The Puppet
6 Brinquedo quebrado
Notas iniciais
Havia dor e isso era tudo o que havia para ele naquele momento. Respirar era difícil, caminhar impossível. Falar exigia uma força sobre-humana. Então, apenas existia.
Se perguntava quando acabaria. Quando os deuses findariam sua existência, porque não suportava mais.
Queria chorar, mas não havia mais lágrimas.
Se detinha àquela postura onde mesmo abrir os olhos era dificultoso.
Ele se aproximou, silencioso e soturno e sentou-se ao seu lado, amparando-o, ajudando-o a se sentar mesmo que não quisesse.
− Me deixa ir... – implorou baixinho.
Sentiu quando ele segurou o seu rosto entre as mãos, forçando-o a olhar para si. Havia aquele sorriso de compreensão, aquela complacência.
− Não posso. Vou cuidar de você. Trouxe sua comida.
Ele não compreendia. Jamais compreenderia.
− Eu não aguento mais. Você não entende? Não vou melhorar.
O prato de comida foi ao chão. A expressão fechou-se em algo obscuro e tenso.
− Nunca mais diga isso, está me ouvindo? – Sentiu a força de seus dedos fechando sobre seu maxilar. Doía tanto quanto respirar.
Sasori só queria que aquele sofrimento acabasse de uma vez.
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Hana encarou a fachada da delegacia, o suspiro entrecortado enquanto observava o movimento fraco. Lembrando-se que Shino havia lhe comunicado para encontrá-lo lá na manhã seguinte e Hana disse que o faria após checar seus pacientes na internação.
Era difícil lidar com toda aquela situação e, com Akamaru violento, havia dispensado Kankuro de suas obrigações naquele dia após a mordida feia que o rapaz havia levado, mesmo que ele não quisesse.
“Estou bem”, ele havia dito. Mas Hana prezava pela segurança daquele que, para si, era como um irmão mais novo que ela própria havia acolhido.
− Nii-chan, você precisa estar bem. – Hana pediu baixinho. Mas não tinha esperanças, pois quanto mais o tempo passava, menores eram as chances de Kiba.
X
Kiba precisou fingir ou jamais conseguiria fugir. A pancada em sua cabeça havia doído e latejava. Ele tinha certeza que estava sangrando, mas precisava esperar a oportunidade perfeita.
Estava sendo arrastado pelo corredor. Sua sorte foi ter conseguido acordar no processo. Ele sabia que se aquele maníaco começasse a descer as escadas, não teria a menor chance.
A iluminação fraca ali o favorecia, pois significava que ele não poderia ver o que estava planejando.
Finalmente chegaram ao pé da escada.
Kiba sentia-se tonto.
− Agora, o que eu vou fazer com você...?
Mas reuniu todas as suas forças. E no momento em que ele virou em sua direção, flexionou as pernas e impulsionou-as de uma única vez contra o peito daquele insano. Atingiu um dos pés ali, certamente, mas o outro pareceu atingir outra região. O queixo talvez.
Apenas ouviu o grito de surpresa, torcendo para que ele tivesse caído das escadas. E começou a se arrastar, enquanto sentia as pernas moles demais para que conseguisse se levantar.
X
Tsume não queria sair da cama. Não queria fazer nada além de encontrar seu menino desaparecido. Havia ligado no trabalho dizendo que não iria novamente. Seu chefe questionou o motivo. O ódio borbulhava em seu peito. Ela bradou a verdade. Que seu menino, seu único menino, podia estar nas mãos de um maníaco agora. Desaparecido. Ele disse que sentia muito. Disse que agilizaria os papéis para suas férias.
“Fique em casa”, dissera ele. “Tire uns dias e coloque a cabeça no lugar.”
Mas tudo o que Tsume queria era trazer Kiba de volta. Ficava procurando culpados, mas realmente existia algum? Havia falhado como mãe em não conseguir proteger sua cria?
Engoliu em seco, olhando para o lado de fora do carro. Ao seu lado, Shino era uma estátua que dirigia em completo silêncio.
Como deveria estar sendo para ele depois de ter perdido toda a família? Tsume sabia o quanto aquele moleque era fechado. O quanto seu Kiba fazia bem a ele. E o quanto Kiba havia crescido apenas por causa de Shino.
Suspirou baixinho, estendendo uma das mãos para segurar a que estava repousada sobre a perna de Shino.
Aburame sobressaltou-se um pouco, mantendo a atenção na direção, mas olhando-a de canto por um breve momento.
− Ele é forte. – disse ela. – O Kiba. E se algum metidinho a desgraçado o pegou, tenho certeza de que dará um jeito de se manter vivo até que você e o engomadinho possam encontrá-lo.
