Michael havia acabado de voltar de Lakewood Cemetery, na Hennepin Avenue South, a meia hora de distância de sua casa. Estava exausto, tanto fisicamente quanto espiritualmente. Em seu peito, ainda havia aquela incomensurável culpa, o desejo de ter feito algo para evitar, de ter permanecido ao lado da irmã. Todos tentaram dizer que não havia como evitar, que foi uma cruel fatalidade. Sua vontade era a de mandá-los ao Inferno, isso sim, mas preferiu manter-se em silêncio. Não entendia e não queria entender o que havia causado a morte de Gwen, desejava apenas ficar sozinho, sem que ninguém o perturbasse.

Porém, foi pego completamente de surpresa ao adentrar no local, quando trombou de frente com um homem que nunca havia visto na vida. Era um pouco mais alto que ele, com o cabelo loiro um tanto mais escuro, e parecia aborrecido. Ao seu lado, havia um moreno alto e de feições preocupadas. Atrás deles, Joe, como passara a chamar o pai, que não se incomodava em esconder a fúria; aparentemente lúcido.

— Saiam da minha casa agora!

O adolescente observou curioso, enquanto ambos os homens vestidos formalmente atravessavam o pequeno hall de entrada, a caminho da rua. O loiro que esbarrou no rapaz olhou para trás uma vez, como se também estivesse intrigado com relação à sua identidade, mas não disse nada enquanto se afastava. E Michael permaneceu ali na porta, em silêncio, tentando entender o que havia acontecido.

— Joe? — chamou de forma cautelosa, indo até a cozinha em busca do homem. — Quem eram aqueles homens? O que eles queriam?

Carter ergueu os olhos para o filho, parecendo ainda mais irritado. As mãos estavam cerradas em punho sobre a mesa, e havia uma garrafa de uma bebida barata qualquer ao seu lado. Não parecia nem um pouco disposto a conversar, ainda mais agora.

— Isso não é da sua conta, Mike! — foi o que o homem falou elevando a garrafa aos lábios e depositando-a com certo rigor na mesa de mogno.

Se ele tivesse ideia do quanto aquele apelido destroçou o coração do mais novo, nunca teria pronunciado aquelas palavras. Apenas Gwen o chamava daquela forma. Ninguém mais. Ninguém. Os olhos escuros do loiro cravaram-se na expressão do pai, e ele suspirou pesadamente, sentindo o choro entalado na garganta. E, sem olhar para trás, saiu novamente da casa.

Estava exausto, precisava dormir, e não queria ficar pensando na irmã. Aquilo só lhe traria mais dores de cabeça, mas, afinal de contas, que escolha tinha? Sua vida se tornara um verdadeiro Inferno após a morte da ruiva. A única motivação que tinha era cuidar dela e estudar, o que mais poderia fazer agora?

Trincando os dentes, pôs-se a caminhar o mais rápido que o cansaço lhe permitia. Na verdade, havia, sim, algo que conseguiria arranjar. Só rezava para que desse certo.

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— Ele não quis cooperar. — Dean olhou para o irmão mais novo enquanto entravam no Impala. — E agora, Sam? O homem não faz o tipo de quem trabalha, provavelmente nem sai de casa... Vai ser um pouco difícil encontrar uma brecha para entrar naquele lugar.

Não era algo realmente necessário, mas analisar a cena do crime sempre ajudava nas caçadas. Comumente era nela que se encontravam os vestígios sobrenaturais mais importantes. Mas os irmãos Winchester não podiam simplesmente invadir a casa, nocautear Joe Carter e examinar minuciosamente cada detalhe do quarto da menina morta.

— Eu não sei... — o moreno passou as mãos pelos cabelos escuros, parecendo incomodado. — Olha, você não... Não sentiu nada de estranho naquele lugar?

O mais velho o encarou durante alguns instantes, e sacudiu os ombros num gesto irônico.

— Fora as garrafas espalhadas pela sala, e a água da pia gotejando na louça suja? Não, nada estranho.

Sam suspirou pesadamente com o sarcasmo do loiro, e sacudiu a cabeça ao perceber que seria inútil falar com o outro naquele momento. Dean não estava verdadeiramente irritado, apenas frustrado. Agora, com o quê, exatamente, o caçula não sabia. Mas era melhor não perguntar, ou se engalfinhariam verbalmente numa longa discussão, e a tensão voltaria a pairar entre eles.

O loiro estava prestes a dar partida no carro, quando batidas no vidro do motorista sobressaltaram a ambos. Virou-se pronto para praguejar, mas os xingamentos morreram em seus lábios ao ver o adolescente do outro lado, encarando-o tímido, nervosamente, como se não soubesse com exatidão o que faria a seguir.

Abaixou o vidro, reconhecendo-o como o rapaz da família Witting, com o qual esbarrara há poucos minutos.

— Vocês são policiais, não são? — ele perguntou antes que Dean tivesse a chance de dizer alguma coisa.

Os Winchester fizeram uma breve troca de olhares antes de o mais velho assentir lentamente em consentimento, ainda com as mãos sobre o volante.

— FBI. — corrigiu com cuidado, e notou que a risada do adolescente foi a forma que havia encontrado para esconder o constrangimento.

— Claro. — ele manteve o sorriso por mais alguns segundos. — Michael Witting. E... Meu pai vai sair hoje à noite, para ir até o bar. — pigarreou, deixando claras suas intenções. — Só volta de madrugada. — sua face ganhou um rubor, não sabia como eles iriam interpretar sua sugestão.

Dean estava prestes a fazer uma pergunta, quando Michael o interrompeu, como se estivesse prevendo a enrascada na qual se meteria. Não parecia nem um pouco arrependido. Na verdade, um meio sorriso permaneceu em seus lábios após a declaração.

— Olha, eu só quero saber o que aconteceu com minha irmã. Quero a verdade. — Witting os encarou com seriedade, apesar de aquilo parecer uma justificativa, como se ainda esperasse uma repreensão pelo que fazia. — E eu sei que, se estiverem realmente dispostos, podem descobrir o que quiserem. Assistia programas policiais quando era pequeno.

Tenho certeza de que eles não faziam nem metade do nosso trabalho foi o que o mais velho pensou, mas não disse nada a respeito.

— Se quiserem me ajudar, apareçam por lá... E tomem cuidado. — o rapaz tamborilava os dedos no Impala.

O caçula lançou um rápido olhar para o irmão, antes de sorrir simpaticamente para Michael, surpreendendo tanto o adolescente quanto o loiro ao seu lado; uma vez que ambos definitivamente não esperavam aquela reação.

— Pode deixar conosco. Você está sendo muito corajoso e colaborador, faremos o possível para desvendar o que de fato houve. — Sam disse apertando os lábios, e voltou seu olhar para o loiro.

O rapaz apenas concordou com a cabeça. Ele não soube explicar, mas confiava nesses agentes, afinal, estava perdendo as esperanças, tinha que achar uma explicação palpável e acabar com esse mistério em torno de Gwen. Dean acelerou o carro e seguiu adiante, afinal, eles eram os Winchester, nunca desistiam de uma caçada, independentemente das dificuldades pelo caminho e dos perigos insanos que viessem pela frente.

Afinal, esse era o “negócio da família”.

Notas finais
Agradecimentos especiais à beta. Angel, o capítulo é todo seu! rsrsrsrs