XIII


A notícia chegou enquanto ele descia os degraus da escadaria do Hotel.

Ivan tinha as mãos dentro dos bolsos, impossibilitado de segurar as de Alaudi como bem gostaria. Os dois estavam lado a lado, encarando as costas de Giotto e de seu Braço Direito. A rua estava silenciosa e em frente ao Hotel havia meia dúzia de carros de cada Família. Subordinados vestindo negro desfilavam pelas calçadas e a cada passo o moreno sentia-se satisfeito consigo mesmo. Não havia nada como o dever cumprido e a sensação de que aquilo havia terminado. Sem mais ameaçadas, sem mais ataques inoportunos no meio da noite e sem brigas ou discussões. Tudo o que o Chefe dos Cavallone queria era colocar a cabeça no travesseiro sabendo que o louro estaria ao seu lado e que dali em diante a vida seria melhor, mais fácil.

Ele não sabia que alguns desejos simplesmente eram impossíveis de serem realizados.


Um grave a alto som ecoou pela rua quando o carro passou e parou literalmente aos pés da escadaria. Os quatro homens pararam e de dentro do veículo negro saiu Ugetsu, pálido, sério e com o terno negro manchado. Naquele momento Ivan soube que alguma estava errada, mas a menção de que algo realmente sério pudesse ter acontecido jamais cruzou sua mente. Ele conhecia os envolvidos na missão. Todos eram experientes e responsáveis e, se Mario era o líder, dificilmente haveria falhas. Aquela era uma das principais características do ruivo. A vida pessoal do Braço Direito poderia ser uma bagunça, porém, profissionalmente falando aquele homem era impecável, paranoico e sério. Então, quando o Guardião da Chuva dos Vongola correu até eles e encarou o moreno nos olhos, a única preocupação do Chefe dos Cavallone foi com algum subordinado que houvesse feito parte da missão. Talvez as casualidades houvessem sido maiores. Talvez algum detalhe não houvesse sido bem planejado. Talvez...


"Senhor, nós temos um problema." A voz do homem japonês soou alta. O sotaque tornava as palavras difíceis de serem compreendidas. "Eu preciso levá-lo imediatamente."


"Ugetsu, o que houve?" Giotto tornou-se sério. Ainda mais sério do que há poucos minutos quando resolviam a outra parte da missão. G. havia ido para o lado do Guardião da Chuva, tocando em seu ombro e visivelmente preocupado.


Os olhos negros de Ugetsu não saíram um segundo de Ivan. Havia preocupação e tristeza na maneira como eles brilharam e a realização atingiu o moreno pouco a pouco. Seu coração tornou-se apertado e, quando ele engoliu seco, o Guardião da Chuva afastou qualquer dúvida:


"Mario foi ferido. Ele foi levado para a casa do Vice-Inspetor. O médico está a caminho, mas fui informado de que o senhor deveria vir comigo."


"Ele está morto?" O Chefe dos Cavallone sentiu a mão em suas costas e soube imediatamente que pertencia ao Guardião da Nuvem.


"N... Não, senhor." O japonês respondeu com pressa. "Por favor, vamos, senhor."


"Ivan..." O Chefe dos Vongola virou-se e naquele momento Ivan sentiu-se observado por basicamente todos os presentes. Eu preciso tomar as decisões certas. Certas e imediatas.


"Giotto eu terei de ir, mas continue com a missão. Um de nós precisa garantir que os subordinados das Famílias sejam alocados. Eu conto com você para isso." Todas as pessoas apreendidas no Hotel teriam de ser levadas para um local seguro até retornarem à França, portanto, era preciso que um deles ficasse incumbido da organização ou algo poderia sair errado. Muitos Chefes foram mortos nos últimos meses e não havia garantia de que não haveria retaliação por parte de algum subordinado mais sentimental. Eles jamais desobedeceriam Giotto. "Eu estou te dando total poder para tomar as decisões que julgar necessárias."


"C-Certo." O homem de cabelos castanhos respondeu rápido.


