The Puppet

4 Passado e presente


Notas iniciais
Perguntinha, quem sofre mais: O Shinão, o Kiba ou nós? :D Boa leitura!

− Precisa comer ou ficará mais fraco.

− Não sinto fome. – Remexeu-se para o lado, ciente da preocupação do corpo que fez peso, afundando o colchão onde estava deitado.

− Já faz dois dias. Precisa se alimentar ou iremos ao hospital. – A ameaça era clara. Os olhos vítreos tomaram um brilho ensandecido ao lembrar-se da tortura, das agulhas.

− Não! – exclamou, todo o esforço em falar arremetendo-o a uma tosse sofrida e agourenta que o impedia de respirar.

− Acalme-se, por favor. – O outro o amparou, sentando-o com cuidado no colchão e apoiando seu corpo magro. Dois dias de completa inanição e mais de duas semanas alimentando-se mal. Quanto tempo ele suportaria assim?

− Tem que me prometer. – pediu baixinho quando a tosse cessou. – Nada de hospitais. Precisa prometer.

Os olhos castanhos se fixaram nas pedras de rubi que eram os olhos de Sasori. Sua mão acariciou com cuidado o rosto pálido e maltratado pelo qual um dia se apaixonara. Suspirou. Como poderia dizer não a ele?

− Prometo. Mas coma o ensopado.

Ele pegou uma colher, alimentando-o devagar. Mesmo contra a própria vontade, Sasori comeu. Faria tudo o que pudesse para evitar toda a tortura pela qual já havia passado.

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− Coma.

O cheiro do ensopado embrulhava seu estômago. Kiba se sentia fraco ao ponto de não conseguir sentar-se sozinho, mas o homem ao seu lado o ajudou. A primeira colherada parecia insossa, com sabor de isopor. Mas Kiba logo notou que isso se devia aos seus sentidos avariados.

O que estava acontecendo?

− Assim. – O tom era de aprovação. Kiba aceitou a segunda colherada melhor, tentando olhar ao redor.

Uma prisão. Ele estava em alguma espécie de porão abandonado, ou ao menos era o que achava por conta da escadaria que levava ao topo. Ainda ouvia o barulho do encanamento, da água correndo. Seus olhos, sempre perspicazes, não eram capazes de se focar em nada. Sentia-se fraco, esmorecido. Era o efeito da droga que ele aplicara anteriormente? Como viera parar ali?

As memórias difundiam-se, confundiam-se como se fosse açúcar misturado ao leite. Estava lá, mas Kiba não conseguia resgatá-las, como se faltasse um pedaço do quebra-cabeças que as conectava. Precisava de mais.

Terminou de comer, sentindo o corpo levemente aquecido, mas não muito. Ali embaixo, fazia muito frio e ele tremia. Sentiu um casaco ser jogado sobre seus ombros, uma carícia em seu rosto.

O homem diante de si era alto, corpulento e usava uma estranha maquiagem no rosto. Uma pintura arroxeada, estranha. De onde o conhecia?

A cabeça latejava só de tentar pensar.

− Quem é você? – arriscou perguntar, sentindo asco. Lembrando-se de Neji. Cenas entrecortadas que o faziam ter vontade de vomitar novamente.

− Não se lembra de mim? – Um meio sorriso. Nada mais que isso. Kiba negou com a cabeça. Ele não pareceu chateado, a carícia se estendendo por mais um momento até que ele se levantou. – Tudo bem. Deve estar confuso. Mas logo vai melhorar. Vou cuidar de você.

− Mas eu...

Queria dizer algo, mas sentiu-se sonolento novamente quando a mão dele passeou por sua nuca. Outra picada no pescoço.

Lentidão.

A imagem de Shino acenando antes de sair para trabalhar. Seu sorriso.

Tome cuidado, Shino dissera.

E Kiba se arrependia por não ter seguido essas palavras. Porque agora se lembrava do que havia acontecido. Se lembrava de tudo.

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Shino não queria voltar para casa, mas Sasuke insistiu que ele o fizesse. Alimentando falsas esperanças de que Kiba poderia aparecer. Ou de que um possível sequestrador poderia ligar.

