Voltando ao ateliê de noivas no qual se encontravam agora, acontece que ele pertencia aos Pierce (é, novidade) e lá, existiam dois vestidos guardadinhos, dois vestidos com história. Um deles dizia respeito às mulheres da família Pierce passado de geração em geração, e o outro a família de Amélia, também passado de geração em geração e tal fato era um assunto muito discutido entre Susan e Amélia antes que elas ficassem sabendo da sexualidade de Brittany, porque, bom, qual vestido ela usaria no grande dia? Não poderia usar os dois. Teria que escolher um deles. Na concepção de Brittany aquilo não tinha tanta relevância, mas para Amélia e Susan parecia algo importante. Primeiro, porque envolvia tradição de família, segundo porque Amélia optara por usar o vestido da própria linhagem no casamento com James e, apesar da vovó Pierce adorá-la, ela nunca superou tal ocasião e aí, quando Brittany nasceu e foi crescendo, Amélia imaginou a filha usando seu vestido em um futuro casamento também, mas ao mesmo tempo, não queria que ela deixasse o de sua avó de lado para não magoá-la, era um dilema e tanto.

Contudo, agora que a loira tinha uma noiva era bem mais fácil para elas uma vez que, num acordo entre as Pierces mais velhas, ficou decidido que Brittany usaria o vestido de Susan e sua futura esposa o de Amélia. Mas, ambos os vestidos precisavam de ajustes, por isso estavam em um ateliê de noivas. Era o melhor da cidade. Logo, as garotas foram separadas, indo cada uma para uma sala diferente onde somente Susan, Amélia, Quinn e as costureiras poderiam transitar entre si. Não ver a noiva vestida de noiva antes do casamento era uma tradição estúpida, nisso até Santana e Brittany conseguiam concordar. Mesmo assim, respeitaram. Não era como se elas se importassem também... A única coisa que não poderia acontecer, era a descoberta da farsa. O casamento de fachada. Só isso.

— Minha bisavó fez esse vestido a mão, há muito tempo. — Amélia dizia a Santana. — Minha avó, depois minha mãe foram fazendo algumas mudanças em seus próprios casamentos, até que meu dia chegou e eu o trouxe aqui nesse ateliê para fazer os ajustes que vê agora.

— Ah, que legal... — A Lopez disse detrás de uma cortina, terminando de vesti-lo. — Eu só preciso terminar de abotoar.

— Não se preocupe com o tamanho querida, temos as melhores costureiras do Alasca por aqui! — Susan avisou, animada. — O vestido que Brittany usará foi feito nessa loja mesmo, ela é da minha família há décadas.

— E, pelos nossos cálculos, tanto ele quanto o vestido que você vai usar foram feitos com mais ou menos uma semana de diferença! — Amélia complementou, feliz. — É como se nossas famílias estivessem conectadas desde sempre...

— Exatamente como você e Britt!

Santana puxou a cortina para o lado, revelando-se.

— Bom... — Ela falou, se aproximando delas desajeitadamente. Não era como se fosse um vestido muito flexível ou moderno, ou bonito. Na verdade, feio ele não era, apenas diferente. — Ficou assim.

— Ficou lindo! — A vovó Pierce exprimiu. — Não ficou, Amélia...? Amélia?

A mãe de Brittany se emocionou e começou a lacrimejar, sem conseguir abrir a boca para dizer nada a princípio. Estava tão feliz. Assentiu, passando as mãos nos olhos e Susan a abraçou. Santana se sentiu extremamente mal com aquela cena, afinal: estava enganando ambas as mulheres. Estava cada vez mais difícil ignorar aquele sentimento de culpa. Mais que nunca, entendia o desespero de Brittany naquela manhã. Elas eram ótimas pessoas, boas demais para isso.

— Sim, sim. Santana, querida... — Amélia passou a mão no rosto dela, sorrindo. — Você ficou perfeita. Parece que ele foi feito pra você.

— Obrigada.

— Só precisa de uns ajustezinhos de nada. — Susan comentou, analisando-a. — É impressionante como lhe caiu bem, menina.

— Se vocês acham...

— Eu estava pensando, Santana... — Amélia começou. — Se quiser, talvez nós pudéssemos ir até Nova York nas férias de verão passar uns dias com você e a Britt.

— Ah... — Santana respirou mais devagar, sentindo-se cada vez pior pela farsa. — Seria legal. Ou talvez, a gente pudesse vir pra cá de novo também.

— Eu adoraria. — Ela sorriu, emocionando-se outra vez. — Muito mesmo.

— Ei, Amélia! — Susan chamou. — Temos muito trabalho a se fazer, não é hora!

