The Proposal - Brittana
21 O Dia da Cerimônia
Notas iniciais
E a manhã daquele fatídico sábado havia finalmente chegado. Era o grande dia, o tão esperado casamento... Ou melhor, a farsa que chamavam de casamento. Ao menos em teoria, pois, tanto os sentimentos de Santana, como os de Brittany, já não eram mais os mesmos que cinco dias atrás, quando ainda perambulavam pelos corredores da Glee Books como chefe e assistente, com a notícia do casório passando de boca em boca, e um genuíno ódio crescente que nutriram uma pela outra no fundo do peito.
Este, que era um ódio entre muitas aspas obviamente. Nunca tinha sido ódio... Na verdade, o problema estava na frequência em que se viam pensando uma na outra nos últimos tempos, o que era totalmente inapropriado. Só deixou de ser, no segundo que tornou-se conveniente para a Lopez. Porque, bom, ela precisava muito daquele visto... Brittany não podia esquecer o ponto principal de todo o circo, muito menos Santana.
Aquele casamento não passava de um acordo comercial entre elas, onde uma ganharia o green card que tanto precisava e a outra a promoção que tanto almejava, e se vieram a dormir juntas na noite retrasada, o álcool tinha todo o crédito nisso. Não podiam levar tudo tão a sério. Não podiam, e nem deveriam. Ambas só se machucariam se levassem. Mesmo que seus corpos se fizessem tão bem, com toques, falas e beijos... Não importava. A vida tinha que seguir, ainda mais agora que o objetivo delas estava tão próximo, bastava esperar só um pouquinho mais e tudo voltaria ao normal.
Santana levantou às sete e pouco da manhã, mal havia dormido na noite anterior. Brittany não estava no quarto, pois Susan tinha a arrastado de lá pouco antes de deitarem para dormir, o que era ótimo. Depois de ir ao banheiro, a morena resolveu descer na espreita para tomar um ar. Se agasalhou com o robe xadrez felpudo doutro dia, calçou as botinas da noiva e caminhou pelo quintal, até ficar há alguns metros da casa. Dino estava dormindo na ocasião, então não obteve muitos obstáculos dessa vez.
O céu estava bem claro, o ar gelado e o horizonte preenchido de funcionários carregando coisas para dentro do celeiro dos Pierce – onde aconteceria a cerimônia; conseguiu enxergar Amélia e Susan conversando ao lado também, mas as mulheres nem se deram conta de que ela estava ali e logo voltaram para o interior do celeiro com os outros.
Assim que Brittany acordou de seu sono de duas horas, ela deixou o quarto e foi até o outro a procura da Lopez. Bateu na porta e não teve resposta, então resolveu atravessá-la. Nem sinal da mulher na cama, banheiro ou varanda... Mas, conseguiu achá-la, quando olhou para baixo, no quintal. Sorriu e foi trocar de roupa, para dar bom dia. No caminho, interagiu com Dino e o cãozinho se animou, porém ela não permitiu que ele a acompanhasse lá fora, afinal continuava sendo muito perigoso para ele as águias que rondavam a região.
Sem pressa, a loira chegou até à morena, olhando para frente tal como ela.
— Sinto que estou tendo um déjà vu... — Brittany brincou, fazendo questão de fitá-la dos pés à cabeça. Era incrível como a latina ficava maravilhosamente bem com suas vestes. — Com pressa de novo, é?
— Sempre. — Santana riu, se apressando a olhar para trás. — Você não deixou a porta aberta não, né?
— Não... Espera aí, é isso mesmo que eu tô pensando Santana? Cê tá preocupada com o Dino? Chocada, parece que me enganei sobre você... É a maior molenga!
— Até parece, Pierce. Só não quero ser cúmplice do sequestro das águias, dá licença.
— Ah, algum motivo pra ser vegana você tem. Tô de olho.
— Já disse que não sou vegana!
— Há controvérsias... Mas, tudo bem, tudo bem. Vida que segue. Dormiu bem?
— Não. — A Lopez admitiu. — Eu mal dormi, e você?
— Também. Só queria que tudo isso passasse logo, e as coisas voltassem ao normal. — Ela soltou, sem perceber o que parecia que estava dizendo de fato. — Não vejo a hora da gente voltar pra Nova York.
