XIV


O sol estava se pondo quando Antonietta deixou a casa pela última vez.

Giulio lembrava-se de ter permanecido no primeiro degrau que levava ao segundo andar, as mãos dentro dos bolsos da calça negra e a mesma expressão séria em seu rosto. A seriedade fazia parte de sua personalidade, sempre fez. Seu trabalho envolvia um nível alto de responsabilidade e você não se tornava Vice-Inspetor de Polícia com sorrisos e gracejos. No tempo de escola, o moreno era geralmente provocado pelos colegas por quase não sorrir. Alaudi era o único que não se importava por tê-lo sempre taciturno ao lado. Antonietta deixou a casa carregando uma pequena mala. O restante de suas roupas, objetos pessoais e pertences haviam sido deixados na porta do Hotel naquela manhã, mas a mulher permaneceu até o pôr do sol esperando por Giulio. Não houve pedido de desculpas ou explicação. Antonietta olhou para o moreno uma única vez, deu meia-volta e só retornaria àquela casa mais de dez anos depois, porém, por outro motivo e em outra circunstância.


O Vice-Inspetor passou a noite em claro, sentado no chão do que seria futuramente sua sala de estar. A casa não estava pronta, e até aquele dia havia apenas uma cama naquele mesmo cômodo, o banheiro do primeiro andar e a cozinha. A cama havia sido doada naquela manhã, e o segundo andar vazio, como permaneceria eventualmente. Por uma noite inteira ele manteve-se sentado em um canto, encarando o cômodo vago. Não havia móveis em que ele pudesse deitar, então sua única companhia foi uma garrafa de whisky. Giulio achou que aquela fora a noite mais longa de sua vida. Todos os momentos com Antonietta passaram diante de seus olhos e, quando o dia nasceu, o moreno tomou banho, trocou-se e seguiu para o trabalho. Sua vida jamais seria a mesma, ele sabia. O que ele não sabia, no entanto, era que aquela não seria a noite mais longa de sua vida, pois nada, absolutamente nada, poderia se igualar ao que ele sentiu ao permanecer sentado em frente à sua cama enquanto Mario jazia desacordado.


O tiro fora ouvido antes de ser visto. O Vice-Inspetor estava concentrado em transferir os feridos, contando mentalmente os homens que seriam divididos e calculando os carros necessários. O ruivo havia corrido em direção ao jardim, contudo, Giulio sabia que ele retornaria em breve. Mas não tão cedo. Se ele tivesse demorado um segundo a mais nada disso teria acontecido. Ao ouvir o disparo, o moreno virou-se e então tudo mudou. O trabalho tornou-se irrelevante, os feridos poderiam morrer na grama e ele não se importaria. O Braço Direito de Ivan Cavallone caiu e o Vice-Inspetor estava ao seu lado no instante seguinte. O terno de seu amante estava aberto, então foi fácil ver a mancha de sangue tornar-se maior, sujando metade do tecido com um vermelho vivo. Eu gritei. Eu gritei por ajuda. Ugetsu correu até o carro, mas eu podia sentir que o estava perdendo. Quando Mario o tocou no rosto, uma parte de Giulio morreu. A consciência do ruivo esvaiu-se em segundos, e ele foi colocado desacordado dentro do carro. O desespero do moreno aumentou quando o veículo foi parado, após cerca de quinze minutos, e o Vice-Inspetor precisou reanimar o coração do Braço Direito.


O restante do caminho foi feito com um misto de medo e ansiedade. Giulio não ousou tirar a mão de cima do peito de Mario, com medo de perdê-lo novamente. Ottavio e seu filho já o esperavam na casa, e eventualmente o moreno viria a se lembrar que ele mesmo sugeriu a própria residência, por ser mais próxima. O médico dos Cavallone esteve na sede de polícia o tempo todo, esperando pelo Chefe, exatamente no caso de precisar oferecer qualquer cuidado extra. Entretanto, nenhum deles imaginou que seria o sempre responsável ruivo quem mais precisaria de ajuda.


Ivan chegou quando o Vice-Inspetor já se sentia anestesiado. Ele havia carregado o Braço Direito do carro até a cama no segundo andar, sentando em uma poltrona e permanecido ali por minutos que pareceram dias, e em certo momento Giulio sentiu como se fizesse parte da mobília. Ottavio pendurou lençóis ao redor da cama, omitindo o que acontecia. O moreno nada disse. Ele não era médico e sabia que não poderia fazer nada além de esperar. O Chefe dos Cavallone parou ao seu lado e disse algumas coisas, todavia, tudo o que o Vice-Inspetor entendeu foi o sutil pedido para que ele saísse dali. Giulio sentiu o sangue ferver, mas levantou-se e retirou-se em silêncio. Não havia nada que ele quisesse mais do que ficar ali, imóvel e esperando o momento em que Mario fosse despertar. Porém, o ruivo jamais o perdoaria se ele respondesse grosseiramente a Ivan, então o moreno seguiu para o banheiro do primeiro andar contra a vontade de permanecer ao lado do Braço Direito.


Ao contrário da maioria de seus banhos, aquele não o relaxou. O Vice-Inspetor se manteve parado e de olhos fechados, enquanto a água batia em seu rosto e descia por seu corpo. O curto momento em que ele abriu os olhos foi quando notou que a porta havia sido aberta, embora ninguém houvesse entrado. Os olhos verdes se abaixaram e Giulio viu a água parcialmente vermelha no piso do box e descendo pelo pequenino ralo. O local em que a camisa havia sido manchada sujara também seu peitoral e abdômen, e a mancha parecia difícil de sair. A visão fez o moreno engolir seco, pegando uma esponja e passando-a com força sobre sua pele. Não importa o quanto eu esfregue, ela não sai. O registro foi desligado e o Vice-Inspetor passou as mãos pelos cabelos molhados. Eu preciso voltar para o quarto. Quando Mario acordar eu precisarei estar ao seu lado. Havia sempre uma toalha limpa em cada banheiro, portanto Giulio não teve problemas para se enxugar. Uma nova troca de roupas havia sido colocada sobre a pia e ele deduziu que aquilo fosse trabalho de Alaudi, exatamente porque a camisa escolhida havia sido presente de aniversário do próprio louro. O moreno vestiu-se e abriu a porta assim que notou que estava apresentável. O Guardião da Nuvem o esperava do lado de fora, braços cruzados e uma expressão séria.


