The Puppet
8 O tempo que nos resta
Notas iniciais
Houve um momento onde a dor apenas deixou de ser sentida. E era a leveza do ser, e nada mais importava além daquela sensação flutuante de que nada, nada poderia atingi-lo.
Febril, via imagens de uma vida que não mais lhe pertencia, sentindo apenas a umidade dos panos gélidos a serem trocados em sua testa. Mas nada disso importava também.
Entre acessos de tosse e uma respiração ruidosa, não havia mais nada que pudesse ser feito por ele.
Era apenas uma questão de tempo, e sabendo disso, tornou-se furioso, irrefreável.
− POR QUE VOCÊ QUER ME ABANDONAR?! – A tigela de missô foi estilhaçada contra a parede. Agarrou-o pela gola da camisa, mas em delírio, apenas sorria.
− Me perdoe... – murmurou baixinho. – Por deixá-lo aqui.
Somente naquele momento notou como os traços suaves pareciam frágeis, a ponto de se quebrarem. Ele quebraria?
Ainda se lembrava quando aquelas mesmas mãos haviam lhe tocado com gentileza, ensinando-lhe tudo o que sabia para viver.
Suspirou.
− Não vou permitir que a doença leve de você o que lhe era mais importante, Sasori-san. – murmurou, os lábios tocando os dele. – Eu eternizarei você.
O sussurro em seu ouvido soara gélido.
Ele começou a preparar a cuba.
Não permitiria que a beleza de seu mestre fosse levada embora.
X
Tudo o que podia fazer agora, era aguardar. E, embora fosse paciente, esperar não era uma das virtudes de Aburame Shino. Não quando seu amado parecia correr contra o tempo. Estaria vivo ainda? Que tipos de atrocidade aquele homem teria cometido contra ele? Seria Kankuro? Se fosse, tinham deixado o assassino escapulir por aquela porta sem fazerem nada além de assistir...
Sasuke parou ao seu lado, estendendo-lhe uma caneca de café recém passado. Shino observou por trás da lente dos óculos escuros. Há quanto tempo não dormia? Duas noites? Talvez estivesse indo para a terceira.
− Se quiser se manter de pé, sugiro que beba um pouco. – Sasuke, no entanto, não o repreendeu. – Sei que você não consegue ficar parado, Shino, e que cada segundo é um segundo no qual Kiba pode estar sofrendo. – Sorveu um gole do próprio café. – Mas agora, a ciência é quem dá o próximo passo. Você não pode fazer nada. Então tente descansar um pouco.
Shino refletiu sobre essas palavras, encarando o quadro branco com todas as informações que possuíam até então.
− Se fosse o Naruto, você conseguiria dormir?
A intenção de Shino não era ferroá-lo com a pergunta, Sasuke sabia. Pois o amigo estava em um estado que não o culparia sequer se resolvesse lhe partir a cara em dois.
− Certamente que não.
Shino deu um gole no café amargo.
− Viu as atrocidades que ele faz, Sasuke. – disse ele. – Sei que duvidou o tempo todo que Puppet pudesse estar por trás disso, mas até então não tínhamos considerado a possibilidade de ele ser alguém tão próximo. E se tivermos deixado ele escapar daqui ileso? E se nunca mais o encontrarmos? Já pensou nisso?
Sasuke virou-se na direção de Shino, os olhos escuros o encarando de maneira incisiva.
− Alguém com a confiança dele, que já matou tantas vezes, não vai simplesmente embora sem apresentar sua próxima obra de arte, Shino. – Sasuke rebateu. – Ele precisa desse controle, desse ritual. Se não o completa, a insânia o toma por completo.
Shino mordiscou o lábio inferior.
− E se não for ele? E se estivermos andando em círculos? – perguntou. – Vamos para o quarto dia, Sasuke. E não sei o que Kiba já pode ter feito para tentar escapar.
Shino tinha certeza de que Kiba não havia ficado parado. Se tivesse a chance, mínima que fosse, tentaria escapar. E se falhasse, isso significava encurtar o tempo que já era curto.
Sasuke refletiu sobre isso. Poderia ter mantido Kankuro sob custódia por até 24 horas, mas escolheu não fazê-lo. Se ele fosse o assassino, isso teria dado mais tempo a Kiba. Talvez ele tivesse conseguido escapar. Havia sido uma decisão ruim?
Seu celular vibrou, antes que pudesse concluir uma resposta e Sasuke o atendeu sem nem sequer ver quem era o contato.
− Tenho os locais que você me pediu. – disse Shikamaru, sem rodeios. – Estou enviando a localização deles para o seu celular.
Sasuke permitiu que a imagem fosse transmitida para o notebook através de um aplicativo criado pelo próprio Shikamaru. Entendendo o sinal, Aburame ligou o projetor, que mostrou os locais na tela; Sasuke colocou o celular no viva voz.
− Prossiga, Shikamaru.
− Temos três possíveis localizações: uma fábrica de gessos que veio à falência há quinze anos e que está interditada desde então.
Sasuke olhou de canto para Shino.
− A fiação do local?
− Prata. É um isolante melhor do que o cobre.
Descartaram o local.
− E os outros dois, Shikamaru?
− Temos o teatro na ala norte da cidade, onde apresentações costumavam ser performadas por grandes artistas. O Teatro Akatsuki foi fundado por Akasuna no Sasori, há exatos cinco anos. No último ano, ele foi fechado por conta de um incidente com a fiação que levou a um incêndio no local. — Shikamaru fez uma pausa. – Parece que ocorreu durante uma das apresentações no teatro, e duas pessoas morreram no fogaréu. Os bombeiros conseguiram conter as chamas, mas o prédio foi considerado perigoso demais para continuar com quaisquer atrações e foi fechado.