Giotto ainda disse algo para o Inspetor de Polícia, no entanto, o moreno não chegou a ouvir. Ugetsu o levou até o carro e o Chefe dos Cavallone sentou-se devagar, como se aquilo tudo fizesse parte de um sonho. Alaudi estava ao seu lado no segundo seguinte e o carro deixou a rua em uma velocidade absurda. Isso não está acontecendo. Ivan encarou as próprias mãos, repassando mentalmente o que havia comido naquele dia. Café da manhã, almoço, chá da tarde e jantar. Nenhuma refeição havia sido pulada ou substituída, e eu tenho uma boa saúde. O moreno sabia por que estava sendo levado até Mario e infelizmente ele queria rir, contudo, não conseguia. Eu nunca pensei que um comentário tão tolo se tornaria real. Eu nunca pensei que seria eu a fazer isso. Você sempre brincou sobre isso, Mario, e eu nunca levei a sério... por que você é você. O que houve?


Não havia um momento na vida do Chefe dos Cavallone que o ruivo não houvesse feito parte. Se ele parasse e pensasse, o Braço Direito esteve ao seu lado desde sempre. Mario costumava dividir seu berço, e foi o primeiro a começar a andar e a falar. Eles costumavam correr juntos pelo jardim e a brincar na água do chafariz durante o verão. Muito antes de ser Chefe, Ivan tinha uma sombra, um amigo inseparável, um irmão. O ruivo, embora da mesma idade, o ensinou como falar com garotas e como conquistar garotos. Eles passavam horas conversando, rindo e compartilhando segredos bobos, e foi em uma dessas conversas que o Braço Direito mencionou uma velha história já esquecida pelo moreno.


"Lembra-se quando seu pai adoeceu e meu pai ofereceu o próprio sangue para ajudá-lo?"


"Por que você está se lembrando de algo assim?" Ambos haviam acabado de completar vinte anos e estavam completamente bêbados após duas garrafas de vinho. Mario quase caiu ao tentar levantar-se do sofá, localizado no escritório, preferindo permanecer sentado. Naquela época ele usava os cabelos parcialmente longos.


"É somente algo que lembrei esses dias. Ottavio disse que nós poderemos fazer a mesma coisa se por for necessário." O ruivo mexeu a taça em sua mão direita, agitando o líquido vermelho e esboçando um sorriso. "Um dia talvez eu precise salvar a sua vida, Ivan, quem sabe?"


O Chefe dos Cavallone recordava-se de ter rido e rebatido que achava difícil que aquilo pudesse acontecer. Os dois beberam boa parte da noite e dormiram no próprio escritório, acordando enjoados e com dor de cabeça na manhã seguinte. Por que eu estou me lembrando de algo que aconteceu há mais de dez anos? Uma pálida mão tocou a sua, acordando-o e o fazendo virar o rosto. O louro o olhava sério e Ivan não notou que o veículo havia parado. Do lado do Guardião da Nuvem estava a entrada para a casa de Giulio e o estômago do moreno girou. Ele sabia o motivo. Ele sabia que fora trazido ali porque, se havia alguma esperança de salvar seu amigo, a esperança estava totalmente em suas mãos.


Havia sangue no pequeno portão de entrada e no caminho até a soleira. Ugetsu foi à frente, abrindo a porta de madeira escura e entrando com passos largos. Os caros sapatos italianos do Guardião da Chuva não ecoavam pelo assoalho, ocos e duros. O som que eles faziam era molhado, deixando marcas por cima do sangue. Os barulhos de passos no andar de cima, entretanto, eram altos. À esquerda, na sala de jantar, o Chefe dos Cavallone reconheceu três de seus homens que auxiliavam um rapaz com gazes e ataduras. O jovem, quando viu os presentes, largou os pedaços de pano e se aproximou rapidamente. Suas feições estavam duras e sua voz saiu clara e precisa. Ivan, todavia, precisou de alguns segundos para conseguir se lembrar que o rapaz era Enrico.


"Meu pai está no andar de cima. Ele pediu que eu o preparasse."


"Eu quero vê-lo." O moreno deu um passo à frente. A escadaria estava ali, há poucos passos e havia algo dentro de seu peito que precisava ver.


