The Puppet
3 Modus Operandi
Notas iniciais
Para Uchiha Sasuke, a pior parte do trabalho como detetive, era falar com as famílias a respeito dos mortos. Com o passar do tempo, se acostumara a encarar os rostos chorosos, perplexos e até mesmo raivosos. Havia se acostumado com reações explosivas, socos desavisados que vinham em sua direção o chamando de crápula ordinário. Mas nada era pior do que avisar a alguém conhecido que um ente querido havia morrido.
E Hyuuga Hinata era amiga deles também.
Sasuke havia conhecido a garota por causa de Shino e Kiba, pois embora ela frequentasse um colégio diferente do deles, fazia parte do estranho círculo de amigos que se reunia ao redor de Kiba.
Ele nunca soube, de fato, explicar aquilo. Mas Kiba possuía um carisma muito semelhante ao de Naruto, que atraía pessoas completamente opostas a ele e fazia com que elas se tornassem suas amigas.
Hinata, que costumava frequentar uma das boates onde Kiba havia trabalhado em uma época especialmente difícil de sua vida, foi salva pelo garoto de uma tremenda confusão.
Em uma única noite, Kiba descobriu da garota tímida, que ela havia perdido toda a família em um incêndio, que era muito rica, mas que agora não lhe restava nada. Apenas ela e o primo haviam sobrevivido. E enquanto Neji fazia das tripas coração para trazer algum dinheiro para a casa que dividiam com três empregos diferentes, tudo o que ela podia fazer era complementar a renda com seu trabalho como garçonete. Havia até mesmo abandonado a faculdade de música, e Kiba, ao escutar sua história, se compadeceu da garota e a levou para sua casa e de Shino como se fosse um cachorrinho perdido e sem dono.
Shino nunca soube dizer não à Kiba. E Sasuke, a pedido dos amigos, entrou com uma investigação a respeito do tal incêndio. Descobriram que um membro invejoso da família, supostamente responsável pela fortuna enquanto Neji e Hinata não atingissem a maioridade, fora o responsável. Isso, claro, levou meses de investigação. E naquele meio tempo, Neji e Hinata passaram a praticamente morar com o casal, pois mal conseguiam se manter em seu apartamento.
Neji e Hinata eram reservados, ótimas companhias e muito prestativos. Kiba logo se ofereceu a voltar a pagar o curso para Hinata, mas a garota recusou, dizendo que no momento certo voltaria a estudar. Tudo o que Neji queria, era apoiar os sonhos dela. Por isso, trabalhava tanto.
Quando Sasuke finalmente conseguiu as provas que permitiram culpar o verdadeiro incendiário, Neji e Hinata recuperaram a herança de direito e foram muito gratos ao casal de amigos. Mas eles não aceitaram nenhuma recompensa que não fosse sua eterna amizade.
Então, quando a porta do apartamento que Hinata dividia com Neji se abriu e a jovem Hyuuga o recebeu com um sorriso, ele sentiu aquele peso novamente. Como uma aranha que se entranha no fundo do coração e espalha suas teias. Como aquele policial que havia lhe dito que seus pais haviam morrido em um assalto, deixando-o à própria sorte junto ao irmão mais velho.
− Sinto muito, Hinata. – Sasuke não fez rodeios. – Neji está morto.
Pela segunda vez, o mundo de Hinata desabava. E, se Shino estivesse certo, Kiba era o próximo alvo na lista.
X
− Continue com os medicamentos por mais dez dias e alimente-o direitinho. Esse meninão está de alta, mas tome cuidado para ele não engolir um caroço de manga outra vez! – Hana despediu-se do labrador, recebendo um latido contente como resposta. O proprietário lhe agradeceu imensamente e despediu-se, antes de sair.
Quando olhou para o relógio, viu que já era quase noite. Como o tempo passava rápido nos dias em que a clínica estava lotada! E justo hoje, ficara na mão, sem ninguém para lhe ajudar.
Suspirou baixinho, olhando para o celular. Encontraria Kiba naquele dia, o que significava ser bombardeada pelas mensagens do irmão mais novo. Usualmente, ele teria chegado mais cedo para lhe ajudar na clínica, e sentiu falta da companhia dele.
Enquanto trancava tudo, apoiou o celular na orelha, certificando-se de trancar todos os armários que haviam sido arrombados no último mês, provavelmente por algum viciado que queria um alívio fácil.
Infelizmente, os negócios não iam tão bem ao ponto de Hana contratar uma equipe de segurança ou colocar câmeras, então só podia contar com a sorte.
Ouviu o aparelho chamar até cair na caixa postal, emitindo a mensagem que conhecia tão bem:
“Aqui é o Kiba. E o Akamaru. Woof! Não podemos atender no momento porque estamos muito ocupados sendo incríveis! Ligue outra hora.”
Sempre gostava de ouvir aquela mensagem até o final. De alguma forma, a animação do irmãozinho sempre a contagiava.
