XV


O livro não estava interessante então ele decidiu que era hora de procurar alguma outra coisa para passar o tempo. Eu estou mortalmente entediado. O rapaz de cabelos castanhos encarou sua escrivaninha, em frente à cama e do outro lado do quarto, soltando um suspiro cansado. As tarefas passadas pelos professores já haviam sido feitas, não restando nada escolar que pudesse entretê-lo. As duas estantes de livros que ficavam rentes à parede também não soavam promissoras e Francesco fez uma nota mental para trazer livros novos da biblioteca. Quando ele não está por perto tudo parece chato. A luz do Sol entrava pela janela aberta, aquecendo o cômodo, mas apenas servindo como lembrete de que o dia estava longe de chegar ao fim. Amanhã é sábado e eu poderei visitá-lo. Eu quero que o dia termine logo.


O futuro Chefe dos Cavallone retornou direto à mansão depois da escola, não tendo a oportunidade de visitar a casa de Giulio, como havia sido sua rotina durante a semana. Seu pai precisou visitar Giotto, logo, ficou a cargo do herdeiro fazer companhia à irmã. Catarina se divertia no balanço do jardim, correndo e brincando com cavaleiros e magos invisíveis, porém, não havia nada que ele pudesse fazer. Sua função era simplesmente estar ali. Francesco bocejou pela terceira vez, colocando o livro na cômoda ao lado e arrastando-se para o meio da cama. Nada como um cochilo para passar o tempo. Quando eu abrir os olhos já será noite.


Não era noite quando o rapaz despertou e por um momento ele achou que houvesse dormido o suficiente para que já fosse sábado. O futuro Chefe sentou-se na cama, coçando os olhos e afastando o sono. Suas pernas o colocaram em pé após uma longa espreguiçada e o herdeiro caminhou até a janela. O Sol se punha no horizonte e não havia sinal de Catarina. Francesco então seguiu para o banheiro, tomando um banho parcialmente demorado. O céu havia se tornado escuro quando ele saiu e, ao contrário de sua premonição pessimista, aparentemente aquela sexta-feira não seria totalmente perdida.


"Olá."


A voz veio da pessoa próxima à janela. Giuseppe ajeitava as cortinas, prendendo-as no detalhe de renda cor creme. O rapaz de cabelos castanhos permaneceu na saída do banheiro, surpreso demais para responder ao cumprimento. Ele mal conseguia lembrar-se da última vez que o louro havia estado em seu quarto, ou melhor, que eles estivessem sozinhos em um cômodo. Tudo parecia ter acontecido há muito tempo. O Braço Direito deu a volta na cama e então o futuro Chefe se moveu, encontrando-o no meio do caminho. Sua companhia ofereceu um sorriso tímido e envergonhado.


"Como você está?"


"B-Bem..." O herdeiro respondeu um pouco embaraçado. "O que você faz aqui?" Eles estavam frente a frente e uma das mãos de Francesco ergueu-se e tocou o rosto do amante, acariciando a pele. Meu amante...


"Eu trouxe Mario de volta à mansão." Giuseppe corou ao toque, no entanto, não afastou a mão. "Nós chegamos há algum tempo, mas você estava dormindo e eu não quis acordá-lo."


"Você deveria ter me acordado!" O rapaz tornou-se sério. "Eu dormi porque estava entediado. Você não faz ideia de como esta casa não tem graça sem você!"


O comentário fez com que o homem de longos cabelos louros corasse violentamente. Os olhos verdes se arregalaram, tentando encarar outra direção. O futuro Chefe dos Cavallone sorriu, dando um passo à frente e descendo a mão até a nuca de sua companhia. O Braço Direito tentou se afastar, colocando a mão no peito do herdeiro quando eles estavam quase grudados. Eu esqueci que estou só de toalha. Francesco abriu um sorriso ainda maior, entendendo a coloração extra no rosto de seu amante. Sim, meu amante...


"Você sabe que eu vou beijá-lo, Peppe, portanto, o quanto antes aceitar, melhor. E eu quero um beijo de verdade e não aquilo que trocávamos raramente na casa de Giulio. Ninguém está aqui além de nós dois."


Giuseppe o olhou e parou de lutar. O rapaz de cabelos castanhos aproximou um pouco mais o rosto, até que os lábios se encontrassem. Sua língua pediu passagem no mesmo instante, sendo recebida por um suspiro. As mãos do louro subiram por seu peito e pousaram gentilmente em seus ombros nus. O beijo começou profundo e tornou-se intenso em poucos segundos. Aquela era a primeira vez em duas semanas que o futuro Chefe sentia-se realmente beijado. As visitas à casa de Giulio foram rápidas, e as poucas carícias que trocaram não passaram de beijos apressados. Sentir o Braço Direito em seus braços, retribuindo o beijo e seus sentimentos, era como viver um sonho realizado.


"Agora sim." O herdeiro sorriu quando a carícia foi interrompida. "Mas não pense que um beijo será suficiente para compensar o tempo perdido."


"E-Eu..." Giuseppe abaixou os olhos e apontou para a toalha na cintura de Francesco. "Nós precisamos conversar, mas antes você precisa se vestir."


"É algo sério?" O rapaz tornou-se desanimado. Tudo o que ele não precisava era de um novo problema.


"Não. É trabalho." O louro fez um gesto rápido com a mão, mostrando que não era nada realmente sério.


"Certo, então eu já volto." O futuro Chefe dos Cavallone deu a volta na cama, contudo, virou-se momentaneamente. "Você pode vir... se quiser." O convite foi seguido por uma provocativa piscadela, entretanto, o Braço Direito apenas cruzou os braços e ergueu uma fina sobrancelha. "Certo, certo..."


A troca de roupas para aquela noite era constituída por uma calça escura e uma camisa azul clara. A temperatura estava alta nos últimos dias, então ele optou por uma de manga curta. Os botões foram fechados enquanto o herdeiro voltava ao quarto e a coloração pálida retornara ao belo rosto do amante.


"Então, o que houve?" Francesco sentou-se na cama e esticou a mão, fazendo sinal para que sua companhia fizesse o mesmo.


"Nós precisamos conversar sobre o retorno de Mario."


"Ele está bem... não?" O rapaz de cabelos castanhos indagou receoso. Se possível, ele gostaria de nunca mais precisar viver o que viveu nas últimas semanas. Uma vida inteira não seria suficiente para apagar aquela experiência.


"Sim, sim. Ele melhorou bastante." Havia uma genuína felicidade na voz de Giuseppe. "Mas Ivan o proibiu de trabalhar por algum tempo, e eu gostaria de pedir permissão para diminuir minha carga horária. Mario não pode fazer tarefas domésticas, bem, não que ele fizesse antes, porém, eu gostaria de poder passar mais algum tempo observando-o."


"Por que é que você está aqui?" O futuro Chefe dos Cavallone tornou-se sério. "Você não precisa da minha permissão, Giuseppe. E é claro que você irá cuidar de seu irmão. Isso nem precisaria ser conversado."


"Você é meu Chefe e esse tipo de coisa exige uma conversa." O louro tornou-se sério.


"Eu disse anteriormente, não? Enquanto eu não assumir a Família você tem todo o tempo do mundo, use-o como desejar. Se meu pai não precisar de ajuda, eu não vejo problema algum e você tome o tempo que precisar. Mas teremos de falar com ele, porém, de minha parte você está livre." O herdeiro suspirou ao notar que o Braço Direito ainda mantinha o semblante sério. "Ouça, Peppe, como Chefe eu estou te liberando. Cuide de Mario e retorne apenas quando achar que ele está realmente bem. Tome isso um mês, dois ou três. Eu deixarei você decidir isso. Entretanto..." Francesco coçou a bochecha esquerda, sentindo-se um pouco envergonhado. "Como seu amante, eu mentiria se dissesse que não sentirei falta da sua companhia, mas é algo provisório, certo? Em breve eu poderei te monopolizar como eu quiser!"


A resposta de Giuseppe foi um olhar, seguido por duas bochechas coradas. O louro poderia ser eloquente, rígido e sério, todavia, somente quando o assunto era trabalho. O rapaz de cabelos castanhos aprendeu isso quando eles começaram a se envolver mais do que a relação Chefe/subordinado, pois, quando o assunto era eles, o Braço Direito se tornava incapaz de manter a seriedade. O futuro Chefe apertou os olhos, empurrando seu amante contra a cama e ficando por cima. Dois olhos verdes o encararam com curiosidade, mas Giuseppe não o afastou. Ele quer isso tanto quanto eu. O herdeiro subiu a mão pela cintura do louro, sorrindo maldoso ao vê-lo tremer com um simples toque. Seu corpo deitou-se sobre o do Braço Direito e o beijo que seguiu aquele movimento não foi comportado ou contido. Ele transbordava desejo e saudade e a quase insaciável vontade de permanecer próximo.


