The Roommate
16 I Just Wanna Win Your Heart - Pt. 1
Notas iniciais
UMA SEMANA DEPOIS
Depois da semana da morte da Jenny, tudo parecia ter voltado ao normal. James estava completamente focado e animado com a nova turnê que chegava e em especial com a minha música. Graças ao poder de negociação de Mercedes e o talento vocal de James, Arthur Griffin foi convencido de que a música seria um sucesso e resolveu que a gravadora iria lançá-la como single de verão. Eu pude vê-lo no dia em que James gravou a demo. Um cara alto, quase careca, o pouco cabelo que tinha todo branco e olhos azuis tão gelados que fazia ele parecer ser o iceberg onde o Titanic batera. Sem contar que você nunca sabia o que ele pensava, ou que ele faria a seguir. O cara era completamente imprevisível. Quer dizer, não completamente. A única pessoa que sabia como lidar com ele ou prever o que ele faria era Mercedes, e era graças a ela que o clima na sala de reuniões não estava tão tenso hoje. Gustavo e Kelly estavam por lá, meio que nervosos. Eu dizia isso do Gustavo, claro. Ele mordiscava furiosamente um de seus anéis dourados tentando se controlar. Kelly estava bem mais calma. Revisava alguns papéis enquanto tirava a mão do Gustavo da boca dele de hora em hora. James, Carlos e Logan estavam logo ao lado deles, bebendo o café que Logan trouxera agora a pouco. Carlos mordiscava um muffin, distraído, tentando não pensar muito na reunião, enquanto James dava um gole de café a cada trinta segundos. Eu considerava um milagre ele estar conseguindo tomar o café sem uma gota cair na roupa dele, de tanto que as mãos dele tremiam. Logan ficou do meu lado, revisando a agenda do James para hoje, com tanta atenção e tão relaxado que nem parecia estar esperando uma reunião com o homem que paga nosso salário.
E eu? Bom, por fora eu estava praticamente tão tranquilo quanto a Kelly ou o Logan. Por dentro estava tão descontrolado quanto o Gustavo ou o James.
–Tá tudo bem aí, ratinho? –Logan me chamou baixinho, apontando minha mão que estava na minha boca. Eu e minha maldita mania de roer unha– Se ficar roendo sua unha desse jeito vai acabar sangrando, sabia?
–Desculpe. –Respondi– Eu tô nervoso mesmo, não vou ficar escondendo. Achei que aquele dia tava tudo certo. Quer dizer, Griffin gostou da música, o que mais ele vai querer?
–O que mais ele vai querer? –Ouvi James do outro lado, ainda de mãos trêmulas– Só os detalhes da turnê, detalhes da divulgação e promoção do single, provavelmente vai querer um álbum novo. Quando se trata do Griffin, tudo pode acontecer.
–Achei que o Griffin gostava de você. –Logan falou, notando o nervosismo de James- Por que esse nervoso todo?
–Bom, o Griffin gosta de mim mesmo. –James deu de ombros- Mas ele pode ser bem exigente com o que ele pede. Por isso todo mundo tá nervoso assim, embora alguns controlem isso melhor. –Ele finalizou, apontando Kelly, que tirava a mão do Gustavo da boca dele pela oitava vez seguida.
–Se vocês trabalhassem com o Gustavo 24 horas por dia, também desenvolveriam uma calma incomum. –Kelly falou- Além disso, eu faço ioga e tai-chi desde a época da faculdade. Dificilmente algo me abala.
–É por isso que eu trabalho melhor com a Kelly. –Gustavo falou, a voz dele bem mais calma do que o normal. Claro que ainda soava meio alta e grosseira, mas acho que aquilo era o mais calmo que ele poderia ficar- Ela tem calma o bastante por nós dois.
–É, é uma maravilha trabalhar contigo também... –Kelly revirou os olhos para Gustavo antes de voltarmos para nós- Não se preocupem. As reuniões com Griffin só parecem estressantes. Depois que terminar vão perceber que ficaram tensos à toa.
Logan tinha aberto a boca, talvez pra agradecer a Kelly pelo conselho, quando ouvimos as portas da sala de reuniões se abrirem. Arthur Griffin finalmente chegara, frio e inabalável. Atrás dele uma garota ruiva estava digitando furiosamente em um smartphone enquanto tentava segurar uma pasta embaixo do braço. Ao lado da ruiva, Mercedes estava com a mesma pose poderosa do pai, mas ao contrário dele, ela sorria calorosamente para nós e até arriscou fazer um sinal de positivo com o polegar. Por fim, dois seguranças gigantes entraram na sala e fecharam as portas atrás deles. Pude reconhecer Trem de Carga como um deles. Eu ainda tinha uma certa cisma com ele depois de ter tentado barrar Logan na festa do James, mas eu sabia que ele estava fazendo só o trabalho dele. Eu devia ser mais flexível quanto a isso e dar um desconto pra ele.