Shino observou a sogra de soslaio. As olheiras profundas, a pele brevemente pálida e os olhos vermelhos de tanto chorar. E mesmo assim, não duvidava que ela acreditasse na capacidade de Kiba. Ele também acreditava. O problema era quem estava do outro lado. Aquele assassino que poderia muito bem ser um psicopata sádico torturando-o naquele exato momento. Mas Shino não poderia dizer isso a ela. Não poderia destruir o fino fio de esperança que Tsume carregava no filho.
− Tenho certeza disso, Tsume-san.
Ela fechou a cara no mesmo momento, as sobrancelhas quase unidas no centro da testa.
− O que eu te disse da última vez, moleque? – Ali estava o tom rude de sempre. Shino não pôde evitar um leve curvar de lábios para cima apesar de toda a situação.
− Gomene, Tsume-okaa-sama.
− Hunf. – Ela cruzou os braços na frente do peito enquanto voltava a encostar o rosto no vidro da janela do carro. – Bem melhor assim.
Ela acreditava que seu menino estava bem. Precisava acreditar ou desmoronaria de vez.
X
Na delegacia, Shino e Tsume encontraram Hana e alguns outros amigos de Kiba que também passavam por interrogatório. Naruto, o loiro que sempre frequentara sua casa durante a infância por também ter perdido os pais cedo em um acidente, aproximou-se de Tsume e deu-lhe um abraço apertado.
− Tsume-okaa-sama. – murmurou baixinho. Mesmo ele, sempre tão cheio de energia e alegria, parecia preocupado com toda a situação.
− Já interrogaram você? – perguntou.
− Hai. Mas eu não sabia de muita coisa que pudesse ajudar. – Naruto suspirou. – Não falei com Kiba naquele dia. Só sei que ele estava animado com a festa na qual participaria, porque poderia abrir outras portas de emprego.
Tsume acenou com a cabeça para Naruto.
− Corte esse cabelo, moleque. – disse ela. – Vai te dar um ar mais adulto para a sua entrevista da semana que vem.
Os olhos de Naruto brilharam e ele acenou vigorosamente com a cabeça. Poderia não visitar Tsume com tanta frequência, mas sempre falava com aquela que praticamente o havia criado.
Para falar a verdade, Naruto não sabia como Tsume não havia fundado um orfanato, já que ele, Shino, Kankuro e Sasuke viviam na casa dela, mesmo que Sasuke tivesse o irmão como família.
− Seu namorado disse alguma coisa? Porque Shino não quer me dizer nada. E preciso saber, Naruto. Preciso saber. – Tsume praticamente implorava.
A expressão de Naruto ficou séria por um momento.
− Ele não me disse muita coisa também. – Naruto respondeu. – Mas acham que ele está sendo mantido refém. Não sei exatamente por quem. É por isso que chamaram todas as pessoas com quem Kiba teve contato na noite em que desapareceu. E sei que estão pesquisando a placa de um carro também. O provável carro onde ele entrou naquela noite.
Tsume agradeceu baixinho o abraçando novamente. Naruto passou os braços ao redor da cintura da única mãe que conhecera, aspirando seu perfume por um momento antes de se afastar.
− Tenho certeza de que Sasuke vai conseguir encontrar ele, okaa-sama. – Naruto fechou o punho na frente do rosto, o olhar determinado e confiante de sempre. – Sasuke pode ser um idiota, mas ele e o Shino formam uma ótima dupla no trabalho.
Shino este que aproximou-se de Tsume, segurando seu ombro.
− Você é a próxima. Depois Hana.
Tsume anuiu. Se soubesse qualquer coisa que pudesse ajudar seu menino, certamente ela diria.
X
O difícil era ver a casa dos Inuzuka vazia.
Tsume sempre estava acolhendo os jovens e problemáticos amigos de seu filho. O primeiro havia sido Naruto, um jovem que vivia no final da rua e que causava encrencas com todos os vizinhos. Kiba costumava se juntar a ele nas pequenas travessuras e sempre terminava de orelha quente no fim delas.
Isso se seguiu por meses a fio até que Tsume resolvesse dar fim nisso depois que os dois tingiram o cabelo de Yamanaka Ino de verde.
Aquilo havia sido imperdoável.
Foi então que, ao ser chamada na escola por Iruka-sensei por conta do episódio, ela descobriu que Naruto era um garoto que morava sozinho e que só estava indo à escola porque Iruka vivia indo em sua casa para buscá-lo, mas que infelizmente não podia assumir a responsabilidade de adotá-lo porque sua renda não permitia.
Aquilo havia tocado Tsume de tal modo que ela não pensou duas vezes. Embora não tivesse adotado Naruto no papel por conta de toda a burocracia, ela parou diante da casa que mais parecia um mausoléu onde ele vivia.
