The Proposal - Brittana
14 Outra Manhã
Pela manhã a Lopez despertou pacificamente, sem barulho de celular dessa vez. Espreguiçou-se, e ficou um tempinho curtindo a maciez do colchão... E, o cheiro de Brittany. Sim, aquele presente no moletom emprestado da loira que Santana voltara a usar na segunda noite de estadia. Por falar na Pierce, será que a mesma já estava acordada? Com essa dúvida na cabeça, a editora-chefe se mexeu sob os lençóis e cobertores até ser possível espiar a assistente no chão. Bingo. Dúvida sanada.
Mais apagada que ela, impossível.
A latina retornou seu caminho para poder se aconchegar de novo, mas acabou fitando despreocupadamente seu reflexo no espelhinho sobre uma das mesinhas de cabeceiras enquanto o fazia, percebendo-se na hora: descabelada, com feições sonolentas. Brittany não podia ver aquilo.
— Dios...
Santana começou a pentear os cabelos com as mãos, e se apossou de um brilho lábio que deixava na mesinha de cabeceira oposta, ajeitando as sobrancelhas e limpando possíveis remelas dos olhos. Deu leves tapinhas na cara, para fazer o sangue circular pelas bochechas, passou um creme hidratante no rosto e pronto, enfim decidiu que estava bem o bastante para voltar a se deitar. Iria fingir que acordou depois da dos olhos azuis, e aproveitar mais um pouco do quentinho da cama.
Bom, não passou nem cinco minutos que encostara as costas de volta no colchão, e Santana ouviu baterem na porta do recinto. Para seu completo descontento.
— Serviço de quarto! — Amélia disse.
— Café da manhã especial para o casal feliz! — Susan complementou.
Mas, que merda. Que merda. Que merda.
— Psiu, Brittany... — Santana cochichou, tentando acordá-la. Se inclinou na cama, meio desesperada. — Brittany? Brittany... Ei, Brittany!
Ela alcançou um travesseiro, e voltou batendo-o na cara da subalterna, como fizera na manhã anterior. Funcionara antes, então funcionaria agora também. Fora que ela jogara com mais força do que no dia antecessor, só para garantir. O susto fora tão grande por parte da Pierce que a mesma nem teve tempo de raciocinar e dizer um “a”, só olhou para a chefe chocada, sem entender nada. Santana então apontou para a porta e voltou a sussurrar, nervosa.
— Sua família tá aí fora, levanta!
Ela continuou com cara de paisagem, confusa, até ouvir a avó perguntar doutro lado da porta se ela e Santana estavam acordadas e se tudo bem se entrassem ali, com a chave reserva que possuíam. O coração de Brittany passou a disparar, quer dizer, ainda mais.
— Só um segundo! — Santana gritou, voltando a olhar para a noiva de mentirinha. — Vem pra cá... Vem logo!
Ela se levantou, toda mole. Pegou o travesseiro que a Lopez jogara nela, e arremessou-o de volta, junto a todos os cobertores e lençóis que compunham sua cama improvisada no chão. Incluindo a “manta afrodisíaca”, que Santana jogou debaixo da cama.
— Esse treco não. Tá legal. Certo... — Ela ficou meio sem jeito, fitando olhos azuis. — Agora a gente se abraça?
Brittany ignorou a dúvida, já que estava com a atenção voltada a outra coisa.
— Você tá de maquiagem?
— Não! Óbvio que não. — Santana desconversou. — Me abraça logo, vai.
— Oi?
— Mandei me abraçar.
— Ok... — A loira foi chegando perto, mas parou. Não sabia muito bem como era para abraçá-la e tinha medo de cruzar certos limites, afinal, era Santana ali. — Como vai ser isso?
— Você é idiota?
— Tudo bem com vocês? — Amélia quis saber.
— Sim, sim! Tudo sim! — Brittany voltou a olhar para a morena, trazendo-a para perto sem mais palavras, enquanto ajeitava as costas na cabeceira da cama. Deitou a cabeça da outra no seu ombro. — Pronto! Podem entrar!
— Ai! — Santana reclamou, baixinho. — Tá puxando o meu cabelo...
— Desculpa.
Brittany ajeitou a mão, repousando-a novamente sobre o cabelo da latina e, ao passo que elas se encaixavam melhor, com certo receio, a porta do cômodo se abriu trazendo Susan e Amélia para dentro do perímetro, com bandejas de café da manhã recheadas de comida.
— Bom dia, garotas! — Amélia falou.
— Bom dia... — A Lopez respondeu, sorrindo. — Uau.
— Cheiro bom, né amor? — A dos olhos azuis ajudou. — Rolinhos de canela, delícia.
— Não precisavam ter se incomodado...
— Ah, Santana querida, não é incômodo. Você é da família agora. — Susan sorriu, repousando uma das bandejas na mesinha de centro do recinto, ao lado da outra deixada por Amélia um segundo antes. — Precisamos da luz do sol aqui.
— Deixa comigo! — Amélia se apossou do controle da cortina, abrindo-a. — Prontinho.
— Olá! — James acenou da porta, e veio entrando também. — Tem espaço pra mais um?
Brittany se aborreceu, e Santana sentiu a tensão de seu corpo na hora.
— Podemos não transformar a ocasião numa reunião de família, por favor? — Ela forçou um riso. — Nós acabamos de acordar.
— É... — A morena confirmou.
— Nós temos uma proposta. — O Sr. Pierce revelou. — E eu acho que é uma ótima ideia...