Eu senti tanta a sua falta, Francesco apoiou os cotovelos ao lado da cabeça de Giuseppe. As mãos em suas costas se tornaram apertadas, sentindo sua pele e provavelmente amassando a camisa que ele escolhera sem dar muita importância. Nós tivemos pouco tempo para ficarmos juntos. Ele jamais esqueceria a noite em que o louro caiu de joelhos, naquele mesmo quarto, e confessou entre lágrimas que o amava. Eu o encarei feito idiota, perguntando várias vezes se aquilo era verdade. Foi como um sonho. As lágrimas e as palavras tiveram o mesmo efeito que uma janela aberta em uma manhã de primavera. O rapaz seguiu para o jantar na casa de Clara, porém, o intuito da visita foi outra. Nós conversamos e eu disse a ela que não poderia aceitá-la. No final, ela sorriu e disse que estava aliviada e confessou que, no fundo, gostava de outra pessoa e torcia para que eu desistisse do noivado.


A decisão foi anunciada antes do jantar e ambas as Famílias receberam a notícia de maneira saudável. Meu pai não pareceu surpreso ou chateado. Nós não uniríamos as Famílias com um casamento, mas eu disse que a amizade entre nós era o início de uma sólida e duradoura aliança. No final das contas todos pareceram satisfeitos. Ivan ainda teve uma breve conversa com o filho quando eles retornaram, e o futuro Chefe contou sobre a conversa com a garota, omitindo, claro, que o real motivo era o simples fato de que, embora soasse impossível e improvável, a pessoa que ele sempre amou também sentia o mesmo. Meu pai sorriu e disse que o discurso que fiz sobre amizade foi bonito e que ele sentia orgulho. Eu nunca quis decepcioná-lo e ouvir aquilo me deixou com a consciência mais leve.


Naquela noite, ao subir para o quarto de hóspedes e reafirmar seus sentimentos, os dois novos amantes passaram horas sobre a cama trocando longos beijos e conversando sobre bobagens. Peppe tinha os olhos úmidos com lágrimas e corou todas as vezes que eu disse o quanto o amava. Nós passamos boa parte da noite naquela cama, e, apesar de não termos feito nada demais eu me senti a pessoa mais feliz do mundo. O herdeiro retornou para o seu próprio quarto eventualmente, no entanto, na manhã seguinte ambos souberam que a vida jamais seria a mesma. Quando nos olhamos na mesa de café da manhã eu senti como se meu corpo inteiro se lembrasse da noite anterior. Eu quis gritar para todos, escrever nas paredes e cantar pelo jardim que eu era amado. Essa sensação ainda não passou e eu duvido que um dia passe... O beijo terminou após longos minutos, contudo, Francesco permaneceu no mesmo lugar. Ambos se encararam, as respirações descompassadas e misturadas. O rapaz de cabelos castanhos demorou alguns segundos para entender a sua própria situação e a realização o fez corar e rolar pela cama.


"D-Desculpe." O futuro Chefe dos Cavallone sentou-se de costas para sua companhia, pegando um dos travesseiros que estava na cama e o colocando-o sobre seu colo.


"Está tudo bem." Ele sentiu quando o Braço Direito levantou-se. Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes e aquele tempo pareceu muito mais longo. "E eu também senti a sua falta... Eu realmente senti saudades."


O herdeiro virou apenas a cabeça, oferecendo um sorriso constrangido. Giuseppe ajeitava a camisa e o olhou com as bochechas vermelhas.


"Mario jantará na mansão, então eu vim saber se você quer me acompanhar até minha casa. Ele ainda não pode dirigir."


"Achei que você houvesse voltado com Giulio." Francesco virou-se, entretanto, manteve o travesseiro em seu colo.


"Voltamos, mas eu duvido que ele vá permanecer para o jantar." A expressão do louro tornou-se momentaneamente triste. "Ele e Mario não estão mais juntos."


"Oh... entendo." Eu não entendo, na verdade. Se algo assim houvesse acontecido a Peppe, mesmo que houvéssemos tido a pior briga do mundo, eu jamais o deixaria ir. Eu passaria o resto da minha vida protegendo-o. "Achei que as coisas tivessem melhorado. Giulio parecia feliz... pelo menos foi a impressão que eu tive quando fui visitá-los."


"Eu também tive essa impressão, mas acho que o problema entre eles era mais sério do que eu imaginava." O Braço Direito ofereceu um falso sorriso. "Antes de tudo isso acontecer eu disse coisas horríveis a Mario; coisas que eu me arrependo muito de ter falado, por isso eu decidi que não direi nada dessa vez. Eu não sei se eles conversaram durante essas semanas, e, mesmo que eu sinta que meu irmão não está feliz, eu não irei mais interferir. Giulio fará falta, reconheço."


"Você falou o que falou por estar preocupado; apesar de eu não saber o que foi dito eu tenho certeza de que você seria incapaz de magoar seu irmão... ou qualquer pessoa." O rapaz de cabelos castanhos tornou-se sério. Ele detestava quando seu amante se menosprezava. "E talvez as coisas melhorem, quem sabe?"


"Você me superestima demais, Francis." Giuseppe riu baixo.


"É você que não vê o quão incrível é!" O futuro Chefe sorriu, ficando em pé. Seu problema havia sido solucionado e ele se sentia apto e adequado a acompanhar o louro. "Vamos? Eu estou pronto."


"Mesmo?"


O Braço Direito revirou os olhos e aproximou-se, parando à sua frente. Os dedos pálidos e delgados ajeitaram a camisa, fechando os botões que foram abertos e arrumando as partes amassadas. O herdeiro permaneceu imóvel, esboçando um sorriso satisfeito e permitindo-se ser apalpado, apertado e alisado.


"Você não foi o único a... ficar animado com o beijo." A voz soou baixa e os olhos permaneceram na camisa sendo arrumada.


"Você consegue disfarçar melhor do que eu." Ele riu. "Eu realmente sinto muito, mas é difícil controlar certas coisas."


"Eu não estou te culpando de nada. Você tem 15 anos, Francis. Eu... aprendi a me controlar, eu diria." Os olhos verdes se ergueram e os dois amantes se encararam por um momento. "Você ficará bravo se eu mencionar novamente sobre ser minha responsabilidade pará-lo, certo? Você ficará irritado se eu falar que não podemos nos beijar ou pensar em outras coisas porque eu sou dez anos mais velho e deveria ser responsável, hm?"


"Eu me sinto satisfeito por ver que você me conhece tão bem." Francesco cantou as palavras. Aquele assunto havia sido o motivo da primeira briga entre eles e aconteceu em menos de 24 horas depois da confissão. "Não é sua responsabilidade. Eu não te amo por obrigação e eu certamente não te desejo por me sentir induzido. Eu quero sim beijá-lo, tocá-lo e fazer tudo aquilo que venho fantasiando por anos, porém, eu não irei te forçar a fazer nada. No entanto, se você me quer como eu te quero, então não, eu não irei me comportar, pois não existe nada que eu queira mais do que você... independente de como for."


"Eu também... quero você." Giuseppe parecia escolher as palavras antes de proferi-las. "Mas ao mesmo tempo eu sinto como se precisasse ser mais sério."


"Você já é sério o suficiente, acredite." O rapaz de cabelos castanhos tocou o alto da cabeça de seu amante, como se afagasse uma criança. Eu cresci. Eu estou quatro dedos mais alto. Em breve eu terei a altura de meu pai e talvez Peppe pare de pensar que me corrompeu ou algo assim. Bem, ele ainda não me corrompeu já que não fizemos nada... infelizmente. Como eu gostaria que tivéssemos feito... "Tome o seu tempo, está bem? Cuide de Mario e, quando você estiver de volta, nós conversaremos sobre isso. Eu não vou a lugar algum, Peppe."


"Obrigado." O homem de longos cabelos louros ofereceu um sorriso envergonhado, entretanto, o olhar que veio em seguida foi tudo, menos inocente. Era sério e centrado e decidido. "Eu espero passar mais tempo com você... sozinhos, em breve."