Arrisquei olhar para Logan por um segundo. Ele também me olhava de lado, tão tenso quanto eu naquele momento. Tensão aquela que, para mim, meio que se dissolvera quando Griffin soltou uma risada e abraçou Gustavo. Eu até havia me esquecido que Gustavo e Griffin haviam feito faculdade juntos e eram amigos desde essa época.
–Gustavo, sempre bom vê-lo. –Griffin falou, logo depois de soltar Gustavo- E o jogo dos Kings?
–Não pude ir. –Gustavo lamentou, se sentando ao mesmo tempo em que Griffin- Ainda aquele problema no pé que me deixou em agonia a noite toda...
–Não seja um bebezão, Gustavo. –Kelly falou, dando um toque no braço dele- Eu cuidei para que o Sr. Rocque não reclamasse mais da dor ontem. Como pode ver, hoje está tudo certo.
–Muito bom, Srta. Wainwright. Seria lamentável mesmo se Gustavo faltasse à reunião de hoje. –Griffin falou, o tom gélido voltara a sua voz. A reunião já estava começando. Mercedes se sentou do outro lado da mesa, na cadeira mais próxima do pai, enquanto a ruiva que julguei ser a assistente de Griffin estava em pé ao lado dele, ainda digitando e deslizando o dedo pela tela do smartphone- É bom que tenha trazido seu compositor, Sr. Diamond. Queria mesmo conversar com o Sr. Knight.
–Queria? –Perguntei, arregalando os olhos. O que Arthur Griffin ia querer comigo?
–Tudo ao seu tempo. –Griffin esticou a mão para o lado, onde sua assistente rapidamente lhe passou a pasta que segurava- De acordo com os dados que seus assistentes me enviaram, Sr. Diamond, os preparativos para a turnê estão mais que adiantados. Estou impressionado com a eficiência da sua equipe.
–Você me cedeu os melhores de cada área, Sr. Griffin. –James falou com um meio sorriso no rosto- Seria surpresa se eles não fossem eficientes.
–Claro. Mas quanto ao single de verão, ainda não acertamos tudo. –Griffin fechou a pasta e a colocou na mesa, deslizando-a para frente- Ainda temos que gravar a versão final para que possa ser divulgada apropriadamente. Isso sem contar em um ensaio fotográfico para a capa do single, a promoção da música nas rádios. Já soube que quase todas as rádios na área do sul da California querem lançar a música com exclusividade em suas emissoras.
–Eu já cuidei para que ensaio fotográfico para o single aconteça ainda essa semana. –Carlos deixou o copo de café na mesa e pegou o iPad que estava em seu colo- Já tinha um ensaio marcado para a capa do James na GQ, posso pedir ao fotografo do ensaio para fazer mais algumas extras. Vai nos poupar tempo e ainda terei as fotos para mandar para os designers sem nenhum atraso.
–Muito bom, Sr. Garcia. –Griffin parabenizou Carlos. James assentiu, com um sorriso no rosto. Ele sabia o quanto Carlos podia ser completamente eficiente em seu trabalho- Sr. Mitchell, algo que queira compartilhar conosco?
Logan respirou fundo e me olhou, como se pedisse silenciosamente por apoio. Eu assenti rapidamente antes de ele pegar a agenda (como trabalhava para James, Logan também tinha um iPad para anotar os compromissos e tudo mais, mas ainda assim ele preferia escrever algumas coisas à mão) e folhear algumas páginas antes de falar.
–A gravação da versão final da música está marcada para daqui a dois dias. Já acertei os detalhes com a banda e eles já ensaiaram com o James. Depois de pronto é só passar para o pessoal da produção e eles fazem o resto. E quanto à promoção do single, eu tomei a liberdade de fazer uma pesquisa de audiência com as 10 rádios mais ouvidas em Los Angeles e que querem exclusividade no single do James. –Logan pegou uma pasta da bolsa dele e a colocou na mesa, fazendo-a deslizar até Griffin- Desse jeito reduzimos as escolhas e ainda temos uma boa ideia de em que rádio seria mais vantajoso ter a exclusividade.
Griffin ergueu a sobrancelha enquanto via o conteúdo da pasta enquanto James e Carlos assentiam com sorrisos gigantes e Mercedes batia palmas em silêncio em direção a Logan, mas ele só tinha olhos para mim, assim como eu também só tinha olhos para ele. Ele havia passado tantas noites em claro preparando tudo aquilo, vendo as estatísticas e os índices de audiência de cada rádio. Eu era testemunha ocular de Logan havia dado 110% de si naquilo tudo, e aquilo me enchera de orgulho. Meu moreno favorito era esforçado, e aquele esforço todo que ele tinha feito iria compensar.
