The Proposal - Brittana
20 Quarta e Última Noite
Notas iniciais
Fazia pouco mais de 8°C em Sitka. Santana e Brittany foram as últimas a chegarem ao porto da ilha residencial, mas logo entraram em um dos barcos dos Pierce, e, ao passo que se acomodaram nos assentos traseiros, ficaram muito próximas uma da outra. Muito mesmo. A morena, encorajada pelo medo de cair outra vez no mar, e, a loira, pelo mesmo motivo basicamente. Mas, levando em conta que tinham que agir como um casal, nada do que acontecesse ali seria interpretado de forma “errônea” por ninguém, principalmente por elas mesmas... Era a desculpa perfeita. Suas mãos se mantiveram unidas, aquecendo-se por todo o trajeto até o centro, e o ar recheado de conversas paralelas entre James, Susan e Amélia.
Chegando à cidade, suas mãos não se soltaram. Brittany foi na frente e ajudou Santana a descer do barco, enquanto os outros já deixavam o ancoradouro. Estavam enrolando... Indo no tempo que o tempo pedia, se é que isso fazia sentido. Bom, para elas fazia. Olhos azuis fitavam tão atentamente a figura a sua frente, com tal zelo que era impossível dizer que não eram um casal... A Lopez só percebeu ao colocar os pés no porto, preferiu não dizer nada. Assim, elas caminharam até a pista de boliche. Seus dedos entrelaçados. Sensações da noite anterior subindo pelo pescoço, e ambas se forçando a prestar atenção em qualquer coisa ao redor.
— Santana, querida, já jogou boliche antes? — A mãe da Pierce indagou.
— Ah, se joguei duas vezes foi muito Amélia... — Ela olhou para a mão dela e da assistente, ainda juntinhas, e correu para desfazer o gesto. Se afastou um pouco de Brittany, fingindo descontração. — Mas, eu tô empolgada pra aprender. Gostei do lugar.
— Que bom! — Amélia sorriu, agachando-se para pegar o molho de chaves que acabou caindo de seu bolso. — Ah, quase me esqueci Britt... Guarde pra mim, por favor?
— Pode deixar.
Susan as chamou na sequência, para irem com ela e James até um dos balcões de atendimento alugar uma pista e calçados de boliche. Então, foram. À medida que os Pierce terminaram de botar os sapatos e deixaram as noivas para trás, Santana fez careta. Brittany procurou entender o porquê.
— Que foi? Tá tudo bem, Santana?
— Claro que não. — Ela respondeu, mal-humorada. — Esse sapato tá um nojo...
— Ah, é isso? — A loira não se aguentou e deu risada na hora, era engraçado ver a latina brava por um motivo tão besta como aquele. — Achei que fosse sério.
— É sério, Brittany... Não vou pôr o pé nessa porqueira, não. E para de rir! Não tem graça nenhuma.
— Ué, mas qual o problema? — Brittany arqueou uma sobrancelha. — Os patins que usou quarta-feira lá no rinque da April também eram alugados, não lembro de ter visto esse nojinho todo daquela vez.
— Óbvio, eles não tavam podres desse jeito! — Santana se zangou ainda mais, nada satisfeita com o comentário. — Me recuso a calçar isso, Pierce. Tudo tem limite. Tudo.
— Tá bom, tá bom. Não precisa ficar assim... — A mais alta pegou os sapatos da editora-chefe, calmamente. — Vou lá trocar por um par limpo, ok?
Santana assentiu, em silêncio, e Brittany a enviou um sorriso tranquilizador dizendo a ela que já voltava. Por mais incrível que parecesse, aquilo nem de longe tinha aborrecido a garota. Se fosse em qualquer outra ocasião, o mau humor da Lopez estressaria a dos olhos azuis na certa... Mas, agora, parecia beirar o impossível. Quão esquisito isso era? Afinal, aquele casamento de fachada não daria tão errado assim. Não enquanto tal sentimento pacifico perdurasse. Agora, se isso era bom ou ruim? Nenhuma das duas sabia dizer, já que o mesmo sentimento não só era fonte de bem estar, como também de muitas dúvidas e inseguranças.
