The Roommate
20 The Taste That Your Lips Allow-Pt. 2
Notas iniciais
A churrascaria era bem elegante, porém não havia um espaço com uma cor que fosse clara. Tudo era decorado com tons escuros. A coisa mais clara que havia por lá era o uniforme dos garçons, que se vestiam todos de branco e cinza claro. A iluminação do lugar era suave e estratégica em algumas mesas. O maître, um rapaz negro alto e de sorriso caloroso, indicou a mesa que eu havia reservado para aquele jantar com Logan. Logo que sentamos, o rapaz nos entregou os cardápios e já começou a falar.
—Já sabem o que pedir? Ou se quiser, posso indicar o especial de hoje.
—Não precisa, está tudo bem. –Logan sorriu- Ainda vamos decidir o que pedir...
—Bom, poderia nos trazer um vinho? –Perguntei, olhando para Logan, meio que querendo saber se estava tudo bem pra ele. Ele assentiu e eu continuei- Se tiver um pinot ou um merlot seria ótimo.
—Claro, providenciarei em breve. –O maître falou antes de se retirar.
—Eu... –Comecei a falar, de repente me sentindo muito tímido. Balancei a cabeça rapidamente. Eu tinha que tomar controle daquela situação. Só sou eu e Logan saindo pra jantar. Nada de mais... Se eu não estivesse completamente encantado por ele- Eu não sabia... Se você gostava de vinho, então...
—Bom, eu não sabia que conhecia de vinhos. –Logan falou, colocando o cardápio de lado.
—Minha mãe. –Falei, sorrindo. Logan sabia que minha mãe era dona do restaurante da família do meu pai. Eu havia contado isso pra ele já fazia um tempinho- Quando eu ainda estava no ensino médio eu trabalhava em meio período no restaurante, arrumando a adega de vinhos e tudo mais. Foi ela quem me ensinou sobre a diferença das uvas e tudo mais.
—Quanto mais eu ouço da sua mãe, mais acho que ela é incrível. –Logan falou- E a sua irmã, ela também ajuda no restaurante?
—Katie praticamente nasceu naquele restaurante. –Sorri, lembrando da minha irmã- Esse é o último ano que ela vai trabalhar no restaurante. Depois ela vai para New Hampshire. Programa de honra dos calouros de Dartmouth.
—Sua irmã foi aceita em Dartmouth? –Logan arregalou os olhos.
—Com honras, aquela pestinha. Vai fazer só um ano de colegial, sortuda. –Murmurei- Ela vai fazer economia, ganhou uma bolsa de estudos. Não deram 100% de bolsa, mas é o bastante pra ela não mexer no fundo de faculdade dela por um bom tempo.
—E você foi para a Estadual de Minnesota... –Logan falou, erguendo a sobrancelha.
—Exatamente. Eu era bom aluno, mas não bom aluno o bastante pra conseguir bolsa em uma universidade da Ivy League. –Falei, dando de ombros- Eu só consegui bolsa na Estadual de Minnesota por causa do hockey. Claro que não é muita coisa, e eu acabei fazendo administração, o que não foi tão ruim assim, se for pensar bem, mas...
—Hey, não se menospreze. Pelo menos você completou os estudos e ainda pôde ir atrás do que você queria sem nenhum problema. –Logan falou- Sabia que eu tinha sido aceito para estudar em Yale?
—Yale? –Agora era a minha vez de arregalar os olhos- Você foi aceito em Yale?
—Fui, mas acabei trancando tudo antes mesmo de começar... –Logan olhou pra baixo, mordendo o interior da bochecha- Longa história, nada que valha a pena contar agora.
—Bom, quando decidir contar... –Dei de ombros- Saiba que sou um bom ouvinte.
—Eu vou tentar me lembrar disso. –Logan sorriu, voltando ao clima leve de antes.
Um dos garçons nos trouxera uma garrafa de pinot noir e já aproveitamos que ele estava lá para pedirmos nossa comida. Logan meio que me assustara no pedido, já que ele havia pedido carne mal passada, mas quem era eu pra falar do ponto da carne de alguém? Eu pedi a minha super bem passada e ganhei o mesmo olhar de que porra é essa? do Logan. Me deu vontade de rir.
