The Proposal - Brittana
19 Manhã?
Brittany acordou aos poucos. Das últimas noites que tivera no Alasca, aquela terceira madrugada de quinta para sexta-feira tinha sido em disparada a melhor. Para falar a verdade, era a primeira vez que dormia tão relaxada em quase três anos. O maior motivo de sua falta de sono? Santana. O maior motivo de seu relaxamento atual? Santana... Espera, o que? Ela lembrou-se na hora do motivo. Abriu os olhos azuis freneticamente e virou-se para sua esquerda em câmera lenta. Lá estava a mexicana, igualmente nua, debaixo do edredom que dividiam – este que, naquele momento, tampava apenas metade dos seios dela. Ok, a transa não tinha sido fruto de um sonho... Isso era bom ou ruim? Algo a dizia que era ruim, pois sentiu o coração palpitar enlouquecido ao se dar conta, mas não conseguiu evitar um sorriso com a figura da outra dormindo tão sossegada e uma série de flashes da noite anterior lhe atingiram em cheio.
Não, não. Ela balançou a cabeça. Precisava sair daquela cama o mais rápido possível. A loira esgueirou-se colchão afora, fazendo o menor barulho que conseguiu, e achou peças de seu pijama espalhadas pelo chão do quarto, fazendo questão de vesti-las na velocidade da luz. Certo... Como iria encarar Santana agora? Como? Ela andou de um lado para o outro de novo e de novo, só pensando, e depois se aproximou da latina, a fim de cobri-la direito. Puxou o cobertor para cima dos ombros da morena e ficou um tempo a observando outra vez, mesmo sem querer. Como ela conseguia ser tão linda? Essa era a questão que mais vinha a sua mente na ocasião, mesmo tendo coisas muito mais importantes com o que se preocupar... Por exemplo, a reação da editora-chefe pós sexo embriagado com ela. Ou então, a cerimônia do casamento de fachada que aconteceria no dia seguinte. Aliás, sua cabeça doía um pouco. Não sabia se por conta da bebedeira do dia anterior, ou se era dor de consciência mesmo. Não deveria ter deitado naquela cama com sua chefe... Seu emocional estava a torturando em looping agora, mais do que nunca esteve antes.
Como algo tão bom podia ser tão confuso e complicado ao mesmo tempo?
Não encontrava respostas, justamente por não querer encontrar. Era melhor que não encontrasse. Bem, em todo caso: elas eram adultas, iriam superar a última noite, não era como se nunca tivessem passado por algo do tipo. Brittany ouviu alguns toques na porta do recinto e decidiu ir ver quem era doutro lado, seu rosto abalado foi rapidamente substituído por um alegre. Tinha que continuar com a farsa em qualquer hipótese, estava naquilo de corpo e alma até o fim... Mesmo que não quisesse pensar nessa parte, que viria a acontecer mais cedo ou mais tarde inevitavelmente. A Pierce não tinha nada com o que se preocupar e não daria razões para sua família o fazer. Não mesmo.
Amélia, Susan e James jamais saberiam da verdade, muito menos Santana... No caso, em relação aos sentimentos que vinham aflorando há certos meses dentro de Brittany e pareciam gritar como loucos nesse instante, importunando-a sem dó nem piedade alguma. Não que isso importasse, porque não, nem de longe importava. A única coisa que importava no meio disso tudo era a execução do plano e fim: num pulo, estariam de volta a Nova York – onde, não podia esquecer que finalmente seria promovida de assistente à editora de livros, teria a tiragem de impressos que pediu à Santana e tudo correria às mil maravilhas com o trato daquele casório, afinal estaria ocupada demais com o trabalho para sequer pensar na morena de qualquer forma que não fosse a profissional. Vida que segue. A dos olhos azuis abriu a porta do quarto devagarzinho para não despertar a noiva e enxergou Susan avante, sorridente como sempre.
— Bom dia...
— Pra quem, querida? — A idosa cruzou os braços, cerrando levemente os olhos. — Essa noite foi das boas, né? Dá pra ver.
— Q-quê? — Brittany engasgou nada discreta, tentando soar o mais calma possível no minuto seguinte. Se apoiou no batente da porta constrangida, desviando periodicamente o olhar para o chão. Que situação se colocara? PQP. — Como assim, vovó?
— São quinze pra uma, Britt... — Susan esclareceu, se divertindo com a ruborização da neta. — As pombinhas perderam o café da manhã. Viemos chamar duas vezes, mas não deram nem sinal de vida.
— Aah, sim... — Ela se aliviou na hora de saber que sua avó estava se referindo ao horário em que a garota levantou, e não a algo sugestivo que ouvira da noite anterior. Isso era bom. — O sono nos pegou, sabe como é.
— É, sei bem. Mas agora me diga, pretendem comparecer ao almoço?
— Sim... Com certeza, vovó. Só preciso acordar a Sant e a gente desce em uns 20 minutos.
