The Puppet

2 Intuição Aburame


Notas iniciais
Estão de colete?

O gosto de bile preenchia sua boca quando despertou ao som de um grito estridente. Flashes de memória passavam por sua mente, mas nada parecia preencher as lacunas que ficavam. Sentia a boca seca, uma sede insaciável e uma dor de cabeça que beirava a algo equivalente à uma explosão nuclear.

Onde estava? Que grito era aquele?

Tentou abrir os olhos, mas o simples movimento fez o mundo girar e as pernas tremerem tanto que mal conseguia pensar na possibilidade de sustentar o próprio corpo.

O grito.

Mais uma vez.

Tentou olhar para o lado, um misto de confusão tomando seus pensamentos. Shino. Havia mandado uma mensagem para Shino. Estava indo para casa.

− Então finalmente acordou? – Uma mão tocou seu rosto, o sorriso desenhado no rosto de orelha a orelha.

Kiba se retraiu. E quando descobriu a origem dos gritos ao seu lado, não suportou e despejou todo o conteúdo do estômago no chão.

X

A batida da música ainda soava em seus ouvidos: alta, estrondosa, vibrante em todo seu corpo. Kiba adorava seu trabalho como DJ, mesmo que isso significassem péssimos horários, onde por muitas vezes saía nas madrugadas ou apenas na manhã seguinte, à companhia de sua própria sorte para ir para casa.

Mas quando se lembrava da música ecoando por seu corpo, das notas dissonantes e das mixagens perfeitas, é que se sentia pleno e satisfeito. Música era sua vida, mas música explosiva era simplesmente fenomenal.

Demorou muito tempo até que finalmente se tornasse reconhecido no ramo. Anos de estudo não apoiados pela mãe linha dura que sempre disse ao filho que aquilo tudo era perda de tempo. Mas a irmã mais velha, Hana, o apoiara, pagando secretamente o curso de DJ em uma das escolas mais famosas da região.

O namorado, entomologista forense, também sempre havia apoiado sua escolha de carreira, mesmo que isso significasse que Kiba estava sempre em festas com um alto índice de bebidas alcoólicas e drogas. E sua índole, sempre protetora com os mais fracos, por vezes o fazia voltar com a cara inchada para casa quando escolhia apartar as brigas ou tomar partido nelas.

Como sempre fazia ao sair naquele horário, Kiba dirigiu-se para o estacionamento da boate onde havia sido chamado para tocar naquela noite. Em um âmbito geral, sempre preferia caminhar para o apartamento que dividia com Shino, mas desde que a onda de sequestros havia começado naquela região de Tokyo, ele havia ficado complexado com a ideia de Kiba voltando solitário no meio da noite mesmo ele dizendo que não havia perigo algum nisso.

“Nunca há ninguém na rua nesse horário, Shino! Só os bêbados demais para voltarem para casa e as prostitutas que estão à própria sorte!”

No entanto, Shino havia praticamente implorado para que ele fizesse sua vontade de pegar um táxi ou um uber até a casa deles. Se dinheiro fosse o problema, Shino dissera, pagaria a corrida. Mas não era. Kiba ganhava relativamente bem naquelas noites. Só não gostava muito da ideia de entrar no carro de um completo estranho. Mas se Shino achava mais seguro, bem, ele deveria ter razão.

Estava prestes a passar uma mensagem de texto para o namorado quando um carro parou diante de si e abaixou o vidro.

− Entra. – disse o motorista, com um sorriso tranquilo. – Eu te dou uma carona.

O sorriso familiar trouxe aconchego no coração de Kiba. Que sorte! E ainda por cima, não teria que pagar pela corrida!

X

Já era de manhã e Kiba ainda não havia chegado ao apartamento que dividiam. Shino sabia que por vezes, o namorado avoado esquecia-se de avisá-lo quando ia fazer um extra até o raiar do dia, mas nos últimos tempos havia sido bastante claro a respeito do seu nível de preocupação com os horários malucos dele.

Nos últimos dois meses, quatro mortes haviam ocorrido na região de Tokyo e Shino fora chamado para analisar os insetos da cena para descobrir o tempo de decomposição dos corpos.

Uchiha Sasuke, o detetive à frente do caso e antigo amigo de escola de Shino, o havia chamado assim que percebeu que havia algo de errado com aqueles corpos. E, até aquele momento, não havia um padrão que era seguido pelo serial killer. Apenas sabiam que era a mesma pessoa, pois a assinatura era sempre igual: os corpos enrolados em mortalhas, perfeitamente vestidos e maquiados com uma pequena versão de si mesmos de porcelana sobre os braços cruzados no peito.

Tal ato, ao ser presenciado pela imprensa, deu ao assassino o apelido americanizado de Puppet. Como se aqueles assassinos já não fossem narcisistas o bastante para precisarem ser aclamados pelo público.

Até então, não se sabia qual era o padrão utilizado. O ódio de gêneros fora descartado, pois três homens e uma mulher faziam parte da vitimologia: Uzumaki Karin, uma estudante de Moda que havia desaparecido no campus; Kaguya Kimimaro, artista plástico reconhecido pela sua grande afinidade em criar artes com ossos; Yuki Haku, um garoto andrógeno que tinha problemas com drogas e vivia no distrito de Kirigakure, um dos mais pobres de Tokyo. Seu desaparecimento foi relatado pelo companheiro Momochi Zabuza, mas a polícia não deu muita luz ao caso até seu corpo ser encontrado da mesma forma que os outros, caracterizando o assassino como serial killer; por fim, Hatake Kakashi, um antigo membro da força policial que havia se aposentado após um incidente no trabalho que culminou na perda dos movimentos funcionais do braço esquerdo após o ato heroico de salvar seu parceiro Yamato. O tiro que deveria tê-lo acertado atingiu o ombro esquerdo de Kakashi e dilacerou o nervo a tal ponto que o ex-policial havia perdido os movimentos do braço inteiro.