"Eu vou ajudar no preparo da comida. Você não pode subir, Giulio."


"E eu não posso ficar aqui embaixo." O Vice-Inspetor respondeu baixo.


"Ivan está fazendo o que Ottavio pediu; por hora aguarde aqui, pelo menos até que ele desça."


"Eu não sabia que eles tinham sangues compatíveis." Eu não sabia de muita coisa...


"Nem eu."


A companhia de Giulio foi o homem japonês pertencente aos Vongola. Ugetsu geralmente era falante e risonho, no entanto, naquela noite ele permaneceu sentado no sofá da sala de estar, olhos baixos e silenciosos. O moreno postou-se próximo à janela, encarando a rua e o céu sem estrelas. Havia uma quantidade relativamente grande de subordinados do lado de fora e pela primeira vez desde a missão o Vice-Inspetor conseguiu pensar em outra pessoa que não fosse seu amante deitado e desacordado no andar de cima. A imagem de Giuseppe brotou em sua mente, e Giulio fechou os olhos, sem conseguir sequer imaginar o que diria ao homem louro quando o encontrasse. Francesco e Catarina vieram em seguida, e a garotinha de cabelos ruivos foi o ápice de sua paciência. O moreno virou-se, inquieto e pronto para deixar o cômodo quando notou que era observado. O Guardião da Chuva o encarou em silêncio, contudo, esboçando um sorriso sem muito entusiasmo.


"Alaudi pediu que você me vigiasse, não é?" O Vice-Inspetor suspirou e sentou-se em uma das poltronas. Sua própria casa lhe parecia estranha, como se ele não vivesse realmente ali.


"De certa forma." Ugetsu coçou uma das bochechas. "Ele disse algo com 'não o deixe sair da sala' e ‘use qualquer meio viável', mas acredito que não será necessário, não?"


Giulio nunca havia conversado com o japonês até aquele momento. Eles se conheciam de vista e trocaram cumprimentos vagos anteriormente, entretanto, aquela era basicamente a primeira vez que os dois travavam algum tipo de real diálogo. Ugetsu estava na Família há quase uma década, fazendo parte dos Vongola como um dos Guardiões mais fortes. Talvez ele só perca para Alaudi, então não existe chance de eu conseguir sair ileso daqui. O moreno não cogitava realmente brigar, todavia, saber que estava sendo vigiado não era agradável. O Guardião da Chuva voltou ao estado silencioso e o Vice-Inspetor viu-se novamente com seus pensamentos.


A espera durou quase meia-hora. O Chefe dos Cavallone apareceu na entrada; os dois se entreolharam e permaneceram em silêncio, mas partiu do Vice-Inspetor a iniciativa para um diálogo.


"Fale-me sobre a missão." Dois grandes olhos cor de mel se ergueram e havia incerteza naquele olhar. "Eu ainda não posso subir, certo? O seu relato iria me distrair."


Ivan compartilhou o que acontecera antes de ele chegar à casa. Em determinado momento o Chefe dos Cavallone foi interrompido por Alaudi, que os chamava para a sala de jantar. Havia dois pratos sobre a mesa, duas taças e uma garrafa de vinho. Ugetsu os acompanhou até o cômodo ao lado, porém, afastou-se e eventualmente deixou a casa, de acordo com o barulho vindo da porta de entrada. Giulio sentou-se, no entanto, apenas encarou o prato, sabendo muito bem o que aquilo significava. Ivan continuou o seu relato e o moreno voltou a ouvi-lo.


De acordo com o Chefe dos Cavallone, sua parte da missão havia corrido bem e só restava cuidar dos últimos detalhes, que eram responsabilidade provisória de Giotto. O louro permaneceu o tempo todo próximo, olhos atentos, e falando apenas quando via que Ivan não parecia concentrado em se alimentar. O prato do Vice-Inspetor permaneceu intocado e, quando o Chefe dos Cavallone se pôs de pé — auxiliado pelo Guardião da Nuvem — Giulio soube que ficaria algum tempo livre dos olhos fiscalizantes de seu velho amigo. O Inspetor e Ivan seguiram para a sala de estar e o moreno levantou-se, deixando aquele cômodo e caminhando até a escadaria. Todavia, o Vice-Inspetor não subiu. Seus braços se cruzaram e ele permaneceu parado e imóvel, esperando permissão para subir para o seu próprio quarto.


O sinal positivo partiu do jovem rapaz. Enrico desceu as escadas acompanhado pelos três ajudantes. Nenhum deles estava ensanguentado ou com nenhuma mancha, e Giulio deduziu que eles haviam utilizado o banheiro de cima exatamente para não deixarem à mostra o que havia acontecido. O rapaz o olhou e esboçou um meio sorriso, tocando o ombro do moreno e apertando-o de leve e de maneira reconfortante.


"Meu pai disse que alguém precisará passar a noite ao lado da cama, e eu afirmei que conhecia a pessoa ideal para esse trabalho." Enrico tinha altura mediana, entretanto, parecia maduro para os seus 15 anos. "Eu não deveria dizer isso, pois ainda não sou médico, porém, eu sei que Mario vai sobreviver. Esteja lá quando ele acordar."


O Vice-Inspetor meneou a cabeça em positivo, subindo as escadas e notando que havia esboçado um meio sorriso pela primeira vez. Uma criança consegue ser mais otimista do que eu. Como isso é possível? As janelas do quarto haviam sido abertas, e o cheiro de sangue e álcool havia desaparecido quase por completo. Os lençóis que cercavam a cama foram retirados, a roupa de cama trocada e Mario repousava no mesmo local. Ottavio estava ao seu lado, uma das mãos em seu pulso enquanto o olhar fitava o relógio dourado em sua outra mão. Os olhos azuis se ergueram ao notar que tinha companhia e o médico aproximou-se devagar. Ele parecia exausto.


"Então é você que passará a noite aqui? Sugiro que escolha uma poltrona confortável." Ottavio retirou os óculos e os limpou na camisa que havia sido trocada. "Eu estarei do lado de fora, descansando em um dos carros, portanto, se qualquer coisa acontecer, e eu digo qualquer coisa, rapaz; qualquer sinal diferente, por mais insignificante que possa aparecer, grite da janela. Meu filho permanecerá na casa e ele checará Mario de meia em meia hora."


"Eu entendo."