"Não, Chefe. É melhor que não... ainda." Enrico usou força para impedi-lo de seguir em frente. O Chefe dos Cavallone olhou do rapaz para a mão que segurava seu braço e automaticamente o filho do médico o soltou, corando e desculpando-se. "Meu pai ainda está... tratando de Mario."


"Onde foi o tiro?" Ivan foi guiado até a mesa de jantar. O Inspetor retirou seu terno e arregaçou a manga da camisa.


"No abdômen." Enrico segurou um frasco de cor marrom, despejando um pouco do líquido sobre o braço e antebraço do moreno que pintou sua pele e emitiu um cheiro diferente.


"Onde Giulio está?"


O Chefe dos Cavallone arregalou os olhos e afastou-se. O filho de Ottavio não teve tempo de detê-lo e o mesmo se aplicou a Alaudi. Ivan subiu as escadas pulando degraus e com um único pensamento em mente. Eu preciso tirá-lo dali. Ninguém merece ver isso. A simples ideia de que o Vice-Inspetor havia passado por uma das piores experiências que alguém poderia viver foi demais para ele. Seu corpo simplesmente moveu-se e a cada degrau o moreno imaginava o que faria se fosse ele. Se fosse o louro, o homem que ele amava. Eu preciso ser o lado forte aqui. Mario não gostaria que Giulio precisasse ver isso. A escadaria chegou ao fim e o Chefe dos Cavallone viu-se no segundo andar. Ele nunca havia estado naquela parte da casa, e seu conhecimento vinha de seu Braço Direito e dos comentários que ele sempre fazia sobre "ter um quarto que ocupa o espaço de uma casa inteira". Ivan sempre se sentiu curioso em ver tal coisa, mas nunca imaginou que sua curiosidade seria sanada daquela forma... naquela noite.


O quarto realmente ocupava um andar inteiro. A escada era localizada em um dos lados, e apenas estando no topo era possível enxergar o quão largo era o cômodo. Naquela noite ele estava bem iluminado, porém, o moreno gostaria de não ter visto o que viu. Havia uma trilha de sangue que ia da escadaria até a outra extremidade do quarto e ele não notara no que havia pisado até chegar ali. As janelas estavam parcialmente abertas, no entanto, nenhuma ventilação seria capaz de afastar aquele cheiro. Era morte, esgueirando-se por cada centímetro e fazendo-o lembrar-se dos últimos momentos de seu pai. O mesmo cheiro. Os olhos cor de mel se ergueram, fixos no outro lado. O local que era reservado para a cama fora cercado por cortinas brancas, então ele pôde ver claramente as siluetas de três pessoas. E, no meio do quarto, sentado de costas para a escadaria estava a pessoa que ele procurava.


Giulio estava acomodado em uma poltrona com estofado creme. Seus olhos, atenção e distintos, estavam na cama, pois ele não notou que tinha companhia até o Chefe dos Cavallone parar ao seu lado. Verdes e opacos olhos se ergueram, encarando-o por um momento e voltando à cama. O Vice-Inspetor estava sem o terno, e sua camisa brilhava com um vermelho vivo na parte da frente. Foi Alaudi quem tomou a palavra, dando a volta na poltrona e inclinando-se sobre o amigo e perguntando se ele estava ferido. Eu não notei que ele havia me seguido...


"Não é meu sangue." A resposta saiu baixa. Os olhos permaneciam sobre a cama.


O louro ergueu os olhos azuis e naquele momento Ivan soube que teria de tomar as rédeas da situação. O Guardião da Nuvem nunca foi falante ou persuasivo e o moreno sabia que precisaria ser ele a tirar Giulio daquele lugar.


"Existe outro banheiro na casa?" O Chefe dos Cavallone perguntou baixo. Ele viu o banheiro próximo à escada.


"No térreo. Você pode usá-lo." O Vice-Inspetor respondeu com o mesmo tom de voz.