− Entra no carro, moleque.— disse para ele.
− E se eu não quiser, ‘te bayo?!— questionou, escondendo-se atrás do sofá.
Tsume apenas ergueu a manga de sua camisa.
Naquele dia, Naruto ganhou a maior surra de sua vida. E Kiba ganhou um companheiro de quarto, irmão e melhor amigo.
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Finalmente conseguiu se levantar. As pernas ainda estavam bambas, o estômago revirado, mas precisava seguir em frente. Kiba não se atrevia a olhar por cima dos ombros. Ele tinha medo do que poderia ver. Então, apenas seguia em frente. E com um último fôlego de coragem, começou a correr.
X
− Sente-se, por favor.
Sasuke estava sentado na mesa de metal diante de Tsume. A sala era uma sala de interrogatório comum, típica das séries policiais que Tsume gostava de assistir acompanhada da filha mais velha. Agora ela se perguntava se alguém os observava atrás do vidro espelhado.
Sentou-se, conforme pedido, esperando ansiosamente pelas perguntas.
− Você viu Kiba na noite em que ele saiu para trabalhar? – perguntou Sasuke.
− Não na noite, mas naquele dia nos encontramos mais cedo. – Tsume suspirou pesadamente, tentando reavivar a memória em sua mente. O sorriso do filho mais novo, o cascudo que havia dado nele... qual havia sido a última coisa que havia falado para Kiba? – Para fazer compras. Ele queria fazer uma surpresa para o aniversário da Hana.
Sasuke lembrava-se vagamente da 13 de abril. Hoje era dia 11.
− E você notou algo estranho nele? Um comportamento diferente? Alguém novo em sua vida? – Sasuke parecia uma máquina automática, fazendo perguntas e anotando coisas em um bloquinho de papel.
Tsume pareceu ponderar um pouco. Kiba estranho? Era difícil dizer. O garoto sempre tinha coisas novas em sua vida. Mas diferente? Não. E comunicou isso a ele.
− Será que posso fazer um teste com você? – Sasuke fixou os olhos nos dela naquele momento e segurou suas mãos. – Tsume-okaa-sama.
Ela sabia que ele estava fazendo o melhor para encontrar seu menino. Sasuke podia ser o que menos andava em sua casa, mas ainda assim era uma das crias que Tsume havia acolhido.
− Claro. O que for preciso.
− Feche os olhos. – Ela obedeceu. – Agora tente se recordar daquele dia. Estava quente?
Tsume tentou se recordar, ouvindo as instruções de Sasuke. Sim, estava quente. Ele perguntou sobre os barulhos ao redor. Havia uma construção barulhenta, uma reforma. Um cara havia assobiado para uma transeunte. Kiba revirou os olhos disso. Estavam saindo do mercado, carregados com as compras. Kiba parou para tomar um sorvete. A luz do sol rebateu contra a lataria de um carro, cegando-a momentaneamente. Tsume não teria se importado, caso não tivesse notado que esse mesmo carro estava ali desde que os dois haviam chegado.
− Você se lembra de algo desse carro? – Sasuke perguntou. – Consegue visualizar o motorista?
Os olhos de Tsume se apertaram um pouco mais. A luz batia contra seu rosto na hora em que tentava vê-lo.
− Não consigo ver o rosto, mas a placa... tem um 76 no final. – Tsume abriu os olhos, sentindo-se de repente exausta. – Desculpe, moleque, não lembro de mais nada.
Sasuke estendeu uma das mãos para segurar a de Tsume, e esse gesto foi genuíno. Tsume apertou os dedos contra os dele.
− Você foi muito bem, Tsume-okaa-sama. Agora é comigo e com o Shino.
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O desgraçado o atingira em cheio no peito com um chute e isso quase havia feito com que caísse da escada. Na verdade, chegou a rolar pelos primeiros degraus, mas conseguiu frear a própria queda. Demorou para conseguir recuperar a própria respiração, ofegante pelo chute que certamente deixaria uma marca em seu peito. O outro pé havia pego de raspão em seu queixo.
O gosto de sangue preenchia sua boca. Como, depois de tudo, ele ousava a ir contra si? Quando tudo o que havia feito era cuidar dele?
Um sorriso se desenhou em seus lábios, longe de ser gentil.
E ele agarrou a barra de ferro no chão antes de começar a caminhar, disposto a dar uma lição naquele de quem havia cuidado tão bem.
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Hana não havia visto Kiba naquele dia, e Sasuke já tinha conversado com Naruto e Hinata também.
