The Reason

2 Katherine I


Katherine

Kat olhava fixamente para o prato de comida a sua frente. Não adiantava, por mais que ela tentasse e quisesse, não conseguia comer nem um pedaço sequer.

Seu tratamento parecia não estar adiantado de nada. Ela ainda se sentia culpada sempre que comia e depois colocava tudo para fora.

Mesmo depois de dois anos de tratamento, ela ainda tinha dificuldades para se alimentar.

- Filha, tente comer pelo menos um pouco... — A mãe de Kat disse passando as mãos pelos cabelos da garota.

Cabelos que ela havia feito questão de que fossem a primeira coisa a ser mudada.

As mechas, antes completamente castanhas, estavam divididas em duas camadas. A parte superficial do cabelo fora pintada de loiro enquanto a parte de baixo continuava na cor natural.

- Eu não consigo mãe. Sinto muito, mas não dá. Só de olhar para tudo isso já me faz sentir culpada... — A garota empurrou o prato levemente.

- Você precisa comer alguma coisa... Qualquer coisa. Não pode ficar o dia todo em jejum.

- Depois eu como... Prometo que como. A senhora pode até colocar a Anna para me vigiar comendo mais tarde. — Anna era a empregada da casa de Kat.

Ela estava na casa desde que a garota nasceu e era parte da família.

- A Anna lhe dará comida depois e ficará tomando conta para que você coma tudo e não coloque nada para fora depois. — A garota assentiu e se levantou correndo para o quarto.

Ela se sentou na cama e olhou para as poucas fotos de sua infância que ainda possuía.

Uma menina gordinha estava em todas elas... Quem visse as fotos nunca imaginaria que essa garota era a mesma que estava ali, sentada na cama.

Ao olhar para as fotos, a garota se lembrou de um ocorrido mais cedo, no mesmo dia. Ela havia comido tanto e não tinha vomitado. Havia comido escondida de todos, trancada no quarto. A culpa não tinha aparecido... Até aquele momento.

Ela olhou para o espelho ao lado da cama e viu algo que somente ela via: uma garota gorda como a das fotos.

Ela se levantou da cama e se ajoelhou em frente ao vaso sanitário colocando um dedo dentro de sua boca, até tocar a úvula, forçando um vômito.

Ela sentia como se estivesse vomitando tudo o que tinha comido nos últimos dois anos. Já não tinha mais nada para forçar a saída, mas ela continuava tentando. Seu vomito já não passava de apenas bílis.

Ela dizia para todos que estava melhor, que não fazia mais isso. Seus pais acreditavam, ou queriam acreditar, que ela estava curada, mas ela sabia que não poderia mentir para sempre, uma hora um deles descobriria e ai ela não teria mais como ficar sem levar a serio o tratamento.

Por que ninguém entendia o que ela fazia? Será que não viam que ela precisava emagrecer? Não viam que ela estava voltando a ser como quando era criança?

Todas essas perguntas passavam pela cabeça da garota todos os dias.

Lágrimas desciam por seu rosto enquanto ela se levantava e olhava para o que acabava de sair dela. Ela andou até o espelho do banheiro e encarou seu reflexo.

Estava pálida pelo esforço e as lágrimas já haviam molhado todo seu rosto deixando os olhos verdes inchados e vermelhos. Ela abriu a torneira e molhou o rosto fazendo a água se misturar com as lágrimas.

Ela viu de relance a começo de sua tatuagem. A frase, que compartilhava com as duas melhores amigas, estava estampada em sua nuca e dava para ver uma pequena parte pelo espelho. Somente o começo, ao pé do pescoço.

Por mais que a frase lhe dissesse que ela era bonita, ela não podia acreditar, ela não conseguia acreditar.

Sabia que nesse novo colégio teria de continuar com o tratamento... Ou pelo menos fingir que está se tratando.

Ela não ia voltar a engordar. Nunca mais teria que olhar as outras meninas com corpos perfeitos e ficar com vergonha de se mostrar. Nunca mais.