"Eu não irei, você usará." Ivan disse sério. Giulio ergueu o rosto e aquele olhar dizia claramente que ele não tinha intenção de ir a lugar algum. "Ouça, você está cheio de sangue. Suas roupas, seus sapatos e seu rosto." Foi difícil para o moreno ignorar as marcas de dedos do lado esquerdo do rosto do Vice-Inspetor. Era cruel. Viver naquele mundo era cruel. "A última coisa que Mario precisa é acordar e vê-lo nesse estado. Você sabe que ele odiaria isso."


As palavras demoraram algum tempo para fazer efeito, contudo, funcionaram. Giulio encarou suas roupas e pareceu acordar pouco a pouco, ficando em pé e parando em frente ao Chefe dos Cavallone. O Vice-Inspetor fez menção de ir até o guarda-roupa, do outro lado do quarto, entretanto, Alaudi disse que levaria uma troca de roupas limpas. Quando Giulio finalmente desceu, o louro afastou-se para buscar as peças e Ivan soube que aquele era o único momento que teria para saber a verdade. Seus pés moveram-se alguns passos, todavia, antes que ele pudesse se aproximar da cama, uma parte da cortina foi arrastada e Ottavio surgiu. A visão fez o moreno engolir seco e se perguntar se ele realmente aguentaria a verdade. O homem de cabelos louros e parcialmente grisalhos estava coberto de sangue, e aquilo era ainda mais evidente devido ao avental branco.

Ottavio aproximou-se e limpou os óculos. Cada passo parecia torturante.


"É ruim, Ivan." O médico disse baixo. "Ele perdeu muito sangue."


"Eu estou aqui." O Chefe dos Cavallone disse firme. Aquilo deveria contar para alguma coisa, não? Seu sangue funcionaria.


"Nós retiramos a bala, mas precisamos limpar o local. Você precisará estar deitado ao lado dele."


"Eu entendo." Ivan engoliu seco. O Guardião da Nuvem havia retornado e ouvia a tudo com seriedade. "Mas ele tem chances, não? Mario ainda não desistiu, não é?"


"Ele precisou ser reanimado no caminho, pelo que eu soube. O homem que esteve sentado até agora fez o trabalho, mas Mario já chegou inconsciente e não recobrou os sentidos." Ottavio umedeceu os lábios e era clara a maneira como o que viria em seguida era difícil o suficiente para fazê-lo hesitar. "Ele talvez não acorde, Ivan."


Ele sentiu as lágrimas, mas elas jamais chegaram a cair. O moreno respirou fundo, fitando as roupas nas mãos do Inspetor de Polícia e encarando o médico nos olhos. Ottavio era o melhor médico da Itália e definitivamente a única pessoa que poderia salvar Mario e o Chefe dos Cavallone apostaria nisso. Eu não vou perder meu irmão esta noite. Nosso trabalho ainda não está feito.


"Vamos fazer isso agora." Ivan ergueu o braço esquerdo, mostrando a pele escura no local em Enrico havia passado o líquido de cheiro diferente. "Eu estou pronto."


"Nos dê apenas alguns minutos e nós limparemos o local, Ivan. Você não quer entrar agora." Ottavio tornou-se sério, porém, havia preocupação em sua voz.


"É uma ordem, Ottavio."


O médico estudou o moreno por alguns segundos, murmurando um baixo palavrão antes de dar as coisas.


"Alaudi, não deixe Giulio subir até que eu desça." O Chefe dos Cavallone encarou o amante e esboçou um meio sorriso cansado. "E certifique-se que palavra alguma chegue à mansão. Eu não quero Giuseppe aqui até que a situação tenha sido controlada."


O louro não respondeu, apenas cortou o largo quarto e desceu as escadas com as roupas em mãos. Ivan virou-se e se pôs a andar, seguindo atrás de Ottavio. A cortina foi arrastada e nada jamais o teria preparado para o que ele viu naquele recluso espaço. A cama era larga, maior do que uma cama de casal convencional. Os quatro pilares serviam de apoio para os panos brancos e sobre o colchão repousava um homem que não era Mario. Não poderia ser. Esse homem estava deitado em uma das beiradas, vestindo apenas a calça escura. A camisa havia sido retirada e seu abdômen fora enfaixado, embora uma mancha vermelha denunciasse o local do tiro. Ele parece quase transparente.