O médico pousou a mão em seu ombro, da mesma maneira como o garoto havia feito, e desceu a escadaria. Giulio pousou os olhos em Mario, aproximando-se devagar. Não havia nenhuma diferença nítida no ruivo: sua pele continuava muito pálida, ele permanecia imóvel, todavia, agora estava coberto até metade do peito. O moreno pegou uma das poltronas, erguendo-a devagar e colocando-a ao lado da cama. Acomodar-se ali foi fácil, a parte difícil foi procurar a mão do Braço Direito por baixo do cobertor e não senti-la entrelaçar-se à sua. O coração do Vice-Inspetor bateu mais rápido, imaginando quanto tempo demoraria até que Mario voltasse a gargalhar, a olhá-lo com desprezo e a rejeitá-lo novamente. Eu só quero que ele acorde. Eu não me importo se isso significar nunca mais vê-lo. Eu preciso que ele volte.


O tempo parou entre aquelas quatro paredes que formavam o gigantesco quarto do segundo andar. Giulio permaneceu sentado durante todo o tempo, a mão junta a do ruivo e os olhos fixos em qualquer sinal de que ele precisasse de ajuda. Enrico o visitou frequentemente, sempre esboçando um meio sorriso otimista. Ele checou o pulso do Braço Direito em todas as visitas e o estado do curativo; perguntou se o moreno não queria beber ou comer alguma coisa, se ele poderia ser de alguma outra utilidade e questões que demonstrassem que, no fundo, o pobre rapaz também não sabia mais como se fazer útil. O céu mudou de tonalidade do lado de fora da janela, mas o Vice-Inspetor só notou que o dia nascera quando sentiu a presença de mais pessoas no quarto. O Chefe dos Cavallone aproximou-se devagar, porém, não fez perguntas. Ele tocou a testa de Mario com as pontas dos dedos e soltou um baixo suspiro.


"Eu gostaria de trocar algumas palavras com você, Giulio." Ivan fez sinal para o outro lado do quarto. "Alaudi tomará o seu lugar."


O louro, que havia subido com o Chefe dos Cavallone, aproximou-se e meneou a cabeça em positivo. Giulio levantou-se, sentindo as pernas cansadas e o corpo dolorido. Os dois caminharam até a janela e ele cobriu os olhos, protegendo-os da luz. Sua janela ficava em frente ao nascer do Sol e recebia diretamente os primeiros raios. No passado ele perdera a conta de quantas vezes ele e o ruivo foram acordados com a claridade, assim como as inúmeras vezes em que fizeram amor tendo o grande Sol como expectador. Todas essas lembranças parecem distantes. Eu sinto como se estivéssemos separados há anos.


"Eu voltarei para casa. Alguém precisa dar a notícia a Giuseppe e eu sei que terei de ser essa pessoa." Havia um sólido desconforto naquelas palavras e o moreno agradeceu mentalmente por não ser responsável por aquela tarefa. Ele havia se martirizado tempo suficiente durante a noite, imaginando o que diria e como enfrentaria o homem de longos cabelos louros quando o visse. "Se eu conheço Giuseppe, ele pedirá para vir e eu não terei como dizer não. Eu quero saber se você está preparado para isso."


O Vice-Inspetor ergueu os olhos e as palavras ficaram presas em sua garganta. O homem à sua frente estava sério e visivelmente fraco e cansado. No entanto, Ivan precisaria dar uma das piores notícias que alguém poderia receber, para uma das pessoas mais gentis e boas que ele conhecia. Se existia alguém que não merecia viver aquilo, esse alguém era definitivamente o Braço Direito de Francesco.


"Eu ficarei bem." Giulio respondeu após alguns instantes. "Giuseppe tem o direito de ver o irmão e Mario ficará feliz ao acordar e vê-lo aqui."


"Eu retornarei com ele. Alaudi ficará na mansão fazendo companhia à Catarina." O Chefe dos Cavallone esboçou um cansado sorriso.


"Obrigado, Ivan. Obrigado por tudo."


"Agradeça quando Mario estiver totalmente fora de perigo."


O moreno assumiu seu posto quando Ivan e o Guardião da Nuvem deixaram o segundo andar. Enrico reapareceu após alguns minutos, trazendo uma xícara de café e efetuando a mesma rotina de exames que havia realizado durante a madrugada.


"Eu não coloquei nada no café." O rapaz vestia outras roupas e seus cabelos estavam molhados. Ele puxou um pouco o cobertor, abrindo a camisa que o Braço Direito vestia e checando o curativo. Não havia mancha de sangue ou nada que precisasse de ajuda, e aquilo fez o Vice-Inspetor sentir-se aliviado. "Mas você não pode permanecer sem se alimentar. Se meu pai souber que você está de barriga vazia ele não o deixará ficar aqui... apesar de esta ser sua casa, senhor."


"Obrigado pelo café." Giulio levou a xícara aos lábios e bebeu o conteúdo em um único gole.


Enrico sorriu e retirou-se e o moreno estava novamente sozinho. Sua mão voltou a procurar a de Mario, sentindo os dedos aquecidos, contudo, que não respondiam à sua carícia.

E por mais um longo tempo o Vice-Inspetor viu-se na mesma posição, esperando que o ruivo recobrasse os sentidos. A próxima visita médica não partiu do jovem rapaz, e sim de seu pai. Giulio passou a calcular a passagem da manhã de acordo com as visitas que Ottavio fez. O médico nunca dizia nada, apenas refazia os mesmos movimentos, checando as mesmas partes e saindo como se nunca houvesse estado realmente ali. Em determinado momento o moreno esqueceu-se do entorno, focando-se somente em acariciar a mão do Braço Direito, e esperando que com isso ele pudesse despertar mais rápido. Entretanto, teria sido impossível negligenciar os passos apressados que ecoaram de algum lugar às suas costas. O Vice-Inspetor ergueu-se no mesmo instante, virando-se e sentindo como se de repente alguém houvesse puxado o chão debaixo de seus pés.


