The Puppet
9 Quando as peças se encaixam
Notas iniciais
Eu pensei que finalmente havia encontrado alguém como você, com uma luz mais intensa, com as cores vibrantes que um dia você possuiu. Vi naquele rapaz a sua intensidade, a sua luz e a paixão que possuía pela sua profissão. A profissão que tanto me ensinou a amar como o ofício que utilizei para eternizá-lo.
Você ainda se lembra, Sasori-san? Se lembra do dia em que me implorou isso através do seu olhar? Que lhe desse o fim? Que tivesse a coragem de ser o seu Anjo da Morte?
Me lembro claramente de tirar a sua dor. De ver a sua expressão calma, tranquila e complacente enquanto te mergulhava na cuba, moldando seu corpo perfeitamente para a réplica que criei de ti.
E eu o reproduzi, a perfeição eterna em sua expressão mais tranquila e serena no momento em que findei sua existência.
Ainda me lembro do sangue vertendo da artéria femoral, aquela que aprendi ser a responsável por bombear a maior quantidade de sangue para o nosso corpo. Me lembro do tom rubro, tão próximo ao tom rubi de seus cabelos, de seus olhos tão intensos, distantes do tom perolado de Neji. Distante do vermelho desbotado dos cabelos de Karin. Distante da pele quase translúcida de Kimimaro. Distante dos olhos heterocromáticos de Kakashi. Distante até mesmo da beleza singular de Haku.
Você era diferente de todos eles, Sasori-san, mas achei que na alegria energética de Kiba, em seu jeito e nos traços selvagens, tão distintos dos seus, eu pudesse encontrar vida novamente.
Eu estava enganado.
Ele é tão fraco como todos os outros.
Fraco como você.
Mas se não posso salvá-lo, como também não pude fazer contigo, ao menos vou eternizá-lo. Ele fará parte da nossa obra final. E logo se juntará a você.
X
Embora Sasuke tivesse uma forte impressão do local onde o assassino agia, decidiu que ainda assim, separaria as equipes. Então, Yamanaka Ino liderou o grupo que ia na direção do orfanato, enquanto ele liderava a equipe que seguia com Shino na direção do teatro.
Seu celular tocou e Sasuke pressionou um botão no painel que colocou Shikamaru imediatamente no viva-voz.
− Pode falar. – anunciou.
− Fiz a pesquisa que você me pediu. Havia alguns registros selados que eu me ocupei em abrir para saber do que se tratava, sobre um tratamento psicológico que Kankuro passou para o controle da raiva depois do acidente com os pais. Ele foi diagnosticado com Transtorno Afetivo Bipolar¹.
Sasuke ficou pensativo, deixando o silêncio pairar no ar. Ele sabia que Kankuro havia sido acompanhado por uma psicóloga e fazia sentido, já que os episódios de raiva quase o levaram a ser expulso do colégio.
− O que mais? – Foi Shino quem questionou, tendo em vista o silêncio do amigo que dirigia.
− Vi alguns registros de queixa sobre ele quase ter matado um aluno. Achei bastante estranho que tenha passado numa boa. Aparentemente, o juizado de menores votou em favor dele por conta do incidente com os pais e ele foi obrigado a fazer tratamento psicológico. O caso foi arquivado, o aluno em questão mudou de escola. E foi isso. Problemático.
− Tem mais alguma coisa? Contatos?
− Tem algo que achei que não estava relacionado, mas decidi pesquisar mesmo assim. O teatro onde vocês estão indo estava no nome de Akasuna no Sasori.
− O titereiro? – Sasuke arqueou as sobrancelhas.
− Sim. Quis saber mais sobre ele, pois o teatro estava em seu nome. Ainda está. Mas não há registros sobre nada, Sasuke.– Shikamaru fez uma pausa. – Há um ano, ele sumiu do radar. Havia, antes, registros médicos, ele foi diagnosticado com tuberculose óssea em estágio avançado. Deveria fazer o tratamento, mas nunca compareceu para pegar os resultados do exame. E, depois disso, mais nada.