A pele pálida tinha uma coloração levemente azulada e sem vida. Os cabelos ruivos repousavam sobre o travesseiro branco, criando um vivo contraste. Tudo é vermelho. O moreno encarou a cama e havia sangue em literalmente toda a parte. Ottavio perguntou novamente se ele tinha certeza de que queria fazer aquilo e a resposta foi a mesma. A camisa azul clara foi retirada e o Chefe dos Cavallone a dobrou ao meio enquanto caminhava até o outro lado. Um dos ajudantes se apressou, cobrindo o restante da cama com um grosso cobertor escuro. Ivan acomodou-se devagar, aproximando-se do ruivo e permitindo-se um leve toque em seu rosto. Ele está parcialmente frio. Eu preciso me apressar. O moreno deitou-se no mesmo instante em que Enrico surgiu atrás da cortina branca trazendo os utensílios necessários para a transfusão.


"Francesco não pode saber o que está acontecendo." O Chefe dos Cavallone seguiu o rapaz com os olhos.


"Eu sei, Chefe. Meu pai já deu ordens para que nenhum subordinado retorne à mansão. Agora relaxe, por favor." A voz de Enrico soou calma e suas mãos não tremeram em momento algum. A agulha entrou diretamente na veia de Ivan, com uma prática e destreza absurda. Ele é bom.


O teto do quarto era alto e foi ali que o moreno depositou seus pensamentos. Ele queria chorar, gritar e destruir coisas, no entanto, sabia que nada daquilo beneficiaria o homem que estava deitado ao seu lado. A mão esquerda abriu-se e fechou-se enquanto o sangue era passado diretamente para o Braço Direito. O Chefe dos Cavallone nunca havia feito aquilo e mentiria se dissesse que não sentia dor, contudo, aquilo parecia tão irrelevante que não merecia sequer consideração. Eu espero que Alaudi consiga manter Giulio afastado. Ele não pode subir. As palavras de Ottavio ecoaram em suas orelhas, entretanto, Ivan as afastou de imediato. Não importava se as chances de Mario sobreviver fossem pequenas, quase nulas. Ele lutaria até o último segundo para trazer o ruivo de volta e isso significava oferecer cada gota de sangue em seu corpo. Aquilo não era nada se comparada a vontade de ouvir a alta e sonora gargalhada de seu Braço Direito, amigo e irmão, ecoando por todo o cômodo.


x


O homem já aguardava dentro da sala quando o Guardião da Nuvem entrou. Eventualmente, quando reportasse a conversa que teve dentro daquela larga sala que servia como escritório, o Inspetor diria que não se surpreendeu por ser recebido. O que eles conversaram entre si, todavia, só chegaria ao conhecimento do moreno dias depois. Quando o Chefe dos Cavallone finalmente entrou, acompanhado de Giotto e G., a primeira coisa que chamou sua atenção foi a tranquilidade que sentiu ao pisar naquele local. Não havia tensão ou animosidade. O homem sentado atrás da larga mesa parecia cansado e muito mais velho que seus sessenta anos. Marco Apollo não ofereceu nada além de um olhar, as mãos pousadas sobre a mesa e parcialmente cruzadas. Ivan sentou-se em frente, seguido pelo homem de cabelos castanhos. O Chefe dos Vongola, porém, parecia mais sério do que o normal e o moreno entendia bem o motivo. Quando o assunto é a Família Giotto se torna extremamente consciente. Ele não sabia se havia necessidade de conversa. A situação falava por si e quanto mais encarava o homem atrás da mesa, mais certo o Chefe dos Cavallone estava de que ele também sabia disso.


"Por quê?"