"Eu estarei esperando ansiosamente por isso, acredite."


O futuro Chefe dos Cavallone depositou um casto beijo na testa do Braço Direito. Os dois deixaram o quarto juntos, ganhando o corredor e descendo a grande escadaria lado a lado. Catarina estava do lado de fora da mansão, questionando Ivan sobre alguma coisa que ele não sabia. Alaudi também estava presente e ofereceu um baixo boa noite ao vê-lo. O herdeiro descobriu que a irmã estava chateada por não ter sido avisada do retorno de Mario, e que, aparentemente, o moreno receberia toda a culpa pelo ocorrido.


O Chefe dos Cavallone desculpou-se várias vezes, todavia, a garota estava irredutível e só pareceu tornar-se menos mortal quando Francesco a convidou a juntar-se a eles. Os olhos de Catarina brilharam e ela agarrou-se a mão de Giuseppe, mas não sem antes lançar um último olhar perigoso na direção do pai e avisar que não esqueceria tão cedo aquele incidente. Ivan acenou de longe e o rapaz de cabelos castanhos bagunçou os cabelos da irmã enquanto caminhavam na direção do carro. O céu estava estrelado, anunciando que a manhã seguinte seria bela e ensolarada. As coisas estão voltando ao normal. Pouco a pouco tudo voltará ao seu lugar. O futuro Chefe deu a volta no veículo e naquele momento ele e o louro se olharam. O Braço Direito corou e entrou rápido no carro enquanto o herdeiro riu alto e satisfeito. Não, as coisas estão mudando e eu espero que elas continuem evoluindo.


x


O dia que eles souberam sobre o incidente de Mario sempre soava como um pesadelo para Francesco, como uma daquelas experiências que jamais são esquecidas, entrando debaixo de sua pele e lembrando-o de que a vida é mutável e temos pouco controle sobre os fatores externos. Naquela manhã ele acordara cedo, ficando incrivelmente feliz por ver seu amante na sala de jantar e esperando-o para tomarem café da manhã juntos. Catarina madrugava, logo, a garota provavelmente já havia comido e estava perambulando pela casa. Desde que recebeu permissão para sair, a irmã passava seu tempo no jardim ou no estábulo, e na semana anterior até mesmo visitou Enrico, que a trouxe de volta com um sorriso largo e comentou a visita por dias, dizendo como eles haviam se divertido.


Giuseppe sentou-se em sua cadeira habitual, em frente ao rapaz de cabelos castanhos, e eles começaram a refeição trocando olhares cheios de significados e risadas tolas. Nós estávamos juntos há uma semana. Eu transbordava felicidade. O relacionamento entre eles não passava de olhares, apertos de mãos eventuais e raros beijos quando estavam a sós. O Braço Direito era muito rígido e desde o começo deixou claro que eles precisariam ser discretos. O futuro Chefe não viu problemas, e eles teriam passado o restante do café da manhã naquele clima agradável e íntimo se Ivan não houvesse chegado acompanhado de Alaudi e com uma aparência pálida e cansada.


"Terminem o café, eu os esperarei no escritório. Nós precisamos conversar."


Eu achei que ele houvesse descoberto sobre nós. Peppe me olhou com medo e naquele momento o café da manhã havia terminado. Os dois seguiram até o escritório praticamente no mesmo instante e o herdeiro vivenciou um dos momentos mais difíceis de seus curtos 15 anos. Quando a notícia sobre Mario chegou até eles, sua primeira reação foi procurar a mão do amante e apertá-la contra a sua. Ele não se importou se alguém acharia indevido ou desnecessário. Giuseppe apertou a mão de volta, com força e trêmulo. A única pergunta do louro foi se seu irmão estava vivo e, ao ouvir a confirmação, pediu permissão para ir visitá-lo. Nós entramos no carro no instante seguinte e Alaudi ficou na mansão.


Eventualmente Francesco descobriria através do Guardião da Nuvem que a versão que a garota ruiva recebeu foi mais amena, o que o deixou mais aliviado. O caminho até o centro de Roma foi feito em silêncio, porém, em nenhum momento o rapaz soltou a mão do Braço Direito. Giuseppe tinha o olhar baixo e o futuro Chefe sabia que ele lutava para não chorar. As lágrimas saíram quando eles chegaram à casa de Giulio e continuaram a cair por um bom tempo quando eles desceram para o primeiro andar. O herdeiro permaneceu no sofá, abraçado a um soluçante louro, que mais parecia uma criança. Eu queria ter feito mais, mas tudo o que consegui fazer foi abraçá-lo e permanecer quieto.


A situação melhorou consideravelmente quando Mario recobrou os sentidos. A cena do Vice-Inspetor chorando na beirada da cama o surpreendeu mais do que o ruivo despertando. O moreno sempre foi sério. Em todos aqueles anos Francesco não se lembrava de tê-lo visto sequer gargalhar, no entanto, quando ouviu o choro rouco e viu a maneira desesperada com que o Vice-Inspetor expressava seu alívio, o rapaz de cabelos castanhos pensou que, no fundo, somente Mario conhecia o real Giulio e aquele provavelmente era o motivo pelo qual os dois permaneceram juntos por dez anos embora possuíssem personalidades divergentes.


O ruivo era, como Catarina costumava dizer, selvagem e um pouco extremista. O futuro Chefe dos Cavallone adorava aquilo no Braço Direito de seu pai, e a personalidade extrovertida de Mario sempre o agradou. Contudo, quando o Vice-Inspetor foi apresentado à família, o herdeiro lembrava-se de ter pensado que eles não seriam amigos por muito tempo. Eu não sabia que eles eram amantes. Eu era uma criança e não sabia de nada. Giuseppe disse que eles não estão mais juntos, mas eu duvido que seja por falta de amor. Ninguém chora como Giulio chorou. Se Mario não significasse absolutamente nada eu duvido que ele teria demonstrado tanto sofrimento. Imaginar que o ruivo houvesse se "desapaixonado" soava improvável. Francesco conhecia a antiga fama do Braço Direito, entretanto, você não se coloca na trajetória de uma bala sem nenhum motivo. Você não joga sua vida no lixo por qualquer pessoa...


Recordar-se de todos aqueles momentos não era muito agradável, todavia, foi impossível para o rapaz não avistar o Vice-Inspetor e não se lembrar de como aquelas semanas foram difíceis. Nem parece que Mario já está em casa há uma semana. O ruivo retornara no último final de semana e aquele novo domingo marcaria o nono dia de seu retorno. Peppe disse que eles planejavam retornar no sábado, mas Mario simplesmente decidiu deixar a casa de Giulio na sexta-feira. Seu amante conseguiu liberdade para trabalhar apenas meio período, e isso porque Ivan pediu sua presença, pois, no que dependesse do futuro Chefe seu adorável Braço Direito poderia passar tempo integral com o irmão.


Mario também foi contra ter uma "babá" e praticamente expulsou Giuseppe de casa na primeira oportunidade que teve. "Ivan precisa de alguém com pulso firme e por enquanto eu não posso trabalhar, o que acho um absurdo. Não deixe aquela Família ir para o limbo, Giuseppe. É sua responsabilidade ficar de olho no Chefe!", foram as exatas palavras que o ruivo usou e então foi impossível permitir que o Chefe dos Cavallone permanecesse sem um dos Braços Direitos. Meu pai achou que poderia ir todos os dias visitar Alaudi como estava fazendo enquanto Mario ficou em Roma. Ideia ingênua. O homem de longos cabelos louros permanecia todas as manhãs ao lado do irmão, retornando para a mansão depois do almoço. Pelo menos três vezes por semana Giulio fazia companhia a Mario no período da tarde. O Braço Direito não mencionou nada que pudesse indicar que os dois haviam feito as pazes, mas na sexta-feira o amante dormiria na mansão, pois o Vice-Inspetor faria companhia ao ruivo naquela noite.


