The Puppet
5 Correndo contra o tempo
Notas iniciais
Kiba se lembrava de tudo.
Ele não sabia como as memórias tinham fugido tão facilmente de sua mente, mas agora ele se lembrava.
Lembrava do homem com sorriso gentil que havia lhe oferecido uma carona. Do enfeite que se parecia com um chaveiro de um esquiador pendurado sobre o retrovisor...
E o sorriso, tão gentil.
Seu estômago embrulhou por um momento, pensando em Shino. Pensando no quanto queria estar próximo dele. A garganta fechou. As lágrimas correram por seu rosto, manchando a maquiagem que ainda usava.
Olhou ao redor, para aquele lugar escuro e cheirando a mofo. Fazia pouco tempo desde que ele havia subido? Não tinha como saber. Sempre que se aproximava, o desacordava com o conteúdo daquela seringa. E Kiba se sentia tão enjoado.
Mas criou forças para se levantar. Levantar e subir as escadarias. Com sorte, a porta estaria aberta. Com sorte, sairia dali.
Era a sua única esperança. Que o assassino não estivesse ali. Que ele finalmente pudesse ir para casa.
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Sasuke foi imediatamente para a casa de Shino, ligando para Shikamaru enquanto ainda estava a caminho.
− Preciso que rastreie uma ligação para mim. – Limitou-se a dizer. Ouviu um resmungo, algo como aquilo tudo ser problemático, sobre estar fora do horário de trabalho.
Sasuke passou as instruções para ele enquanto ainda dirigia, sem muitas esperanças.
− O número era de um orelhão. Estou triangulando o sinal e mando para o seu aparelho. Mais alguma coisa?
− Não. Mas fique atento. Posso precisar de você.
− Em que tipo de merda problemática você se meteu agora, Sasuke?
Ele não respondeu a Shikamaru antes de desligar o celular. Mas tinha certeza que era do pior tipo e que Kiba não teria muito tempo antes que algo muito ruim acontecesse.
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Akamaru não parava de latir naquela manhã, então Hana resolveu levá-lo consigo para o trabalho. A clínica não era muito longe – apenas trinta minutos a pé –, então Hana decidiu ir caminhando com o cão para gastar suas energias.
Hana sabia que, no fundo, ele apenas sentia falta de seu dono como ela também sentia. O dia anterior havia se arrastado lentamente, sem mais notícias a respeito de Kiba. Tsume havia feito cartazes com fotos do filho pedindo para que entrassem imediatamente em contato se o vissem. Hana carregava agora alguns desses cartazes consigo, colando-o em portas, pedindo para que vizinhos os espalhassem pela região. E todo o subúrbio se compadeceu do desaparecimento do menino Inuzuka, afinal, na época em que ainda morava por ali, o garoto sempre fora gentil com todos e sua presença era marcante.
Até hoje, dizia a senhora Michiru cujo gato era uma pestinha, ele pegava seu amado Fofinho do topo da árvore mesmo que ele recebesse arranhões como recompensa. Bastava ela ligar. Kiba era como o neto que ela nunca havia tido.
Por fim, ao chegar lá, colocou Akamaru nos fundos, onde costumava deixa-lo quando Kiba vinha passear com ele e ficava para ajudá-la.
A clínica já estava aberta, o que significava que Kankuro estava ali. A internação já estava limpa, seu consultório também. Hana sentiu um aperto no peito quando, em sua sala, observou uma foto sua com Kiba e Akamaru ainda filhote, exatamente na época em que ele havia sido abandonado na porta de sua clínica, um filhotinho mirrado que se tornou gigante!
Debruçou-se na mesa, sentindo um nó na garganta e as lágrimas arderem nos olhos. Kankuro apenas a observou de esguelha, incapaz de dizer algo enquanto abraçado com um pacote de ração.
Só queria que as coisas pudessem ser mais simples para Hana, que sempre havia lhe ajudado.
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Kankuro sempre havia sido o garoto problema na escola. Maior e mais forte do que todos em sua turma, sempre acabava sendo alvo de piadas que despertavam sua raiva e o levavam para a diretoria.
Na maioria das vezes, gostavam de zombar de seu irmão mais novo por ele ser mais fraco do que os demais. Então, acabava se metendo em confusões com os garotos que adoravam praticar bullying contra ele.