A pergunta deixou os lábios de Giotto em um tom sério e direto. O homem de cabelos castanhos havia se inclinado à frente e a expressão que pintava seu rosto era de dor. Ele é gentil demais para esse tipo de vida. Ivan sempre teve esse pensamento e por isso gostava de resolver os problemas sozinho. O Chefe dos Vongola era um homem capaz, mas o moreno se sentia machucado sempre que via como o amigo reagia àquele tipo de mundo. No fundo, o Chefe dos Cavallone sabia que a última coisa que Giotto queria era estar ali. Ele deveria estar com a esposa e o filho. Todos nós deveríamos estar com aqueles que amamos e não aqui. Ivan cruzou os braços. O homem atrás da mesa permaneceu em silêncio e ele permitiu-se imaginar, naquele momento de total ignorância, como Mario estaria se saindo em sua missão.


O ruivo havia seguido para o lado afastado de Roma, mas a missão do moreno não seria realizada em um local tão isolado. O Chefe Principal escolhera o Hotel mais caro da cidade, basicamente localizado no coração cultural de Roma. O lugar era luxuoso e o homem reservara uma parte somente para seu prazer pessoal. O escritório que usava comportaria facilmente todos os Guardiões dos Vongola e alguns subordinados dos Cavallone. No entanto, naquela noite, as cinco pessoas no escritório eram suficientes. Marco Apollo não deixaria o Hotel como um homem livre, contudo, aquela parte ficaria a cargo de Alaudi e Ivan se perguntava se seu amante conseguiria ir até o fim com o plano.


"O senhor será enviado para o interior após renunciar ao cargo. O salário será pago mensalmente, mas o valor cortado pela metade." O louro começou a falar após alguns minutos de um constrangedor silêncio. O rosto do Guardião da Nuvem parecia uma pintura: fria e impassível.


Marco Apollo não fez nada além de desviar os olhos de Giotto para o Inspetor de Polícia. O moreno permaneceu em silêncio, a mão firme no cano da arma em sua cintura e pronto para atirar sem hesitação. Imaginar que aquele homem fora responsável pelo atentado contra Alaudi fazia seu sangue ferver, entretanto, aquele não era o melhor momento para vinganças. Destituir aquele homem de cargo e mandá-lo para os confins da Itália seria uma punição razoável. Para alguém amante de poder, perder tudo significava muito mais do que a morte. O discurso do louro, todavia, não terminou naquele momento. O Guardião da Nuvem recitou os direitos do Chefe Principal, citando com ênfase os direitos extras que o homem possuía por ser um policial e por ter servido por décadas ao Estado. Cada lei fora dita sem erro, como se o Inspetor soubesse tudo de cor. Ao término, Alaudi retirou um pedaço de papel de dentro do terno e o colocou sobre a mesa, oferecendo-o para sua companhia.


"Assine o nome três vezes."


O homem segurou a folha, concedendo alguns segundos de leitura e esticando a mão para pegar uma caneta. Nesse momento o Chefe dos Cavallone retirou a arma da cintura e a apontou diretamente na direção de Marco Apollo. A atitude pareceu surpreender o Chefe Principal, que oferece um meio sorriso.


"Desconfiado, não?" O homem abriu a boca pela primeira vez desde que eles entraram no Hotel.


"Cauteloso, eu diria." Ivan permaneceu imóvel. Uma simples caneta poderia ser transformada facilmente em uma arma mortal se colocada em mãos erradas e ele jamais correria o risco de ter o louro ferido novamente. "Eu morreria para protegê-lo e pretendo retornar vivo para casa esta noite", foi o que pensei naquele momento. Eu mal sabia que não voltaria para casa tão cedo.


Marco Apollo assinou seu nome sem hesitação. As três assinaturas estavam localizadas ao final da folha e ele a ofereceu ao Guardião da Nuvem logo em seguida. O Inspetor a segurou, checando as assinaturas e erguendo os olhos azuis. Os dois se encararam por um momento e Alaudi dobrou a folha de papel, guardando-a dentro do terno e retirando um par de algemas prateadas. Naquele momento, porém, o Chefe Principal sorriu; um sádico meio sorriso que demonstrava o quanto ele se importava em estar naquela situação.


"Eles oferecerão o meu cargo a você, Alaudi. Não é excelente? Tudo o que você sempre quis ao alcance de suas mãos."