— Eu sei, eu sei. Desculpa. — A mulher riu.

— Vá tomar um cházinho e ver como a Brittany está que eu já, já te alcanço. Tá bom?

— Sim. É uma boa ideia.

Amélia saiu, deixando Susan e Santana a sós.

— Tenho algo para lhe mostrar. — A vovó Pierce avisou, indo até um canto do recinto e voltando com uma caixinha em mãos. Dentro haviam dois colares. Susan não demorou a tirar um deles de dentro, envolvendo-o no pescoço de Santana. — O toque final... Esse par de pingentes está na família há mais de 180 anos.

A Lopez olhou-se para o espelho, surpresa com a revelação.

— É lindo Susan, mas eu não posso...

— Shh, eu não terminei ainda!

— Oh, ok. Perdão.

— Minha bisavó os fez manualmente de uma mesma pedra e presenteou meu bisavô no casamento deles. Pode notar como os pedaços são diferentes e individuais, mas fazem parte de um mesmo todo e se complementam quando juntos. Foi um escândalo na época, sabe... Ela era uma índia tlingit e ele holandês, e na época era preciso a aprovação de toda a tribo antes de se casar. Isso quase os separou.

— E como eles ficaram juntos? — Santana se viu perguntando.

— Bom, ela era parecida com você. Durona. Não aceitava “não” como resposta. A verdade é que eles se amavam demais para sequer pensar na vida sem a companhia um do outro... — Ela sorriu e apontou com os olhos o colar no pescoço da editora-chefe. — Quero que fique com ele.

— E-eu não posso...

— Não é isso que eu quero ouvir. Avós amam presentear seus netos, é uma formar de fazer parte da vida deles, mesmo depois da nossa morte e agora você é minha neta também. Fique com o colar.

Neta, noiva, parte de uma família... Tudo uma mentira.

— Não posso...

— Claro que pode.

Santana começou a lacrimejar, sem querer. Droga, droga, droga. Limpou a garganta sem conseguir processar outra frase. Talvez, tivesse ido longe demais com tudo aquilo.

— Tudo bem, querida?

— Sim... E só que... Eu... Ahn... — Elas respirou fundo, tentando disfarçar. — Eu só estava pensando nos preparativos, se tudo vai estar pronto até sábado.

— Não se preocupe, vai dar tudo certo. — A vovó Pierce deu dois toquinhos nas costas da morena. — Tá bom?

Santana assentiu, forçando-se a sorrir.

— Ótimo. Agora me dê um segundo querida, vou chamar as costureiras para virem te olhar. Sim?

— Ok.

Quando a vovó Pierce voltou, em companhia de duas outras mulheres, elas logo começaram a tirar medidas da morena, como se a mesma fosse um manequim estático. Enquanto isso, Brittany experimentava o vestido de sua avó, acompanhada de Quinn (e mais tarde de Amélia também), no outro cômodo do ateliê.

— Precisa de ajuda aí? — A Fabray questionou perto da cortininha que a separava da melhor amiga. — Ei, planeta terra chamando Brittany!

— Já disse que não, Quinnie! Controle-se, por favor!

— Por que tanta demora então?!

— É que eu tô... — Ela ficou buscando palavras melhores, ao invés de “ridícula” para dizer, pois soaria muito ofensivo e não queria que Susan ou Amélia escutassem na outra salinha, mas simplesmente não conseguia achar definição melhor para o que estava vendo. Começou a rir descontroladamente. Estava com um pouco de vergonha de sair detrás da cortina. — Esquece. Você vai ver, quando eu estiver psicologicamente pronta.

— Sai logo daí, antes que eu te tire a força!

— Tá, tá! Já vou, mandona!

— Acho bom!

— E aí, tá muito ruim? — A Pierce chegou indagando, aos risos.

— Claro que não! — Lucy embarcou na risada da outra. — Você tá arrasando.

Brittany olhou para a folga dos seios na costura do vestido, e fez careta.

— Há controvérsias...

— Para! As costureiras vão fazer todos os ajustes necessários. — Ela deu uma volta entorno da amiga. — Acho que eu vou chorar.

— Guarde as lágrimas para o casamento. — Brittany brincou.

— Se eu conseguir.

Amélia apareceu por ali, pouco tempo depois.

— Bebê... — Ela correu até a filha, emocionando-se de novo. Passou as mãos nos cabelos loiros, sorrindo entre lágrimas de alegria. — Você tá tão linda! Que orgulho!

— Não te disse? — Quinn provocou a dos olhos azuis, risonha.

— Vocês duas têm uma percepção muito peculiar do que é bonito...