Giuseppe parou no final da escadaria, encarando o outro lado do quarto com uma expressão que Giulio não conseguia ver devido à distância. Logo atrás veio Francesco, que parecia mais alto do que a última vez que o moreno o havia visto. O homem de longos cabelos louros permaneceu imóvel, e só se moveu quando o rapaz de cabelos castanhos o puxou pela mão. O Braço Direito aproximou-se devagar, passos lentos e receosos, mas que se transformaram em uma rápida corrida quando ele atingiu metade do cômodo. Giuseppe caiu de joelhos ao chegar à cama e naquele momento o Vice-Inspetor pôde vê-lo realmente. O louro tinha os cabelos soltos, formando uma cascata dourada por suas costas e ombros. O rosto estava vermelho, assim como os belíssimos e límpidos olhos verdes. As lágrimas escorreram sem pudor pelas bochechas já úmidas e o choro do Braço Direito foi quieto e doloroso, chamando pelo irmão como uma criança. O futuro Chefe dos Cavallone aproximou-se, abaixando-se e acariciando as costas de Giuseppe com um gentil toque. Os olhos cor de mel se ergueram e, quando encontraram os de Giulio, Francesco ficou em pé.


"Alguma mudança?" O rapaz de cabelos castanhos estava pelo menos cinco centímetros mais altos do que ele se recordava.


"Nenhuma."


O moreno respondeu baixo. Sua voz chamou a atenção do louro, que se levantou e enxugou as lágrimas de maneira desajeitada e utilizando as costas de suas mãos. O Braço Direito o olhou por um momento e o abraçou em seguida. Naquele momento o Vice-Inspetor sentiu as pernas se tornarem fracas e sua garganta fechou-se, todavia, ele permaneceu imóvel, retornando o gesto e afundando o rosto no perfumado mar de cabelos claros.


"Eu sinto muito. Eu realmente sinto muito, Giuseppe."


O choro retornou e Giuseppe se afastou, recorrendo aos braços do herdeiro dos Cavallone, que o levou através do quarto até a escadaria. Giulio sentou-se com barulho, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e segurando a cabeça com ambas as mãos. Ele já deveria ter acordado. Se ele fosse acordar isso deveria ter acontecido há horas. Desespero o fez erguer os olhos, com medo de que naquele curto espaço de tempo Mario pudesse ter se movido. Nada. O ruivo permanecia da mesma maneira, na mesma posição e completamente alheio aos pedidos daqueles que o amavam. O que eu farei se ele não voltar? O moreno tentou afastar aquele pensamento o máximo que pôde, porém, a cada segundo aquela possibilidade parecia mais e mais real. Eu não posso desistir. Eu preciso acreditar que ele vai acordar ou tudo simplesmente perderá o sentido. O Vice-Inspetor respirou fundo, inclinando-se e sentindo os joelhos tocarem o tapete que forrava metade daquele largo quarto. Sua mão direita tocou o rosto do Braço Direito, circulando as sardas e subindo por uma das têmporas até que seus dedos se perdessem nos fios vermelhos.


"É hora de você acordar, Mario." A voz saiu rouca e baixa, mais baixa do que um sussurro. "Se não for por mim que seja por Giuseppe. Ele está inconsolável e precisa de você, nós todos precisamos. Você não precisa me perdoar. Você não precisa me ter de volta. Eu só quero que você acorde. Eu prometo nunca mais procurá-lo, nunca mais vê-lo. Eu ficarei satisfeito em saber que você está vivo, vivendo sua vida, mesmo que não seja comigo. Então, por favor, acorde."


O pedido foi acompanhado por um leve beijo depositado na testa de Mario. Giulio continuou a afagar os cabelos com a mão direita, enquanto a esquerda entrou por baixo do cobertor, encontrando a mão do ruivo e a segurando. O cômodo estava quieto, solitário e sem vida. Aquele local havia sido palco de dez anos de lembranças que jamais seriam esquecidas ou substituídas. Ele é o amor da minha vida. Se eu o perder eu não sei para o que mais viverei. O moreno tentou afastar o pessimismo, no entanto, não havia mais nada que ele pudesse fazer ou falar. Ele não tinha conhecimento médico ou era religioso, logo, tudo o que lhe restava era acreditar que o Braço Direito voltaria, contudo, a cada minuto suas esperanças pareciam se dissipar e o Vice-Inspetor imaginava se chegaria o momento em que ele estaria completamente desesperado.

Giulio apertou um pouco mais a mão esquerda e, pela primeira vez desde que entrou naquele quarto, a mão entre a sua respondeu ao estímulo, apertando-a de volta.


Os olhos verdes se abriram fracos e preguiçosos, piscando longamente e por várias vezes até finalmente se abrirem. O moreno permaneceu imóvel, não sabendo ao certo como proceder naquela situação. Eu preciso chamar o médico, e Giuseppe, e Ivan e Francesco e Alaudi... Os pensamentos se misturavam e o Vice-Inspetor juntou as sobrancelhas, completamente perdido. Os dedos se desvencilharam quando Mario moveu a mão em um lento movimento, retirando-a debaixo do cobertor e erguendo-a com esforço até que ela pousasse na bochecha direita de Giulio. O ruivo tornou-se embaçado, longe, e somente naquele momento o moreno se deu conta de que estava chorando. As lágrimas desciam quentes por seu rosto e o choro que as seguiram deixou extravasar as horas de desespero e tortura que ele sentiu. O Vice-Inspetor não chorou quando viu a ex-noiva na cama com outro homem, ou quando a mesma mulher deixou sua casa e sua vida. Ele não chorou quando a solidão o assolou nos anos que seguiram o fim do relacionamento e, para ser totalmente honesto, Giulio não fazia ideia da última vez que havia esboçado tal reação. Entretanto, as lágrimas estavam ali, escorrendo por seus olhos e o fazendo perder as palavras e o ar, em um momento que havia muito que ser dito.


"Eu... sinto muito. E-Eu sinto muito. Eu realmente sinto muito."


Uma mão grande e pesada tocou seu ombro e o moreno soube que não estava mais sozinho. Seu corpo colocou-se de pé e ele foi conduzido para o lado. Ottavio e Enrico estavam sobre o Braço Direito, e Giuseppe chorava um aliviado choro ao lado da cama e nos braços de Francesco. O Vice-Inspetor precisou de alguns minutos e um largo copo de água com açúcar até conseguir se acalmar totalmente. O Chefe dos Cavallone lhe ofereceu um lenço e permaneceu ao seu lado o tempo todo. Ivan tinha um sorriso nos lábios, todavia, os olhos cor de mel brilhavam com lágrimas. Giulio reaproximou-se devagar, tentando ao máximo ser senhor de si mesmo. Mario ouvia o que Ottavio dizia, porém, ao notar que o moreno havia se aproximado, toda a atenção do ruivo foi para ele.


"Ele está com dor então eu apliquei um pouco de morfina." O médico deu a volta na cama e consultou o relógio. "Ivan, eu precisarei de você. Ele ainda está fraco."


