Dois meses depois...

MN-41 N/Chestnut Blvd, Minnesota — 2005


A cidade, em si, não tinha nada de mais além das casas antigas e bem ornamentadas que se espalhavam em fileiras pelos bairros mais nobres do lugar. Obviamente, não era ali que encontrariam um hotel para se hospedarem, mas, naquele momento, essa era a coisa que menos importava para os irmãos Winchester. Com a população de 3.853 habitantes, Deephaven era um lugar que possivelmente lhes traria problemas, com relação à discrição. Seria muito mais simples passar o caso para qualquer outro caçador, mas a situação era pessoal demais para tal.

Há duas noites haviam recebido uma ligação de Fletcher, e, mesmo não mantendo muito contato com Gable, foram praticamente obrigados a ouvir o que ela tinha a dizer. Robert Singer, um antigo amigo da família, pegara a caçada com ela há aproximadamente um mês para ajudar outro caçador. O desconhecido Fortis qualquer coisa. Dean atendera ao telefone, não entendeu o sobrenome, e preferiu não perguntar, porque a mulher parecia verdadeiramente preocupada.

No geral, caçadas demoravam. Alguns dias, uma semana, três no máximo quando a situação era complicada. Mas tanto tempo assim? E, pelo que Fletcher lhes contara na ligação, Fortis estava naquilo há ainda mais tempo, pois chegara praticamente dias depois do ocorrido. Supostamente ele já deveria ter pelo menos uma noção do que se tratava, ainda mais com a ajuda de Bobby. Mas não, e, no fim, ambos desapareceram. Gable certificou-se, ligou para todos os números disponíveis, até pediu favores a outros caçadores. Singer podia não ser o melhor homem do mundo, mas o conhecia e confiava em suas habilidades como caçador. Ele nunca desapareceria durante tanto tempo. E Fortis também não era de sumir assim, de repente.

Ele também afirmou que não teria nem mesmo passado aquele peso para os irmãos, mas, tentando ligar para John, o número do primogênito Winchester foi tudo o que conseguiu, e não podia se dar ao luxo de simplesmente escolher a dedo quem iria procurar por Bobby, uma vez que não poderia abandonar sua atual caçada para se lançar de cabeça em algo assim. Tendo noção de que dois caçadores experientes haviam sumido, não seria tola para se tornar mais uma desaparecida, buscaria ajuda para salvá-los.

O que estava chamando a atenção de Fortis, quando tudo começou? Fletcher lhes contara todos os detalhes conhecidos até então. Uma garota, Gwen Witting, havia sido encontrada morta. Até aí, tudo normal, se desconsiderados os fatos de que foi achada pelo irmão mais velho em seu próprio quarto, sem absolutamente nenhuma marca de violência, e uma palavra distorcida na nuca: Faeceus. Claro, quem descobriu a questão da marca havia sido o outro caçador, falando com os legistas e checando o corpo por si mesmo. Mas, de acordo com Harvelle, houve complicações, e Fortis alegou que precisava de um parceiro experiente, ou sua cabeça seria o prêmio naquela caçada. Para dizer algo assim, ele realmente deveria estar numa situação complexa, por isso a ruiva entrou em contato com Bobby, que aceitou e partiu para Deephaven.

Agora, um mês depois, o caso acidentalmente “caíra” nas mãos dos irmãos, que imediatamente aceitaram, porque, afinal de contas, fazia algum tempo que se livraram de Bloody Mary, e, mesmo com alguns indícios de outras caçadas, não encontraram nada concreto.

Com tudo isso acontecendo, Fletcher injetara uma dose de adrenalina nos Winchester, que partiram imediatamente da empoeirada cidade de Newell, em Iowa. Dean, particularmente, parecia agitado e nervoso. Os dedos batiam constantemente no volante, acompanhando uma música que não chegava a tocar, os lábios comprimiam-se numa linha fina, os olhos verdes estavam cravados na pista. Sam, por outro lado, estava mais relaxado, com a cabeça levemente inclinada, tentando se lembrar de algum dia ter visto o irmão agir daquela maneira.

— Tem alguma coisa incomodando você, não é? — o mais jovem o conhecia demais para deixar passar a tensão que dominava os movimentos de seu corpo.

O loiro desviou sua atenção para o caçula por breves instantes, para logo em seguida sacudir a cabeça em negação e voltar a se concentrar na estrada.

Na verdade, não era bem isso. Há pouco tempo, o moreno se encontrava simplesmente obcecado em encontrar o pai, e precisava praticamente “arrastá-lo” para as caçadas. Agora, ele estava amuado demais para que o mais velho não deixasse de notar a diferença. Perguntava-se o que diabos havia acontecido, o que eram “as coisas que ele precisava guardar para si mesmo”, mas havia prometido mentalmente que não iria fazer perguntas.

Evidentemente que, em algum momento, a promessa seria quebrada, mas não ali, não agora. Voltou seu olhar para o caçula e sorriu quando disse:

— Por que não dorme um pouco? Parece até uma garota. — havia uma ligeira dose de ironia ali, e Sam revirou os olhos.

Não adiantava discutir com Dean, sabia bem disso. Até porque realmente estava com sono. Fazia mais de três horas que estavam dentro daquele carro, e o mais velho ainda não dava sinais de cansaço, o que provava que deveria aproveitar agora, enquanto ainda havia energias por parte do loiro. Quando parassem em algum posto para abastecer, era bastante provável que o outro colocasse os óculos escuros, aumentasse o volume do rádio com alguma fita cassete de Black Sabbath e dormisse no banco do carona.

Sem dizer nem uma única palavra, o moreno encostou a cabeça no banco e fechou os olhos, adormecendo em questão de segundos. Estava verdadeiramente esgotado.

Durante alguns instantes, Dean relanceou os olhos para o irmão, e sacudiu a cabeça com um meio sorriso nos lábios.

— Tenha bons sonhos, Sammy.

Notas finais
Achei que demoraria a postar, mas acabou que saiu mais rápido do que poderia imaginar!