Quando a loira retornou com os sapatos limpos, Santana agradeceu e finalmente os calçou, levantando do banco. A demora foi motivo o bastante para um enorme ponto de interrogação brotar no semblante da família Pierce, o que a Lopez não demorou a captar para além dos ombros da noiva, se preocupando instantaneamente. E, sem muita certeza de suas próximas palavras, resolveu arriscá-las em um sussurro à Brittany.
— Me beija.
— O-o que?
— Você ouviu, Pierce... — Ela sentiu o rosto queimar, ao passo que tentava manter contato visual com a outra mulher. — Pra sua família não desconfiar. Só vem logo.
— C-certo.
Outra desculpa perfeita para ambas chegarem perto, de novo. Mesmo que involuntariamente, era isso que estava acontecendo. Nem adiantava tentarem negar o inegável... No instante, sequer pensavam em uma desculpa. Apenas deixaram seus corpos se encontrar e o que era para ser um mero selinho, transformou-se em um beijo de língua... As mãos da loira no rosto da morena, e as da morena no da loira. A vontade de permanecerem ali pela eternidade crescendo mais e mais. Lábios em total harmonia, guiados por um desejo sem igual.
Ao se afastarem, as noivas ficaram se fitando mais tempo que o necessário.
— Garotas, vamos logo com isso! — Susan chamou. — Deixem um pouco pra lua de mel, vocês terão tempo de sobra lá!
Ok, aquilo tinha sido engraçado. Elas não resistiram a fala da vovó Pierce e se acabaram de rir, encaminhando-se enfim a pista que jogariam. Não dava para manter a pose séria depois disso, o que foi ótimo para suavizar o clima.
— Foi mal, vovó. — Brittany se desculpou, olhando para a TV onde ficava o placar dos jogadores daquela pista. — Então... Parece que eu começo, né?
— Isso mesmo, Britt.
— Beleza, mãe. — A loira assentiu, pegando uma bola para arremessar. Provocou: — Veja e aprenda, Sannie.
Ela jogou a bola na pista e derrubou todos os pinos... Com exceção de unzinho, que permaneceu em pé para o seu azar, mesmo após a segunda jogada. Ainda assim recebeu palmas de James, Amélia e Susan, e não deixou de se orgulhar de sua pontuação. Afinal de contas, se a Lopez não tinha jogado boliche muitas vezes na vida, a probabilidade de fazer um strike de primeira não era muito, digamos que, palpável em sua visão... E mais uma vez quebrou a cara, porque foi exatamente o que aconteceu na vez de Santana. Ela derrubou todos os pinos de primeira, com excelência. E recebeu as merecidas palmas da família Pierce.
— Desculpa, coração... Mas, o que foi que você disse mesmo? — Santana devolveu a alfinetada. — Veja e aprenda? Pois é... Engraçado como as coisas são, né?
— Olha, mesmo sabendo que foi sorte de principiante, tô muito orgulhosa de você. Acredite, amor. Mas... Cê sabe, não vai ganhar tão fácil assim de mim. Eu meio que facilitei pra você errando aquele primeiro pino.
— Rá. Claro, claro.
Elas riram com a brincadeira e continuaram o jogo, mas ambas acabaram perdendo para Amélia que ficou em primeiro lugar, seguida das noivas (Santana na frente de Brittany, por um mísero ponto), Susan e James. Então os cinco decidiram que era uma ótima ideia dar uma pausa para comer e foi o que fizeram, sentando-se na parte de restaurante do estabelecimento e servindo-se de lanches saudáveis – alguns nem tanto.
Após a refeição, Susan e Amélia foram convocadas por um dos organizadores do casamento, que as ligou para comunicar um suposto problema com a decoração. Sem nem pestanejar, as mais velhas deixaram a pista de boliche correndo para poderem resolver. Assim, Santana e Brittany ficaram sozinhas com James por algum tempo. A dos olhos azuis ainda não estava totalmente bem com seu pai, mas a situação era muito melhor que há dois dias obviamente. Isso, até ela descobrir o motivo de tudo aquilo. O suposto “problema” com a decoração do casamento que Amélia e Susan foram resolver, não passava de uma mentira. James havia pagado um funcionário para tirá-las de lá, naquela determinada hora, porque pretendia abordar as garotas em particular.
— Quero ter uma conversa séria com vocês duas. — O Sr. Pierce começou, direcionando os olhos de uma para a outra. Estava de cara fechada, como no primeiro dia delas ali. — Sua avó e sua mãe jamais devem saber sobre isso, filha.