"Eu sou todo seu." O Chefe dos Cavallone havia se aproximado. "Francesco, leve Giuseppe até o andar debaixo. Comam alguma coisa enquanto isso."


O homem de longos cabelos louros tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não saíram. O Braço Direito do herdeiro mordeu o lábio inferior e deixou-se ser escoltado pelo Chefe e Ivan só retirou a camisa quando não havia mais ninguém além deles.


"Por que não vai fazer companhia a eles? Você parece pálido, Giulio, e precisa se alimentar."


"Eu não vou a lugar algum." Giulio sentou-se em sua poltrona e segurou a mão do ruivo entre as suas. O Braço Direito o olhou e juntou as sobrancelhas.


"Você parece péssimo." A voz de Mario era apenas um fio.


O moreno riu, no entanto, fez sinal para que seu amante permanecesse quieto. O Chefe dos Cavallone acomodou-se ao lado do amigo e Ottavio preparou o necessário para a transfusão. O ruivo dormiu em poucos minutos, contudo, dessa vez, quando seus olhos se fecharam, o Vice-Inspetor não sentiu desespero. Os dedos apertavam os seus e a respiração do Braço Direito era ritmada, exatamente como ele se recordava. Giulio permaneceu na mesma posição até que Ivan se levantasse. Ottavio avisou que ainda era cedo para dizer que Mario estava fora de perigo, entretanto, sua voz soou menos séria e havia um toque de alívio na maneira como ele pediu que o moreno ficasse observando o paciente. Os passos desapareceram em certo momento e o Vice-Inspetor permitiu que as novas lágrimas corressem livres por seus olhos. O choro dessa vez foi discreto e contido e ele chorou até que não houvesse mais nenhuma emoção que precisasse ser extravasada. Quando os olhos foram enxugados, Giulio respirou fundo. O ruivo acordaria eventualmente e ele não veria mais lágrimas em seu rosto. Eu preciso ser o lado forte. Eu estarei aqui para o que ele precisar e para o que ele não precisar. Eu o ajudarei e o apoiarei no que for preciso, e, se depois de tudo, Mario quiser dizer adeus eu não o impedirei. Meu desejo foi realizado quando ele abriu os olhos.


x


A recuperação do Braço Direito só começou realmente no dia seguinte.

Naquele primeiro dia, Mario acordou várias vezes, todavia, foram breves momentos que duraram poucos minutos. Ele perguntava as horas, respondia às perguntas de Ottavio e fechava os olhos como se fosse difícil manter-se consciente. Nesse meio tempo o moreno finalmente pôde usufruir de uma deliciosa refeição. Giuseppe fez questão de prepará-la, como uma maneira de se manter ocupado. Os turnos eram divididos pelos presentes, e, na hora do almoço, foi a vez do Chefe dos Cavallone permanecer ao lado do ruivo, então o Vice-Inspetor, o louro e Francesco puderam compartilhar uma agradável refeição na sala de jantar.


"Eu gostaria de saber se poderia retornar amanhã pela manhã." O Braço Direito disse assim que os pratos se tornaram limpos. A carne estava deliciosa, bem passada e temperada, como ele gostava.


"Você pode permanecer na casa, Giuseppe." Giulio limpou o canto da boca com o guardanapo. "Se não houver problema," seus olhos pousaram rapidamente no rapaz de cabelos castanhos, que meneou a cabeça em negativo enquanto dava um longo gole em seu copo de suco de laranja, "você pode ficar o tempo que quiser. A casa é grande e eu sei que você quer tomar conta do seu irmão."


"E-Eu adoraria." Giuseppe ergueu os olhos, encarando o próprio Chefe.


"Não vejo problemas nisso." O herdeiro disse dando de ombros. "Mario não poderá ir embora por algumas semanas e eu posso pedir para outra pessoa me levar até a escola. Fique o tempo que precisar, Peppe." A última parte foi acompanhada por um sorriso que fez o louro corar.


"Então está decidido." O moreno ficou em pé e juntou os pratos um sobre o outro. "A casa é sua, Giuseppe, e se trabalharmos juntos seu irmão logo estará novo em folha."


A ideia já havia passado por sua mente e o Vice-Inspetor ficou feliz por saber que teria companhia pelos próximos dias. Ele não sabia ao certo se Mario aceitaria sua ajuda, logo, a presença do Braço Direito tornaria tudo mais simples. Ivan não pareceu preocupado em ficar sem ajuda, e apenas questionou se Francesco não se sentiria solitário. O rapaz respondeu que faria algumas visitas, mas que Giuseppe permaneceria até o dia que achasse que o irmão estava apto a voltar para casa. Pai e filho conversaram brevemente sobre o que fariam com Catarina, já que a garota recebera uma versão menos realista do incidente, e era seu conhecimento somente que o ruivo fora ferido e precisaria passar algum tempo em Roma. O turno de Giulio começou após o almoço e ele aceitou satisfeito a missão. Aquela, pelo menos, ele sabia que seria realizada com perfeição.


O segundo dia se mostrou melhor que o anterior e o Braço Direito demonstrou uma melhora real.

Mario acordou cedo, porém, ainda não conseguia se alimentar muito bem, portanto, Ottavio receitou que tudo o que fosse dado recebesse uma dose de vitaminas. Aquilo alterava o sabor dos alimentos e foi basicamente a única reclamação do ruivo. O homem de longos cabelos louros ficaria com o turno da manhã, e o moreno perdeu a conta de quantas vezes sorriu satisfeito, do andar debaixo, ao ouvir os dois irmãos conversando. Quando chegou sua vez de subir, o Vice-Inspetor não sabia o que esperar, no entanto, o Braço Direito não o recebeu com palavras atravessadas ou olhares pesados. Mario ainda não podia se sentar, então seus movimentos eram feitos com os olhos. Giulio foi questionado sobre a missão, e apenas respondeu que ela foi um sucesso, contudo, não entraria em detalhes no momento. O ruivo recebeu a resposta em silêncio e nenhum deles voltou a tocar no assunto.