—Do que tá rindo?
—Da sua cara. –Falei entre risadas- Eu queria poder ter tirado uma foto.
—Tá bom, e queria que eu tivesse feito que cara? –Logan perguntou- Ainda bem que você pediu molho, por que seria difícil comer uma carne dessas sem nada.
—E você hein, vampirinho? –Falei, ainda me recuperando das risadas- Carne mal passada?
—Coisa de família. –Logan deu de ombros- Além disso, carne mal passada não tem sangue. Carne bovina sempre tem 80% do sangue retirado na hora do abate. Claro que ás vezes pode ter sangue, mas é muito pouco. O que realmente sai da carne é água e mioglobina...
Logan parou de falar, olhando pra mim. Eu simplesmente estava paralisado. Como ele sabia de coisas assim? Ele olhou pra baixo, arrumando o guardanapo na mesa, sem graça.
—Às vezes eu retenho o que muita gente classificaria como informação inútil. –Logan deu de ombros, os olhos ainda fixos na mesa- É o que acontece quando sua família te incentiva a ser um nerd antes mesmo de sair das fraldas...
—Eu gosto de informação inútil. –Falei depois de dar um gole do meu vinho- Eu sei de tanta coisa sobre filmes que eu ganharia um jogo de Trívia facilmente.
—Bom saber que não estou sozinho nessa. –Logan ergueu a cabeça, sorrindo, enquanto pegava a taça de vinho e levantava- À cultura inútil.
—À nós, colecionadores de informação inútil. –Ri enquanto batia minha taça na dele de leve, e logo depois dando um gole rápido do meu vinho.
Algum tempo depois, quando estávamos na metade dos nossos pratos, começamos a conversar, sobre tudo e sobre nada. Logan me contava sobre a vida dele quando ele ainda morava no Texas, e mesmo para um cara que quase se isolou a adolescência inteira, ele tinha muitas histórias interessantes pra me contar. Logan era um espectador e tanto da vida social dos antigos colegas de colégio. E não, isso não faz dele um fofoqueiro curioso. Eu também era bem atento ao que acontecia com meus amigos no meu antigo colégio, mas isso não significava que eu ia espalhar pros quatro ventos. Até onde eu podia sentir, eu era a primeira pessoa pra quem Logan me contava aquilo.
Já eu contava sobre as minhas histórias do colégio, os planos malucos em que Katie me fazia ajudá-la por livre e espontânea pressão, os planos malucos que eu metia a Katie no meio, os clientes bizarros que tive que atender no restaurante da minha mãe. Eu não me lembro de ter rido e falado tanto na minha vida. E saber que eu também estava fazendo Logan rir era algo importante pra mim.
Nós já tínhamos acabado de comer e a garrafa de vinho já estava no fim quando começamos a perguntar coisas mais pessoais. Bom, Logan começou a perguntar.
—Eu queria saber uma coisa... –Logan começou, seu indicador desenhava algo aleatório na condensação que ficou na garrafa de vinho- Eu vou entender se não quiser me responder, é que eu fiquei curioso.
—Vá em frente. –Falei, virando a minha taça em um último gole- Pergunte.
—Quando você soube que... Que você era gay? –Ele terminou a pergunta olhando pra mim. Seus olhos castanhos carregavam uma intensidade que parecia me atrair pra mais perto dele. Tive que conter minha vontade de beijá-lo (dessa vez não parecia ter tanto esforço. Acho que tantos dias tentando me controlar perto do Logan fez com essa reação fosse quase automática) e limpei a garganta antes de responder.
—Quando eu tinha uns 11 anos. –Falei, sem hesitar- Bom, eu acho que até antes disso, mas eu só me dei conta de quem eu realmente era quando eu tinha 11 anos. Foi a época que eu tive minha primeira paixonite. –Suspirei, lembrando daquela época, quando eu era só um pirralho idiota- O nome dele era Henry Johansson, e ele era atacante no time de hockey infantil. Eu sinceramente não sabia o que me atraía nele. Ele não era o garoto mais bonito do colégio, mas com certeza era o mais popular, por ser do time de hockey e tal.