Decidiu ligar para a única pessoa que sempre sabia onde ele estava. No segundo toque, Shino atendeu.
− Shino-kun, sabe do meu otouto? Ele não está atendendo, pra variar. – Hana perguntou com a voz risonha.
Por um momento, apenas a estática na linha foi ouvida, acompanhada de um suspiro.
− Shino? – Hana chamou, achando que a ligação havia caído.
− Eu não sei onde ele está, Hana.— Shino acreditava que não adiantava esconder a situação. – Desde a noite passada.
− Onde você está? – A voz dela tomou uma entonação mais séria.
− Na delegacia. Vim pedir ajuda ao Sasuke.
− Fique aí. Eu já estou chegando.
Ela não sabia o que Shino queria dizer naquelas poucas palavras. Mas conhecia Kiba bem o suficiente para saber que, se ele estivesse bem, teria dado um jeito de mandar-lhes notícias.
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Kiba sentia frio.
Ele não sabia exatamente o motivo, talvez porque a calefação ali estivesse desligada, mas sentia frio.
− Shino, liga o aquecedor. – murmurou baixinho, encolhendo-se nos cobertores que pareciam quentinhos.
Havia tido um pesadelo naquela noite. Algo horrível que sua mente não era capaz de aceitar.
Neji.
Era Neji gritando de dor. Dor pura, simples, real. Kiba se lembrava do som de uma lâmina que abria os músculos, expondo-os como naqueles filmes de terror que adorava ver com Naruto quando os dois matavam aula na escola. E depois tinha pesadelos com isso por noites a fio, correndo para a cama de Hana para se esconder.
Mas ali era muito pior, porque ele via, de fato, a expressão de dor. E via Neji gritando desesperado e pedindo para morrer quando as falanges de seus dedos foram separadas, uma a uma, das mãos. Então, lentamente, ele foi mergulhado em alguma substância que parecia muito quente. Muito, muito quente. Porque borbulhava.
E ele gritou mais um pouco.
E gritou, e gritou, e gritou.
Kiba abriu os olhos.
Aquele não era seu quarto com Shino, a calefação não estava quebrada.
Tentou se levantar de onde quer que estivesse e ficou de pé com certa dificuldade. Parecia uma cama dobrável, em um lugar excessivamente iluminado. Ele ouviu o som da água que percorria os encanamentos e sentiu cheiro de cobre e mofo. Seu estômago estava embrulhado.
No sonho, Neji implorava para que aquilo acabasse. Para que morresse.
Kiba caminhou mais um pouco, sentindo-se muito fraco e sentindo a mente muito pesada, como se tivesse tomado um coquetel de remédios para gripe.
Por favor, por favor, por favor.
Havia uma escadaria que levava para o andar superior e uma porta. Kiba apoiou-se no corrimão, tentando subir e sentiu vertigem. Quando fechou os olhos, tentando se recuperar, sentiu os olhos de Neji fixos em si. Implorando para que o matasse.
O grito.
De repente, estava com o rosto sobre o chão frio. Ouviu passos. Shino? Havia caído no chão do banheiro?
− Eu caí... – Kiba murmurou baixinho.
− Está tudo bem. – A voz baixa era reconfortante. Kiba passou um dos braços pelo ombro do rapaz e sentiu-se suspenso no ar. – Você não deveria ter se levantado.
− Mas eu... – Seus olhos tentaram se focar no rosto. Luzes confusas dançavam pelo ar quando sentiu uma picada no pescoço. – Você... não é o Shino... o Neji...
− Shh... – O rapaz o deitou na cama, colocando o indicador sobre seus lábios. Seus músculos relaxavam à medida que a droga se espalhava por seu corpo. – Ele está descansando agora. E você também precisa descansar.
A cabeça de Kiba tombou para o lado, o olhar fixo na sombra do rosto que se afastou aos poucos, acariciando seus cabelos.
− Descanse. – disse ele. – Eu vou cuidar de você. Vai ficar tudo bem.
Antes de fechar os olhos, Kiba viu a imagem de Neji, os olhos perolados enquanto o mesmo permanecia sentado em uma cadeira.
Mas não era ele.
Porque Neji estava morto.
Aquilo não havia sido um sonho.
Aquilo era real.
X
Shino estava estoico, encarando o quadro onde Sasuke havia montado a linha do tempo daquele assassino, enquanto o aguardava retornar. Havia escolhido não acompanhá-lo até a casa de Hinata pois, embora fosse bom em ocultar suas emoções, não seria de valia nenhuma lá. E ali, podia fazer seu trabalho.
O corpo de Neji estava mutilado por baixo das mortalhas que cobriam o corpo nu. Tal como os outros, ele fora cuidadosamente embalado e seu corpo havia sido embalsamado em alguma espécie de líquido que preservava o corpo.