–Impressionante, Sr. Mitchell. Impressionante. –Griffin falou, ainda de sobrancelha erguida. Mercedes tentou esconder, mas seu rosto parecia meio surpreso. Devia ser difícil impressionar o pai- Mercedes, você e Kimberly negociem com as rádios aqui listadas. Vamos ver o quanto essas emissoras querem nosso garoto aqui. –Ele finalizou, passando a pasta para Mercedes e apontando para James- E quanto ao senhor, Sr. Knight... –Eu me arrumei na cadeira quando ouvi meu nome. Era hora de saber o que Griffin queria comigo- Você fez um ótimo trabalho nesse single do James, tanto que chamou a atenção de alguns dos nossos artistas mais valorizados na gravadora. Creio que alguns deles queiram que você componha para eles, mas quero saber o que você acha disso. Sei que tecnicamente você trabalha para o Sr. Diamond, mas ainda assim quero que saiba que mesmo compondo para outros de nossos artistas ainda estará trabalhando para ele.
Olhei para James, ainda meio em choque. Mais gente queria que eu escrevesse pra eles? Desde o começo eu sempre achava que James era um tanto possessivo quanto a mim, como compositor. Eu percebia isso nas conversas que ele tinha com Lucy, quando ela falava que ia me roubar dele para que eu pudesse compor pra ele, mas eu sabia que aquilo tudo era brincadeira dos dois. Eu não sabia bem qual seria a reação dele em uma situação real. Ele só me encarava e assentia, calmo. Eu pigarrei e comecei a falar.
–Eu acho que seria interessante, senhor. –Falei, tentando ficar com as costas retas, mas sentia cada músculo das minhas costas protestarem de dor, talvez pela tensão que eu sentia- Mas eu ainda estou focado nas composições para o James. Não estou dizendo que não farei composições para outros artistas se eles me pedirem, mas minha atenção está voltada para um possível álbum novo do James. Quer dizer, o single já está a um passo de ser lançado, isso significa que as pessoas vão perguntar por álbum novo, e eu já quero me preparar pra isso. –Parei por um minuto, me sentindo meio sem ar. Respirei fundo e conclui meu pensamento- Se alguém quiser que eu escreva para eles, eu aceito, se é claro, o Sr. Diamond não se importar.
–Eu não me importo. –James assegurou- Se você chamou a atenção de outros artistas, se eles querem que você escreva pra eles, quem sou eu pra impedir? Eles vão adorar a sua música assim como eu adorei. Provavelmente eles querem sentir a mesma magia que eu senti ao cantar sua música.
Eu comecei a rir, meio sem jeito com o elogio de James. E simples assim, toda a ideia que eu tinha do James mega possessivo tinha ido por água abaixo. Bom, no quesito mega possessivo comigo, pelo menos. Havia outras coisas, outras pessoas que James poderia ficar louco de ciúme se encostassem nelas.
–Muito bem, Sr. Knight. –Griffin assentiu- Um dos nossos artistas quer te conhecer pessoalmente hoje à tarde. Ele deu uma pausa na turnê de verão dele e está vindo de Delaware só pra ver você. Conversar um pouco, falar sobre uma futura parceria na composição. Três e meia está bom para você?
–É... –Minha cabeça ainda estava girando. Um artista havia parado a turnê dele em Delaware e estava vindo do outro lado do país só pra me ver? Mas espera, Delaware? Que artista eu conhecia que estava fazendo show em Delaware? Foi aí que a ficha caiu...
–Ele poderia encontrar Kendall no lobby do James, se estiver bom assim. É só passar os detalhes e está resolvido –Ouvi a voz do Logan como um eco, como se estivesse distante. Eu ainda estava atordoado com a epifania que tive que nem tive como dar uma resposta decente à Griffin.
–Excelente. Kimberly passará os detalhes da visita dele para você, Sr. Garcia. Ela e Mercedes cuidarão dos detalhes da exclusividade da rádio e quando tudo estiver pronto, passem para a Srta. Wainwright. –Griffin se levantou- Sr. Mitchell, Sr. Garcia, o mesmo procedimento será feito com vocês. Infelizmente não estarei aqui para verificar se está tudo certo. Vou sair para uma viagem de três semanas no Peru. Eu tenho uma enorme fazenda de lhamas por lá e minhas lindinhas devem estar sentindo minha falta... –Griffin suspirou, olhando para cima, sonhador. Logan me olhou e apertou os lábios para tentar não rir, mas sua cara de quase riso meio que desmanchara ao ver meu rosto. Eu devia estar em choque. De qualquer modo, eu ainda podia ouvir Griffin falando- Kimberly estará de olho em tudo por mim e me manterá atualizado. Qualquer dúvida que tiverem, fale com ela e ela repassará para mim. Vejo vocês todos daqui a três semanas. Boa sorte.