—Ele foi seu primeiro beijo também? –Logan perguntou, mexendo a faca no prato distraidamente. Eu podia estar errado, mas eu podia detectar algo na voz do Logan. Ele estava... Com ciúmes? De algo que aconteceu na minha pré-adolescência?
—Foi. Aconteceu na semifinal do campeonato infantil. Só tinha ele e eu na saída do vestiário. Eu estava saindo na frente do Henry quando ele me puxou pra trás e me beijou, do nada. –Comecei a rir. Agora, vendo isso, eu achava bem mais hilário do que achava quando tinha 11 anos- Depois que o beijo terminou, Henry ficou todo tímido, sem saber o que fazer, mas ele confessou que tinha uma quedinha por mim e me convidou para o baile de inverno do 5º ano, logo depois das férias de fim de ano. Duas semanas depois do réveillon descobri que os pais do Henry iriam se mudar pra Utah. Depois disso nunca mais vi ele.
—E ele nem te avisou? Quer dizer, vocês dois eram amigos antes disso tudo, uma ligada pra pelo menos informar do que tava acontecendo já seria uma boa. –Logan parecia meio revoltado, mas tentava parecer indiferente. Eu lutei contra a minha vontade de sorrir. Logan no modo Kendall defense era tão fofo...
—Pois é, mas sei lá. Acho que foi até melhor assim. Ficar com alguém sem saber direito o que me atrai na pessoa me parece meio uma furada. –Falei, mexendo na taça- Enfim, quando eu entrei no ensino médio decidi contar pra minha mãe e pra Katie sobre minha orientação sexual. Minha mãe ficou em choque por um tempo, tentando absorver a informação. Katie também ficou surpresa, mas logo ela se manifestou, dizendo que me apoiaria em tudo que precisasse e, palavras dela, “obliteraria qualquer um que fizesse sofrer, romanticamente ou não”. –Comecei a rir, lembrando de como a Katie também entrara no modo Kendall defense quando me abri- Minha mãe ficou calada o resto do dia, o que me preocupou bastante. Só falava comigo no restaurante, quando me informava sobre os pedidos e tudo mais. Só quando foi de noite ela resolveu conversar comigo. Ela quis saber praticamente tudo. Desde quando eu sabia o que eu era, se eu já tinha beijado alguém, se eu ainda era virgem... É, essa última parte da conversa me deixou meio constrangido.
—E você é virgem, Kendall? –Logan perguntou, arqueando uma das sobrancelhas, sorrindo diabolicamente.
—Enfim, eu contei pra minha mãe tudo que ela precisava saber. –Continuei a história, claramente me desviando da pergunta do Logan- Ela me disse... Bom, o que eu já sabia desde o começo, que minha vida sendo o que eu sou seria complicada, que vão ter pessoas nesse mundo que não entendem ou não aceitam o que eu sou, mas ela também disse que estaria do meu lado, se eu precisasse dela. Acho que nunca na minha vida recebi um abraço tão apertado da minha mãe quando naquele dia. A não ser talvez quando eu estava no aeroporto vindo pra cá...
Meus olhos encontraram com os do Logan. Ele me olhava com um misto de entendimento e carinho. Naquele momento, eu podia ter certeza. Não era só atração física o que eu sentia por ele.
Eu estava apaixonado por Logan Mitchell.
E a realidade daquilo me atingiu em cheio.
—Você tem muita sorte... –Logan falou, chegando um pouco mais perto- Ter uma família que te apoia.
—Tá me dizendo que sua família não te apoiaria? –Perguntei.
—Não, não é bem isso. –Ele balançou a cabeça- Meus pais são até mais mente aberta do que 90% da população texana. Nem parece que são de lá ás vezes. –Logan riu- É só que sempre tem o medo de contar...
—Contar o quê? –Encorajei.
—Bom, não tenho tanta certeza... –Logan hesitou- Quer dizer, meus pais nunca me viram com ninguém. Garoto ou garota.