James ergueu o braço e chamou alguém com a mão. Logo Burt Hummel, o cara do serviço de imigração, se juntou a elas na mesa. O que diabos estava acontecendo? Brittany estava odiando e Santana com embrulho no estômago, muito provavelmente haviam descoberto tudo.
— Eu disse que investigaria vocês.
— O que você fez? — Brittany franziu as sobrancelhas, encarando o pai.
— Recebi uma ligação do Sr. Hummel e ele me disse que se estivessem mentindo, o que ele acredita firmemente que é o caso, ele te mandaria pra prisão Brittany. Eu jamais deixaria isso acontecer com você... Jamais. Por isso providenciei que ele viesse até aqui. Então, por favor, colabore conosco. Eu te imploro. É pro seu bem.
— Pai...
— Não precisa se apavorar, felizmente seu pai negociou um acordo em seu nome. — Burt esclareceu. — Agora, tal oferta só vai durar alguns segundos. Então, prestem muita atenção como vai funcionar. Você, Srta. Pierce, fará uma declaração admitindo que esse casamento é uma farsa ou vai pra prisão. E a Srta. Lopez volta pro México, simples assim. Falem a verdade e todo mundo sai ganhando.
Santana não foi capaz de dizer um “a” ao longo de toda a cena que se estendia em sua frente, estava pensando na imensa furada em que colocou a assistente. E a família dela de brinde. Eles não mereciam isso... Brittany não merecia isso. O coração da estrangeira batia tão rápido que era como se logo, logo fosse saltar da boca. Questão de segundos. Não sabia o que a Pierce iria responder ao agente de imigração, mas não a surpreenderia se a mais nova aceitasse o acordo. Era arriscado demais continuarem mentindo.
Ao contrário de sua chefe, tudo o que Brittany conseguia pensar era no absurdo que aquela cisma de James com Santana se tornou. Ela nunca deixaria a Lopez voltar para o México, se essa não era a vontade da mesma. Mesmo que a loira não sentisse nada por ela – o que não era o caso; Brittany não seria capaz de permitir que a morena fosse levada assim. Não. A resposta era não. Não, não e não. Quantas vezes fossem necessárias. Porque a verdade é que ela sentia sim muitas coisas por Santana, e embora não fosse tão recíproco na sua cabeça, isso não mudava o fato de que era real. Correndo o risco de cadeia e tudo. Mas, agora não era hora de pensar nessa parte. Se pensasse, já era.
— Aceite o acordo. — James pediu.
— Não...
— Não seja idiota, Brittany.
— Querem uma declaração? Ótimo... Eu dou uma à vocês. — Ela respirou fundo, possessa. — Trabalho pra Santana há quase três anos. Começamos a sair no início do ano passado, nos apaixonamos, eu pedi ela em casamento e ela aceitou. É isso. Vejo vocês no casamento.
Brittany se levantou da mesa e pegou na mão de Santana, levando-a consigo. Burt e James então trocaram alguns olhares, em silêncio. Quando as noivas saíram da pista de boliche para a calçada, continuaram andando até o porto e assim pararam ao lado do barco em que vieram, quietas.
— Então... Você tem certeza disso? — Santana quis saber.
— Não sei ao certo.
A Lopez balançou a cabeça, compreensiva. A situação não favorecia em nada.
— Olha, Brittany, eu agradeço muito o que tá fazendo. Mas, eu acho que...
— Você faria o mesmo por mim, não precisa agradecer. — Brittany a cortou em disparada, temendo aquele “mas”. Mexeu nos bolsos. — Enfim, acho melhor voltarmos pra casa. Minha mãe deixou a chave do barco comigo. Vamos?
— Mas, e sua família? Digo, a Amélia e a Susan... Não acha melhor a gente esperar as duas?
— Não tem necessidade. Meu pai tem um barco reserva aqui, e vai amar vir contando o porquê nós sumimos assim pra elas. Não sei o que ele esperava! Se eu ficar aqui mais um pouco vou acabar explodindo de verdade e eu não quero.
— Tudo bem, vamos.