Aquela sexta-feira marcaria a noite mais ousada que eles já tiveram. O herdeiro não conseguiu esconder sua surpresa ao ouvir as batidas do lado de fora de seu quarto, e, quando soube que Giuseppe dormiria na mansão, seu corpo inteiro ansiou por um pouco de contato. Os dois foram para o quarto de hóspedes e o que começou com uma conversa agradável sobre a recuperação de Mario se tornou uma sucessão de beijos e corpos que se esfregavam com pressa e necessidade. Francesco retornou para o seu quarto antes que as coisas se tornassem mais sérias e precisou de um banho frio para conseguir dormir. A água gelada, porém, não foi suficiente e o rapaz de cabelos castanhos só conseguiu ir para a cama depois de violar o louro duas vezes em suas fantasias e sentir-se derrotado por precisar se aliviar sozinho quando o homem perfeito estava literalmente no quarto à frente. Nenhum comentário foi feito na manhã de sábado, e aquela noite teria permanecido esquecida se no domingo o futuro Chefe não ouvisse dos lábios do próprio Braço Direito que Giulio planejava retornar na terça-feira para passar a noite novamente como companhia.


"Ele está preocupado com Mario." Giuseppe disse um pouco sério. "Ele disse que o viu carregando algumas caixas. Eu dei um sermão em Mario, mas Giulio disse que não podemos facilitar."


Nenhuma notícia poderia deixar o herdeiro mais feliz do que o prospecto de poder passar mais algum tempo com seu amante. No entanto, era preciso se certificar de que suas expectativas seriam realizadas. Talvez eu seja o único que queira isso. Os olhos cor de mel pousaram na pessoa sentada ao seu lado e Francesco coçou a nuca. Eles estavam na parte detrás da casa, sentados no banco que dava para o estacionamento. Desde o baile de Natal aquele se tornou o local em que ambos sabiam que poderiam permanecer um pouco a sós, e sem parecer estranho ou indiscreto.


"Eu o ajudarei com a tarefa de Literatura, se ainda tiver dúvida, claro." O louro disse baixo, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Ultimamente ele tem deixado os cabelos soltos, o que acho ótimo. Adoro sentir o cheiro do shampoo de baunilha quando Peppe se aproxima.


"Eu agradeceria." O rapaz sorriu. Verdade fosse dita, ele não tinha dificuldades naquela matéria, entretanto, qualquer oportunidade de ficar a sós com o Braço Direito precisaria ser aceita de braços abertos. "Após o jantar, hm?"


"S-Sim..."


Ambos sabiam o que aconteceria na noite de terça-feira, todavia, foi difícil para o futuro Chefe esconder sua animação. O domingo e a segunda-feira passaram em um piscar de olhos e na terça-feira ele só retornou para casa na hora do pôr do Sol. Sua tarde foi passada na sede de polícia, observando Alaudi e coletando informações para um trabalho da escola. Eu usaria meu pai como exemplo, mas o professor disse que seria mais saudável escolher uma profissão dentro da Lei. Alaudi foi definitivamente a escolha perfeita. Em alguns momentos o herdeiro pensou que houvesse sido esquecido, pois o louro parecia concentrado demais com seus relatórios. Porém, sempre que fixava o olhar na mesa, o Guardião da Nuvem o observava quieto e discreto. Ao final da tarde ele foi dirigido até a mansão pelo Inspetor, para a felicidade pessoal de Ivan, que certamente insistiria para que seu amante passasse a noite na casa.


"Eu sinto muito se não pude ser útil para o seu trabalho." Alaudi mencionou quando subiam a escada de mármore que levava à entrada da mansão. "Meu trabalho não é divertido ou interessante."


"Eu tive uma ótima tarde, de verdade." Francesco não compreendia. Ele achou curiosa a maneira como todos os policiais se tornavam sérios quando o louro estava por perto. Eles batiam três vezes na porta de seu escritório e falavam baixo, com informações precisas e de maneira receosa. Ele é diferente quando está em casa. O Alaudi que eu conheço é sério, mas amável e de bom coração. "E você faz um ótimo trabalho, Alaudi. A população está segura porque você está no comando."


O comentário pareceu surpreender o Guardião da Nuvem, que o olhou de canto e juntou as sobrancelhas.


"Permita-me fazer uma pergunta." O Inspetor parou antes que adentrassem ao hall. O rapaz de cabelos castanhos deu de ombros, mostrando que não se importava. "Por que você me escolheu para esse trabalho? Eu entendo não observar Ivan, pois ele não faz absolutamente nada na vida além de reclamar, mas você tinha Giuseppe, Giulio e Ottavio como bons exemplos profissionais."


Ele deixou Mario de fora propositalmente, aquele detalhe não passou despercebido e fez o futuro Chefe dos Cavallone sorrir. A resposta, no entanto, não precisaria ser pensada. Ele sabia exatamente o que dizer: a verdade.


"A ideia do trabalho é relatar a profissão de seu pai, e como não posso contar sobre a Máfia a minha opção é óbvia." Ele parece surpreso. O herdeiro às vezes não entendia porque Alaudi se surpreendia com aquele tipo de coisa. Mesmo depois de todos esses anos... "Você é parte dessa família. Eu não tenho uma mãe, mas tenho dois pais. Qual o problema? Se o trabalho pedisse que eu observasse minha mãe então eu teria problemas." Os olhos cor de mel se apertaram. Provocar o louro era quase tão divertido quanto deixar Giuseppe envergonhado. "Você se sente parte da família, não? Eu não estou dizendo coisas novas, hm?"


"Não é isso o que eu quis dizer." O Guardião da Nuvem soou confuso. Uma de suas mãos ergueu-se e ele a pousou no ombro de Francesco. "Todas as vezes que olho para você eu me sinto satisfeito. Você não é como certas pessoas." Havia um estranho e peculiar orgulho naquele tom de voz.


"Eu... não compreendo." A porta do hall foi aberta do lado de dentro e a figura de Ivan surgiu como um raio de Sol. O moreno os saudou com um animado boa noite e tentou abraçar o Inspetor de Polícia, apenas para ver-se empurrado. Oh, eu entendo agora...


O jantar daquela noite foi animado. Alaudi não pareceu se importar em ter Mario à mesa, e a novidade ficou por conta da presença de Giulio. O Vice-Inspetor só falou quando foi questionado e, apesar de assumir o mesmo lugar à mesa, havia uma real distância entre os ex-amantes. O ruivo parecia melhor, e deu várias indiretas para o Chefe dos Cavallone sobre sua saúde ter melhorado e ele se sentir praticamente apto a trabalhar. Ivan ignorou a tudo, elogiando o empenho e dedicação de seu Braço Direito provisório e fazendo com que o homem de longos cabelos louros mal conseguisse comer tamanha a vergonha.


O rapaz deixou a mesa após a sobremesa, sem esperar nenhuma reação diferente de seu amante além de um falso boa noite. Nós nos veremos em breve, mas precisamos manter as aparências. Esconder o relacionamento se mostrou mais difícil do que ele esperava. A vontade de permanecer juntos era muitas vezes insuportável, mas Giuseppe era teimoso com as regras e proibia qualquer contato ou conversa que não fosse relacionada ao trabalhou ou tarefa escolar. O futuro Chefe sabia que precisaria dançar conforme a música, embora achasse injusto que não fosse ele o condutor daquela valsa.


Sua companhia entrou no quarto quando o herdeiro não tinha mais esperanças em vê-lo. A tarefa de Literatura fora resolvida, e ele ainda teve tempo de escovar os dentes, colocar o pijama e ler 1/4 de um novo livro que ele surrupiara da biblioteca. O louro pediu desculpas com o olhar, contudo, Francesco decidiu que não facilitaria. Eu o obedeço todos os dias. Eu não o beijo pelos corredores, no escritório ou atrás da mansão. Eu estudo, arrumo meu quarto, faço minhas tarefas e não peço nada absurdo ou ilegal. Não é justo!


"Achei que não fosse mais aparecer." Havia teimosia e um pouco de irritação na voz do rapaz de cabelos castanhos.


"Seu pai e Mario ficaram conversando no escritório e eu subi somente quando meu irmão foi para casa com Giulio, e seu pai se retirou para o quarto. Você sabe que eu não poderia subir antes."


"Sei, sei." O futuro Chefe dos Cavallone estava sentado em sua cama. O livro fora fechado, entretanto, ele sentia vontade de abri-lo e recomeçar sua leitura apenas para mostrar que não se importava. "Eu já fiz a minha tarefa."


"Entendo." O Braço Direito olhou para a escrivaninha e parecia visivelmente envergonhado. "Se não existe nada com que eu possa ajudá-lo eu irei me retirar."