− Quando o Puppet causou a primeira morte, Shikamaru? – Sasuke questionou.
− Se equipararmos as datas, uma semana depois do aniversário de desaparecimento de Akasuna.
Então era isso, Sasuke concluiu. A morte ou desaparecimento de Sasori havia sido o gatilho. Suas mãos apertaram o volante.
− Obrigado. Entro em contato qualquer coisa. Faça o mesmo se tiver algo para me dizer. – Desligou.
Seguiu-se um silêncio profundo entre ele e Shino, cada um com suas próprias teorias. Kankuro seria, de fato, o assassino?
− Tente falar com a Hana. – Sasuke disse, ao volante, mantendo a sirene desligada embora dirigisse com velocidade. – Aja com normalidade e pergunte se Kankuro foi trabalhar hoje. Não levante suspeitas. Apenas pergunte. Se ele estiver lá, mudarei a nossa rota.
Shino anuiu, imaginando que Sasuke deveria estar preocupado com Hana também, algo que fugira totalmente de sua visão. Estavam trabalhando com probabilidades ali, mas se Kankuro fosse Puppet, Hana era quem corria mais perigo. Afinal, ele poderia levantar alguma suspeita. Hana poderia questioná-lo ou acusá-lo. Seria desastroso para Tsume. Os dois filhos nas mãos de um maníaco sem coração...
O celular de Hana chamou. Cada toque longo fazia o coração de Shino bater um grau mais rápido. Ele queria que ela atendesse. Desejou ardentemente por isso...
− Alô?— Shino respirou aliviado.
− Hana? É o Shino. – disse o óbvio. – Kankuro está por aí? Sasuke tinha mais algumas perguntas para ele a respeito dos medicamentos. Ele deu uma dica importante para nós...
− Ele veio trabalhar, mas saiu mais cedo. Não parecia muito bem, então o dispensei. Algo que eu possa resolver?
A língua de Shino estalou no céu da boca. Ele fez uma negativa com a cabeça, expressando para Sasuke que Kankuro não estava no serviço.
− Acho que não. Ele disse ter visto alguém suspeito quando você não estava no trabalho. Mas a descrição era meio abstrata.
Sasuke ficou impressionado com a naturalidade de Shino ao mentir para a cunhada.
− E sobre o Kiba, Shino-kun? Soube mais algo?
Ele soltou o ar pelos lábios. Como dizer a ela que estavam em uma possível pista que poderia culminar com o fim daquilo tudo? Mas também, se fosse em vão...
− Te direi assim que souber algo, Hana.
− Que ele esteja bem, Shino. – murmurou ela. – Pois não sei o que farei se algo acontecer ao meu irmãozinho.
Sobretudo, pensou Shino, se o assassino fosse alguém que ela própria havia colocado na sua vida e, consequentemente, na vida de Kiba.
X
Kiba se sentia tão fraco.
Quando entreabriu os olhos, apenas pela força de vontade que o mantinha vivo, sentiu que poderia morrer naquele momento. O coração batia dolorosamente no peito. Ao olhar para a própria perna, teve o retrato do desespero, com larvas se desprendendo e se alimentando de sua carne. Mas, surpreendentemente, não sentia dor.
Seus olhos fitaram as costas largas de seu raptor, e sentiu a boca seca por um momento. Queria, mais que tudo, sair dali. Implorar para poder ir embora. Sabia que não conseguiria. À essa altura, compreendera seu destino.
Observou a bandeja prateada ao seu lado, cujos objetos pontiagudos lhe trouxeram uma sensação de terror. Havia coisas demais, objetos de tortura que ele se lembrava de terem sido utilizados para desmembrar os dedos de Neji. Engoliu em seco, agarrando um cabo de bisturi com a lâmina, escondendo sobre a manga de seu casaco.