Eu até podia entender a hesitação dele. Forçar Logan a sair do armário não seria uma atitude legal minha. Apesar que eu reparei que ele havia dito “garoto” antes de “garota”. Hmmmm...
—Sério? Você nunca namorou? –Perguntei, um tanto incrédulo. Logan assentiu tímido, de cabeça baixa. Quis tanto encher a cara dele de beijos. Ele tímido era um ponto fraco meu- Nunca teve ninguém por quem você se interessou?
—Não no Texas, eu garanto. –Logan levantou a cabeça, lançando um sorriso em minha direção. De repente fiquei meio sem jeito, sem saber o que fazer. Era estranho pra mim, por que eu sempre sabia o que fazer. Logan sabia como me desarmar completamente.
—O que acha de pedirmos a conta? –Falei, pegando a carteira- Temos um rink de patinação esperando por nós. E eu pago a conta.
—Tem certeza? –Logan perguntou, fazendo menção de pegar a carteira- Podemos pagar meio a meio...
—Absoluta. –Falei, levantando a mão para chamar a atenção do garçom- Eu te chamei pra sair, é mais justo que eu pague a conta.
—Tudo bem. –Logan deu de ombros- Mas na próxima vez, eu quero pagar. Combinado?
Tentei fazer meu coração ficar quieto dentro do meu peito. Haveria uma próxima vez.
—Combinado. –Respondi, sem consegui esconder meu sorriso.
O rink de patinação até que estava movimentado pra uma terça feira. Não estava entupido de gente, mas pra um dia de semana tinha um movimento até incomum. Logan e eu achamos uma mesa perto do balcão de aluguel dos patins e ficamos conversando mais um pouco (como se nós não tivéssemos conversado a noite toda, mas eu não ligava), dando um tempo para a comida assentar. Eu estava ouvindo Logan contar sobre quando ele e os primos dele quase quebraram a perna no lago do acampamento onde eles passavam as férias de verão quando uma voz de garota vindo do balcão nos interrompeu.
—Vocês não são os novatos do Palm Woods?
Nos viramos pra ver e nos surpreendemos ao ver a Jennifer morena vestida com o uniforme vermelho e branco do rink. Tive que fazer um esforço pra lembrar do sobrenome dela. Masterson. Eu acho.
—E você é uma das Jennifers. –Falei, ainda meio atônito. Se uma das Jennifers estava falando com a gente podia ser um bom ou mau sinal- Masterson, não é?
—É sim. –Falou, revirando os olhos- O que estão fazendo aqui?
—Só estamos aproveitando a noite. –Logan falou, apontando ele e eu- Você trabalha aqui?
—Só de vez em quando. –Jennifer falou, dando de ombros- É um trabalho freelance. Não me dá tanto dinheiro quanto aparecer em uma ponta no seriado ou ser a protagonista de um videoclipe, mas é legal. E eu gosto desse lugar. Dá pra dar uma esfriada na cabeça. Sem trocadilho. –Ela finalizou, rindo e dando uma piscada para nós- Já querem pedir os patins ou vão ficar conversando?
—O que me diz, Logie? –Me virei para Logan, que ficou vermelho- Quer ver se ainda sabe patinar no gelo, cowboy?
—Me diga você, superpato. –Ele me respondeu, me dando uma piscada e me fazendo rir. É, ele tinha pego essa referência lá do fundo do baú- Vamos lá.
Demos o número dos nossos calçados para Jennifer e logo ela trouxe nossos patins. Logan pegou o par dele e se sentou na nossa mesa para colocá-lo. Eu já ia pegar a carteira para pagar a hora da nossa permanência no rink, mas Jennifer colocou a mão no meu braço e balançou a cabeça.
—Não precisa pagar agora. –Ela falou- Vai se divertir com o bonitinho na pista de gelo, depois você pode pagar pelo tempo que ficaram.
—Valeu, Jennifer. –Agradeci, pegando meus patins. Se as outras Jennifers fossem como essa Jennifer, não seria tão ruim ser amigo delas.