O restante da semana foi basicamente semelhante àquele dia. A melhora foi gradativa: primeiro ele pôde sentar, depois tomar banho (acompanhado pelo irmão), comer alimentos mais sólidos e, quando o fim de semana chegou, o Braço Direito já caminhava pelo quarto, aproximando-se da janela e admirando a paisagem, embora esses passeios durassem poucos instantes. Francesco o visitou quase todos os dias após a escola, acompanhado de Enrico. Foi através dos lábios do futuro Chefe que Mario soube notícias de Catarina, e que a irmã estava insuportável e morrendo de vontade de vê-lo. A visita da garotinha estava programada para o domingo, e o moreno tinha certeza de que seria benéfico para o ruivo receber aqueles que o amavam. Na manhã de sábado o Chefe dos Cavallone apareceu ao lado do Inspetor de Polícia, um largo sorriso nos lábios e desejando animados “bons dias” por onde passava.


"Eu preciso de dez minutos com o nosso paciente favorito e depois sou todo seu." Ivan ofereceu uma charmosa piscadela para Alaudi antes de subir em direção ao segundo andar. O louro virou o rosto, ignorando-o totalmente.


"O que foi isso?" O Vice-Inspetor sorriu. Ver seu amigo após todos aqueles dias foi revigorante.


"O idiota lembrou-se do Anel da Família. O Insolente irá se recuperar rapidamente." A animosidade retornara ao discurso e aquilo fez Giulio sorrir ainda mais. Sentir que as coisas voltariam ao normal era tudo o que ele queria.


"Anel?" Eu estou perdido.


O Guardião da Nuvem ergueu a mão direita, mostrando um brilhante anel prateado decorado com o desenho de uma nuvem cercado por três imagens que lembravam conchas ou ostras. O anel estava no dedo indicador e não parecia diferente de qualquer outra joia que ele já vira antes. Mas eu nunca o vi usando esse anel.


"O Anel que o Cavallone usa possui alguma bobagem que ele diz ter relação com o Sol. Ele serve para aliviar dores e cicatrizar machucados entre outras inutilidades." O Inspetor respondeu antes de ser questionado.


"Oh... isso na verdade é bem útil." O moreno ficou surpreso. Eu não tinha ideia que fazer parte da máfia tinha seus benefícios. "O que o seu Anel faz?"


"É feito para morder pessoas até a morte!" Os olhos de Alaudi brilharam.


O Vice-Inspetor riu e não entrou mais em detalhes. Os dois conversaram por algum tempo na cozinha enquanto bebericavam uma fresca e agradável xícara de café. Giulio perguntou sobre o trabalho e desculpou-se por sua ausência. O louro o chamou de idiota, avisou que não queria vê-lo na sede de polícia por um tempo e deixou claro que aquilo era uma ordem e não um favor. O moreno sorriu e agradeceu, e a conversa focou-se em trabalho, embora o Guardião da Nuvem mencionasse os acontecimentos por cima. Foi através do amigo que o Vice-Inspetor teve conhecimento que os franceses retornaram para o país de origem e que um dos Chefes mais importantes da França fez questão de visitar Ivan quando soube do acontecido com seu Braço Direito. A viagem que o Chefe dos Cavallone faria foi resolvida em um jantar na mansão, no meio da semana, que ainda contou com Giotto, Ugetsu e G. O Chefe francês ficou encantado com Catarina, a ponto de, antes de retornar para o seu país, tentar persuadi-la a visitá-lo algum dia para que a pequena conhecesse seu filho, que era basicamente da mesma idade da garotinha.


"Eu quase o mordi até a morte. Quanta falta de pudor." O Inspetor disse entre os dentes. Os olhos azuis brilhavam com pura ira. "Ele realmente acha que nós deixaremos Catarina ir viajar para conhecer um garoto? Absurdos, absurdos!" O ciúme era presente em cada palavra e foi difícil para Giulio simplesmente não rir. "Francesco estava certo. Nós precisamos ser cuidadosos daqui para frente."


"O que houve?"


"Catarina começará a frequentar a escola em poucos meses e ela queria escolher o lugar, mas Francesco me alertou dos perigos de enviá-la para uma escola desconhecida. É melhor que ela fique sobre os cuidados do irmão."


"Você está com medo que uma menina de nove anos atraia... pretendentes?" Aquilo era demais até mesmo para ele. Seus lábios sorriram. Era simplesmente hilário.


O olhar que Alaudi ofereceu respondeu a qualquer pergunta e o moreno achou mais saudável desviar o assunto para algo menos, digamos, irreal. A segunda parte da conversa foi dedicada aos problemas cotidianos da sede de polícia, e só foi interrompida quando Ivan retornou. O Chefe dos Cavallone e seu amante permaneceram até o almoço e a casa logo voltou a ficar silenciosa. O que quer que Ivan havia feito quando subiu pareceu surtir efeito em pouco tempo, e, já no dia seguinte, Mario aparentava estar muito mais corado e animado quando Catarina apareceu na soleira da porta, batendo insistentemente e avisando que o Vice-Inspetor havia demorado a recebê-la. A garotinha subiu as escadas com pressa, tropeçando no último degrau, entretanto, sem perder o espírito. Catarina passou o dia ao lado do ruivo, e isso incluiu suas refeições e até mesmo um rápido cochilo depois do almoço. A despedida, todavia, foi difícil e Giulio fingiu não notar quando ela enxugou os grandes olhos castanhos ao descer as escadas. O moreno a acompanhou até a calçada, recebendo um forte abraço na altura da cintura.


"Obrigada por tomar conta de Mario." Catarina ergueu o rosto salpicado por sardas.


O Vice-Inspetor pousou a mão sobre os cabelos vermelhos, bagunçando-os como o Braço Direito costumava bagunçá-los e recebendo uma risada animada como agradecimento. O clima na casa tornou-se mais agradável quando Giulio retornou e Mario estava próximo à janela quando o moreno subiu para ver se ele precisava de alguma coisa.


"Bambina fez o possível para não chorar na minha frente. Foi adorável." O ruivo virou-se devagar. Seu cabelo estava maior, batendo além do ombro e naquele fim de tarde preso por um baixo e frouxo rabo de cavalo.


"Ela estava preocupada." O Vice-Inspetor foi até o guarda-roupa e pegou uma troca de roupas limpas para sua companhia. Giuseppe cuidaria do jantar naquela noite então era sua função ajudar o Braço Direito, embora ele já conseguisse tomar banho sozinho. "Como você se sente?"