Suas chances eram praticamente nulas, com a perna daquele jeito e sentindo-se lento como se estivesse anestesiado. Mas ele precisava tentar. Precisava lutar até o fim.
X
Chegaram até o local. Shino sentia o coração na garganta quando saíram do carro, Sasuke ditando ordens enquanto cercavam o perímetro.
− Estamos lidando com um assassino metódico e organizado, mas que também pode ser impulsivo e explosivo quando as coisas saem do controle dele. Lembrem-se: a prioridade é tirar Inuzuka Kiba com vida do local.
Os olhos estreitos de Sasuke não davam margens para dúvidas. Shino prostrou-se ao seu lado como uma estátua.
− Vai ter que ficar aqui fora, Shino.
− Mas...
Sasuke apertou o ombro do amigo.
− Confiei em você para fazer o seu trabalho e permiti que viesse até aqui, mas não posso arriscar. – disse, irredutível. – Você é um civil, e é o namorado da vítima. Não posso permitir.
Shino trincou os dentes. Querendo pular no pescoço de Sasuke e dizer-lhe boas doses de verdade. Mas ele tinha razão.
− Kiba vai precisar de você quando sair de lá, Shino.
Ele anuiu fracamente. Observando os policiais fazerem seu trabalho, nunca se arrependeu tanto de ter desistido da academia quando ingressou com Sasuke.
X
Em algum momento, Kiba deve ter cochilado. Pois ouviu vozes, no plural. Seu coração chegou a preencher-se de esperanças, achando que alguém finalmente tinha encontrado aquele local.
Mas então ouviu os passos pesarosos de quem se aproximava. Uma discussão. O bater das portas.
− Vem. Precisamos sair daqui.
Sentiu-se suspenso no ar. Sentiu medo.
− Onde vamos?
− Embora.
Kiba agarrou-se àquela esperança. Até que o viu no topo da escada, enquanto ainda subiam.
− Você não vai a lugar a algum. E não vai levá-lo também.
O seu algoz.
Puppet.
X
− Sai do meu caminho, isso já foi longe demais.
− Não.
A lâmina brilhava em sua mão.
− Feh. Você não faria isso. – Deu um passo para trás, com Kiba em seus braços. O garoto sentia-se mole, fraco. A dor voltava.
− Tem certeza?
O movimento ágil da lâmina na direção deles, uma esquiva quase perfeita. O cheiro de sangue.
− Segure-se, Kiba.
O garoto obedeceu, sentindo-se repentinamente seguro. Como se estivesse nos braços de Shino. Fechou os olhos, aspirando o perfume amadeirado.
Correram. Houve gritos. Houve um movimento brusco.
− VOCÊ NÃO VAI FUGIR DE MIM!
Um estampido. Um tiro. Olhos arregalados. Passos se aproximando. Os olhos do terror.
− Não vai me tirar o que é meu.
X
O barulho do tiro foi ouvido por todos. Sasuke praguejou um palavrão, vendo Shino ignorar tudo o que havia lhe dito e correndo naquela direção.
− Shino! SHINO! Mas que merda! – Sasuke correu atrás do amigo, sentindo que toda sua operação estava comprometida.
Sentindo mais que tudo que seu coração pesava no peito enquanto desejava que Kiba estivesse vivo.
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Aproximou-se dos corpos tombados no chão, uma poça de sangue se formando.
− Eu disse que não ia tirar o que era meu.
− CORRE, KIBA!
Aquele era um pedido inútil, é claro. Sua cabeça atingiu em cheio o queixo do Puppet. Sangue se espalhava vindo da boca dele, vindo do ferimento à bala.
Kiba agiu instintivamente, o bisturi penetrando a mão que tentou alcançá-lo. Um grunhido de dor.
Correr.
Precisava correr.
Arrastou-se, tentando seguir em frente.
− NÃO ME ATRAPALHE! NÃO ATRAPALHE MEU RITUAL!