De patins colocados, começamos a caminhar com cuidado até o rink. Fui o primeiro a chegar no gelo e comecei a arranhar minha lâminas no gelo. O barulho do gelo embaixo dos meus pés era um som nostálgico e bem vindo. Fazia uns dois anos desde a última vez que patinei, e sensação de voltar a patinar era quase libertadora. E poder fazer isso com o Logan... Sei lá, me pareceu ser mais especial ainda.
—Tá tudo bem aí? –Senti a mão do Logan tocar meu ombro, me fazendo pular por um segundo. Estava tão distraído com o fato de que eu estava de volta no gelo que até me assustei- Eu já estou pronto. Quer dar uma volta pra dar uma aquecida?
—Claro. –Sorri e estendi a mão pra ele- Vem comigo?
Logan estendeu a mão, meio hesitante, e segurou a minha. Meu sorriso aumentou enquanto eu puxava Logan para o centro da pista.
Alguns segundos depois já estávamos bem no meio da pista de patinação. A galera que patinava por lá preferia ficar nos cantos, tendo algum apoio para se segurar em uma possível queda, mas eu era um garoto de Minnesota, praticamente nasci no gelo. O mesmo não podia ser dito de Logan, que parecia tremer.
—Tá com frio?
—Não... –Logan murmurou- É que tô meio inseguro de ficar aqui no meio...
—Não tenha medo. –Falei- Eu tô bem aqui. Se segure em mim se sentir que está caindo, tá?
—Okay... –Logan assentiu, tentando ficar de frente para mim e se segurando nos meus braços. Respirei fundo e fiz um sinal com a cabeça de que iríamos começar a patinar. Fui deslizando para trás e puxando Logan de leve pra perto de mim. Os patins dele começaram a deslizar no gelo, hesitantes a princípio, mas logo eles ganharam firmeza e deslizavam junto comigo.
Rodeamos pelo meio da pista, rindo a ponto de quase chorar. Até me atrevi a fazer Logan girar e ele entrou na onda, ficando em um pé só e fazendo pose de bailarina, e logo depois se segurando de volta em mim, rindo como uma criança na noite de Natal.
Uma meia hora depois Logan se sentiu mais seguro pra patinar e se soltou dos meus braços, mas uma das suas mãos desceu para a minha mão. Eu olhei para nossas mãos juntas e meu coração batia acelerado dentro do meu peito. Com tudo aquilo eu nem tinha percebido que a lâmina de um dos meus patins havia se prendido em alguma fissura no gelo, me fazendo perder o equilíbrio. Acabei caindo e puxando Logan junto. Senti minha cabeça bater no gelo, me fazendo fechar os olhos por um bom tempo pra me recuperar. Quando abri os olhos, vi o rosto de Logan bem perto do meu. Eu nem tinha sentido ele cair em cima de mim. A dor na minha cabeça tinha me distraído disso.
—Você tá bem? –Logan me perguntou, sua voz baixa, preocupada- A cabeça dói?
—Eu acho que tô bem. –Na verdade mais do que bem– Eu sou um pouco cabeça dura.
—Acho melhor eu... Eu sair de cima de você... –Logan falou, meio sem jeito- Eu devo estar te esmagando...
Minha mente trabalhava rápido, talvez pela batida ou sei lá. Eu só consegui me lembrar do que Jo me dissera havia algum tempo sobre tomar uma atitude. E meus instintos me diziam que a hora era agora. Se eu pensasse demais iria perder uma oportunidade de mostrar a Logan o que eu sinto por ele e sabe-se lá quando outra oportunidade dessas iria aparecer.
Minha mão livre (mesmo com a nossa queda nossas mãos não haviam se soltado) foi para a cintura de Logan, mantendo-o em cima de mim. Ele congelou, seus olhos castanhos me olhando fixamente, seu rosto vermelho.
—Ah não. Nem pensar...
Levantei minha cabeça o máximo que pude até conseguir alcançar os lábios de Logan.
Me senti como se um furacão tivesse tomado conta do meu corpo. Meu coração acelerava. Me sentia quente como uma fogueira. Os lábios de Logan eram macios, quentes e eu ainda podia sentir um gostinho de vinho neles (ou talvez eu estivesse sentindo esse gosto da minha boca). Eu queria poder ir além nesse beijo, mas eu tive que separar meus lábios dos do Logan.