Griffin se levantou e deu umas palmadinhas nos ombros de Gustavo e James antes de sair com Kimberly, Mercedes (que ainda ficou um pouco para trás para parabenizar Logan pela eficiência) e os seguranças. Assim que as portas se fecharam, Gustavo suspirou fundo e fingiu secar a testa com as costas da mão.
–É, parece que está tudo bem, mas ainda temos coisas a fazer. James, você tem ensaio com sua banda daqui a dez minutos e eu e Kelly precisamos confirmar algumas datas da sua turnê e vamos ver se tem espaço para mais alguns shows internacionais. Qualquer coisa eu passo para o Carlos ou o Logan. –Gustavo falou, já se levantando, com Kelly juntando as pastas e já saindo, dando um tchau rápido para nós- Eu vou indo, e quanto a vocês, TRABALHEM TAMBÉM! –Ele finalizou, agitando os braços como um torcedor fanático e fechando a porta com um estrondo.
–É, vocês ouviram o grandão. –Carlos riu, arrumando suas coisas também e se levantando- Eu vou acompanhar James até o ensaio da banda, então não vou poder ficar no lobby. –Carlos abriu uma das pastas e entregou algo a Logan- Os detalhes que a Kimberly me passou, pode ficar pra você. Cuide de tudo por lá. Afinal, esse trabalho agora é seu. Você se saiu bem hoje, nunca vi Griffin tão impressionado com um assistente logo no primeiro mês.
–Ah, eu já vi sim, com você. –James falou, pegando Carlos pelos ombros e chacoalhando-o de leve- Mas concordo contigo, Hobbit. Você se saiu bem na frente do Griffin, Logan. Eu tenho que correr, não posso me atrasar para o ensaio. Me conte como foram as coisas com ele, Kendall!!! –James saiu correndo, pegando Carlos pelo braço e puxando-o para fora da sala de reuniões.
–Bom, faltam algumas horas até ele chegar... –Logan falou, olhando o papel que Carlos lhe dera e para o relógio de pulso- E é quase hora do almoço agora. Que tal se a gente fosse almoçar no restaurante chinês e depois voltamos para o lobby? Você pode trabalhar na pasta do James até o cara chegar.
Eu acordei do meu torpor quando ouvi Logan me chamando para sair. Claro, como ele mesmo apontara, era quase hora do almoço e talvez não fosse algo realmente oficial, mas ainda assim era algo a se considerar.
–Ora ora, Sr. Mitchell. –Falei, tentando imitar a voz do Griffin o melhor que pude- Está me chamando pra almoçar com você?
–Se você não quiser, eu entendo, mas... –Logan quase começara a gaguejar quando eu coloquei meu dedo em seus lábios, impedindo-o de falar. Senti uma onda de déjavù passando quando lembrei que há mais de uma semana atrás, Logan tinha feito exatamente a mesma coisa comigo.
–Eu vou adorar almoçar com você. –Falei em meio a um sorriso. Meu dedo ainda estava em sua boca. Eu sentia o ofegar dele em meu dedo, me convidando para chegar mais perto. Mas antes que eu me rendesse ao meu monstro interior, abaixei minha mão, deixando meu dedo deslizar pelo lábio do Logan, assim como ele fizera comigo- Além disso, eu estava mesmo com vontade de comer uns rolinhos primavera. Até parece que você leu a minha mente. –Completei, passando o braço em volta de Logan e o puxando para perto de mim.
–Eu sei o quanto você adora comida chinesa. –Logan sorriu, chegando mais perto de mim- E também, eu tô morrendo de fome. Comi bastante no café e ainda estou com fome, como isso é possível?
Eu ri, aproveitando a oportunidade que tinha bem ali, em meus braços. Eu e Logan saindo pra almoçar, mesmo que em um encontro não oficial, fazia meu coração enlouquecer dentro do peito. Mas eu tinha espaço o bastante dentro de mim pra sentir a euforia de estar com Logan em um encontro não oficial e o nervoso e o choque com a visita que viria.
Ele vem me ver.
Ele parou a turnê dele e vai vir do outro lado do país só pra me ver.
E eu não sabia o efeito que ver ele depois de tanto tempo causaria em mim.
Isso poderia mudar tudo.
Pra melhor ou pra pior, eu ainda não sabia.
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