Lançou-se sobre ele. Começaram a brigar. Kiba ouviu socos. Chutes. O barulho de um tiro. Onde? Contra quem? Puppet? Seu salvador? Sentia medo, desespero. A dor latejante de sua perna enquanto se arrastava. Enquanto tentava se erguer para seguir em frente.
− KIBA!
Ele reconheceu. A voz de Shino. Sua silhueta e a de Sasuke quando arrombaram a porta.
Outro tiro disparado.
− Ele tentou nos matar!
A arma nas mãos de um. Dois olhares: um desesperado e o outro furioso.
− Largue a arma. – Sasuke disse, erguendo a Glock na direção de ambos. – Kankuro, largue a arma e ajoelhe-se.
Ele largou, as mãos na cabeça enquanto se ajoelhava no chão.
Kiba olhou para o namorado, um sorriso pintando seus lábios.
E desacordou, seu nome como o último som que ouvia nos lábios de Shino antes que sua consciência desvanecesse.
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Tudo foi uma sucessão de imagens para Shino depois daquilo.
Ele viu Sasuke algemando Kankuro, e correu até Kiba. Pegando-o nos braços, gritando por seu nome.
Lembrou-se vagamente de carregá-lo para fora dali, enrolado em seu casaco. Ele estava tão febril! E aquela perna... quando Shino olhou para aquilo, sentiu o estômago revirar.
Quando chegaram ao hospital, Tsume e Hana já esperavam, avisadas por Shino no caminho. Ele imediatamente foi levado para o centro cirúrgico, onde os profissionais disseram que, após a limpeza para saber a extensão dos danos em sua perna, entrariam em cirurgia tentando ao máximo preservar os músculos e os tecidos para que ele não perdesse o movimento da perna.
E passaram a noite inteira ali, torcendo para que Kiba ficasse bem.
X
Sasuke apareceu na manhã seguinte, trazendo uma troca de roupas para Shino em uma sacola e croissants fresquinhos e café na outra.
− Achei que você não tivesse comido e que fosse querer se atualizar sobre o caso.
Shino olhou para Tsume. Hana havia saído há pouco para averiguar Akamaru e os animais na clínica.
− Vá. Isso é importante. – Tsume apertou sua mão. – Se alguém avisar sobre algo, te procuro imediatamente. Vou logo depois que vocês voltarem.
Shino anuiu, levantando-se e seguindo Sasuke na direção da entrada do hospital, em um banco onde poderiam conversar sem serem incomodados.
Lá fora, parecia ter amanhecido há pouco mais de meia hora. Só então, Shino se deu conta que passara a noite inteira velando Kiba enquanto ele permanecia em cirurgia.
− Ele confessou? – Shino foi direto, tirando os óculos escuros e limpando-os no tecido da camisa branca. Vendo agora respingos do sangue de Kiba e grato por Sasuke ter tido a consideração de trazer roupas limpas, pois não sairia dali até que o namorado estivesse bem.
− Vou te contar tudo. Vai ser mais fácil pra você entender. – Sasuke estendeu o café. – Tome. Você vai precisar.
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Kankuro e Gaara precisaram passar pela triagem. Por sorte, seus ferimentos eram superficiais. Kankuro fora preso como suspeito principal. E Gaara, seu irmão mais novo, prestaria depoimento sobre o que havia visto. Afinal, ele também estava na cena do crime e podia ser considerado suspeito.
No piso inferior do teatro, encontraram um porão cheio com instrumentos de tortura. E uma espécie de altar montado para Sasori, bonecos em tamanho real que eram a reprodução perfeita de cada uma das vítimas, cada detalhe tão vivo que pareciam com as pessoas reais.
Era simplesmente assustador.
— Havia uma cuba. – Sasuke disse. – E nela, ele devia fazer o molde dos corpos para fazer os bonecos. Estava preparada. Acho que Kiba escapou por muito pouco.
Aquilo fez Shino sentir o coração quase parar no peito. Fora por pouco. Por muito pouco.