Em uma análise mais acurada, Tsunade, a legista do local, revelou a eles que se tratava de um processo de embalsamamento. Que, como todos os outros, Neji havia tido o sangue completamente drenado do corpo, e este fora substituído por uma solução de água e formaldeído que interrompia o processo de decomposição.
− No primeiro corpo encontrado, − dissera ela a Shino quando o rapaz foi questionar sobre o laudo de Neji. – o de Kimimaro, vimos claros sinais de decomposição. Você, como entomólogo, sabe melhor do que ninguém.
Shino sabia. Pois as larvas encontradas no corpo de Kimimaro estavam em um estágio avançado de crescimento. Quando Shino foi chamado para analisar os insetos, encontrou a presença de cetamina em sua composição. Isso deu a eles a luz de como o assassino mantivera a vítima em cativeiro.
“Já nas mortes conseguintes, o assassino parece ter dado conta dos efeitos colaterais de sua tortura estava causando aos corpos das vítimas. E, por algum motivo, a preservação do cadáver é extremamente importante para o seu processo.”
Culpa. Sasuke alegara que, segundo o perfil comportamental, isso era um claro sinal de culpa, somado ao modo como ele desovava os corpos, sempre bem embalados, com as mãos cruzadas sobre o peito.
“Ele passou a usar essa solução a partir da segunda morte. Seus insetos também mostraram a presença delas, não é?”
E a fase larval era mais imatura, Shino lembrou-se. O que significava que o assassino queria que os corpos fossem encontrados.
“Com Karin, a maquiagem foi mais cuidadosa, uma base leve com os olhos bem delineados ressaltando sua cor. O batom vermelho pintando a boca e uma pinta feita com lápis de olho abaixo do lábio esquerdo. Eu pensei que era porque ela era uma mulher, mas vemos que com Neji, o padrão permaneceu. E ele ressaltou a cor de seus olhos com ela. Como com Karin.”
Shino sentiu-se ligeiramente incomodado com a aquela informação, mas era verdade. O corpo de Neji quase não continha larvas. Pelo seu ciclo de vida, Shino constatou que os ovos haviam eclodido há pouco tempo. Talvez cerca de oito horas.
“E há mais violência também. Todos eles foram mutilados e passaram pelo processo de exanguinação através da artéria femoral para que não ficasse evidente nos corpos. Mas com Neji, a violência chegou ao extremo de arrancar todos os seus dedos das mãos.”
O estômago de Aburame revirou-se ao lembrar de todas as informações compartilhadas por Tsunade. Enquanto as adicionava ao quadro, colocou o nome de mais uma possível vítima: Inuzuka Kiba.
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Hana chegou até a delegacia como um furacão e Shino tratou de acalmá-la enquanto Sasuke buscava a localização do celular dele. Sem sucesso. O aparelho não apenas havia sido desligado, mas provavelmente o assassino, sabendo que poderia ser rastreado, devia tê-lo destruído.
− Ainda não temos certeza se Kiba foi raptado por ele. – Sasuke tentou trazer razão aos dois. Mas Hana era um poço de desespero e lágrimas e Shino... Shino sentia aquilo. Não estava errado. Mas queria estar.
− O que fazemos agora? – Hana perguntou, chorosa.
− Remontamos os passos dele. – Sasuke suspirou. – Falamos com colegas de trabalho, refazemos seu dia por completo. Sinto muito, Hana. – Era a segunda vez naquele dia que as palavras soavam amargas em sua boca. – Volte para casa, fique com sua mãe. Eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para encontrá-lo. Será a minha prioridade à frente de tudo.
Sasuke sabia que não deveria dizer isso, mas era verdade. Kiba não era apenas mais um desaparecido. Era o namorado do seu possível melhor amigo. Era seu amigo também. E de Naruto.
E além disso, havia a intuição Aburame. Sasuke lançou um breve olhar na direção do quadro, desejando que aquele 1% fosse verdade. Desejando que desta vez, Shino estivesse errado em suas suposições.
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Kiba estava adormecido sobre o leito, e o homem o observava com um sorriso terno no rosto enquanto colocava sua mais nova criação junto das outras.
− Veja, Sasori-san, você tem mais um amigo agora. – A voz soava doce quando adicionou a nova marionete sentada ao lado da mais antiga; um homem ruivo, de tez pálida e olhos igualmente vermelhos e intensos. Junto dele, uma mulher com as mesmas características tinha as mãos apoiadas ao colo. Um homem albino lhes fazia companhia, os olhos intensamente verdes e duas marcas brilhantes na testa. Agora havia o rapaz de olhos perolados. Todos reunidos por suas peculiaridades. – Logo, haverá mais alguém. Acho que ele está tão doente quanto você. Talvez eu possa curá-lo, Sasori-san. Talvez possa fazer por ele o que não fiz por você.
Seus dedos roçaram o rosto da marionete e ele sorriu, selando seus lábios aos dele.
Talvez aquele brinquedo não quebrasse como os outros. Talvez não.
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