— Ok. Vou avisar a Amélia.
— Certo.
Brittany voltou a trancar a porta e resolveu tomar um banho antes de acordar a Lopez, era tudo o que precisava para se livrar de todas aquelas sensações impregnadas em seu físico. O cheiro e gosto da morena ainda estavam com ela... Tão presentes, que chegava a ser fatal. Não era à toa que continuava mexida daquela forma.
(...)
Sozinha, Santana se espreguiçou na cama de casal. Aquele colchão era gostoso demais... A estrangeira levou menos de dez segundos para tomar percepção de tudo. Estava pelada, pois tinha bebido um pouquinho além da conta na noite anterior, resultado: agarrara sua assistente indo muito além de beijos com ela, MUITO além. Que mierda... Não era para terem chegado naquele ponto. A latina viu a porta do banheiro ser aberta e Brittany sair de lá penteando o cabelo, freneticamente puxou o cobertor até o queixo sentindo o rosto e o resto do corpo todinho queimarem de vergonha.
— Ah, você acordou... — A Pierce se aproximou da cama, sentando-se ao seu lado. Maravilha. — Tudo bem?
Ela assentiu sem conseguir dizer nada, Brittany não deveria estar tão perto.
— Que bom. — Continuou, dando um breve suspiro. — Então, aquilo que aconteceu ontem...
— Melhor a gente não falar sobre. — Santana cortou-a, correndo. — Por favor.
— É... Você tem razão. — Ela balançou a cabeça. Quiçá, fosse melhor não falarem sobre o assunto mesmo. Abriu um sorriso em seguida, tentando transmitir alguma descontração a outra. — Vamos almoçar?
— Almoçar?
— Uhum, tá tarde... Vovó veio nos chamar agora pouco, já ia te acordar.
— Ah, c-claro. Pode ir na frente, eu desço daqui a pouco.
— Ok.
(...)
Quando, enfim, a Lopez desceu para o primeiro andar da residência dos Pierce, foi seguida por Dino. O pequeno corgi estava saltitante... Nem um pouco ameaçador como lhe parecia até então. Isso era novo.
“Aw, aw!”
Talvez, quisesse brincar. Ou então carinho. Ela se abaixou um pouco, ainda receosa se deveria acariciá-lo ou não... E aí desistiu no meio do caminho, quando o animal rosnou.
— Você é um falso...
“Aw, grr... Aw!”
— Sai, sai!
Ela se direcionou a cozinha andando mais rápido que o normal para escapar do filhote e constatou que o único lugar vago à mesa era ao lado de Brittany, o que não era nenhuma novidade... Mas, levando em conta o que rolou entre elas, seria bom demais se pudesse evitar. Não podia. Não nesse caso... Ainda mais quando tinham que fingir. Tomou coragem e foi se aproximando e, ao passo que se sentava na cadeira, fouçou-se a sorrir para os demais. James estava sozinho numa ponta da mesa, Amélia e Susan de um lado, ela e Brittany de outro, o meio da madeira farto de comida e seu prato posicionado logo à frente, só esperando ser preenchido por algumas delas. O que era fácil já que, as veganas, foram postas todas em tigelas diferenciadas.
— Bom dia...
— Você quer dizer boa tarde, querida. — Susan se divertiu, outra vez.
— É... — Ela abriu um sorriso, desviando o olhar. — Isso.
A família a cumprimentou, e, Santana passou a se servir, agradecendo pela comida de novo. Eles não precisavam preparar algo só para ela e mesmo assim o fizeram, então ela se sentia na obrigação de agradecer sempre. Nem tinha como ser diferente.
— Não precisa agradecer, querida. Como eu disse, queremos que se sinta em casa... — Amélia sorriu simpaticamente para ela, o que fez com que seu mal estar voltasse a aparecer pensando em toda a mentira. — E aí, ansiosas pra amanhã?
— Claro! — Brittany não demorou a dizer, enviando um olhar a latina. — Até demais, né amor?
Santana assentiu, meio sem jeito, e sua noiva de mentirinha continuou.
— Ficamos falando disso sem parar ontem...
— Isso é ótimo! — A Pierce mãe se alegrou. — Vai ser perfeito, prometo pra vocês.
— Nós prometemos. — Susan adicionou.
— Pessoal... — O Sr. Pierce chamou a atenção das mulheres mais velhas, dando um leve riso. — Deixem as meninas comerem em paz, por favor.
— Tem razão, tem razão. — Amélia concordou. — Perdão.
James nunca saberia, mas as noivas estavam extremamente gratas por isso.
(...)