Os olhos cor de mel se apertaram e o herdeiro deu de ombros. Ele está agindo como meu Braço Direito quando quem eu preciso é meu amante. Por que ele não entende que eu não o chamei para aqui para falarmos de Hamlet? Quem se importa com Hamlet?! Francesco reabriu o livro, desejando um baixo e vago boa noite. Quando seu humor se tornava ruim, era melhor que Giuseppe não ficasse por perto ou acabaria vítima de algum comentário maldoso. O rapaz não ouviu a porta ser aberta uma segunda vez, como também não percebeu que o louro havia se aproximado, até notá-lo na beirada da cama.


"É rude ignorar alguém que veio visitá-lo, Francesco." O Braço Direito retirou o livro das mãos do futuro Chefe, marcando a página e fechando-o com delicadeza.


"É ainda mais rude deixar seu amante esperando por horas e depois aparecer com um simples pedido de desculpas, além de tratá-lo com indiferença. Eu não sou seu Chefe neste quarto."


"Eu gostaria que fosse." Giuseppe esboçou um sorriso discreto. "Era mais fácil quando eu entrava neste cômodo sabendo que teria de tratá-lo com profissionalismo. Minha presença aqui era breve e eu sabia que precisaria ir embora. Agora, quando entro, eu não sei como tratá-lo... e como sair."


"Então não saia." O herdeiro cruzou os braços. "Eu não sei o que você quer, Peppe, e continuarei ignorante até que me diga claramente. Eu não quero mais voltar nesse assunto sobre Chefe e Braço Direito, porque sempre acabamos em um impasse." Francesco suspirou. É sempre a mesma coisa. Nós nos beijamos, nós ficamos juntos e então Peppe me olha como se houvesse cometido um pecado mortal. Eu estou cansado disso. Não há nada de errado em estar com quem se ama. "Eu quero saber exatamente o que você quer, pois, se não for o mesmo, eu realmente não sei o que faremos."


"Você," o louro respondeu no mesmo instante, "e-eu quero você, eu já disse."


"O que você diz e o que você faz geralmente são diferentes. Você disse que me ama, que quer ficar comigo, porém, eu sinto como se fosse o único que estivesse se esforçando para que isso aconteça. Você me evita, cria proibições desnecessárias e, quando temos a chance de ficarmos um pouco juntos, é como se não fizesse diferença."


O rapaz de cabelos castanhos não notou que estava bravo até ouvir-se. Sua voz saiu na mesma altura, todavia, suas palavras continham raiva e um pouco de decepção. Ele amava o Braço Direito, não havia dúvidas nisso, mas havia uma parede difícil de ser transposta e seu amante não parecia disposto a oferecer sequer uma corda para que ele utilizasse durante a escalada. Giuseppe permaneceu em silêncio e de olhos baixos. O futuro Chefe revirou os olhos e levantou-se após alguns segundos, cansado de esperar por uma resposta que provavelmente não viria.


"Eu posso dormir aqui esta noite?"


"Você disse na semana passada que é arriscado." O herdeiro engoliu seco. Ele não se deixaria enganar novamente. A falta de insistência por parte de sua companhia o fez virar, pronto para avisar que gostaria de ficar sozinho. Porém, o que viu não foi uma versão séria e teimosa do louro. "Peppe..."


O homem de longos cabelos louros tinha o rosto absurdamente corado. Francesco suspirou longamente, indo até ele e ajoelhando-se aos seus pés. Ele deve ter juntado toda a coragem do mundo para fazer esse pedido. O rapaz de cabelos castanhos sorriu, eu estou esperando demais, mas também não consigo ficar realmente irritado. O futuro Chefe umedeceu os lábios, decidido a permitir que seu amante passasse a noite ali. A resposta, no entanto, nunca chegou a ser dita, pelo menos com palavras. As mãos que seguraram seu rosto eram delgadas e pálidas, mas naquela noite estavam quentes, exatamente como os lábios que o beijaram com fome e certa violência.


Os olhos cor de mel se arregalaram genuinamente surpresos, contudo, o herdeiro não afastou sua companhia ou questionou o que estava acontecendo. Ele era um rapaz de 15 anos, cheio de hormônios agitados e cansado de apenas fantasiar com aquele que o beijava com tanto desejo. Seu corpo projetou-se para frente, deitando-se sobre o do Braço Direito e juntando os corpos no mesmo instante. Um gemido baixo escapou pelos lábios de seu amante e o sangue de Francesco tornou-se quente quando ele sentiu a ereção contra o seu baixo-ventre. Os lábios desceram pelo pescoço pálido, beijando e marcando a pele enquanto suas mãos abriam a camisa de Giuseppe com pressa.


Os sons que os beijos emitiam eram quase tão altos e vibrantes quanto os suspiros e gemidos. Os dois amantes rolaram sobre a larga cama, invertendo posições, entretanto, sem interromperem a carícia. Os corpos de esfregavam com força, procurando alguma forma de alívio através daquelas quatro torturantes camadas de roupas. O rapaz desceu a mão pelo abdômen do louro, sentindo a pele quente e arrepiada. Os lábios se afastaram momentaneamente, marcando o pescoço e deixando um rastro de saliva por onde passavam. Eles nunca haviam ido tão longe e dificilmente ele seria capaz de parar. A ponta de sua língua circulou o mamilo esquerdo e o Braço Direito gemeu de maneira diferente. Isso é interessante...


O futuro Chefe dos Cavallone ergueu os olhos, repetindo a carícia, todavia, dessa vez utilizando as pontas dos dentes. A reação foi imediata. Giuseppe tremeu, erguendo a cabeça e olhando-o com o rosto absurdamente vermelho. Ele é muito sensível... Um largo e satisfeito sorriso pintou os lábios do herdeiro e seria desnecessário mencionar que foi uma questão de segundos até que a voz do louro voltasse a ecoar contida, mas transbordando satisfação. Francesco permaneceu provocando-o por longos minutos. A pele ao redor dos mamilos estava vermelha quando ele deslizou a mão pelo abdômen magro de seu amante, atingindo o nível da calça. E, então, como se houvesse acordado de um sonho, o Braço Direito o segurou pelo pulso, balançando a cabeça em negativo.


"Desculpe, mas hoje nós não vamos parar. Eu quero ver o que existe aqui." O rapaz de cabelos castanhos depositou um gentil beijo no abdômen de Giuseppe. A pele tornou-se automaticamente arrepiada.


"N-Não há nada, digo, nada demais." A voz do louro soou trêmula e a força empregada em seus dedos tornou-se maior. "Você tem a mesma coisa. Não há nada para ser visto."


"E ai eu discordo totalmente..." O futuro Chefe dos Cavallone riu. "Esse dia chegaria cedo ou tarde e você claramente não está em posição de dizer não, Peppe. Eu sei que você quer isso tanto quanto eu." A calça do Braço Direito era bege, portanto, não era preciso muito para notar a ereção que estava por baixo. "Nós não faremos tudo, está bem? Não hoje."


"M-Mesmo?" Giuseppe ergueu as sobrancelhas.


"Sim, eu só quero... sentir você um pouco mais."


Os dedos soltaram o pulso lentamente e o herdeiro sorriu como agradecimento. Ele estava arrependido de ter dito que eles não fariam amor naquela noite, porém, qualquer coisa seria melhor do que masturbar-se sozinho embaixo de um banho gelado. Sua mão esquerda moveu-se com pressa, abrindo o cinto da calça e desabotoando-a com rapidez e destreza. Eu já fiz isso tantas vezes em meus sonhos que é como se eu soubesse o caminho. A roupa de baixo que o louro vestia era branca, e aquilo só serviu para deixá-lo mais excitado. O que ele procurava surgiu assim que calça e roupa de baixo foram abaixadas e não houve um pedacinho de seu corpo que não reagisse àquela visão. Sua própria ereção tornou-se apertada dentro da calça de pijama, no entanto, Francesco estava ocupado demais admirando. Ele é perfeitamente... louro.


As pontas de seus dedos subiram pelo membro e o Braço Direito tremeu ao toque, contudo, só começou a gemer quando o rapaz de cabelos castanhos segurou a ereção em sua mão. Os movimentos começaram lentos e firmes, fáceis de serem realizados devido ao pré-orgasmo. Ele está no limite... Giuseppe provavelmente teria chegado ao clímax sem nenhum toque direto. O pensamento foi mais do que o futuro Chefe pôde suportar. Seu corpo inclinou-se para trás e ele tocou o tapete com os pés, abrindo a blusa do pijama de flanela xadrez. Seu amante ergueu a cabeça, surpreso e curioso. A blusa foi para o chão e a calça saiu facilmente. Ele não vestia roupa de baixo, então a única coisa que tinha para oferecer era seu corpo nu e a mais do que evidente ereção entre suas pernas.