Quando seu pai e sua mãe morreram em um acidente de carro junto com a irmã mais velha, ele e Gaara ficaram sozinhos no mundo. Então, Kankuro precisou aprender a se virar.
De diversas maneiras, viu o sonho de se tornar artista indo para o ralo, pois não tinha como continuar pagando o curso de teatro. Mesmo assim, o professor responsável pelas aulas disse que ele poderia continuar indo desde que não desistisse da escola e se mantivesse na linha.
Foi mais ou menos nessa época, desesperado com tudo o que acontecia que Kankuro conheceu Inuzuka Hana. A garota, atarefada demais com a clínica, havia colocado um anúncio na porta dizendo que precisava de um ajudante. Que a pessoa não precisava saber muito, apenas ter boa vontade e ela ensinaria o que fosse preciso.
Kankuro viu naquela oportunidade a chance de mudar sua vida. Agarrou o cartaz de anúncio e entrou com o coração retumbando em seus ouvidos.
− Foi a senhora que colou esse aviso lá na frente? – perguntou. – Estou interessado.
Hana sorriu para ele, mostrando a cadeira à sua frente.
− Se estiver disposto a limpar cocô de algumas gaiolas, me ajudar com algumas consultas e sobreviver até o fim do dia, estará contratado. Que me diz?
Kankuro nunca se sentiu tão animado na vida. Ninguém além de seu professor havia visto potencial em si até aquela ocasião.
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E agora, era o cartaz de desaparecido de Inuzuka Kiba que estava colado onde anteriormente havia um aviso para emprego. Kankuro sentiu algo pesar em seu peito, como se o próprio coração fosse feito de concreto. Engoliu em seco, indo para os fundos com o pote de ração para Akamaru.
Foi somente quando entrou ali, pronto para alimentar o animal, que viu o olhar ensandecido que o cachorro gigante lançava para si.
− Akamaru? – chamou baixinho. Mal teve tempo para reagir quando ele saltou sobre si, estourando a corrente na qual estava preso. – Calma, garoto, calma!
Os dentes se cravaram em seu braço, a ração se espalhando em todas as direções. Kankuro gemeu, sabendo que tentar se soltar seria pior. Foi naquele momento que Hana surgiu.
− Larga, garoto, larga! – ordenou para Akamaru, mas ele não soltou. – Aguenta, Kanky!
Hana desapareceu no corredor e voltou com uma seringa cheia com um líquido amarelado, atingindo o flanco de Akamaru. O cachorro ganiu baixinho, voltando-se na direção da irmã do dono, um pouco traído .Mas aos poucos, seus movimentos foram se tornando lentos e ele caiu deitado no chão. Hana suspirou aliviada, tirando o cachorro gigante de cima de Kankuro.
− Você está bem? – perguntou, somente então constatando a mordida em seu braço. – Tsc... gomene, Kankuro-kun. Nunca vi Akamaru agindo assim.
Ele engoliu em seco.
− Tudo bem, Hana-chan. – gemeu baixinho por conta da dor. Hana passou um dos braços por seus ombros, ajudando-o a levantar.
− Vem, vamos lá no consultório cuidar disso. Vou lidar com Akamaru depois.
Hana olhou de canto para o cão que a encarava com olhos vazios por conta do sedativo aplicado. Era a primeira vez em toda sua vida que via Akamaru atacando alguém.
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Shino recebeu Sasuke com uma xícara de chá verde nas mãos. Os óculos escuros estavam abandonados ao lado da mesa, os olhos levemente avermelhados por conta do choro. Mas Sasuke nada comentou a respeito.
− Shikamaru me passou um endereço de um telefone público de onde a ligação foi feita para o seu celular. – disse Sasuke assim que entrou no apartamento. Shino sempre fora meticuloso e cuidadoso na organização, mas o fato de tudo ali estar desarrumado eram indícios do que Kiba deixara para trás. – Pedi para que alguns policiais à paisana fossem verificar enquanto eu vinha para cá, mas obviamente não havia mais ninguém no local. Pedi para que checassem digitais, mas não tenho muitas esperanças.
− Ele pode ter usado luvas ou simplesmente teremos tantas digitais que será impossível saber quem ele é. – Shino soltou um suspiro de exasperação sentindo a cabeça latejar e sentou-se no sofá. Sasuke sentou-se diante dele, observando as feições cansadas do amigo.