— Levamos eles dois para a delegacia. – Sasuke prosseguiu. – Estava certo de que um deles era Puppet. Mas a certeza apontava para Kankuro, por todas as informações que havíamos reunido.
— O resultado do DNA saiu? – Shino questionou. Sasuke anuiu.
— Parcial. O DNA estava danificado, mas tivemos alguns marcadores positivos. Não o suficiente para culpar um ou outro. Apenas para concluir que um dos irmãos era o responsável.
Shino pareceu pensativo sobre isso.
— Então decidimos jogar com eles, eu e Ino.
“Tínhamos informações a respeito da personalidade do Puppet. Sabíamos que ele era narcisista e metódico. Que ansiava pelo controle das vítimas, drogando-as até que ficassem doentes, pois ele queria curá-las. Tinha um complexo de salva-vidas, mas sem realmente querer salvar ninguém. E no final, quando ele via que estava falhando nessa tarefa, tornava-se violento. Até decidir eternizá-los em uma obra-prima.”
— E como fizeram isso? Jogaram um contra o outro? Porque, até onde sei, Kankuro é muito ligado ao irmão. – Shino se lembrava de como o mais velho havia protegido Gaara durante toda a infância. Simplesmente não fazia sentido que o ruivo fosse Puppet. Ele era frágil demais. Fraco demais.
Nesse momento, Sasuke abriu um sorriso de canto.
— Ino me deu uma ideia. Reunimos informações de que o Puppet gostava de pessoas que tivessem alguma característica que se sobressaísse. Sou ordinariamente comum. – Encolheu os ombros. – Mas todas as vítimas possuíam uma peculiaridade. A de Kiba, acredito eu, era seu jeito selvagem, os dentes que se parecem com presas, e a personalidade. Então, escolhemos Ino para visitar as duas salas.
“Porque, embora ela seja japonesa, o pai alemão deixou traços marcantes. Os cabelos loiros, os olhos de um azul que nunca vi. Parecidos com safiras. Usamos ela como isca. Primeiro, deixamos eles esperando por algumas horas. Então Ino entrava, com sua vivacidade, fingindo fragilidade. Fizemos o mesmo interrogatório com os dois, expondo as vítimas, esperando que falassem. Porque, embora o Puppet possuísse todas essas características, o modo como desovava os corpos dava a entender que ele se arrependia de seus crimes.”
Shino se lembrava disso. Todo o perfil comportamental do Puppet apontava para alguém com um forte distúrbio de personalidade que se arrependia dos crimes ao final. Pois sua primeira vítima, em quem ele projetava todas as outras, era alguém que amava.
— E encontraram alguma conexão de Sasori com Kankuro?
Sasuke sorriu de canto.
— Temos que agradecer ao Shikamaru por essa parte.
X
O telefone de Sasuke havia tocado durante o interrogatório. Ele observava Ino através do espelho, quando atendeu.
— Estou ouvindo.
— Não consegui descansar. Algo não encaixava no quebra-cabeças que você me deu.
— Desenvolva. – Sasuke sabia como Shikamaru funcionava. Precisava dar a ele espaço para expor os próprios pensamentos. Imaginou se ele estaria jogando Shogi agora.
— Pesquisei mais a fundo sobre o tal de Sasori e sobre a família Sabaku. Descobri, então, que as famílias se conheceram no passado. Que a avó de Sasori costumava frequentar a casa dos Sabaku antes de falecer. Foi praticamente uma avó para os três. E então, quando Sasori começou a atuar no teatro, Kankuro se interessou pelo que ele tinha a oferecer. Mas não só ele. Gaara também. Os dois estavam matriculados nas aulas. Que Kankuro parou de frequentar logo após a morte dos pais. Para trabalhar para Inuzuka Hana, que o registrou logo depois. Mas Gaara permaneceu firme. Até que o teatro faliu e as aulas foram suspensas.
— E qual é a profissão atual dele, Shikamaru? – Sasuke já sabia, mas decidiu perguntar mesmo assim.