Ele não iria.

Shino sabia, porque Puppet não ligava, pelo menos não dera indícios de que o fazia. Mas o que mais Aburame poderia fazer? Sasuke prometera que colocaria aquilo acima de tudo.

E, para Shino, Kiba era sua maior prioridade. Não tinha mais ninguém.

A mãe havia morrido em seu parto. Eclampsia¹. Não fora detectado durante toda a gravidez e, nos momentos finais, ela escolhera a vida do próprio filho. Seu pai o havia criado sozinho, um homem solitário e amargurado. Mas Shino não poderia reclamar da educação e do amor que recebera, ainda que de maneira estoica. Mas a vida o levara cedo, fazendo com que o jovem Aburame tivesse que administrar a herança, que consistia no apartamento que vivia com o namorado e um pouco de dinheiro reservado na poupança que continuava como fundo de garantia, afinal, seu trabalho pagava bem os gastos.

Então restara apenas Kiba e sua família barulhenta a qual Shino se afeiçoara, afinal os Inuzuka estiveram sempre presentes, tanto durante a adolescência quanto no funeral de seu pai—Tsume havia organizado tudo. Shino mal se lembrava do ocorrido. Apenas de chorar no abraço protetor da mamãe Inuzuka que o fez dormir em sua casa no mês seguinte à morte do pai, impedindo-o de ficar sozinho. Mas naquele momento, não conseguia imaginar-se próximo de Hana e Tsume. Encolheu-se em posição fetal olhando para o próprio celular. Tentando imaginar que Kiba entraria por aquela porta a qualquer momento desculpando-se pelo ocorrido.

Adormeceu alimentando aquela esperança no fundo de seu coração, abraçado aos lençóis frios e ao cheiro de Kiba impregnado neles.

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Hana não tinha cabeça para trabalhar, mas tinha pacientes pré-agendados e uma internação cheia. Não podia simplesmente larga-los mesmo que a situação demandasse aquilo.

Kiba era sua vida, o seu raio de sol. Lembrava-se quando o menino havia nascido, a alegria reluzente em seu sorriso. Poucos meses depois, o pai abandonara Hana pequena e Tsume com um bebê nos braços porque não suportara a pressão. Hana assumiu a frente, cuidando de Kiba para que a mãe pudesse trabalhar. Lembrava-se de seu crescimento, de como Kiba fora uma criança agitada, mas sempre obedecendo suas ordens na medida do possível. E Hana protegia o caçula na mesma medida.

A noite com sua mãe fora terrível. Contar que Kiba estava desaparecido havia partido seu coração. Tsume queria sair nas ruas, buscar por Kiba, amaldiçoar-se por deixá-lo ter um emprego tão perigoso.

Hana conseguiu convencê-la de que não adiantaria nada e acalmou-a com alguns comprimidos, deixando-a adormecida no sofá antes de sair para trabalhar.

Girou a chave na fechadura e amaldiçoou-se ao notar a tranca aberta. Será que outro dos trombadinhas havia entrado ali para roubar seus medicamentos? Estava tão furiosa que o surraria ali mesmo. Agarrou uma barra de ferro ao lado da porta, os passos suaves caminhando pelo solo até a internação, onde ouvia os latidos de seus pacientes.

Suspendeu a barra, notando a sombra...

− Hana-chan?

− KANKURO, PORRA! – Hana largou a barra de ferro no chão e os cães latiram alegres mediante o barulho.

Com as sobrancelhas erguidas e uma bolsa de soro nas mãos, Kankuro sentiu-se indefeso diante da ameaça da Inuzuka mais velha.

− Desculpe, achei que a senhora viria mais tarde. – Abriu um meio sorriso. Hana suspirou aliviada.

− Não sabia que viria. Ontem me deixou aquele recado e achei que hoje... bem... que bom que está aqui. – Suspirou com alívio. – Havia algo estranho quando chegou?

− Além dessa ferinha que havia escapado – Kankuro apontou um felino cinzento confortavelmente enrolado no próprio corpo na gaiola. – nadinha. Por que, Hana-chan? O que houve?