Santana esticou a mão para adentrar o barco com auxílio de Brittany, e encarou-a preocupada. No entanto, o trajeto até a residência dos Pierce foi mais calma do que elas imaginavam. As feições da loira acabaram ficando mais leves com o decorrer do tempo, ainda mais quando reencontrou com o cãozinho da família, o Dino-Maravilha. Ele era a coisa mais fofa... Mesmo que o filhote não simpatizasse tanto assim com Santana. Não demorou muito para as noivas estarem dentro do casarão mais uma vez. A Pierce logo foi tomar um banho para relaxar depois de brincar um pouquinho com Dino e, quando ela terminou, sua chefe a imitou indo para baixo do chuveiro na sequência, pois também precisava de um banho depois daquela carga de emoções conflitantes.
Após se trocar, Santana retornou ao quarto e encarou Brittany sentada no chão sobre sua “cama” de cobertores e lençóis, com um controle de videogame em mãos. Dino estava dormindo ao lado de sua perna, como um anjinho – que não era. Ao notar a presença da editora, a mais nova abriu um largo sorriso. Parecia renovada.
— Você disse que nunca tinha jogado videogame... — A loira lembrou. — O que me diz, chefe? Pra tudo tem uma primeira vez.
— Tá certo. — Santana riu, se acomodando ao lado dela. Recebeu um controle e foi conectada ao player 2. — É só me dizer o que fazer.
— Deixa comigo.
As duas jogaram por um tempo, e mal ouviram os outros Pierce chegarem. Quando Santana derrotou Brittany pela sexta vez consecutiva no jogo, a loira contestou. Algo de errado não estava certo.
— Impossível você nunca ter jogado videogame antes!
— Tô dizendo, nunca joguei. — A morena se divertiu com a falsa revolta da noiva, e continuou as provocações. — Sinto lhe informar, Pierce, mas vai ver você é muito ruim e só descobriu agora.
— Retira o que você disse!
— Não mesmo...
— Re-ti-ra.
Brittany inclinou-se inconscientemente para mais perto de Santana, e elas sentiram a gravidade as puxar como um imã na mesma direção. Não era a primeira vez que acontecia... Nem seria a última. Quando estavam prestes a se beijar outra vez naquele dia, Susan bateu na porta e já foi a abrindo com tudo, sem ao menos perguntar se podia entrar, o que quebrou totalmente o clima das mulheres. Ou melhor, a explícita tensão sexual.
— Espero que as bonitas estejam de roupa. — A vovó Pierce disse bem humorada, entrando com uma mão sobre os olhos. — Posso abrir ou cheguei numa hora ruim?
— Não, tá tudo bem... — Brittany engoliu a seco, meio tímida com a supressa inesperada e se afastou ao mesmo tempo que Santana, sem saber muito bem para onde ir ou o que fazer. — Pode abrir os olhos, vovó.
“Aw, aw... Aw!”
— Ótimo. — Susan assim o fez, sorridente, e foi caminhando até a neta. Pegou Dino num braço, e puxou Brittany com outro. — Venha querida, hoje você dorme no outro quarto. Amanhã é o grande dia e vocês precisam dar um descanso pra manta afrodisíaca na véspera do casório. É a tradição. Dê um beijo de boa noite na sua noiva e vamos logo.
— A gente não ia usar a manta... — Santana tentou dizer, mas foi interrompida.
— Sei, sei. Eu não nasci ontem, não... Vocês têm a vida toda pra ficarem juntas. Sem drama. Boa noite, Santana querida.
— Boa noite...
— Venha logo Brittany, não estou pedindo. Estou mandando.
— Eu sei, vovó. Tô indo. — Brittany depositou um beijo na bochecha da latina e desejou uma “boa noite” enquanto se levantava, sendo arrastada pela Pierce mais velha para fora do quarto. Antes de sair, desligou o videogame e voltou a fitar a noiva pela última vez na noite. — Te vejo amanhã?
— Sim.
Amélia apareceu no quarto também para dizer boa noite para Santana, enquanto Brittany e Susan saiam do cômodo. Em questão de poucos minutos, ambas estavam prontas para dormir... Cada qual num quarto e cama diferente. O casamento estava logo ali, mais próximo que nunca. Suas mentes sem nenhum descanso, trabalhando mil possibilidades diferentes. Fracassos, vitórias. Não era tão fácil assim ser otimista. Não nas devidas circunstâncias.
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