— É... Eu também.
— Tá nervosa?
— C-com o casamento? — Olhos castanhos acharam azuis à procura de uma resposta e a loira assentiu. — Acho que sim e você?
— Bastante, não lembro de ficar assim há muito tempo. Mas, vai dar tudo certo... Acredito nisso.
Santana queria dizer à ela que não estava mais tão confiante assim devido ao ultimato de James, mas não teve oportunidade, pois a mãe da mais nova apareceu interrompendo-as.
— Ei, garotas! — Ela chamou, enquanto aproximava-se da entrada da residência. — Venham, vamos tomar café!
Então as duas foram, em silêncio. Sentaram-se à mesa junto a Susan e Amélia, e desejaram feliz aniversário à mais velha, que completava 90 anos na data. Em seguida, começaram a se servir. James não estava por lá, mas a vovó Pierce logo avisou que era porque ele tinha ido buscar uma parte dos convidados na cidade e nas ilhas vizinhas. Uma ou outra conversa sobre decoração, comida e afins se desencadeou, e aí Quinn Fabray apareceu no casarão, saltitante.
— Susan, feliz aniversário mulher! — Ela abraçou a idosa, carinhosamente, e sorriu, entregando-a um embrulho. — Tudo de bom pra senhora, viu? Muitos anos de vida que noventa não são nadinha pra luz que você emite nesse mundo!
— Obrigada, querida! Não precisava!
— Claro que precisava. Amélia... Meninas, esplêndido dia! — Ela deu a volta na mesa e se inclinou para abraçar ambas as noivas pelos ombros. — É hoje, não tô acreditando gente! É muita emoção! Vai ter abraço de urso sim, e eu não quero nem saber!
— ‘Dia-aa, Quinnie! — Brittany riu, sendo esmagada. — Olha, se quiser, pode subir no altar no meu lugar!
— Ah, é? Vai brincando, vai Britt... Se a Santana aceitar, eu vou mesmo. Abre os olhos!
Todas deram risada, e Susan chamou a garota para se juntar a elas na mesa. Depois do café da manhã, Santana e Brittany não tiveram mais tempo para conversarem a sós, e assim mais e mais pessoas começaram a chegar na casa. Eram: cozinheiros, maquiadores, fotógrafos, músicos, convidados, além é claro da equipe de decoração que já estava por lá desde manhãzinha.
Quando menos perceberam, as noivas de fachada estavam separadas num quarto cada. Lá, trajaram-se dos lindos vestidos que haviam sido ajustados para seus corpos. Brittany, com o vestido de sua avó e Santana com o vestido de Amélia. Os colares que Susan tinha as presenteado em seus pescoços, os penteados feitos e a maquiagem quase finalizada.
Durante toda a arrumação para a cerimônia, Santana continuou pensando nas palavras do agente de imigração. Nas palavras de James... No amor que ele, Susan e Amélia tinham por Brittany. Quem a morena era afinal para destruir aquela família assim, sem mais, nem menos? Valia a pena acabar com a vida de uma pessoa, apenas porque se esqueceu de renovar o visto? Porque não achou que era importante o suficiente, até sua estadia nos Estados Unidos, ou melhor, seu cargo de editora-chefe na Glee Books ser ameaçado.
Brittany estava fazendo muito mais por ela, do que ela jamais faria por ninguém... Ainda mais alguém que a tratasse tão mal como Santana costumava tratá-la quando estavam trabalhando. E também existia todos aqueles sentimentos aflorados na última semana... De não estar com alguém há muito tempo, de não conviver com uma família há mais tempo ainda e, subitamente, ter tudo de novo de uma só vez. O que a Lopez estava sentindo por Brittany era real, ou só fruto da carência gerada pelos anos em que esteve solteira? Bom... No fim, não importava. A loira tinha alguém de quem realmente gostava no Alasca e ela não queria atrapalhar as duas, ou sua família, ou a vida dela por completo. Tinha que tomar uma decisão.
O que valia mais? Certamente ela sabia... Mesmo que seu ego reprovasse.
(...)