— Você não gostou? — Amélia quis saber, preocupada.

— Não, não! Não é isso, mãe... É só que tá muito largo em algumas partes, né.

— Ah, não se preocupe com isso. Tudo será ajustado no seu devido tempo.

— Eu sei... Tô de boa.

— Que bom. Vou chamar as meninas para darem uma olhada, ok?

Brittany assentiu, e então sua mãe retornou com as costureiras do ateliê. Alguns minutos depois, Susan apareceu por lá, e aí Quinn teve a brilhante ideia de dar uma checada na Lopez, para ver como ela estava. Mas, antes disso, não pode deixar de presenciar a reação da vovó Pierce com acontecimento histórico de sua neta vestindo seu vestido de casamento. Primeiro ela se acabou de rir, muito provavelmente pelo mesmo motivo que Brittany tinha tanto rido anteriormente (a folga nos seios), e depois ela se deixou dar um grandessíssimo sorriso. Muito, mas muito feliz mesmo.

— Gostou, vovó?

— Óbvio que sim, Britt! Não seja boba. Por falar nisso, tô vendo que vai ser um trabalho meio difícil achar seus seios aí... Como procurar ovos de páscoa, né meninas? — Susan brincou, fazendo com que todas ali presente rissem. — Em minha defesa eu estava grávida na época em que me casei.

Mais risos se desencadearam, até a mulher mudar seu semblante.

— Agora falando sério, olha... — A idosa abriu a caixinha que mostrara a Santana há pouco, com um pingente só dessa vez. — Já entreguei o outro a sua noiva. Esse é seu.

Brittany o encarou, sorridente. Adorava a história por trás daqueles colares, desde sempre. Sua estética, tudinho. Diferentemente do vestido, aquilo sim era bonito demais.

— Obrigada...

Lucy sorriu com a cena e foi se afastando, até atravessar a saída e ir parar no outro lado do ateliê. Santana estava ali, recebendo atenção de duas costureiras, assim como Brittany.

— Olá!

— Oi... — A morena fitou-a por um segundo, antes de desviar os olhos. Ainda estava muito mexida com tudo o que estava acontecendo. Sentia-se péssima, mas não queria que ninguém desconfiasse. — Tudo bem? Deu tudo certo com o vestido da Brittany?

— Sim! Ficou ótimo, mas você vai descobrir muito em breve então... — Ela riu. — Por falar nisso, você está fabulosa!

— Obrigada.

— Esse colar é bem legal, né?

— É... É sim.

— Eles são muito importantes pra Susan. Se ela te entregou um, é porque gosta de verdade de você. Quer dizer... Não é difícil ver como você e a Britt se gostam, mesmo que tentem se fazer de duronas ou tímidas. A questão é que, você não é nada como esperávamos. Brittany parece outra pessoa, desde que revelou que estavam namorando. Tô muito feliz por vocês, sério.

Santana sorriu, sentindo-se mal. Ela não merecia isso. Nenhum deles merecia.

— Obrigada, Quinn.

(...)

Depois de resolverem o quesito: penteados, em um salão de beleza, Brittany e Santana se separam da Fabray, que foi resolver alguma coisa pessoal, e Amélia e Susan, que planejavam voltar para a residência dos Pierce mais tarde, junto de James. Eram só as duas agora, e mais ninguém. No silêncio. A mente da Lopez uma zona, desde o momento em que recebeu o colar da vovó Pierce. Na verdade, desde o beijo que ela e Brittany deram na terça-feira, as outras coisas eram “meramente” grandes adendos no caminho, para tornar as coisas ainda mais complicadas. Eram sentimentos demais, onde não deveria haver nenhum. As noivas de mentirinha chegaram no pequeno porto da cidade, prontas para entrarem no barco em que vieram.

Então, a latina deu uma surtada.

Ao passo em que Brittany desamarrava a embarcação da plataforma de madeira flutuante, Santana pulou no volante do barco, manobrou e pisou fundo no acelerador, dirigindo para longe dali. Coisa que, obviamente, deu um puta susto na loira, que tentava se levantar do chão, sem muito -ou quase nenhum- sucesso em o fazê-lo.

— Ei, ei! — A Pierce chamou, espantada. Conseguiu se levantar com dificuldade, chegando no banco de passageiro. — O que tá fazendo, Santana?!

— Eu só preciso me afastar de todo mundo!

— Mas, por quê? O que houve?

— Nada! — Ela gritou. — Só... Para de falar, por favor!

A partir dali, Brittany ficou quieta e Santana foi as guiando mais e mais para o alto mar.

Notas finais
Até ♥