"Desculpe desapontá-lo, mas eu ainda tenho o corpo de alguém de 15 anos." O herdeiro tentou ao máximo não deixar que a coloração vermelha em suas bochechas atrapalhasse seu discurso. "Você acha que é o único inseguro? Pois bem, tente ser dez anos mais novo que o homem que você ama e passar noites imaginando se será capaz de satisfazê-lo quando o momento chegar."


"S-Satisfazê-lo?" Giuseppe ergueu as sobrancelhas e apontou para si mesmo. "Me satisfazer?"


"Eu não planejo dormir com mais ninguém nessa vida, então sim, é você." Francesco apoiou um dos joelhos no colchão, inclinando-se sobre seu amante. "Eu estou com tanto medo quanto você, e adoraria se pudéssemos compartilhar essas coisas." As respirações tornaram-se próximas, e os lábios esbarravam-se uns nos outros. "Esse é meu medo; não ser capaz de te fazer feliz. Agora eu quero ouvir o seu."


"Eu tenho medo que você me deixe." A voz do louro soou baixa. Seus lábios moviam-se devagar e em determinado momento eles beijaram os do rapaz que estava por cima. "Eu tenho medo de não ser suficiente e que você acorde um dia e perceba que estar comigo é um erro."


"Isso não irá acontecer." O futuro Chefe dos Cavallone disse entre o beijo. Os corpos e corações haviam se encontrado, sem intermediários. "Estar com você é o que eu mais quero na vida. Mais do que ser Chefe, mais do que qualquer outra coisa."


"E eu não vou a lugar algum." Uma das mãos do Braço Direito juntou as ereções e naquele momento foi impossível para o herdeiro não gemer. Tocar-se sozinho, na intimidade de seu banheiro ou debaixo dos cobertores era uma coisa; sentir seu amante tão próximo era infinitamente melhor. Giuseppe inclinou a cabeça para cima e encostou os lábios na orelha direita do rapaz de cabelos castanhos. "E para constar, nós temos o mesmo tamanho."


O comentário arrancou uma risada alta dos lábios de Francesco.


"Eu estou crescendo, sabia?" Havia petulância naquelas palavras.


"Eu soube."


Um largo e satisfeito sorriso cruzou os lábios do louro. O rapaz sentiu o coração pular uma batida e foi impossível não roubar um beijo. Não houve recusa e o Braço Direito permitiu-se ser beijado profundamente. Os corpos recomeçaram a se esfregar após alguns segundos e ambas as mãos se juntaram, tocando as ereções em uma perfeita sincronia. O futuro Chefe dos Cavallone nunca havia feito aquilo antes, pelo menos com outro ser humano. Em suas fantasias nunca houve ninguém além de Giuseppe e aqueles minutos foram doces e eróticos e o fizeram esquecer todos aqueles anos de amor não correspondido, mágoas e frustrações. Os membros se esfregavam com força, emitindo sons indiscretos que se misturavam ao suor dos corpos, os gemidos e os beijos. Seu orgasmo veio primeiro, como era esperado de alguém inexperiente e tão jovem. O clímax do louro aconteceu com um pouco mais de empenho e o herdeiro aproveitou o máximo possível. Masturbar o Braço Direito foi o ponto alto de sua semana e ver aquele homem tão comportado e puro tremer e gemer ao chegar ao orgasmo foi definitivamente satisfatório.


Francesco permaneceu em silêncio, esperando seu amante se recuperar. Giuseppe entrelaçou os braços ao redor do pescoço do rapaz de cabelos castanhos, trazendo-o para um longo beijo. Aquele momento daria início a outros minutos de ousadas carícias. O futuro Chefe tinha disposição de sobra, e o louro parecia ter perdido um pouco o pudor. Os corpos se encontraram uma segunda vez, entretanto, dessa vez o Braço Direito inverteu as posições, ficando por cima. Seus cabelos caiam sobre seus ombros e costas, tornando sua figura ainda mais desejável. Por alguns minutos os dois amantes se perderam novamente em toques e beijos, até caírem exaustos sobre a cama. O herdeiro encarou o teto alto de seu quarto, respirando com dificuldade e sentindo o próprio coração batendo em seu peito. O orgasmo aconteceu ao mesmo tempo, e, embora soubesse que precisaria de um novo banho antes de dormir, ele se sentia completamente satisfeito e feliz.


O rapaz de cabelos castanhos arrastou-se até Giuseppe, que havia se virado e estava de costas para a janela, e ofereceu um meio sorriso. O louro sorriu e Francesco ficou em pé, indo até a porta e apertando o botão que apagava a luz. Havia uma gigantesca lua cheia no céu, e ela era suficiente para iluminar o quarto. Ele ficará constrangido, então irei fingir que já não o vi sem roupa. O futuro Chefe voltou para a cama, deitando-se ao lado do Braço Direito e puxando o cobertor até a altura de sua cintura. Giuseppe ergueu os olhos verdes e naquele momento o herdeiro soube que ele estava corado, apesar de não conseguir enxergá-lo totalmente.


"Você está bem?" A mão esquerda de Francesco desceu pelas costas de seu amante. Eles estavam deitados um de frente para o outro e a pele brilhava por causa da luz da lua, tornando-a ainda mais pálida e bela.


"Eu estou ótimo." O louro fechou os olhos e respondeu com um sorriso. "Mas ainda não acredito que fizemos... isso."


"Nós já fizemos isso antes, várias vezes." Os olhos verdes se abriram e o Braço Direito o olhou curioso e um pouco duvidoso. "Em minhas fantasias nós já fizemos coisas que você sequer pode imaginar."


"Eu não quero ouvir sobre isso." Giuseppe juntou as sobrancelhas, todavia, tudo o que o rapaz fez foi rir. "Poupe-me dos detalhes."


"Você faz soar como se eu fosse o único a pensar nessas coisas. Eu sou homem e jovem e a pessoa que eu amo está ao meu lado, felizmente, todos os dias. Seria impossível não pensar em... certas coisas." O futuro Chefe dos Cavallone subiu e desceu as pontas dos dedos por entre os cabelos de seu amante. Os fios eram incrivelmente finos e gostosos ao toque. "Não diga que eu nunca o visitei em certos momentos."


"Eu preciso ir para o meu quarto..." A tentativa de se desvencilhar dos braços do herdeiro foi frustrada, e o louro apenas suspirou. "T-Talvez, uma vez..."


"Você mente!" Francesco riu. "Eu penso em você todos os dias, mas eu compreenderia se você pensasse em outras pessoas." O comentário não foi feito de bom grado, mas ele sabia bem que, por mais que não lhe agradasse saber que seu amante tivera experiência prévia, certamente era mais fácil fantasiar com algum antigo amante.


"Não é isso." O Braço Direito não gostou do comentário e sua reação foi imediata. Giuseppe ergueu a mão, tocando o rosto do rapaz de cabelos castanhos. "Eu sempre tentei me lembrar de você como aquele garotinho que eu conheci no hall da mansão, escondido nas pernas do pai, vestindo shorts marrons e suspensórios. Se eu me focasse naquele garotinho eu sabia que não poderia pensar nada além de servi-lo fielmente para o resto da minha vida. No entanto, foi aquele beijo que trocamos no Natal que me fez abrir os olhos. Eu não poderia tratá-lo como uma criança para sempre. Aquele seu presente foi a minha ruína." O louro ofereceu um meio sorriso.


"Eu achei que você fosse me passar um sermão. Eu honestamente não esperava pelo beijo." O sorriso nos lábios do futuro Chefe foi largo. "Mas se não fosse minha ousadia gratuita provavelmente não estaríamos aqui esta noite, porque no que dependesse de você eu ainda seria aquele garoto vestindo roupas estranhas."


"Não fale assim do garoto. Ele é importante para mim." O Braço Direito riu baixo. "Ele era educado, e não falava coisas absurdas e embaraçosas."


"Eu não disse nada embaraçoso. Não há nada de errado em fantasiar com a pessoa amada. Eu não desejo ninguém além de você e meus pensamentos impuros são provas disso."


"Você não deveria se sentir orgulhoso por ser pervertido." Giuseppe beliscou de leve o antebraço de seu amante.