Brittany respirou fundo, sendo a primeira noiva a entrar no celeiro de braços dados com James e Amélia. Ela e o pai não tinham direcionado uma palavra desde a reuniãozinha com o agente de imigração, mas na frente da Pierce mais velha e de sua mãe simularam um sorriso e deram um abraço rápido, ajeitando-se lado a lado para dar continuidade ao evento. Chegaram no altar.
A dos olhos azuis havia pensado muito sobre o que estava fazendo nas últimas horas, e a única conclusão que tirava de tudo é que não desistiria, mesmo que pudesse parar na prisão. Imaginar Santana sendo deportada era muito pior do que o medo de serem pegas na mentira... Mentira essa que não era tão mentira assim, levando em conta que estava mexida de forma avassaladora pela morena. E tinham chegado tão longe, agora não era hora para desistir.
Santana entrou no celeiro ao lado de Susan, e ambas vieram caminhando até o altar. No fundo, a típica música de casamento tocada à piano e os convidados emocionados sentadinhos em suas cadeiras ao redor. A decoração era impecável, assim como as roupas que vestiam, os penteados, os buquês, tudo, tudo. Era o casamento perfeito... Só tinha um problema, não era real. E por não ser real, e ao mesmo tempo gerar tantas emoções, dúvidas e conflitos, aquilo não acabaria bem. Era a receita perfeita para o desastre acontecer. E o pior era que, Burt Hummel, o agente de imigração, estava ali no meio, assistindo de camarote o caos tomar conta.
— Por favor, sentem-se. — O cerimonialista pediu aos convidados. — Estamos reunidos hoje para agradecer e celebrar um dos momentos mais importantes que uma pessoa pode ter na vida, que é a união... Tão bonita, honesta e altruísta como o dessas duas mulheres aqui presentes, Santana e Brittany, que irão concretizá-la agora diante da família e amigos. Pois, foram seus familiares e amigos que as ensinaram a amar, por isso nada mais justo que...
Santana levantou o dedo, cortando a fala do homem, com algum receio. Não tinha muita certeza do que estava fazendo... Mas, não conseguiria levar aquilo adiante. Nunca se perdoaria se levasse.
— Oh, tem alguma pergunta?
— Não... — Ela engoliu a seco, recebendo olhares desesperados de Brittany que preocupou-se na hora com seu semblante culpado. — Não é uma pergunta. Mas, tem algo que eu preciso dizer.
— Santana... — A loira tentou impedi-la, temendo tal revelação. — Por favor.
— Não prefere dizer depois?
— Não... Não dá.
— Muito bem, vá em frente.
Um silêncio esquisitíssimo se instalou no celeiro, as noivas como um borrão branco no altar. Santana se virou para os convidados. Brittany sentiu o estômago revirar violentamente, e fez o mesmo.
— Olá, pessoal.
— Olá! — Responderam.
— Meu agradecimento a todos por terem vindo. Eu tenho um anúncio a fazer sobre o casamento... Uma confissão, na verdade.
— O que tá fazendo? — Brittany finalmente abriu a boca em um murmúrio, angustiada. — Santana... San-ta-na.
— Eu sou mexicana. Pois é... Mexicana, com o visto expirado e prestes a ser deportada daqui. Como eu não queria deixar o país, eu forcei a Brittany a casar comigo.
— Santana, para. — Continuou murmurando.
— Ela sempre teve uma ética de se admirar no trabalho, o que eu acredito firmemente que tenha aprendido com vocês... — Santana direcionou os olhos a família da Pierce, Quinn e Marley. — E por quase três anos, eu vi a Brittany trabalhando mais duro do que qualquer outro assistente que eu já tive. Ou qualquer outra pessoa que eu conheça no geral. E eu sabia que se ameaçasse destruir sua carreira, ela faria qualquer coisa por mim. Então, eu a chantageei pra vir até aqui e mentir pra vocês que nós estávamos juntas... E naturalmente, achei que seria fácil assistir tudo isso, mas não foi. Descobri que não é tão simples arruinar a vida de alguém, quando você descobre o quanto essa pessoa é maravilhosa... Vocês são uma família incrível. Por favor, não deixem que isso interfira no relacionamento de vocês, a Brittany não teve culpa.
— Santana... — A mais alta não conseguiu sair do lugar, em choque.