Estava prestes a ligar quando recebeu uma mensagem de texto de Kiba:

‘Noite longa de trabalho. Nos vemos mais tarde ;) Amo você’

Shino encarou a mensagem por longos minutos antes de responder:

‘Tudo bem. Amo você também.’

Kiba nunca escrevia palavras sem abreviar e sempre errava as pontuações.

X

− Tem certeza que você não está exagerando, Shino? – Sasuke arqueou as sobrancelhas encarando o amigo e depois relendo a mensagem de texto. – Vai ver ele finalmente tomou vergonha na cara e foi assistir umas aulas de gramática.

− Estamos falando do Kiba aqui. – Shino elucidou. – É a mesma coisa que me dizer que Naruto resolveu tomar aulas de etiqueta.

Sasuke não queria trazer luz aos péssimos hábitos do namorado. Todos os quatro haviam estudado no mesmo colégio e começaram a namorar mais ou menos na mesma época, exceto que Shino e Kiba pareciam se dar muito bem, enquanto ele e Naruto... bem, eles tinham aquela relação estranhíssima que ninguém além deles dois era capaz de compreender.

− Pode ao menos tentar rastrear o aparelho dele? – Shino perguntou. – Tentei ligar, mas só dá caixa postal.

Sasuke o encarou, recebendo um olhar incisivo de Shino como resposta. Ele sabia como o amigo era intuitivo – por vezes, no passado, pedira sua opinião em alguns casos, e dificilmente ele errava. Motivo pelo qual nomeou aquilo de Intuição Aburame: 99% infálivel – e não gostaria de sentir o peso nos ombros caso algo tivesse realmente acontecido a Kiba. Afinal, mesmo que ele fosse irritante sempre usando aquela maquiagem ridícula na cara, ainda assim era seu amigo. De certa forma.

− Tudo bem. Verei o que posso fazer. – respondeu, vencido, ao que o celular vibrou em seu bolso. Sasuke estreitou os olhos.

− O que foi? – Shino perguntou, uma estranha sensação lhe permeando como uma espécie de sexto sentido.

− Encontraram mais um. – Sasuke ergueu-se, pegando o casaco de brim sobre a cadeira e jogou-o sobre os ombros.

− Vou com você. – Shino não deu abertura para que Sasuke questionasse. Os olhos escuros do Uchiha buscaram os de Shino por trás dos óculos. Sempre, sempre misterioso.

− Não acho que seja uma boa ideia com você nesse estado. Verei o que posso fazer por Kiba assim que voltar. – disse ele.

− Não foi um pedido, Sasuke. – Shino caminhou ao seu lado. Sasuke apenas bufou, mas nada disse quando o amigo pegou sua maleta de análise e o seguiu até o carro.

X

A cena do crime, como sempre, era um lugar movimentado, motivo pelo qual os corpos sempre eram rapidamente achados. Sasuke soltou um xingamento baixo ao ver que a imprensa já se encontrava no local do crime e quando a repórter Haruno Sakura, que sempre arrastava uma asa para ele, tentou entrevistá-lo, Sasuke lançou seu pior olhar no estilo ‘sou um Uchiha mal-humorado e vou te matar’, afastando-a imediatamente.

− Já tinha me esquecido do seu porte cavalheiresco com mulheres. – Shino não resistiu à oportunidade de alfinetar Sasuke.

− Ela é um pé no saco. – rebateu ele. – Foi a responsável por dar aquele apelido ridículo ao nosso serial killer. E agora parece que ele está diminuindo as janelas entre um assassinato e outro. Faz apenas duas semanas.

Shino engoliu em seco ao avistar os peritos ao redor do corpo. Sentiu uma vertigem tomar conta de si naquele momento, como se espasmos de alerta se espalhassem por todo seu corpo. Sasuke o olhou de canto, a seriedade austera tomando conta de seu olhar.

− Shino. – chamou. – Se acalme. Shino.

A voz dele parecia distante, como se sua cabeça estivesse mergulhada dentro d’agua ou qualquer coisa do gênero. Seus pés pareciam feitos de concreto, mas seguiu em frente. Seguiu em frente apesar dos protestos de Sasuke. Apesar de sentir uma das mãos dele tocar seu ombro.

− Shino. Não é ele, Shino. Não é o Kiba.

Seu coração batia descompassado contra o peito ao sentir o aperto mais firme de Sasuke em seu ombro. Os olhos estavam arregalados por trás das lentes de aro escuro e sentia as extremidades dos dedos gélidas e trêmulas.

Somente naquele momento, conseguiu encarar a vítima, os olhos perolados abertos e encarando o vazio, os lábios entreabertos tingidos de azul e uma maquiagem pancake sobre o rosto. Ao lado esquerdo, uma gota tingida no mesmo tom perolado de seus olhos escorria pelo rosto. A mortalha perfumada envolvia seu corpo e uma pequena boneca de porcelana estava repousada sobre o peito. A boca de Shino secou e Sasuke soube exatamente o porquê.

Aquele era Hyuuga Neji, o primo de Hinata.

Shino sentiu algo queimar em seu peito. Como uma espécie de prelúdio de que algo muito ruim estava prestes a acontecer.

Notas finais
Uma pequena introdução dos personagens da trama e de como nosso assassino trabalha. E então, palpites? O que acharam das pessoas que já foram assassinadas? Existe alguma conexão que conseguiram fazer? Não quis focar muito na parte do Kiba ainda, mas o próximo capítulo terá mais do nosso bb inocente. E lembrem-se, queridos, nada de pegar caronas com estranhos! Sugestões? Dúvidas? Nos vemos no próximo!