Nenhuma informação deles o ajudava com o caso, mas Hana havia falado algo curioso: há algumas semanas, medicamentos haviam sido roubados de sua clínica. A princípio, ela não havia notado porque quem fazia o controle de medicamentos era Kankuro, mas ela já havia pedido Cetamina¹ no início do mês, e precisara refazer o pedido.
Decidiu que investigaria isso reunindo-se com Kankuro, um garoto estranho que também andava na casa dos Inuzuka, com quem Sasuke pouco falava, mas que sabia trabalhar junto com Hana, como ela mesma havia reforçado.
Ele não andava mais na casa dos Inuzuka desde que ele e Naruto moravam juntos, exceto em datas comemorativas, onde o namorado insistia que deveriam passar todos os feriados. Não era como se Sasuke se importasse, no entanto. Era melhor do que passar com o irmão mais velho com quem pouco tinha contato. Era melhor assim.
Sasuke respirou fundo, quando Shino sentou-se diante dele na sala de interrogatórios.
− Viu tudo através do vidro? – perguntou. Shino anuiu.
− O que você acha?
− Acho que Tsume e Kiba viram nosso sequestrador naquele dia. Já passei o número adjacente da placa para Shikamaru. Isso reduz um pouco as buscas dele, mas ainda é um tiro no escuro. – Sasuke expirou o ar pelos lábios, sentindo a boca seca e um desejo intenso por café. – Precisamos de mais do que isso, Shino.
Ele sabia. E sabia o quanto o tempo deles estava escasso, pois já iam para 48 horas e nenhuma comunicação.
− Ele está agindo mais rápido. Com Neji... – Shino não queria pensar nisso, mas era inevitável. – Neji teve cerca de uma semana, segundo Tsunade constatou. E se esse tempo diminuir com Kiba, Sasuke?
Sasuke não podia desconsiderar essa possibilidade. Ele estava mais violento, mais confiante. E mais necessitado. Matar era o que mantinha aquela realidade paralela que ele acreditava ser real.
− Ele projeta nas vítimas alguém que perdeu. – Sasuke resolveu que iria compartilhar sua teoria por conta da intuição de Shino. – Provavelmente um ente querido. Uma namorada, um amante, um parente... alguém que lhe era muito estimado.
“Mas existe a culpa, de alguma forma. Ela está presente, o que significa, que o que quer que tenha acontecido a essa pessoa, ele é o culpado ou se considera culpado por não ter conseguido fazer nada para ajudar. E ele fantasia poder fazer isso com as vítimas. Mas conforme seu quadro evolui, ele simplesmente percebe que as coisas não funcionam dessa forma. Daí a violência, a confiança em seus próprios atos. Não posso descartar a possibilidade de que Kiba tem menos tempo, Shino, se estivermos lidando com o mesmo assassino. Mas isso significa que ele também pode errar, se tornar descuidado. Então, temos que nos ater a isso. Em coisas que ainda não conseguimos enxergar.”
− Coisas que ainda não conseguimos enxergar. – Shino repetiu. Tão logo o fez, abandonou Sasuke sozinho na sala de interrogatórios. Uchiha podia se sentir incomodado com isso, se já não o conhecesse. A intuição Aburame atacava novamente.
X
Na época do Koukou², Kiba tinha participado da equipe de atletismo e corrida. E isso fazia toda a diferença em sua vida agora, pois, dessa vez, Kiba alcançou a maçaneta. E se deparou com a escuridão. Desnorteado com a falta de luz, cambaleou, enroscando-se em cortinas.
Seus pés batiam contra um piso amadeirado pelo barulho oco.
Sua respiração entrecortada entregava o cansaço.
Queria apenas seguir em frente.
Implorou para que aquele lunático estivesse desacordado em algum canto. E seguiu tateando, em busca de um interruptor...
Suas mãos se depararam com mais tecidos com cheiro de mofo...
E ele sentiu.
Uma única pancada em sua articulação, na altura do joelho. O grito escapou por sua garganta, rouco, no mesmo momento em que alcançou o interruptor.
− Você podia ter colaborado. – A barra de ferro desceu sobre sua barriga. Kiba gritou. – Podia ter feito tudo conforme te pedi e você melhoraria.
− P-para... – Kiba implorava, as lágrimas salgadas descendo pelo rosto.
− Agora você é um brinquedo quebrado. Como todos os outros.
A barra de ferro desceu novamente, escurecendo sua visão.
E, dessa vez, Kiba implorou para que tudo tivesse terminado, pois já não suportava mais a dor.
¹ — Medicação utilizada para induzir e manter a anestesia. Os efeitos colaterais incluem agitação, confusões, alucinações e perda de memória, entre outros.
² — É o equivalente ao nosso Ensino Médio.
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