— Ele trabalha em um necrotério. Maquiando os mortos.
Bingo.
X
Shino permaneceu estoico.
— Com as informações em mãos, deixei que Ino interrogasse Gaara. – prosseguiu. – Enquanto Kankuro demonstrava a culpa por tudo o que havia acontecido, Gaara permanecia resoluto de que era uma vítima. Dissera que o irmão havia enlouquecido após a morte dos pais. Mostrou-nos os ferimentos feitos por ele, alguns hematomas antigos.
“Mas nós conhecemos Kankuro, Shino, acha mesmo que ele seria capaz de ferir o irmão quando tudo o que fez foi protegê-lo durante a vida inteira? E mesmo depois de tudo, ele se recusava a dizer algo contra Gaara. Permanecia irredutível. E sempre com os olhos baixos. Perguntou por Kiba uma única vez. E foi só. Mas Gaara insistiu tanto. E quando Ino entrou na sala... gostaria que você tivesse visto aquele olhar. Sua Intuição Aburame alarmaria em todas as direções.”
Era por isso. Era por isso que algo parecia errado. Kankuro não era o Puppet. Gaara era.
X
Ino parou ao lado de Sasuke, os olhos turquesa fixos em Gaara.
— Como quer fazer isso? – Era especialista em conseguir confissões. Não havia uma área para isso, mas Ino sabia como entrar na cabeça das pessoas. No quesito perfil comportamental, ela talvez fosse a melhor policial daquela delegacia.
— Acho que Kankuro está pronto para confessar, mas precisa de alguém próximo. – Sasuke apontou para si mesmo. – Mas Gaara... ele parece certo de jogar a culpa para o irmão. Faça como achar melhor.
Ino sorriu de canto.
— Como eu achar melhor? – A pergunta foi uma retórica quando ela entrou na sala. Os olhos de Gaara brilharam. Apenas por um momento. Antes que os dedos se entrelaçassem e ele tomasse uma postura mais relaxada.
— Como está, Sabaku-san? Trataram-no bem aqui? Desculpe a demora. – Ino ajeitou a franja, os dois olhos fixos nele quando sorriu.
— Estou disposto a fazer tudo ao meu alcance para ajudar a polícia. – rebateu, solicito. – Posso?
Gaara estendeu a mão em sua direção, a franja teimosa de Ino caindo sobre o olho. Do outro lado do espelho, Sasuke se sentiu apreensivo, mas Ino anuiu.
Os dedos de Gaara percorreram seu rosto por um momento, aquele brilho ensandecido em seu olhar quando colocou a franja dela atrás da orelha.
— Seus olhos são lindos.
— Obrigada. – Ela sorriu. Sabendo que a partir daquele momento, tinha ele em mãos.
X
— E como conseguiram a confissão?
— A confissão veio por parte daquele que queria confessar. Kankuro não era inocente. Ele sabia o que o irmão fazia, mas não conseguia ficar contra ele. Tentava controlar seus impulsos sem sucesso.
“Mas Gaara era tudo o que restava de sua família. Gaara pegou o carro do trabalho de Kankuro, aquele registrado no nome de Hana. Foi por isso que Kiba não ofereceu resistência. Quando ele entrou no carro, Gaara o drogou. Kankuro descobriu apenas muito depois, ao ir até o teatro abandonado atrás do irmão, que Kiba era sua próxima vítima. Foi mais ou menos na época em que começamos a divulgar seu desaparecimento.”
— E o que o levou a confessar? – Shino questionou, sentindo ódio de si mesmo por ter deixado esse detalhe passar.
— Culpa. – Sasuke terminou o próprio café, mordiscando um dos croissants. – Comecei a pressioná-lo, falando de como Hana e Tsume se sentiam. De que Kiba poderia morrer sem que a justiça fosse feita. Então ele me contou.