− Estive no trabalho do Kiba essa noite e conversei com os seguranças. Eles me disseram que viram Kiba entrando num carro prata com o número final 6 na placa. Estão investigando isso para mim, mas ainda é muito raso. Você conhece alguém que poderia ter um carro prata?
Shino conhecia milhares de pessoas assim.
− Como não saber se era um táxi ou uber disfarçado que o capturou? – Seu coração doía. – Eu disse pra ele... disse que pegasse um desses meios de transporte porque achei ser mais seguro. Droga!
Sasuke apoiou uma das mãos no ombro do amigo.
− Ei. – chamou sua atenção. – Não pode se culpar por isso, Shino. Tenho fortes suspeitas de que Kiba conhecia o raptor. Pelo que Kisame, um dos seguranças disse, ele ficou esperando lá até que Kiba saísse. Quando foi questioná-lo, o homem deu a volta no quarteirão.
Aquilo fez com que Shino arqueasse as sobrancelhas.
− Ele ficou esperando pelo Kiba?
Sasuke anuiu.
− A pessoa o conhecia, Shino. Não acredito que isso seja apenas mais um caso do Puppet.
Shino empalideceu.
− Mas não descarta a possibilidade de ser ele. Eu também não. Tenho certeza, Sasuke. Eu ouvi.... a respiração pesada do outro lado da linha. – Shino estreitou os olhos, ligeiramente incomodado com a claridade. Sasuke se levantou e apanhou os óculos escuros do amigo, entregando a ele.
− Do que mais se lembra?
Shino fechou os olhos por um momento, tentando se recordar.
− Sua respiração era entrecortada. Ouvi os barulhos da rua, mas... ele não disse nada.
Sasuke pareceu pensativo a respeito encarando as feições do amigo.
− Durma hoje. – disse Sasuke. – Amanhã cedo, eu reunirei uma equipe especializada para que nós refaçamos os passos do Puppet. Quero falar com Hana e Tsume também. Acha que pode trazê-las?
Shino acenou positivamente com a cabeça.
− Não se culpe, Shino. – Sasuke reforçou. – Seja lá quem for essa pessoa que raptou Kiba, isso foi planejado. Meticulosamente planejado. Aconteceria de uma forma ou de outra. Nosso trabalho agora é trazê-lo de volta.
Shino não disse nada a respeito. Nem mesmo quando Sasuke saiu deixando-o com os próprios pensamentos e com a certeza de que mataria quem quer que fosse o responsável por fazer Kiba sofrer.
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Foi difícil chegar ao topo das escadarias, mas Kiba conseguiu. Por sorte, a porta estava aberta e ele pôde constatar que estava em um corredor extenso e escuro, sem nenhuma iluminação. Apoiando-se nas paredes, caminhava com certa dificuldade porque sentia o corpo mole e dolorido, mas a última refeição lhe dera forças para querer sair dali.
Pois a imagem de Neji implorando por ajuda ainda estava em sua mente.
Neji, o amigo que tirara praticamente das ruas junto com Hinata. Seu coração apertou, dando-lhe mais forças para seguir em frente, virando numa curva em T, desejoso por sair dali.
Neji, que havia se esforçado tanto para conseguir ajudar a prima agora sozinha.
Chegou até uma porta, tocando na maçaneta quando uma mão espalmou diante dela. Os sentidos sempre apurados defasados.
− Onde pensa que vai? – A voz tirou-lhe todo o ar, mas foi a pancada em sua nuca que o fez sentir como se tudo ao redor fosse explodir. Caiu de joelhos... deitado no chão...
− Não... – murmurou baixinho, tão perto... tão próximo...
− Acho que vou ter que te quebrar um pouquinho pra você não fugir mais. – Cutucou seu rosto com a madeira que havia usado para lhe atingir a paulada. A última coisa que Kiba viu foi a sombra de um sorriso enquanto era novamente arrastado para o seu cativeiro, o desespero lhe tomando conta enquanto se lembrava de Neji.
Enquanto se lembrava de Hinata, sozinha esperando pelo primo que nunca mais veria.
Enquanto se lembrava de Shino, na mesma situação que ela, sem nem sequer imaginar onde ele estava agora.
Kiba se culpou internamente pelo momento em que havia aceitado aquela carona sem sequer pensar nas consequências enquanto mergulhava no rio negro da inconsciência sem saber se despertaria desta vez.
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