"Melhor." Mario parou em determinado lugar e abriu a camisa verde clara. O ferimento estava localizado no meio do abdômen, no lado esquerdo, e, apesar de enfaixado, Giulio sabia que não parecia de longe com o ferimento no dia em que ele o trouxe inconsciente para aquele quarto. A mágica que o Chefe dos Cavallone havia utilizado acelerou e muito a cicatrização e Ottavio retirou os pontos na noite anterior, mas pediu que o ruivo usasse curativos por mais alguns dias. "O que acha de me contar o que aconteceu depois que perdi a consciência? Já faz uma semana e eu estou oficialmente fora de perigo."


O moreno sentou-se na beirada da cama e por cerca de dez minutos narrou pela primeira vez o que realmente havia acontecido naquela noite, do início de sua missão — quando o Braço Direito correu na direção da floresta —, até o momento em que Mario havia despertado. O Vice-Inspetor não omitiu nada, sabendo muito bem que sua companhia perceberia qualquer deslize em sua narrativa. O ruivo ouviu em silêncio, caminhando ao redor da cama. Nenhuma pergunta foi feita, nenhuma parte comentada e o Braço Direito agradeceu ao final, pegando a troca de roupas que fora colocada sobre a cama e oferecendo um sincero sorriso como agradecimento à história. Giulio permaneceu sentado até que a porta do banheiro fosse fechada. Ele ficaria ali até que Mario retornasse, e aqueles minutos seriam provavelmente passados com longas reflexões e uma intensa luta interna em manter-se neutro. Eu prometi que não pediria nada e não posso voltar atrasem minha palavra.


Não havia nada que o moreno quisesse mais do que ver aquele homem sorrindo daquela maneira, e rindo como ele havia rido quando Catarina o visitou, porém, uma parte do Vice-Inspetor queria poder abraçar o ruivo, senti-lo em seus braços, envolvê-lo ternamente durante a noite e assisti-lo dormir como ele sempre fazia quando ambos passavam as noites naquela cama. No entanto, aquela era uma linha que Giulio não ousaria cruzar e a pior parte era definitivamente aceitar o conformismo. Eu só preciso aprender a viver sem ele. Quando Mario deixar essa casa será como se nunca houvesse estado aqui...


x


A nova semana começara diferente da anterior. O Braço Direito não permaneceu acamado ou precisando de ajuda para andar, comer, banhar-se ou fazer absolutamente nada. Mario já ajudava no preparo das refeições e atendia à porta, além de receber diariamente os relatórios de Ivan para revisão. Quando o trabalho chegava, o ruivo dirigia-se à sala de estar, como havia feito naqueles dez anos. Ali ele se fechava por horas, lendo, relendo e fazendo anotações. Os relatórios eram devolvidos no final do dia, geralmente cheios de marcas e bilhetes não muito gentis para o Chefe dos Cavallone.


"A Família vai para o limbo desse jeito." O Braço Direito comentou em um final de tarde após rasgar três relatórios. "Diga a Ivan que eu quero vê-lo amanhã! E eu sei que ele está disponível!"


O moreno nunca soube o teor dos relatórios, contudo, na manhã seguinte, quando Ivan apareceu, os dois se trancaram na sala de estar e a voz de Mario foi o único som ouvido. O Chefe dos Cavallone, entretanto, não pareceu triste ou chateado quando retornou, pelo contrário. Ele assoviava e questionava como Giuseppe estava, se o ruivo se alimentava e se ele precisava de alguma coisa. O Vice-Inspetor permanecia calado, observando e divertindo-se internamente. Era extremamente reconfortante ver o velho Braço Direito de volta, com seu perfeccionismo com relação ao trabalho e sem dar chances para Ivan fugir de suas responsabilidades. Giulio acostumou-se àquela rotina e àquelas companhias. Ele e o homem de longos cabelos louros dividiam as tarefas, então o moreno tinha tempo livre suficiente para fazer coisas que ele não se lembrava a última vez que havia feito, como ler um livro, cochilar no meio da tarde e até mesmo pesquisar receitas para os dias que fosse sua responsabilidade cozinhar.


O Braço Direito de Francesco era uma excelente companhia, educado e prestativo e o Vice-Inspetor pegou-se imaginando, antes de dormir, que viver daquela maneira não seria ruim. Ele se acostumara a dormir no sofá, pois a cama ficava para Mario e Giuseppe. O teto creme tornou-se sua visão e todas as noites Giulio imaginava quando aquele sonho terminaria. Ele sabia que não duraria para sempre, todavia, uma parte do moreno não achou que a realidade se mostraria imediata.


O Vice-Inspetor havia acabado de acender a lareira da sala de estar, na sexta-feira, quando o ruivo anunciou que estaria retornando para casa na manhã seguinte. Giulio ficou em pé e virou-se, ouvindo o Braço Direito agradecer pela estadia e atenção, mas que era hora de retornar para a mansão. Mario mencionou o trabalho e disse que o irmão havia se ausentado tempo suficiente e que, embora ele soubesse que o Chefe dos Cavallone não o deixaria trabalhar tão cedo, um deles precisaria assumir a posição, pois o trabalho não poderia esperar. Ele está certo. O moreno meneou a cabeça em positivo. Ele entendia perfeitamente a situação e de sua parte também existia a necessidade de retornar ao trabalho. O Guardião da Nuvem nunca mencionava nada em suas visitas, porém, o Vice-Inspetor sabia bem que fora nomeado para o cargo por um motivo que não tinha relação com a amizade. Então, por quê? Por que era tão difícil deixá-lo ir? Eu sabia que esse momento chegaria, mas eu não quero que ele vá. Quando Mario deixar a casa nós não voltaremos a nos ver... ou...


"Ivan não te deixará trabalhar por um tempo e Giuseppe ficará ocupado na mansão, então eu gostaria de pedir permissão para fazer companhia durante o tempo em que seu irmão não estiver presente. Eu mesmo preciso estar pelo menos meio período na sede de polícia, mas não vejo problemas em visitá-lo durante a tarde." O que eu estou fazendo? Isso soa... convenientemente ruim.


O ruivo pareceu surpreso em ouvir a proposta. Os dois se encararam por um momento e o Braço Direito pensou por alguns segundos antes de oferecer sua resposta.


"Acho que dirigir todos os dias será cansativo, mas não vejo problemas em receber visitas ocasionais. Eu não farei nada que Ottavio ache perigoso." O médico da Família havia proibido que o Braço Direito levantasse peso ou fizesse qualquer movimento que exigisse esforço. Por esse motivo o ruivo passava basicamente o dia no primeiro andar para não precisar subir e descer sem necessidade.