− Alguém andou furtando frascos de medicamentos daqui. Dei falta há alguns dias. – Seus olhos pareciam cansados demais para quem só se preocupava com medicamentos. – Troquei os cadeados, vou te dar a cópia das chaves.

Kankuro acenou positivamente com a cabeça ao ver Hana sentar-se. Tinha tempo que era seu auxiliar na clínica veterinária, desde que as coisas começaram a se tornar corridas demais para uma pessoa só.

− Hana-chan? Aconteceu mais alguma coisa? Eu posso ajudar? – Apoiou a mão em seu ombro. Hana não queria desabar. Não queria dizer nada. Mas sentiu a garganta fechar diante da pergunta de Kankuro. E desatou a chorar.

Não disse nada a ele. Mas recebeu o conforto do auxiliar e a promessa de que tudo ficaria bem. Mesmo que ele não soubesse o que havia de errado.

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Sasuke decidiu que não perderia tempo, e foi até a boate onde Kiba havia trabalhado na noite em que tinha desaparecido. Esperar até de manhã, significaria que apenas a equipe de limpeza estaria ali.

O detetive aproximou-se da entrada, onde dois seguranças corpulentos faziam as vezes. Um deles, com um sorriso de tubarão, tinha os olhos brilhantes e escuros como os seus.

− Precisa pegar a fila, boneca. – Lançou um beijinho para Sasuke, até que ele apresentou o distintivo. – Ser policial não te faz entrar de graça.

− Tenho algumas perguntas. – Sasuke não se intimidou com sua presença ou com a do outro que usava os cabelos prateados penteados para trás com gel.

− Temos a opção de não responder? – debochou mais uma vez.

− Têm a opção de serem presos por permitir que menores tenham posse de álcool aqui. – Sasuke lançou um olhar ligeiro para dentro. O homem de cabelos prateados fechou a expressão para o companheiro.

− Apenas responda as perguntas do oficial solicito, Kisame.

− Detetive Uchiha. – Sasuke corrigiu, ao que Kisame arqueou as sobrancelhas.

− Uchiha? Como Uchiha Itachi? – Kisame questionou. – Bem que achei vocês dois parecidos, boneca!

Sasuke não sabia como o tipinho conhecia seu irmão, e nem sabia se queria.

− Se me chamar assim mais uma vez, te darei voz de prisão aqui mesmo por desacato.

A risada dele fez os dentes ligeiramente ponteados aparecerem e Kisame cruzou os braços sobre o peito.

− Diga logo, não podemos parar o serviço. – Kisame disse. Agora, mais próximo, Sasuke notou uma espécie de tinta que recobria seu corpo. Azul.

O outro permanecia em posição fazendo a fila andar para dentro.

− Por acaso viram esse garoto por aqui na noite anterior? – Sasuke sacou o próprio celular mostrando uma foto de Kiba que havia pedido para Shino. Kisame observou bem, os olhos estreitos.

− Não é o DJ, Hidan? – perguntou ao companheiro que anuiu.

− Inuzuka Kiba, não é? – O chamado Hidan questionou. – Ele costuma vir aqui nas noites de fins de semana. Bastante requisitado pelos jovens por suas mixagens.

Sasuke acenou com a cabeça.

− Viram ele saindo na noite anterior?

Kisame e Hidan costumavam ficar até o final da noite. Geralmente trocavam de turnos com os outros seguranças à meia-noite e seguiam até o sol raiar quando era preciso. Naquela madrugada, no entanto, lembrou-se que Kiba saiu um pouco antes.

− Ele saiu por volta das quatro da matina. – Kisame constatou coçando a nuca. – Lembro-me, porque ainda estava maquiado por conta da festa. O tema era sobre tribos indígenas.

Uchiha acenou com a cabeça.

− Ele estava acompanhado?

− Não quando saiu. – Hidan respondeu, parando um pouco a fila para dar mais atenção ao caso. – Como ele deveria voltar hoje, supostamente, deixou a maior parte dos seus aparelhos aqui. Mas não apareceu. Aconteceu alguma coisa?