“Contou que não sabia no início, mas desconfiou do comportamento de Gaara. Quando foi ver Sasori, certa vez, o encontrou morto. Chegara tarde demais. Gaara confessou tê-lo matado para aliviar seu sofrimento. Kankuro não sabia o que fazer, mas ajudou-o a ocultar o corpo de Sasori, pois não podiam se arriscar. Cimentaram-no no próprio teatro onde jamais seria encontrado. Era tudo perfeito. O crime perfeito. Mas o aniversário da morte de Sasori foi um gatilho para que ele voltasse a matar.”
— E então ele começou a agir como o Puppet.
Sasuke concordou.
— E Kankuro passou a desconfiar do que vinha acontecendo, pois Gaara desaparecia de casa. Ele resolveu averiguar e encontrou-o torturando Kimimaro, nossa primeira vítima. Mas, mais uma vez, chegou tarde demais. Ele já estava morto.
— E, sem outra opção, Kankuro o ajudou com o corpo. – Shino concluiu.
— Exato.
“Mas sentiu-se culpado, motivo pelo qual o ritual com a mortalha era feito, com um pequeno boneco que permitia que a pessoa fosse identificada já que Kimimaro tinha fortes indícios de decomposição.”
Shino ficou em silêncio por um longo momento, Sasuke deixando as engrenagens trabalharem em sua mente.
— Os dois eram o Puppet.
— Os dois.
Naquele momento, Tsume aproximou-se de inde estavam, sua expressão denunciando a exaustão das noites insones.
— Ele está no quarto e acordado, Shino. Quer ver você.
X
Aburame estava apreensivo enquanto caminhava na direção do quarto onde Kiba estava. Sentia-se mais leve por um lado, mas por outro, pensava nos traumas pelos quais o namorado havia passado. Seria possível que ele se recuperasse? Que voltasse a ser o Kiba de sempre pelo qual havia se apaixonado? Não. Não deveria pensar nisso. Deveria pensar apenas em ajudar na sua recuperação, nada mais.
Quando entrou no quarto, Kiba devorava uma torta de morango que Hana trouxera escondido assim que chegou ao hospital. Pois acreditava na recuperação do irmão. E sabia que ele acordaria faminto!
Ele deu mais uma garfada antes de perceber Shino ali, parado à porta, apenas observando-o. Aburame sentiu a garganta fechar. Olhando para o namorado com as laterais da boca sujas de calda de morango. Hana apertou o ombro de Shino, abrindo um sorriso grato, saindo do quarto.
— Caralho, Shino! Você nem faz ideia da fome que eu tô! Morrendo de vontade de comer aquela receita que vimos na TV um dia desses.
Há poucas horas, Kiba estava sendo torturado, mantido como refém e drogado por um lunático que havia se apegado à sua personalidade doce e ao jeito carismático. E agora, falava de receitas.
Shino sentiu que derretia por dentro, todas as dores se aliviando de dentro de seu peito quando se aproximou. Kiba estava magro, desnutrido e com um aspecto terrível, com aquelas faixas cobrindo a perna ferida. Mas aparentemente estava tudo bem.
— Eu te amo. – Shino murmurou, em meios às lágrimas, quando o abraçou. – Nunca mais me deixe. Você prometeu. Prometeu que seria minha família a partir daquele dia. Nunca mais me deixe.
Kiba arregalou os olhos, deixando a torta de lado. Abraçando-o de volta.
Lembrando-se que a cada momento, Shino havia sido a força para que ele seguisse em frente. E seus dedos passearam pelo rosto de Shino, os olhos brilhando com aquela ternura quando limpou as lágrimas do namorado, tirando seus óculos escuros.
— Nunca mais. – murmurou com a voz rouca, selando os lábios contra os dele.
Quando se afastaram, ainda saudosos, mas com Shino prezando a recuperação de Kiba acima de tudo e garantindo que faria todas as receitas que ele quisesse, soltou o ar pelos lábios. Finalmente podia respirar outra vez.
X
O depoimento de Kiba foi o que fechou o caso.
