Pela manhã a Lopez despertou pacificamente, sem barulho de celular dessa vez. Espreguiçou-se, e ficou um tempinho curtindo a maciez do colchão... E, o cheiro de Brittany. Sim, aquele presente no moletom emprestado da loira que Santana voltara a usar na segunda noite de estadia. Por falar na Pierce, será que a mesma já estava acordada? Com essa dúvida na cabeça, a editora-chefe se mexeu sob os lençóis e cobertores até ser possível espiar a assistente no chão. Bingo. Dúvida sanada.

Mais apagada que ela, impossível.

A latina retornou seu caminho para poder se aconchegar de novo, mas acabou fitando despreocupadamente seu reflexo no espelhinho sobre uma das mesinhas de cabeceiras enquanto o fazia, percebendo-se na hora: descabelada, com feições sonolentas. Brittany não podia ver aquilo.

— Dios...

Santana começou a pentear os cabelos com as mãos, e se apossou de um brilho lábio que deixava na mesinha de cabeceira oposta, ajeitando as sobrancelhas e limpando possíveis remelas dos olhos. Deu leves tapinhas na cara, para fazer o sangue circular pelas bochechas, passou um creme hidratante no rosto e pronto, enfim decidiu que estava bem o bastante para voltar a se deitar. Iria fingir que acordou depois da dos olhos azuis, e aproveitar mais um pouco do quentinho da cama.

Bom, não passou nem cinco minutos que encostara as costas de volta no colchão, e Santana ouviu baterem na porta do recinto. Para seu completo descontento.

— Serviço de quarto! — Amélia disse.

— Café da manhã especial para o casal feliz! — Susan complementou.

Mas, que merda. Que merda. Que merda.

— Psiu, Brittany... — Santana cochichou, tentando acordá-la. Se inclinou na cama, meio desesperada. — Brittany? Brittany... Ei, Brittany!

Ela alcançou um travesseiro, e voltou batendo-o na cara da subalterna, como fizera na manhã anterior. Funcionara antes, então funcionaria agora também. Fora que ela jogara com mais força do que no dia antecessor, só para garantir. O susto fora tão grande por parte da Pierce que a mesma nem teve tempo de raciocinar e dizer um “a”, só olhou para a chefe chocada, sem entender nada. Santana então apontou para a porta e voltou a sussurrar, nervosa.

— Sua família tá aí fora, levanta!

Ela continuou com cara de paisagem, confusa, até ouvir a avó perguntar doutro lado da porta se ela e Santana estavam acordadas e se tudo bem se entrassem ali, com a chave reserva que possuíam. O coração de Brittany passou a disparar, quer dizer, ainda mais.

— Só um segundo! — Santana gritou, voltando a olhar para a noiva de mentirinha. — Vem pra cá... Vem logo!

Ela se levantou, toda mole. Pegou o travesseiro que a Lopez jogara nela, e arremessou-o de volta, junto a todos os cobertores e lençóis que compunham sua cama improvisada no chão. Incluindo a “manta afrodisíaca”, que Santana jogou debaixo da cama.

— Esse treco não. Tá legal. Certo... — Ela ficou meio sem jeito, fitando olhos azuis. — Agora a gente se abraça?

Brittany ignorou a dúvida, já que estava com a atenção voltada a outra coisa.

— Você tá de maquiagem?

— Não! Óbvio que não. — Santana desconversou. — Me abraça logo, vai.

— Oi?

— Mandei me abraçar.

— Ok... — A loira foi chegando perto, mas parou. Não sabia muito bem como era para abraçá-la e tinha medo de cruzar certos limites, afinal, era Santana ali. — Como vai ser isso?

— Você é idiota?

— Tudo bem com vocês? — Amélia quis saber.

— Sim, sim! Tudo sim! — Brittany voltou a olhar para a morena, trazendo-a para perto sem mais palavras, enquanto ajeitava as costas na cabeceira da cama. Deitou a cabeça da outra no seu ombro. — Pronto! Podem entrar!

— Ai! — Santana reclamou, baixinho. — Tá puxando o meu cabelo...

— Desculpa.

Brittany ajeitou a mão, repousando-a novamente sobre o cabelo da latina e, ao passo que elas se encaixavam melhor, com certo receio, a porta do cômodo se abriu trazendo Susan e Amélia para dentro do perímetro, com bandejas de café da manhã recheadas de comida.

— Bom dia, garotas! — Amélia falou.

— Bom dia... — A Lopez respondeu, sorrindo. — Uau.

— Cheiro bom, né amor? — A dos olhos azuis ajudou. — Rolinhos de canela, delícia.

— Não precisavam ter se incomodado...

— Ah, Santana querida, não é incômodo. Você é da família agora. — Susan sorriu, repousando uma das bandejas na mesinha de centro do recinto, ao lado da outra deixada por Amélia um segundo antes. — Precisamos da luz do sol aqui.

— Deixa comigo! — Amélia se apossou do controle da cortina, abrindo-a. — Prontinho.

— Olá! — James acenou da porta, e veio entrando também. — Tem espaço pra mais um?

Brittany se aborreceu, e Santana sentiu a tensão de seu corpo na hora.

— Podemos não transformar a ocasião numa reunião de família, por favor? — Ela forçou um riso. — Nós acabamos de acordar.

— É... — A morena confirmou.

— Nós temos uma proposta. — O Sr. Pierce revelou. — E eu acho que é uma ótima ideia...