− Ele está desaparecido. – Sasuke achou por bem liberar aquela informação. Por vezes, fazia com que testemunhas soltassem a língua.

− Acho que o vi entrando em um carro. Mas a cor está me falhando a memória... – Kisame, sacana como sempre, abriu aquele sorriso de tubarão.

Sasuke bufou, sacando umas notas do bolso e colocando na mão estendida do homem.

− Ah! Prata. Definitivamente prata, mas não lembro o modelo. A placa tinha o número 6 no final. Lembro porque vi o carro estacionado aqui por muito tempo. Mas quando fui questionar se o boneco ia entrar na festa, ele simplesmente deu a volta e saiu. Deve ter se assustado.

− Mas ele voltou. – Hidan lembrou. – Deu a volta no quarteirão, suponho, e voltou. O garoto aí entrou no carro.

− Obrigado pelas informações. Se lembrarem de mais algo, entrem em contato por favor. – Deixou um cartão no bolso de Kisame e de Hidan.

Sasuke estreitou os olhos. Por que diabos Kiba entraria no carro de um completo estranho?

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Dentro da festa, as informações compactuavam para o que Sasuke achava: o estranho que dera carona a Kiba não havia feito parte do local ou não parecia ter estado na festa da noite anterior.

Algo não encaixava para Sasuke. A placa com apenas um número e a cor do carro ajudaria no rastreio, mas ainda assim era um tiro no escuro. Quanto tempo levaria para eliminar possíveis suspeitos? Quanto tempo Kiba teria até que seu sequestrador se cansasse dele caso Shino tivesse razão?

E era cada vez mais difícil acreditar que ele não tinha. Sasuke decidiu dormir um pouco. Na manhã seguinte, chamaria a família e os amigos de Kiba para saber se havia algo de diferente na rotina do rapaz que haviam deixado passar.

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Shino acordou com o toque de seu celular, alto e estridente. Ele não se lembrava da última vez que havia tirado o aparelho do modo silencioso, mas a esperança de que Kiba ligasse ou de que alguém entrasse em contato fez com que fizesse aquilo.

Sentia-se zonzo quando agarrou o aparelho e estreitou os olhos: número desconhecido.

Seu coração martelava fortemente no peito quando atendeu.

− Alô?

Silêncio do outro lado da linha.

− É você quem está com o Kiba?

Uma respiração pesada, fugaz.

− Por favor, me devolva ele. Pago o que você quiser. Faço o que quiser. Só o devolva. – Shino mal podia acreditar no próprio tom de voz, tão distante do comedimento que costumava ter.

A respiração pesada tornou-se ruidosa. Nenhuma voz. O aparelho desligou. Shino ligou imediatamente para Sasuke, sendo atendido no terceiro toque.

− Ele me ligou, Sasuke. Puppet me ligou.

Mal teve tempo para computar a informação quando o amigo disse que estava a caminho. Shino deixou-se cair no chão, escorado contra a parede. E desde que tudo aquilo havia começado, desde a morte do seu pai, permitiu que as lágrimas desaguassem através dos poços escuros que eram seus olhos.

Notas finais
¹ - Condição causada geralmente no final da gravidez que causa hipertensão arterial com quantidade elevada de proteínas no sangue e disfunção de outros órgãos. — Pois é, esse capítulo teve um pouco de tudo: um pouco de Shinão sofrendo, um pouco de Hana desabando, um pouco de passado e um pouco do nosso bb! Difícil lidar com tanta coisa. Sasuke investigando e tentando descobrir os passos do Kiba, mas será que vai dar tempo? Lembrando que ficamos passeando entre a noite em que Hana e Shino foram para casa e o dia seguinte. Ficou muito confuso? O que acharam do passado do nosso misterioso assassino? Palpites sobre ele? E o passado triste do Shinão? Alguém mais quis abraçar ele? Não podemos deixar ele sem o bb, gente! Façam suas apostas. Será que o bb vai sair dessa? Nos vemos no próximo capítulo!