Ele contou que Kankuro apareceu apenas quando o ferimento em sua perna já havia sido feito. Que ele buscou alternativas para tirá-lo dali, mas Kiba não conseguia se lembrar muito bem. Até o dia da fuga, onde ele arriscou a própria vida para salvá-lo. Shino ficou estarrecido ao ver que o namorado queria sim perdoá-lo, pois compreendia tudo o que Kankuro havia passado.
No fim das contas, ele foi preso como
cúmplice dos assassinatos, e passaria por um tratamento psicológico intenso na tentativa de reabilitá-lo para a sociedade.
Gaara foi considerado culpado dos crimes, com Kiba descrevendo, em detalhes sombrios, tudo o que havia sido feito consigo e com Neji. Com suas frases e ameaças, os delírios mentais sobre Sasori.
Ele foi condenado à pena de morte por todos os assassinatos e a tortura que havia feito as vítimas passarem. E, em nenhum momento, demonstrou arrependimento, um claro sinal de sua psicopatia, conforme Ino expressou para Shino enquanto Sasuke arquivava tudo.
Hana sentia-se culpada, pedindo perdão ao irmão por ter trazido Kankuro às suas vidas. Mas Kiba garantiu que, com seu carisma incrível, é claro que o assassino – que nem era Kankuro! – chegaria nele de um jeito ou de outro.
Era impossível não rir disso, mesmo em uma situação séria.
O funeral para Neji foi feito, para todas as outras vítimas também. Hinata fez um discurso sobre o primo, em como ele sempre fora um guerreiro pronto para superar qualquer desafio. E Kiba a ajudou, dizendo que nunca viu alguém tão corajoso quanto ele. Omitiu, no entanto, dela, os detalhes a respeito de seu sofrimento. Dizendo que ele morreu por conta da overdose dos remédios aplicados por Gaara.
Sobre os medicamentos conseguidos, Kankuro revelou que não havia sido ele, mas Gaara. Fato que descobriu ao notar o desaparecimento e segui-lo certa noite.
Estavam voltando para casa, Kiba apoiado nas muletas quando olhou na direção do carro. Shino parou, abrindo a porta do passageiro para ele entrar. Tantas vezes já havia se desculpado com Kiba por conta do ocorrido. Por ter insistido tanto e não ter ele mesmo lhe buscado. Mas Kiba parecia bem. Tão bem quanto era possível nessa situação, e passava por um acompanhamento médico com uma psicóloga famosa em tratar casos traumáticos como os seus.
— Ainda te incomoda o carro? Podemos ir a pé. Posso te carregar. – Shino assegurou. Mas Kiba negou com a cabeça.
— Não é isso. Apenas fico pensando o que levou Gaara a agir dessa maneira. E Kankuro a ser tão submisso.
Shino suspirou, ajudando-o a entrar no carro, e deu meia-volta para entrar do outro lado.
— Acredito que não haja uma explicação concreta para isso. A mente é um mistério que talvez o ser humano nunca desvende completamente. Mas Gaara era tudo o que ele tinha e... pelo que Ino e Sasuke disseram, ele nasceu assim. – Encolheu os ombros.
— Quero poder ajudar, Shino. – disse Kiba por fim, fazendo-o arquear as sobrancelhas. – Quero poder ajudar pessoas que foram vítimas assim, perdendo suas famílias, tendo que suportar toda essa dor.
Ali estava ele. Seu namorado altruísta que pensava em todos antes de si mesmo. Shino puxou-o para um beijo rápido, antes de se afastar.
— Vamos para casa. – Shino disse. – Para o nosso lar.
Kiba abriu um sorriso, fechando os olhos enquanto Shino dirigia. Nunca se sentiu tão tranquilo como naquele momento. Pois sabia que finalmente poderia fechar os olhos, sem o terror apavorante que o permeara de nunca mais ver Shino outra vez.
¹ — transtorno caracterizado por episódios de significativas perturbações do humor e do nível de atividade do paciente.
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