— Queremos que vocês duas se casem aqui depois de amanhã! — Amélia o atropelou, revelando. — O que acham?

Elas petrificaram, balançando as cabeças em negativa na sequência.

— O que? — Santana riu, sem graça. — Não, não...

— É, definitivamente não. — Brittany determinou. — Sem chance.

— Por quê? Vocês já vão se casar de qualquer forma... — Susan lembrou-as. — Então, por que não aqui, onde podemos estar todos juntos e eu possa participar?

— Não, vovó... É seu aniversário esse sábado. É pra ser o seu dia, não o nosso.

— É, Susan... — Santana foi na onda. — Não queremos estragar o seu dia.

— Eu tive 89 festas de aniversário, queridas. Não preciso de mais uma... Seria um sonho realizado ver o casamento da minha única neta. De verdade! Fariam isso por mim?

Brittany continuou balançando a cabeça em negativa, extremamente desconfortável. Não era para aquilo estar acontecendo. Não era. Não era. Não era.

— Antes de eu morrer? — A vovó Pierce perguntou, séria.

— Ok...

— Tá bom.

Elas acabaram concordando, em decorrência à chantagem emocional da qual a outra se utilizou. Merda... Merda, merda. Aquilo estava tomando proporções bem maiores do que o planejado.

Diferente das noivas, Amélia, James e Susan se alegraram.

— Então, nós separamos o dia inteiro de hoje pra planejarmos tudinho da festa juntas... — A mãe de Brittany explicou. — E vocês podem se casar como nós, no celeiro.

— É uma tradição da família Pierce! — Susan esclareceu à Santana, notando suas feições.

— Aah... — A Lopez fingiu-se surpresa. — Que legal, eu sempre quis casar num celeiro!

— É, eu também. — Brittany mentiu junto.

— Oh, é um sinal! — Susan concluiu. — O universo vive nos dizendo como vocês foram feitas uma para outra! Precisamos agradecer a natureza... Venham, vamos agradecer.

A idosa puxou Amélia e James para fora do quarto consigo. Sumiram, depois de repetirem uma boa parte de vezes o quão animados estavam, principalmente Amélia. A porta se fechou, e as noivas continuaram naquela mesma posição. Brittany suspirou, chateada.

— E agora?

— Que foi? — Santana se virou, sutilmente, para fitá-la.

— Quando minha mãe descobrir que toda essa história é mentira ela vai ficar arrasada e minha avó vai morrer!

— Elas não vão descobrir...

— E o meu pai então? O que foi aquilo? O que ele tá querendo?

— Sua mãe provavelmente o convenceu... Mas, tá tudo bem. Nenhum deles vai descobrir.

— Meu Deus... — Brittany se afastou, afundando as mãos no rosto. Começou a chorar. — O que eu fiz, Santana?

— Eles não vão descobrir.

— Vão sim... Que droga.

— Ei, Brittany... Escuta. — Ela se aproximou, massageando os ombros da assistente, involuntariamente, tentando acalmá-la. — Fica calma, eles não vão descobrir. Tá bom? Vai dar tudo certo... Não é como se a gente fosse casar pra sempre. Estaremos divorciadas e felizes antes que você se dê conta, você vai ver.

Brittany respirou fundo, assentindo. E Santana continuou massageando seus ombros. Parecia a coisa mais natural do mundo, naquele momento. E quando a morena menos percebeu, apoiou o queixo na voltinha do pescoço da loira, abraçando-a pela cintura por trás.

— Você tá melhor?

— Tô...

Elas finalmente se atentaram ao contato físico anormal, e a Lopez praticamente pulou da cama num sobressalto quando Brittany a espiou de canto dos olhos. Seus pensamentos a milhão, foi até a mesinha de centro onde encontravam-se as bandejas do café da manhã.

— Vamos comer?

— Claro. Vamos. — A Pierce assentiu, ainda em transe. Se ergueu, afastando tais ponderações o mais rápido que pode. — Você tem razão. A gente se divorcia logo, logo e fica tudo bem.

— Com certeza. Quer que eu te prepare um café especial? Envolve canela, leite de amêndoas...

— Ah, eu adoraria. — Ela sorriu, sentando-se no chão. Limpou as lágrimas do rosto. Então, as duas começaram a tomar café, deliciando-se de tudo que veio nas bandejas, em silêncio... Até Brittany resolver agradecer a outra, por restabelecer seu humor: — Obrigada. Sério.

— Imagina, só estou treinando. Tenho que te fazer feliz, né... — Santana brincou. — Odiaria perder minha esposinha pra qualquer uma por aí.

Brittany riu, entrando na onda.

— Para, até parece... Eu nunca faria isso com você.

O sorriso de Santana sumiu, e ela ficou fitando a Pierce por mais tempo que o normal. Tudo que estava sentindo... Tudo aquilo, ela não queria sentir. Ela não podia sentir. Não podia.

— Que foi? — A dos olhos azuis indagou, beliscando outro pedaço de pão. — Você tá bem?

— Sim, tô sim... Quer saber? Acho que eu vou dar uma saída.

Santana se levantou do chão, agitada.

— Pra onde?

— Ah, sei lá... Eu tô a fim sair, ficar lá fora. — Ela começou a andar em direção ao banheiro. — Tá?

— Ok... Mas, aí é o banheiro.

— É. Eu sei... É que eu vou me arrumar, e depois sair.

— Certo. Tá bom, então.

Notas finais
Até ♥