− E o último local? – Shino questionou ao lado de Sasuke.
− Costumava ser um orfanato que possuía paredes de gesso. Eu o considerei porque tiveram problemas com essas praguinhas que você gosta de estudar. Foi fechado, também, e as crianças transferidas porque se tornou inabitável. Os insetos o tomaram por completo formando uma colônia. O serviço de dedetização não conseguia se infiltrar nas paredes mais profundas, então o prédio foi condenado e será demolido na semana que vem.
− Obrigado, Shikamaru. – Sasuke murmurou. – Pode me fazer mais um favor? Pesquise tudo a respeito de Sabaku no Kankuro. Me ligue de volta quando tiver mais informações.
− Roger.— Shikamaru desligou.
− Dois lugares distintos para ir. – Sasuke disse, descartando imediatamente a fábrica de gesso. – Irei solicitar uma equipe para investigação.
− Vou ao laboratório. – Shino encolheu os ombros, embora ainda parecesse exausto. O café lhe dera novo fôlego. – Quero saber se temos notícias do DNA.
X
Kiba não conseguia mais comer. Não tinha forças quando ele lhe ofereceu a sopa.
− Não consigo... – murmurou baixinho. Febril pela infecção em seu corpo, tudo o que queria era descansar.
Ele olhou para a perna cheia de pus, de onde larvas de insetos saíam. Seus olhos faiscaram de ódio. O ferimento, que fora causado pela forte pancada, havia formado uma miíase¹ através da fratura exposta.
− Precisa comer para tomar os remédios ou vai passar mal! – exigiu, segurando seu queixo com força.
As lágrimas desceram pelo rosto de Kiba, que já não tinha mais forças para lutar quando ele forçou a alimentação.
− Me deixa ir... – implorou baixinho. – Não vou dizer nada a ninguém, só quero o Shino...
Um tapa forte foi desferido contra seu rosto.
− Não há Shino. – rebateu, furioso. – Não existe ninguém além de mim .Eu sou! Apenas eu!
Seus brados persistentes ecoaram por todo o local. Kiba se encolheu.
− Cuidei de você. – prosseguiu. – Fiz tudo para que melhorasse e você só pensa nele! SÓ NELE!
As lágrimas ainda corriam pelo rosto de Kiba quando, em frenesi, afastou-se, começando a encher a cuba ao lado com um líquido de cheiro forte que fazia seu estômago revirar.
− Mas eu vou te mostrar, Sasori-san. Vou te mostrar que sou melhor do que ele. Ninguém vai te tirar de mim quando eu te eternizar.
O sorriso macabro que tomou seus lábios ocupou os pesadelos de Kiba em seus sonos febris quando mergulhou na escuridão.
X
Sasuke dividiu duas equipes de busca. Uma delas, liderada por ele próprio e a outra por Yamanaka Ino, uma detetive de confiança que era especialmente boa em entrar na mente dos outros. Ela estava de recesso nos últimos dias, mas quando a localizou, rapidamente a atualizou sobre o caso, e Ino mais do que prontamente se dispôs a ajudá-lo.
Estava explicando sobre os dois locais, quando Shino apareceu, uma sombra silenciosa apenas acompanhando o que tinha a ser dito. Aparentemente, sem uma resposta de Tsunade ainda. O DNA não podia ser apressado ou poderiam perder a amostra.
− Então é isso. – Sasuke disse. – Nos dividiremos e iremos atrás desse assassino. A prioridade é trazer Inuzuka Kiba vivo.
Os policiais dispersaram.
− Deixe-me ir com você. – Shino pediu. Não foi como da outra vez, a exigência gritante para que estivesse presente, Sasuke notou. Talvez porque Shino tivesse medo do que encontraria. Mas ao mesmo tempo, havia aquele pedido desesperado. A calma fria de Shino desaparecera. Restando-lhe apenas a esperança.
− Tem certeza que não quer esperar os resultados dos exames? – Sasuke perguntou, embora já soubesse a resposta.
− Quero encontrar Kiba. Isso é tudo o que importa agora. – rebateu. Sasuke anuiu. – Eu quero esse cara morto, Sasuke.
Sasuke sabia disso. Era algo que Shino não precisava dizer. Não quando se lembrava dos olhos desesperados de Tsume ao interrogá-la. Não quando se lembrava de todo o sofrimento e de toda a dor que esse assassino estava fazendo aquela família passar.
X
− I guess you’re a toy that is broken. — cantarolava. – I guess we’re just older now.
Afiava a lâmina em suas mãos, preparando-a junto com os demais instrumentos. O ofício que havia aprendido com tanto amor, aquele que havia lhe dado o título através das mídias.
Ele olhou com um sorriso para Kiba, tocando seu rosto.
− Eu vou consertar você. – murmurou baixinho e inclinou-se para beijar seus lábios. – Não se preocupe. Vai ficar tudo bem agora. Eu prometo.
Kiba entreabriu os olhos. Mas já não tinha mais forças para lutar.
X
¹ — Doença mais conhecida como bicheira, onde insetos depositam seus ovos em um ferimento aberto, permitindo que as larvas se alimentem da carne assim que nascem.
² — Acho que você é um brinquedo quebrado. Eu acho que nós só estamos mais velhos agora. São trechos da música sugerida no início das notas.
Fale com o autor