Depois do almoço, Santana e Brittany voltaram para o quarto. A morena pegou os manuscritos que trouxera e se isolou em uma das poltronas, trabalhando, e a loira por sua vez foi até a sacada tomar um ar, e o tempo foi passando. A Pierce então lembrou-se subitamente que, antes de toda aquela loucura de casamento, neste exato dia: iria ao show da Beyoncé com Blaine. Havia se esquecido completamente... Tinha conseguido ingressos VIP para eles com o próprio dinheiro no mês anterior e trocara o seu com Kitty, sem pensar duas vezes, por uma mera camiseta limpa na última segunda, e tudo isso por Santana. Era burrice demais se parasse para pensar. O ponto é que, desde lá, não trocou uma palavra com o amigo. Isso tava errado. Ela voltou para dentro do cômodo e fitou sua chefe, em silêncio. A Lopez logo percebeu.
— Que foi?
— Nada... — Ela ficou vermelha. — Quer dizer, eu vou dar uma saída. Já volto.
— Ok.
A dos olhos azuis correu andar abaixo e pegou seu celular, ligando para o Anderson assim que saiu de dentro da casa e foi pegando distância.
— [Alô, Britt?]
— Eu, oi!
— [Olha só, nem acredito que a bonita finalmente resolveu aparecer...]
— Me desculpa, Blaine! Sério. Não queria desaparecer assim, é que os últimos dias foram... Doidos, se é que posso chamar disso.
— [Imagino, mulher. Ninguém para de falar do seu casamento com a Santana aqui no setor. Tá um caos!]
— Jura? Tão ruim assim?
— [Juro! Mas, por que a surpresa hein?] — Ele riu. — [Quem em sã consciência imaginaria que a megera namorava? Ainda mais com você que é o completo oposto? Isso sim é uma surpresa! Não sei como conseguiram esconder por tanto tempo... Quer dizer, conhecendo a Lopez, até dá pra deduzir como. Ela só mostra o que quer pros outros, normalmente o pior de si, e é super controladora, mas, enfim... Ainda assim, é louco!]
— Não fala assim dela, por favor. — Brittany pediu pela primeira vez. — Olha, Blaine... Sei que é difícil entender, mas é isso. Não tem explicação. E-eu só liguei pra desejar um ótimo show pra você e pra Kitty. Espero que se divirtam muito! Faça valer a pena, por mim.
— [Awn, obrigado! Nós com certeza vamos! Mesmo que eu tenha imaginado eu e você que nem tietes bem pertinho do palco desde que arrumou os ingressos, vou superar... A Kitty tá mais legal que o normal, acho que era isso que tava faltando na vida dela.]
— Tá vendo? Beyoncé salvando a nação, outra vez! Obrigada, de nada.
Eles riram.
— [Ei... Escuta, Britt. Eu também te devo desculpas. Ainda tô tentando me acostumar com a ideia de você e a Santana estarem namorando e, mais que isso, prestes a se casarem, então, pode pegar no meu pé se eu ficar dando foras assim, tá? Não era a intenção.]
— Sei que não. Fica tranquilo. — Ela deu um meio sorriso. — Mas, e aí, como estão as coisas na editora? Com exceção de... Você sabe o quê.
— [Menina, deixa eu te contar...]
Eles falaram por minutos a fio, até Brittany voltar para dentro da residência, onde Amélia a parou sorridente. Parecia até que ela a esperava ali... E esperava mesmo.
— Aconteceu alguma coisa?
— Esqueceu que dia é hoje?
A loira ficou em silêncio, um tanto quanto confusa com a resposta que sua mãe esperava porque, bom, ela não sabia do que ela estava falando. Boiou legal, como nunca.
— É dia do boliche, Britt!
— Aaah, tá...
— Não acredito que esqueceu disso!
— É que eu só penso no casamento, mãe. Desculpa.
— Own... Você tá muito apaixonada, bebê. — Amélia pegou o rosto da filha e sorriu, depositando um beijo em sua bochecha. — Vai chamar a Santana pra gente ir. Seu pai e a Susan estão se arrumando agora mesmo e já, já descem também.
— Ok.
Ela subiu as escadas, olhando para trás com um sorriso amarelo, talvez Santana não gostasse de sair de novo. Ela mesmo não estava gostando da ideia. Mas, fazia parte. E... Boliche era legal, porventura suavizasse aquele clima. Ela atravessou a porta, recebendo a total atenção de sua noiva.
— Santana... Acabei de descobrir que a gente vai pra cidade de novo.
— Sério isso? — A morena praticamente bufou, em um suspiro. — Achei que todos os preparativos do casamento já estivessem acertados...
— E estão. É que minha família tem o costume de jogar boliche todas as sextas-feiras... Eu mesma não lembrava, por isso não avisei antes. Foi mal.
— Tudo bem... Tô acostumada já. — Ela se levantou, indo guardar as papeladas em mãos. — Não queria dizer nada, mas parece que os Pierce adoram gastar gasolina.
— Verdade.
Elas riram juntas pela primeira vez naquele dia, desviando olhares em seguida.
— Olha pelo lado bom, amanhã acaba. — Brittany se apressou a falar.
— É... Amanhã acaba.
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