando realmente no que eu lhe dissera. Eu assenti, encarando o chão. – Está certo, quer que eu cuide disso? Tem uma pomada pra hematomas em algum lugar por aqui. – ela me largou, indo procurar a tal pomada em uma gaveta no criado ao lado da cama.
Quando a encontrou, voltou até mim, me fazendo sentar na cama. Jogou meus cabelos de lado, começando a erguer a parte de baixo da blusa que eu vestia.
–Por favor... – murmurei balançando a cabeça negativamente, tocando sua mão para que parasse. Não queria que ela visse que ela tocasse me fazendo sentir mais dor. Não era sua obrigação cuidar de mim.
–Tudo bem querida, eu só quero te ajudar. Não vou dizer nada sobre isso, não se preocupe. Se doer você me fala, tá bom? – Seus olhos doces pediam para que a deixasse fazer aquilo. Cedi. Ela era boa demais.
Carmen passou a pomada em cada um dos hematomas. Tentei não reclamar, mas cada toque, por mais delicado que fosse em cada machinha rocha parecia ser insuportável. Como se ela estivesse cutucando com um lápis exatamente nos locais onde estavam machucados.
Quando ela terminou, abaixou de volta minha blusa e guardou a pomada.
Descemos em silencio as escadas. Eu só sentia seu olhar carinhoso em minha direção. Como pode alguém me conhecer a apenas algumas horas e me tratar tão bem assim?
–Poxa, vocês demoraram. O filme acabou. – Emmett falou olhando para trás, se endireitando no sofá.
–Estávamos conversando lá em cima, não é Rosalie? – Carmen me olhou sorrindo, depois deu uma piscadinha de leve. Assenti lhe sorrindo, porém um tanto preocupada.
–Eu já vou indo, muito obrigado por tudo gente. – agradeci.
Precisava sair dali e respirar um pouco. Esse carinho todo, vindo de estranhos, estava tomando conta de mim. Quase que me sufocando. Só que de uma maneira tão boa que não ligaria de morrer ali.
–Meu pai te leva pera aí que vou chamá-lo. – Emmett voou do sofá nem me deixando negar.
Depois de muita insistência, eu estava no banco de trás do carro do senhor Eleazar, com Emmett no do carona e o pai dirigindo.
Completamente envergonhada indiquei qual era minha casa quando o Volvo preto entrou na minha rua. Agradeci por não ter ninguém por ali. O que os vizinhos fofoqueiros iriam dizer se me vissem sair de um carro desses com dois homens dentro?
Agradeci por tudo mais uma vez e entrei em casa rapidamente. Naquela noite me afundei na cama, deixando que o carinho de Carmen, quase como o de minha mãe, embalasse meus pensamentos, me levando pra uma realidade feliz, bem longe dali.
Fale com o autor