Ele me olhava com um misto de surpresa e medo. Seus olhos estavam arregalados. Seus lábios, entreabertos, um tanto vermelhos por conta da pressão que fiz. Aquela visão fez meu coração bater enlouquecidamente.
—Eu... –Logan começou a falar, mas antes que eu pudesse falar algo, ele se levantou de mim rapidamente e foi patinando até a saída da pista.
Eu consegui me sentar no gelo e fiquei olhando Logan, um tanto confuso. Ele não tinha gostado do beijo? Ele não sentia a mesma coisa que eu? Ele ficou me mandando sinais conflitantes esse tempo todo pra depois sair correndo como se tivesse feito algo errado? Tinha tantas perguntas que eu queria fazer, mas naquele momento nada passou pela minha cabeça ao não ser me desculpar com Logan.
Me levantei e patinei correndo até a saída da pista. Logan estava na mesma mesa onde estávamos, desatando os laços dos patins com uma expressão melancólica. Suspirei e tentei andar até a mesa. Me sentei e comecei a desatar os laços do meu patins também. Logan olhou pro lado, suspirou e voltou para seus patins.
—Me desculpa, Logan. Eu não sei o que deu em mim. Eu não devia ter te beijado daquele jeito, eu só...
—Eu entendo, Kendall. –Logan falou, seu tom de voz combinando com a melancolia que eu tinha visto- É que eu não posso me apaixonar por ninguém. Você não entenderia, mas...
—Olha, eu gosto de você. –Eu decidi falar na lata. Sei que eu poderia até assustar ele, mas eu já guardava isso a um bom tempo- Desde a primeira vez que eu te vi fiquei quase obcecado por você. Sei que pode soar um pouco sinistro e que provavelmente você vai querer ficar a uma boa distância de mim e que...
—Calma, Kendall. Respira... –Logan deu um sorrisinho, o que me fez sentir um pouco melhor. Ele não estava com raiva de mim- Eu me sinto honrado em saber que gosta de mim, mas... Eu não sei se mereço toda sua estima. Sério, você não ia querer gostar de alguém como eu. E eu já disse, não posso me dar ao luxo de ter um relacionamento agora.
—E por que não? E acredite, qualquer pessoa ia adorar ter você do lado dela.
—Talvez um dia eu te conte, prometo. –Logan sorriu e pôs a mão no meu ombro- Vamos embora? Temos que trabalhar cedo amanhã.
—Claro. –Assenti, já com meus patins em mãos. A meio caminho do balcão, parei e me virei para Logan- Por acaso as coisas vão ficar estranhas entre nós?
—Acho que não. –Logan balançou a cabeça e sorriu, tímido. Sorri de volta e fui ao balcão da Jennifer morena para pegar os nossos sapatos e pagar nosso tempo na pista.
—Belo beijo. –Jennifer comentou assim que eu cheguei ao balcão- Eu consegui ver daqui, foi até fofo.
—Valeu, eu acho... –Agradeci, entregando os patins pra ela.
—Só foi uma pena o Logan ter corrido de você daquele jeito. Ele veio pra cá com uma cara de que não sabia o que fazer...
Olhei de canto do olho para Logan, que olhava pra baixo. Seus dedos pairando de leve sobre seus lábios.
—Mas se serve de ajuda pra você, -Jennifer continuou- acho que ele também gosta de você. Ele só foi pego de surpresa, só isso.
—Obrigado pelo conselho. –Agradeci mais uma vez, pegando meus sapatos e os do Logan- Quando deu nosso tempo aqui?
Nossa viagem de carro pro Palm Woods foi silenciosa quanto aos diálogos. O único som no carro era do meu iPod tocando música. Era meio que muita coisa para uma promessa de que as coisas não ficariam estranhas. A cada parada no sinal vermelho eu ou Logan olhávamos um para o outro, sem saber o que dizer. Eu queria tacar minha cabeça no volante o mais forte que eu podia. Eu simplesmente estraguei a noite e tudo por que sou um idiota. Eu tive que ir lá e beijar o Logan do nada pra depois a situação ficar desse jeito. Eu merecia uns aplausos na cara.