— Fica tranquila, Pierce. — Ela a fitou. — Era um acordo comercial e cumpriu sua parte, mas agora ele acabou.
A Lopez deixou o altar e pediu desculpas à família da outra, enquanto se dirigia para fora do celeiro.
— E você... — Santana encarou Burt. — Me encontre nas docas, vai me dar uma carona até o aeroporto.
Brittany olhou para os convidados cochichando, uns com cara de pena, outros tão confusos quanto ela e sentiu a visão ficar turva. Não sabia qual parte era pior... Talvez, todas. Amélia e Susan foram até a loira, esperando alguma explicação. Não estavam acreditando naquilo e encheram-na de perguntas, extremamente chateadas com a situação.
— E-eu... Desculpa. Não dá pra mim. — Brittany jogou o buquê no chão, tirou os sapatos e começou a correr para fora do celeiro, entrando na residência o mais rápido que pôde. Subiu as escadas, indo até o quarto que ela e Santana dividiam, e escutou a morena doutro lado da porta do banheiro, chorando enquanto se trocava para deixar o Alasca. — Por que você tinha que fazer aquilo?!
— Você ouviu, Pierce... Eu não aguentaria manter essa mentira. Nem você, nem sua família merece passar por isso.
— Pelo amor, Santana! Acha mesmo que eu toparia entrar nessa furada se fosse uma mentira? — Ela elevou a voz, ofegante. — Eu só fiz isso porque não suporto imaginar minha vida sem você, eu tava ciente de todos os riscos! E eu sei que não tô sozinha nessa... Eu senti, todas as vezes que a gente se beijou! Todas as vezes que a gente conversou como dois seres humanos normais! Quando patinamos, cantamos, jogamos... Por favor, não vai desse jeito. Eu sei que nós podemos dar um jeito nisso!
— Não... Não podemos. Você só tá com medo de ser presa, Brittany. — Ela deu um meio sorriso, aproximando-se da porta. — Não te culpo... Mas, pode relaxar agora. Eu te chantageei, e deixei muito claro pro agente e pra todas aquelas testemunhas no celeiro. Não vai acontecer nada com você.
— Eu não tô nem aí pra isso!
— Isso é o que você pensa...
Ela terminou de desfazer o penteado e começou a tirar o vestido de Amélia, substituindo-o por outra roupa, logo abriu a porta. A maquiagem foi a primeira coisa que se livrou. Continuava linda, mas a face repleta de lágrimas que haviam sigo recém-enxugadas, ou quase isso. As mulheres discutindo a todo o momento.
— Meu Deus, tô falando grego só pode! — Brittany caminhou decidida até Santana, e a beijou. Mas, o beijo não se prolongou muito... A Lopez o interrompeu, antes que perdesse o controle. — Vai dizer que não sente nada também?
— Não importa o que eu sinto, você tá transtornada...
— Não! Eu não tô! Entenda: eu gosto de você, muito mais do que eu queria gostar... Muito mais!
— Para de ficar tentando se convencer disso! O trato acabou, Brittany! Não precisamos mais fingir!
— Eu não tô fingindo... E nem você, caso contrário não estaria chorando!
— Isso não... E-eu... Eu preciso ir embora.
— Por favor, Santana!
— Obrigada por tudo. Mesmo. — Santana abriu sua mão e deixou o colar de Susan sobre ela. Brittany sentiu os olhos tremerem, algumas lágrimas escaparam, e a morena deu um passo para trás, evitando contato visual. — Ah, e você tinha razão, o manuscrito que queria que eu lesse é muito bom. Eu menti porque eu sabia que se eu publicasse te perderia como assistente... Tem um olhar perfeito pra coisa, nem precisava ter entregado ele pra mim. Te garanto que vai ser comprado antes mesmo que eu saia do país.
— Não vai, por favor... Eu te imploro. Fica aqui comigo, Santana. Fica.
Ela suspirou e negou, pegando as malas que trouxera. Precisava seguir o seu caminho. Ir sem olhar para trás. Brittany estava desesperada de medo, não de amor. Não podia se aproveitar disso. Chegou na porta, a respiração vacilante do beijo, do choro e tudo o mais.
— Tchau, Pierce. Espero que tenha uma vida incrível... Você merece.
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