"Hey, você machucou seu Chefe! Como ousa!" O herdeiro fingiu indignação e foi muito difícil simplesmente não rir.


"É mesmo? Eu não deveria estar deitado na cama do meu Chefe, não?" O louro inclinou-se e ficou por cima.


"E-Eu não sou seu Chefe... agora." Francesco engoliu seco. Seus olhos cor de mel estavam arregalados e ele respirava manualmente pela boca. Cinco minutos lado a lado foi o tempo necessário para deixá-lo excitado novamente. Ele notou. As bochechas se tornaram coradas e o rapaz irritou-se por ser tão jovem e suscetível aos charmes daquele homem.


O Braço Direito o estudou por alguns segundos antes de abaixar-se um pouco. O primeiro beijo foi depositado sobre os lábios do futuro Chefe; o segundo em sua orelha esquerda, fazendo-o rir ao sentir cócegas. Os lábios de Giuseppe desceram pelo pescoço e as pontas dos dentes mordiscaram de leve a clavícula. O que ele está fazendo? O herdeiro encarou o teto, arrepiando-se ao sentir os beijos em um de seus mamilos. Ele não gemeu como o louro, apenas achou a sensação diferente. A língua contornou seu abdômen e somente ao chegar a determinado local foi que Francesco entendeu o que estava para acontecer. Sua cabeça ergueu-se um pouco e os olhos verdes o encararam por um momento. E-Eu não acredito que ele irá... Hoje é o melhor dia da minha vida! A língua estava quente e úmida e subiu da base até a ponta da ereção. O gemido foi acompanhado por uma baixa risada e o rapaz de cabelos castanhos precisou apertar a roupa de cama, pois não sabia o que fazer com suas mãos. Os olhos cor de mel voltaram a encarar o teto e o segundo gemido foi mais alto. Ele sentiu a boca do Braço Direito se fechar ao redor de seu membro e então tudo se tornou escuro.


x


O silêncio era pesado e desconfortável, porém, o futuro Chefe achou que talvez fosse necessário.

Ivan permanecia na mesma posição, pernas e braços cruzados, e uma expressão séria e pesada. Sentado atrás de sua larga mesa, o Chefe dos Cavallone ouvia o relato de Alaudi, no entanto, seus olhos estavam fixos no filho, como se ele fosse o único presente no escritório. Não importa o quanto você me olhe, eu não estou arrependido. Eu faria de novo e de novo e de novo. Um castigo não será suficiente e eu não me desculparei. Eu não fiz nada errado. Os olhos cor de mel encararam sua companhia, e ele sentiu a tensão emanar do corpo de Giuseppe. Ele provavelmente se sente culpado e eu precisei de algum tempo até convencê-lo de que nada poderia ter sido feito. Aquilo estava fadado a acontecer cedo ou tarde.


"Você tem mais alguma coisa a dizer, Francesco?" O moreno descruzou os braços e apoiou os cotovelos sobre a mesa. O Guardião da Nuvem — que estivera ao lado da janela — caminhou até o sofá e parou ao lado do herdeiro, mostrando que, independente da decisão que Ivan fosse tomar, ele tinha a sua própria opinião sobre o assunto.


"Não." Francesco deu de ombros.


"Bem..." O moreno respirou fundo. "Eu honestamente não sei o que dizer."


"Não há nada o que ser dito." O Inspetor falou com seriedade.


"Você sabe que suas escolhas têm consequências, não? Eu venho ensinando a você sobre isso desde pequeno." O Chefe dos Cavallone passou as mãos pelos cabelos. "Eu estou apenas... surpreso. Eu não esperava que justo você fizesse algo assim."


"Eu não fiz nada de errado." Ele não parece desapontado, apenas surpreso. "O garoto pediu por isso. Tudo o que fiz foi tentar separá-lo de Enrico. O soco foi em autodefesa."


"Eu entendi as circunstâncias, mas usar violência para resolver uma situação tão banal?" Ivan suspirou novamente. Ele estava suspirando muito nos últimos dez minutos. "O que me deixa mais pasmo é saber que Enrico fez parte disso. Justo Enrico. Ele é tão... calmo e controlado."


"O garoto ofendeu Catarina e Enrico o colocou em seu lugar." Alaudi não parecia aborrecido. "Escreva uma carta de desculpas para a escola, faça uma doação em dinheiro, mas Francesco e Enrico agiram de maneira correta e nada pode mudar isso."


"Eu sei..." O moreno esboçou um meio sorriso. "Você pode ir agora, Francesco, e peça para Catarina entrar. Eu sei que ela está do lado de fora, provavelmente com a orelha grudada na porta."


"Eu gostaria de visitar Enrico" O rapaz de cabelos castanhos ficou em pé. "Prometo retornar antes do jantar."


"Vá e diga que eu agradeço a preocupação, mas que da próxima vez eu gostaria que o diálogo viesse antes dos punhos."


O futuro Chefe dos Cavallone meneou a cabeça em positivo, caminhando e abrindo a porta. Catarina quase caiu dentro do escritório, erguendo os grandes olhos castanhos e fingindo ter apenas tropeçado. O herdeiro bagunçou os cabelos da irmã ao passar por ela, virando-se e sorrindo ao ver o homem de longos cabelos louros logo atrás.


"Eu posso ir sozinho. Fique e faça companhia a Catarina, ela está nervosa."


"Tem certeza de que não precisa de minha presença?"


"Quando a conversa terminar você pode ir até a casa de Enrico, e então voltaremos juntos."


O Braço Direito ofereceu um meio sorriso e deu as costas, entrando novamente no escritório. Mas que dia... Francesco coçou a nuca, seguindo pelo longo corredor e virando à esquerda, na direção do hall. Ao acordar naquela manhã de sexta-feira, o rapaz de cabelos castanhos não fazia ideia de que teria um dia tão cheio. Alguns subordinados o saudaram ao vê-lo deixar a mansão e o futuro Chefe apenas sorriu, seguindo na direção dos estábulos. Seu cavalo foi selado em minutos e o herdeiro só conseguiu respirar aliviado quando o vento bateu em seu rosto, e a mansão começou a ficar para trás. O pasto era largo e ele teria espaço suficiente para cavalgar até a casa de Enrico. Ottavio deve estar bravo. Espero que minha visite acalme os ânimos.


Tudo começou com um simples comentário. Um tolo e desnecessário comentário que fez com que Francesco visse o melhor amigo por outro prisma. Enrico sempre foi o mais maduro entre eles, aquele que os professores elogiavam e não cansavam de destilar palavras cordiais e gentis. Contudo, quando um dos garotos da turma insultou Catarina, o aluno-modelo transformou-se e de repente o rapaz de cabelos castanhos sentiu que, no fundo, todos tinham um limite.


A sexta-feira foi o dia que Alaudi escolhera para levar Catarina para conhecer a escola. A data foi acordada com a direção, e antes do almoço a garotinha de cabelos ruivos chegou de mãos dadas com o louro. Não eram raros os pais que gostavam de levar os filhos para fazer visitas, logo, junto com Catarina, havia ainda mais duas meninas e um garotinho de mesma idade. O futuro Chefe dos Cavallone esteve em aulas durante a visita pelas instalações, entretanto, eles se encontraram no portão de saída. O Guardião da Nuvem parecia satisfeito com o que vira e a garota ruiva compartilhava da mesma opinião. O herdeiro estava pronto para ir embora, e eles teriam simplesmente seguido para casa se um grupo de alunos não passasse por eles. Um deles esbarrou em Catarina, derrubando-a ao chão. A garota colocou-se de pé, todavia, o estrago já estava feito. O Inspetor de Polícia pediu que os garotos parassem e se desculpassem, mas foi em vão. Eles apenas se entreolharam e riram, pousando os olhos em Catarina.


"Você deveria ter mais cuidado, garotinha." O rapaz era alto, cabelos negros e olhos azuis. Francesco sabia que ele era problema, pois seria remanejado para outra turma assim que o semestre terminasse.


"E você deveria olhar por onde anda." A garota respondeu enquanto batia o pó de seu vestido verde. “Você é tão alto, mas é tão estúpido que não viu uma garotinha parada?”


A resposta surpreendeu o rapaz, que deu um passo à frente e a encarou de cima. Alaudi postou-se atrás de Catarina e isso pareceu suficiente.