"Não seria problema, mas eu aceito os seus termos." Giulio olhou ao redor. "Eu vou subir e organizar as suas roupas. Você deixou bastante coisa, e eu adicionarei às roupas que você levará." O moreno engoliu seco. Seu guarda-roupa era largo e uma parte dele havia se tornado de Mario. Como os dois nunca tiveram uma real conversa, as roupas de seu amante ainda estavam na casa.


O Vice-Inspetor não foi o único a sentir-se incomodado com aquele comentário. O ruivo o encarou no mesmo instante, demonstrando que sabia do que ele falava. Giulio esboçou um meio sorriso e se afastou, deixando a sala de estar e seguindo na direção da escadaria. A casa estava silenciosa e o homem de longos cabelos louros havia saído para comprar os ingredientes que utilizaria para o jantar. O moreno foi direto para o guarda-roupa ao chegar ao segundo andar, abrindo-o e encarando os inúmeros ternos, camisas, calças, gravatas, pijamas entre outras peças que não lhe pertenciam. As roupas foram retiradas com gentileza e colocadas sobre a cama, no entanto, em determinado momento o Vice-Inspetor parou, encarando o vazio que havia se formado sem uma parte das roupas. Os olhos verdes fitaram aquela área, imaginando quanto tempo ele precisaria até se acostumar com a ausência do Braço Direito. Não será fácil como foi com Antonietta. Eu nem ao menos me lembro como costumava viver. Giulio deu um passo à frente, tocando a pilha de camisas brancas. As pontas de seus dedos sentiram o tecido e ele pegou-se sorrindo, tolo, saudoso e ainda apaixonado.


"Você não precisa fazer isso," disse a voz que veio de algum lugar atrás. O moreno não notou que tinha companhia.


"Você pode precisar das roupas." Ele não conseguiu continuar. Sua garganta havia se fechado, como se alguém de repente houvesse colocado ambas as mãos ao redor de seu pescoço e o apertasse lentamente.


"Eu pedirei que algum subordinado venha buscá-las. Tome o seu tempo para organizá-las." Mario disse mais próximo. O Vice-Inspetor não precisou adivinhar para compreender que sua companhia estava próxima. "Nós precisamos conversar, Giulio."


Antes do incidente eu achei que poderia reconquistá-lo pouco a pouco, oferecendo espaço, mas mostrando-me presente. Hoje vejo como essa ideia soa infantil e infeliz. Eu não irei ser mais um problema. Mario não precisa de mais uma experiência ruim. Giulio pensara o suficiente sobre a sua própria situação naquelas duas semanas, e, apesar de saber que sua tola decisão altruísta não lhe traria benefício algum, o moreno também sabia que havia um limite para tudo. Não temos mais vinte anos e não estamos ficando cada dia mais jovens. Eu jamais me esquecerei do tempo que passamos juntos. Aqueles foram sem dúvida os melhores anos da minha vida.


"Eu precisei de algum tempo para entender as suas palavras. Quando eu as ouvi, no Hotel, uma parte em mim não quis aceitar por puro orgulho." O Vice-Inspetor virou-se, encarando sua companhia. O ruivo estava há alguns passos afastados, e não parecia bravo ou sério ou irritado. "Eu entendo perfeitamente o que você quis dizer e respeito sua opinião."


O Braço Direito entreabriu os lábios, contudo, Giulio ergueu a mão e meneou a cabeça em negativo.


"Eu não o salvei esperando que isso me fizesse melhor aos seus olhos ou que te fizesse sentir em dívida comigo, por favor, esqueça esses pensamentos. Eu estava genuinamente preocupado com você, e não fiz nada por obrigação ou peso na consciência." E eu jamais esquecerei as lembranças, as gargalhadas e todos os momentos que passamos juntos. Você foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida e não haverá um dia que eu não me arrependerei de ter te perdido. "Você estava certo. É hora de cada um seguir o seu caminho."


As palavras haviam sido ensaiadas, entretanto, o moreno mentiria se dissesse que não se surpreendeu um pouco ao notar o quão calmo estava. Seu coração não batia rápido e sua voz não saiu atrapalhada ou receosa. Mario ergueu as sobrancelhas e por um momento o Vice-Inspetor achou ter visto tristeza naqueles belíssimos olhos verdes, todavia, ele tinha certeza de que fora apenas uma projeção de seus próprios desejos, pois, no instante seguinte o brilho desaparecera.


"Você tem certeza?" O ruivo perguntou baixo "É isso o que você quer?"


"Sim." Não.


O Braço Direito umedeceu os lábios e abaixou os olhos. O barulho da porta de entrada sendo aberta fez com que os dois percebessem que não estavam mais sozinhos. Mario ofereceu as costas, caminhando lentamente pelo cômodo e descendo as escadas. O som de sua voz soou segundos depois, animada e saudando o irmão. Giulio virou-se, voltando à atenção para o guarda-roupa e o encarando mais uma vez. O ruivo havia ganhado primeiramente uma gaveta, que logo se transformou em uma porta e em menos de três meses metade do espaço lhe pertencia. O moreno acostumou-se a sempre procurar suas vestes do lado esquerdo, e era difícil imaginar onde ele encontraria roupas suficientes para preencher o espaço vazio. Eu nem ao menos tentarei.


O Vice-Inspetor segurou uma das camisas, lembrando-se exatamente da última vez que o Braço a havia vestido. Não havia peça que não houvesse sido retirada por suas mãos apressadas, e Giulio as conheciam bem, seus tamanhos, cores, perfumes e formatos. A camisa voltou à pilha e ele fechou o guarda-roupa, respirando fundo e fechando os olhos. Ainda não. Eu não estou pronto para deixá-lo ir completamente. Mario poderia não ser mais seu amante oficialmente, mas o moreno precisaria de algum tempo até conseguir ver-se totalmente desvencilhado de tudo o que aquele homem trouxera para sua vida. Um dia eu abrirei este guarda-roupa e ele terá ido embora totalmente. Um dia eu entrarei nesse quarto e o cheiro dele terá desaparecido, porém, eu sei que não chegará o dia em que eu tenha esquecido totalmente o que Mario significou e significa para mim. Ele me mudou, e por isso eu sempre serei grato.


"Obrigado..." O Vice-Inspetor murmurou para si mesmo. Por trás dos olhos fechados as lágrimas se formaram de maneira silenciosa. "E adeus."


Continua...