A poucos minutos do hotel, meu iPod mudou a música do player. Give Me Love, do Ed Sheeran.
Cara, não.
O clima no carro mudou. Eu podia sentir a tensão mal resolvida entre Logan e eu permear o ambiente enquanto Ed cantava ao fundo.
Give a little time to me to burn this out
We'll play hide and seek to turn this around
All I want is the taste that your lips allow
My my, my my
Oh give me love
De repente, Ed Sheeran havia me dado a resposta que eu precisava pra essa situação toda. Talvez a Jennifer morena esteja certa. Talvez Logan também goste de mim. Ele só ficou surpreso, assustado. Talvez se eu tivesse, sei lá, ido com menos sede ao pote, por assim dizer...
Eu só precisava dar um tempo pro Logan pra pensar em tudo, pra fazer entrar na cabeça dele que eu gosto dele de verdade.
Um pouco tempo depois da música mesmo ter acabado chegamos ao Palm Woods. E o silêncio do carro nos perseguia até chegarmos ao apartamento. Deixamos nossos casacos nos ganchos perto da porta e eu tranquei a porta. Logan suspirou antes de se virar pra mim.
—Eu já vou subir e ir dormir. Amanhã vai ser um dia cheio. –Logan assentiu, e antes que eu pudesse dar um boa noite, ele continuou, meio tímido- Olha... Eu... Se servir de alguma coisa, eu meio que... Gostei daquele beijo...
Eu quis dar uma cambalhota naquela hora. Talvez o caralho. A Jennifer morena estava certa. Ele também talvez sinta o que eu sinto por ele.
—Que bom. –Falei, sentido minha autoconfiança ser recuperada- Escuta, sei que você falou que não quer um relacionamento agora e tudo bem, eu entendo. E eu vou te dar um tempo pra pensar em tudo. Mas quero que saiba de uma coisa. –Me aproximei até ficar bem perto do Logan. Ele ergueu a cabeça de leve para olhar nos meus olhos (apesar que, do ângulo dos seus olhos, ele parecia olhar pra minha boca)- Eu sou um Knight, e não costumo desistir das coisas que amo. Tenha isso em mente.
Quebrei o espaço entre nós e beijei Logan mais uma vez. Dessa vez foi calmo, doce e curto. Eu queria dar algo para Logan pensar melhor em toda essa situação. E dessa vez, pela expressão dele depois que nos separamos, eu parecia ter acertado melhor minha decisão de beijá-lo.
—Boa noite, Logie. –Sorri e fui indo em direção as escadas.
—Boa noite, Kendall. –Me virei e vi Logan parado na sala, sorrindo de leve. Fui para o meu quarto com minha cabeça latejando por causa da queda no gelo e meu coração descompassado diante dos sentimentos conflitantes daquela noite.
POV GERAL
—Tem certeza que não quer ir comigo? –Gabe Summers perguntou a uma Mercedes Griffin chateada- O luau de hoje é incrível. Soube que Jack Johnson vai fazer uma palhinha lá.
—Me desculpe Gabe, eu adoraria te ver tocando com ele, de verdade. –Mercedes falou, sincera. Ela adorava poder dar uma escapada da vida de filha de um magnata poderoso e curtir os luaus onde Gabe tocava. A música (modéstia à parte, não era por que era seu namorado que fazia a trilha sonora da festa) era boa, a galera era divertida e o cenário era maravilhoso. Mas antes de mais nada, Mercedes era uma das executivas da Rocque Management. Se estavam precisando dela, ela teria que atender o chamado- Mas Kimberly me enviou agora o relatório com a negociação das rádios e preciso revisar tudo pra entregar amanhã cedo. Eu sinto muito, meu amor.
—Tudo bem. –Gabe assentiu. Ele sabia, desde o começo, que namorar Mercedes Griffin seria assim. Sorte dele era poder ser tão desencanado. Ele sabia que haveria outros luaus (talvez sem o Jack Johnson, talvez com ele) e que Mercedes poderia ir com ele uma outra oportunidade- Eu já vou indo, Mercy. Qualquer coisa eu te ligo. Eu te amo, meu raio de sol.