O louro, no entanto, não respondeu. O moreno o observou levantar-se e dar a volta na mesa, arma em punho e pronto para atirar se o homem tentasse fazer qualquer movimento contra seu amante. Marco Apollo, contudo, apenas levantou-se e permitiu-se ser algemado. Ele sabia que isso aconteceria. Quando entramos nessa sala ele já tinha conhecimento que entrou possuindo o cargo mais importante da Itália, mas iria embora como um velho que possuía dinheiro demais para gastar. Poder é algo assustador. O Chefe dos Cavallone abaixou a arma somente quando o ex-Chefe Principal voltou a se sentar. Parte da missão havia terminado e ele queria deixar aquela sala o quanto antes. Giotto ficou em pés, entretanto, não sem antes avisar que jamais perdoaria o homem e que eventualmente aquilo retornaria para ele. Marco Apollo apenas sorriu. Seus olhos ainda estavam no Guardião da Nuvem.


"Nós poderíamos ter sido grandes juntos, Alaudi. Eu te dei tudo: carreira, cargo e uma vida confortável." O ex-Chefe riu. "E no final você escolhe um dos homens que está destruindo esse país."


"Você está errado." O Inspetor de Polícia estava ao lado da mesa. Ivan havia ficado em pé, vindo atrás. "Nunca houve escolha. Eu jamais vi a sua proposta como opção."


"Hm... então, uma última vez, diga o que você quer?" A voz do homem soou irônica. "Diga o que é mais importante do que o cargo que você sempre almejou e fez o impossível para conquistar?"


O louro deu as costas e abriu a porta, saindo sem olhar para trás. A última coisa que o moreno lembrou-se foi de se sentir aliviado ao deixar aquela sala, achando que a pior parte de seu dia havia terminado. Quando penso nisso eu me sinto tolo. O pior, todavia, estava por vir e ele deixou o Hotel e encontrou-se com Ugetsu na escadaria de mármore. O que aconteceu em seguida não foi mencionado e o Chefe dos Cavallone terminou seu relato sobre a missão com um gosto amargo em sua boca. A pessoa que o ouvia não esboçou reação alguma, apenas questionando para onde o ex-Chefe Principal seria levado.


"Eu não tenho ideia, mas acredito que Ugetsu saiba. Você deveria perguntar a ele." Ivan esforçou-se para engolir mais uma colherada de arroz. Sua única vontade era continuar a beber o vinho, mas apenas uma taça lhe foi permitida.


"Eu irei." Giulio respondeu baixo. O prato à sua frente estava intacto. Ele não tocara no risotto ou no pedaço de frango e nem ao menos havia provado o vinho.


"Você precisa se alimentar." O moreno achou irônico dizer aquilo. Seu próprio prato mal fora tocado. "Você permanecerá ao lado dele, não? Fazer vigília é cansativo e requer energia."


"Eu estou bem."


O Vice-Inspetor ficou em pé, porém, permaneceu próximo à mesa. O Chefe dos Cavallone deu mais uma garfada no pedaço de frango assado, sentindo a textura macia do peito. Eu me sinto fraco. Ivan encarou o prato e se esforçou para terminar de comer. Muito dependia de sua força e aquela sensação de exaustão era apenas sinal de que ele precisava dar o seu melhor. O moreno permaneceu um longo tempo deitado ao lado do Braço Direito. Seu corpo tornou-se mole e fraco, e ele teria dormido se Ottavio não tocasse seu rosto e avisasse que era suficiente. Eu tentei permanecer por mais tempo, mas ele não permitiu. O médico praticamente o enxotou do segundo andar, dando ordens para que o Guardião da Nuvem não o deixasse subir.


"Você perderá a consciência se eu tirar mais uma gota de sangue do seu corpo. Por hora isso é suficiente, Ivan." Ottavio encarou o filho, que colocava um curativo na veia do ruivo. Ele parece mais corado, talvez? Ou eu estou vendo o que quero ver? "Enrico, prepare algo para o Chefe comer. Eu precisarei de você em 12 horas, Ivan. Coma alguma coisa e vá para casa. Giuseppe tem o direito de saber o que está acontecendo. Eu garantirei que Mario esteja apresentável quando o irmão chegar."