— Queremos que vocês duas se casem aqui depois de amanhã! — Amélia o atropelou, revelando. — O que acham?
Elas petrificaram, balançando as cabeças em negativa na sequência.
— O que? — Santana riu, sem graça. — Não, não...
— É, definitivamente não. — Brittany determinou. — Sem chance.
— Por quê? Vocês já vão se casar de qualquer forma... — Susan lembrou-as. — Então, por que não aqui, onde podemos estar todos juntos e eu possa participar?
— Não, vovó... É seu aniversário esse sábado. É pra ser o seu dia, não o nosso.
— É, Susan... — Santana foi na onda. — Não queremos estragar o seu dia.
— Eu tive 89 festas de aniversário, queridas. Não preciso de mais uma... Seria um sonho realizado ver o casamento da minha única neta. De verdade! Fariam isso por mim?
Brittany continuou balançando a cabeça em negativa, extremamente desconfortável. Não era para aquilo estar acontecendo. Não era. Não era. Não era.
— Antes de eu morrer? — A vovó Pierce perguntou, séria.
— Ok...
— Tá bom.
Elas acabaram concordando, em decorrência à chantagem emocional da qual a outra se utilizou. Merda... Merda, merda. Aquilo estava tomando proporções bem maiores do que o planejado.
Diferente das noivas, Amélia, James e Susan se alegraram.
— Então, nós separamos o dia inteiro de hoje pra planejarmos tudinho da festa juntas... — A mãe de Brittany explicou. — E vocês podem se casar como nós, no celeiro.
— É uma tradição da família Pierce! — Susan esclareceu à Santana, notando suas feições.
— Aah... — A Lopez fingiu-se surpresa. — Que legal, eu sempre quis casar num celeiro!
— É, eu também. — Brittany mentiu junto.
— Oh, é um sinal! — Susan concluiu. — O universo vive nos dizendo como vocês foram feitas uma para outra! Precisamos agradecer a natureza... Venham, vamos agradecer.
A idosa puxou Amélia e James para fora do quarto consigo. Sumiram, depois de repetirem uma boa parte de vezes o quão animados estavam, principalmente Amélia. A porta se fechou, e as noivas continuaram naquela mesma posição. Brittany suspirou, chateada.
— E agora?
— Que foi? — Santana se virou, sutilmente, para fitá-la.
— Quando minha mãe descobrir que toda essa história é mentira ela vai ficar arrasada e minha avó vai morrer!
— Elas não vão descobrir...
— E o meu pai então? O que foi aquilo? O que ele tá querendo?
— Sua mãe provavelmente o convenceu... Mas, tá tudo bem. Nenhum deles vai descobrir.
— Meu Deus... — Brittany se afastou, afundando as mãos no rosto. Começou a chorar. — O que eu fiz, Santana?
— Eles não vão descobrir.
— Vão sim... Que droga.
— Ei, Brittany... Escuta. — Ela se aproximou, massageando os ombros da assistente, involuntariamente, tentando acalmá-la. — Fica calma, eles não vão descobrir. Tá bom? Vai dar tudo certo... Não é como se a gente fosse casar pra sempre. Estaremos divorciadas e felizes antes que você se dê conta, você vai ver.
Brittany respirou fundo, assentindo. E Santana continuou massageando seus ombros. Parecia a coisa mais natural do mundo, naquele momento. E quando a morena menos percebeu, apoiou o queixo na voltinha do pescoço da loira, abraçando-a pela cintura por trás.
— Você tá melhor?
— Tô...
Elas finalmente se atentaram ao contato físico anormal, e a Lopez praticamente pulou da cama num sobressalto quando Brittany a espiou de canto dos olhos. Seus pensamentos a milhão, foi até a mesinha de centro onde encontravam-se as bandejas do café da manhã.
— Vamos comer?
— Claro. Vamos. — A Pierce assentiu, ainda em transe. Se ergueu, afastando tais ponderações o mais rápido que pode. — Você tem razão. A gente se divorcia logo, logo e fica tudo bem.
— Com certeza. Quer que eu te prepare um café especial? Envolve canela, leite de amêndoas...
— Ah, eu adoraria. — Ela sorriu, sentando-se no chão. Limpou as lágrimas do rosto. Então, as duas começaram a tomar café, deliciando-se de tudo que veio nas bandejas, em silêncio... Até Brittany resolver agradecer a outra, por restabelecer seu humor: — Obrigada. Sério.
— Imagina, só estou treinando. Tenho que te fazer feliz, né... — Santana brincou. — Odiaria perder minha esposinha pra qualquer uma por aí.
Brittany riu, entrando na onda.
— Para, até parece... Eu nunca faria isso com você.
O sorriso de Santana sumiu, e ela ficou fitando a Pierce por mais tempo que o normal. Tudo que estava sentindo... Tudo aquilo, ela não queria sentir. Ela não podia sentir. Não podia.
— Que foi? — A dos olhos azuis indagou, beliscando outro pedaço de pão. — Você tá bem?
— Sim, tô sim... Quer saber? Acho que eu vou dar uma saída.
Santana se levantou do chão, agitada.
— Pra onde?
— Ah, sei lá... Eu tô a fim sair, ficar lá fora. — Ela começou a andar em direção ao banheiro. — Tá?
— Ok... Mas, aí é o banheiro.
— É. Eu sei... É que eu vou me arrumar, e depois sair.
— Certo. Tá bom, então.
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