—Eu também te amo, meu hipster lindinho. –Mercedes sorriu e deu um beijo em Gabe, que logo depois fez sinal para um táxi e saiu da frente do prédio da Rocque Management.
Mercedes suspirou, pegou seu iPhone e viu outra vez o e-mail com anexo da Kimberly. Seria mais uma noite regada a Red Bull, com certeza. Ela guardou o celular dentro da bolsa e foi andando até o estacionamento. Ela tinha dispensado sua guarda particular naquele momento, sabia que não precisava de segurança o tempo todo, mesmo com seu pai falando que era importante. Mas Arthur Griffin não estava lá no momento. E também, não tinha nada de mais ficar um dia sem aqueles homens grandalhões seguindo Mercedes a cada passo. Era até libertador.
No estacionamento quase deserto, Mercedes foi andando em direção ao seu Bugatti Veyron recém comprado (a garota trocava de carro a cada seis meses. O anterior era um Lamborghini Murciégalo), vasculhando as chaves do carro na bolsa quando ouviu passos não muito longe dali. Ela congelou no lugar, as mãos ainda dentro da bolsa. Ela sabia que tinha um spray de pimenta em algum lugar daquela bolsa. Mercedes já vasculhava a bolsa aflita, sem conseguir sentir o cano do spray. Ela tinha sentido algo que parecia o spray dentro da bolsa quando sentiu uma perna dar uma rasteira nela por trás. Ela caiu no chão, derrubando a bolsa e batendo a cabeça no chão. Logo depois Mercedes sentiu o ar sair violentamente de seus pulmões. Um chute forte no estômago havia feito ela perder o fôlego. Ela tossia sem parar, tentando recuperar o fôlego até sentir um pé pisando sua barriga. Ela finalmente olhou pra cima, olhando o grupo de rapazes que se reuniu em volta dela. Três caras, todos de moletom e mascarados. Um deles se agachou e ficou perto do rosto de Mercedes. Seus olhos mal conseguiam focar o cara por causa das lágrimas que embaçavam sua visão. O rapaz deu um risinho cínico e falou com Mercedes.
—Olá, Carrasca de Grife...
Mercedes arregalou os olhos, assustada. Ela reconhecia aquela voz. Ela reconheceria em qualquer lugar aquela voz.
—Você...
—Vamos fazer meu chicote estralar dessa vez, sim?
O pé que estava na barriga de Mercedes sumira, mas o alívio de poder respirar direito durou pouco quando uma lâmina descera repetidas vezes em sua barriga. A dor que Mercedes sentia era insuportável. Ela sentiu o sangue subir pela garganta e ameaçando sair pela boca. Ela perdia a consciência aos poucos a cada facada, mas teve tempo de ouvir a voz familiar dar ordens aos outros garotos.
—Arranquem a calcinha dela. –Ele ordenou, o tom de voz totalmente deliciado com o som de Mercedes agonizando e se sufocando com o próprio sangue- Quero aproveitar e fazer o que sei fazer me melhor enquanto ela ainda tá agonizando...
As lágrimas saíam dos olhos de Mercedes, ainda sentindo a dor das facadas que não davam descanso nem um segundo. Ela só rezava pra acabar com tudo aquilo, que fosse tão rápido que ela nem sentisse. Que ela estivesse morta antes de acontecer pra valer.
Ela fechou os olhos, sentindo duas mãos rasgarem a calcinha e afastarem suas pernas. Ela não tinha mais força para fechá-las, e seu desejo de morrer se intensificava. Mercedes sentiu a intrusão, forte e bruta, dentro de si, enquanto sentia sua cabeça se sentir mais leve. Sua consciência se perdia a cada segundo, mergulhando em uma escuridão que Mercedes sabia que não teria volta.
E naquele momento, em meio às lembranças que levaria dos amigos, da família e do Gabe, Mercedes nunca se sentiu tão aliviada pelo fim chegar.
Fale com o autor