Desde então o Chefe dos Cavallone foi proibido de subir e Enrico e o Inspetor prepararam juntos um rápido jantar com o que havia disponível na cozinha. Ivan encontrou Giulio na sala de estar, de portas fechadas e próximo à janela. O Vice-Inspetor virou-se ao ouvir o barulho da porta e os dois permaneceram em silêncio por alguns minutos até Giulio questionar sobre o andamento da missão. Relatar o que acontecera foi revigorante e por um momento o moreno pensou em outra coisa que não fosse o fato de que seu melhor amigo estava lutando para permanecer vivo no andar de cima. O Vice-Inspetor ouviu a tudo com tranquilidade, questionando certas coisas, no entanto, sem mencionar nada profundamente. O Chefe dos Cavallone, contudo, não fez menção de perguntar nada sobre a outra parte da missão, então eles passaram os minutos seguintes em silêncio. Enrico foi o responsável por anunciar o jantar e ambos seguiram para o cômodo ao lado. A sala de jantar havia sido limpa, assim como os corredores e a escadaria. Não havia mancha de sangue ou sinal do que acontecera, entretanto, seria impossível apagar o que havia acontecido de seu coração, e Ivan sabia disso melhor do que ninguém.


O moreno só se levantou quando seu prato se tornou limpo e Alaudi garantiu que isso acontecesse. O louro ficou ao lado, olhos atentos e expressão séria. A cada colherada o Chefe dos Cavallone engolia sem vontade, apenas por necessidade e dever. Enrico levou os pratos, subindo para o segundo andar enquanto o Guardião da Nuvem ajudava Ivan a ficar em pé. Os dois foram até a sala de estar e o moreno sentou-se exausto em um dos lados do sofá.


"Você deveria descansar. Faltam algumas horas para o dia nascer e nós não poderemos chegar à mansão de madrugada." O Inspetor fechou a porta e então eram somente eles.


"Eu não acho que conseguirei dormir." O Chefe dos Cavallone disse teimoso, embora um rápido bocejo houvesse deixado seus lábios.


"Você irá dormir... eventualmente."


As palavras fizeram Ivan erguer os olhos, notando que Alaudi havia se sentado do outro lado do sofá. Um triste sorriso cruzou seus lábios e ele bocejou novamente.


"Você colocou algo na comida, não?"


"Ottavio disse que era necessário." O louro pegou uma almofada e a colocou sobre o colo. O moreno arrastou-se até ele, apoiando a cabeça e virando-se para encarar o homem que o havia drogado. "Você precisa descansar."


"Giulio sabia disso e por isso não comeu." O Chefe dos Cavallone ergueu a mão direita, tocando o rosto de seu amante. Ele é quente. Ele está vivo. "Isso é cruel até mesmo para você, Alaudi."


"Foi o vinho, não a comida." O Guardião da Nuvem fechou os olhos ao sentir-se tocado. "E você pode ficar irritado quando acordar. Eu não me importo."


"O que nós estamos fazendo aqui?" Ivan sentiu os olhos pesados, todavia, ele lutou para permanecer acordado. "Nós deveríamos estar em casa... com Francis e Catarina, Giuseppe e Giulio... e Mario... Mario deveria estar lá, rindo enquanto contava sobre a missão... r... rindo... Mario..."


As lágrimas escorreram, mas o moreno já não conseguia manter-se lúcido. Os olhos se fecharam e ele sentiu seu corpo relaxar conforme o sono o possuía pouco a pouco. A imagem do Braço Direito sumiu lentamente por trás dos olhos fechados, como se fosse feita de névoa. O Chefe dos Cavallone podia ouvir o silêncio e esperava somente o momento em que o remédio fizesse totalmente efeito para que ele pudesse entrar no mundo dos sonhos e esquecer momentaneamente aquele pesadelo. A espera não foi longa, porém, antes de perder a consciência Ivan sentiu algo quente e úmido tocar sua bochecha direita. E, então, tudo se tornou negro, como aquela noite.


Continua...