"Sugiro que vá embora. Você já fez o bastante, meu jovem." O louro disse arrastado e o rapaz de cabelos castanhos soube pelo tom de voz que ele estava irritado.


"Você tem uma língua bem afiada para uma garotinha da sua idade, sabia?" O garoto apertou os olhos. "Talvez ninguém tenha te ensinado boas maneiras. Você não tem pais para te educarem? Eu não acho que seja interessante para a nossa escola receber alunos como você... mal-educ—"


Ninguém pareceu saber direito o que aconteceu e como aconteceu.

O futuro Chefe apenas sentiu alguém passar por ele e no instante seguinte o garoto estava no chão. Aqueles que estavam ao redor se afastaram e o herdeiro só conseguiu compreender a situação quando o Guardião da Nuvem puxou Enrico de cima do encrenqueiro, que tinha sangue saindo de seu nariz e boca. A confusão tornou-se ainda maior quando mais alunos se aproximaram e foi preciso que Francesco corresse até o garoto machucado, puxando-o pelo braço. Aquilo lhe rendeu um empurrão que foi revidado com um novo soco no rosto do garoto, porém, ele só sentiria a dor em seus ombros e punho quando estivesse sentado fora da sala da Direção.


O amigo e o encrenqueiro foram levados até o prédio principal e passaram um bom tempo dentro da sala da direção. O garoto foi o primeiro a sair, lançando um olhar pesado para o rapaz de cabelos castanhos e Catarina, que estavam sentados em um desconfortável banco de madeira. Quando o Inspetor saiu, acompanhado pelo futuro médico da Família, a primeira coisa que Enrico fez foi se desculpar. Ele parecia triste e passou o caminho inteiro em silêncio. Alaudi o deixou em sua casa e depois os três seguiram até a mansão. A casa do rapaz de cabelos claros tornou-se próxima após alguns minutos de cavalgada e o futuro Chefe apenas esperava que o amigo pudesse recebê-lo.


O futuro médico estava no estábulo quando ele chegou. Enrico escovava um dos cavalos, parando o que fazia e se aproximando. O herdeiro desceu de seu cavalo e ofereceu um sorriso quando os dois se encararam. O amigo puxou as rédeas e levou o animal até um lugar vago e que tinha água fresca e algumas cenouras sobre a palha seca.


"Você está de castigo, não?" A pergunta foi retórica. O futuro médico sempre era enviado para trabalhos braçais quando estava de castigo.


"Uma semana e ainda preciso me desculpar com seu pai."


"Não é necessário, eu vim por esse motivo." Francesco tentou soar animado. "Meu pai agradeceu pelo que fez e disse que uma desculpa formal não é necessária. Antes de eu ir embora falarei com Ottavio. Ele está em casa?"


"Na biblioteca. Você quer vê-lo agora? Eu posso anunciá-lo."


"Não, não, eu vim falar com você." Os dois rapazes saíram lado a lado. Enrico colocou as mãos dentro dos bolsos da calça. A direita estava enfaixada quase por completa. "Como está sua mão?"


"Melhor." O amigo respondeu baixo. O estábulo ficava afastado da casa e eles teriam uma caminhada de cerca de cinco minutos. "Eu sinto muito por ter feito o que fiz na sua frente. Eu sei que agi mal."


"Seu pai te disse essas coisas, não? Eu sei que você não está arrependido." O futuro Chefe dos Cavallone riu ao ver a expressão surpresa no rosto de sua companhia. "Eu sou seu melhor amigo, Enrico. Eu sei certas coisas."


"Aquele garoto mereceu. As coisas que ele disse sobre Cat, digo, s-sua irmã. Ela é uma menina. Você não diz essas coisas para meninas!"


"Hahahaha eu acho que você é o único que vê Catarina como uma menina. Ela age como um garoto a maior parte do tempo." O herdeiro diminuiu o passo. Ele queria alguns minutos a sós com o amigo. Havia algo que ele precisava perguntar, uma curiosidade que havia surgido na última conversa que tiveram, no entanto, permaneceu esquecida. A oportunidade, contudo, era boa demais para ser desperdiçada.


"Ela é somente... diferente, mas continua sendo uma menina. Os mesmos garotos que a importunaram hoje estarão enviando poemas idiotas em alguns anos. Você precisa tomar cuidado, Francis." O futuro médico tornou-se estranhamente sério e incomodado. Ele é muito transparente.


"Diga, Enrico." Francesco parou de andar. O rapaz de cabelos claros fez o mesmo, encarando-o e ainda mantenho os olhos azuis sérios. "Você gosta dela, não? Minha irmã. Você gosta de Catarina, estou certo?"


O futuro médico da Família o encarou e abaixou os olhos, coçando a nuca. Uma risada baixa e envergonhada deixou os lábios rosados e, quando Enrico ergueu o rosto, ele estava incrivelmente corado. Eu agi da mesma forma quando ele me perguntou sobre Giuseppe.


"Ela sabe?"


"Claro que não." Então ele realmente gosta dela... interessante. O rapaz de cabelos castanhos suspirou. "Normalmente seria a minha vez de te dar um soco por gostar da minha irmã, mas eu não posso fazer isso. Você é uma boa pessoa, Enrico, e eu sei que você realmente se importa com ela."


"Obrigado." Enrico ofereceu um meio sorriso. "E eu não farei nada, de verdade. Sua irmã é uma criança e provavelmente me vê apenas como um bom vizinho e um amigo."


"Você mesmo disse que ela não será uma criança para sempre." O futuro Chefe sentiu-se sorrir, lembrando-se da conversa que tivera com Giuseppe há algumas noites. É igual. Enrico provavelmente sente por Catarina o que Peppe sentia por mim. Como eu posso condená-lo? E não é como se ele fosse tentar fazer nada indevido. "Quando a hora chegar, talvez Catarina comece a vê-lo de outra maneira."


"Eu duvido muito. Sua irmã se transformará em uma daquelas garotas muito requisitadas. Eu serei apenas mais um em sua lista de pretendentes." Havia um real conformismo naquelas palavras. Eles realmente são parecidos. "Mas obrigado por não me bater. No que depender de mim sua irmã será bem protegida quando começar a frequentar a escola." O amigo fez uma pausa. O sorriso desapareceu e ele tornou-se sério. "Espero que o que aconteceu hoje não interfira na ida de Catarina à nossa escola..."


"Não se preocupe, Alaudi cuidou de tudo." O herdeiro disse com certo orgulho. "Catarina começará o novo semestre conosco."


O futuro médico sorriu com a notícia e os dois rapazes voltaram a caminhar lado a lado. Ottavio os avistou da janela da biblioteca, fazendo sinal para que Francesco entrasse na casa. O futuro Chefe dos Cavallone suspirou, encarando sua companhia e tentando soar animado.


"Giuseppe provavelmente aparecerá em alguns minutos. Peça a ele que me espere, está bem?"


"Certo." Enrico olhou ao redor. "Então, como é?"


"O quê?" O herdeiro juntou as sobrancelhas. Ele não entendia.


"Estar com a pessoa que você ama." O futuro médico ofereceu um sorriso travesso. "Acha que não notei como você está mais animado nessas últimas semanas?"


Francesco não conseguiu omitir o sorriso. Ele pintou seus lábios e antecipou uma risada baixa. Ambos riram, tolos, jovens e cúmplices. Os olhos cor de mel piscaram e a única coisa que o rapaz de cabelos castanhos lembrava era daqueles minutos em que ele e o louro passaram deitados em sua cama, nus, próximos e recebendo a luz da lua dentro do cômodo. Suas mãos ainda sentiam a temperatura da pele e o cheiro do shampoo de flores jamais o deixaria.


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"É melhor do que eu imaginava," o herdeiro corou. Seus olhos se desviaram rapidamente, avistando alguém vindo ao longe. A pessoa a cavalo logo se transformou em duas pessoas e foi impossível para o futuro Chefe não rir. "Talvez você saiba o que eu sinto, um dia... em cinquenta anos." Sua voz soou risonha.


"Cinquenta?" O amigo também notou que o Braço Direito vinha com companhia. Os olhos azuis brilharam como duas pedras preciosas. "Eu achei que esperar mais cinco ou seis anos seria suficiente."


"Vá sonhando, Enrico!"


Francesco riu e entrou na casa do futuro médico após pedir licença.

Alaudi, Catarina, Giulio, Giuseppe e Enrico... A família se tornava cada dia maior.


Continua...