The Proposal

8 Capítulo 8 - Conflitos


Chego em casa com raiva, seguro firme a maçaneta da porta antes de entrar, comprimo meus olhos e me questiono o que eu teria feito para que ele agisse daquela forma conosco. Logo percebo que já estou a alguns segundos ali parado lado de fora, o que eu estou fazendo? Porque estou desse jeito com alguém que mal conheço? Seria isso amor? Eu não sei. Entro em casa quase me arrastando, tranco a porta e assim que vou em direção ao banheiro para me acalmar com um banho recebo uma mensagem dele.

Hayato

Como é que você está?

Porque você me deixou só lá?

Ele agia e falava como se não tivesse feito nada demais, e era isso que mais me surpreendia, era como se eu tivesse feito algo e estivesse sendo punido por isso. E agora ele espera que eu me arrependa de algo que eu nem sei o que é.

Hayato

Precisamos conversar.

Lembra que tínhamos um jantar marcado para hoje?

Podemos conversar a respeito

Eu tentava muito o ignorar, quando percebi que aquela era uma metade de sábado, eu precisava aproveitar, pois a semana já tinha sido a mesma, e eu só queria alguém para conversar a respeito das coisas. Talvez um conselho, um ombro amigo, ser ouvido.

O Kira me faz falta, não sei o que ele está fazendo. Logo que o meu celular toca, estou preparado para gritar com Hayato para parar de me perturbar, mas percebo que não é ele me ligando, e sim minha mãe. As pessoas às vezes falam que a mãe sente quando o seu filho está se sentindo mal, eu não acredito muito nisso, soou mais como uma coincidência do que sexto sentido, enfim. Eu atendo.

— Alô?

— Oi filho, faz tempo que não sei de notícias suas. Como você está?

Ela tem razão, já fazia tempos desde que cheguei de viagem, quando a vi pela última vez, nem liguei para avisar que cheguei bem, ela deve estar preocupada. Me pergunto se sou um bom filho e às vezes com essas ações vem uma leve afirmação que eu não esteja sendo.

Suspiro profundamente bagunçando meu cabelo. — Mãe desculpa não ter ligado até agora, eu estive bastante ocupado nesses últimos dias, nas últimas semanas, na verdade desde que saí daí. Sinto muito por não ter falado nada nem ter dado sinal de vida.

— Calma filho, eu entendo, tente não se esforçar demais, eu e seu pai te amamos tanto, eu espero que esteja bem e se alimentando também. Nesse festival que passou lembramos muito de você, fiz seu prato favorito “Sakura Obentô”, foi uma forma de te manter perto.

Aos poucos só me foi dando um leve aperto no peito, a saudade estava batendo e eu precisava de uma abraço dela embora não demonstrasse nada disso. Quando menos espero meus olhos agem por vontade própria e esvai algumas lágrimas, tento enxugar. Minha voz está meio tremida também, tento não transparecer para que não a preocupe.

— Deve ter sido tão bom, gostaria de ter estado com vocês. — digo com a voz rouca.

Mas do nada ela me diz algo que me deixa aliviado, como se ela soubesse o que estou passando.

— Independente do que esteja fazendo, eu sei que não está fazendo nada errado, siga sua felicidade, seja feliz, já tenho orgulho o suficiente de você. Por mais que esteja sendo difícil, você é muito corajoso, dê seu melhor e tudo vai se resolver.

Naquele momento eu senti uma calma, como se ela estivesse ali me dizendo tudo aquilo. Depois daquilo eu não tinha mais medo, não estava mais mal. E sabia que precisava saber do porquê Hayato ter se comportado daquela forma. Então assim que ela terminou eu a agradeci imensamente e fiquei muito feliz por ter recebido sua ligação. Pois agora tinha que resolver algo. Mas nada sério e que estava tudo bem. Então finalizei a ligação dizendo.

— Mãe, muito obrigado por isso, logo estarei voltando para visitar vocês, amo muito você. Agora eu preciso ir, vou ficar bem, até depois.

Então assim desligo o celular e vejo as ligações de Hayato. Logo eu respondo uma mensagem dele.

Kemi

Às 20:00h eu apareço por aí, iremos conversar e jantar.

Até lá.

Ele visualiza e não me responde, entendo aquilo como um sim. Então vou me arrumar para ir, mas como ainda é cedo, eu vou podar as plantas, e passar um pano na casa depois de varrer. Me ocupando bastante durante a limpeza da casa, o tempo vai se passando, e vou logo me organizar para ficar logo pronto.

A hora de ir se aproxima.

Estou pronto, o aviso que estou indo. Logo eu chego em sua residência. Assim que vou batendo na porta já sou nocauteado pelo aroma de sua comida, como pode cozinhar tão bem? Toco a campainha, ele me atende.

— Oi.

— Oi.

— Vamos entrar? — Hayato perguntando se aproximando de mim.

— Sim, por favor.

Ele me dá um abraço, bem espontâneo eu diria, mas não algo romantizado, e sim como se estivesse comprimentando um conhecido, ele parece estar melhor, seu comportamente mudou. Me parece um pouco envergonhado. O que eu acho que não é muito seu feitio. Talvez ele tenha se arrependido do que fez ou eu não o conheça, até porque não sei tanta coisa assim. E ele o mesmo de mim, ele me pede para esperar na sala, assim o faço.

Então ele sai pelo corredor, minutos depois ele volta, então me pergunta se estou com fome, pois ele tinha preparado o jantar especialmente para mim. Será que está tentando me impressionar? Por mais que esteja com a comida, talvez ele consiga, mas quero esclarecer tudo que tem para ser esclarecido, eu preciso disso, preciso saber o que foi aquilo, que comportamento foi aquele mais cedo. Pois aquilo me confundia muito, desde que Hina se abriu comigo me fez perceber que eu não noto muita coisa, e talvez essa tenha sido uma das coisas que eu não tenha entendido tão bem e não prestado atenção.

Hayato interrompe meus pensamentos perguntando. — Está tudo bem?

— Ah, sim.

Ele me pergunta por eu estar meio calado enquanto me leva em direção a cozinha. Quando eu chego lá me surpreendo como sempre, aquilo tudo é incrível, por poucos segundos eu fico apenas com o olho bem aberto demonstrando surpresa com tudo aquilo.

—Isso tudo é para mim? — pergunto maravilhado.

— Claro que é, como eu havia prometido anteriormente.

— Eu não sei nem o que dizer.

Hayato sorriu para mim. — Sua expressão já diz tudo, e me parece boa.

— Pelo visto não consigo disfarçar, acho que sou muito transparente. — falei sentindo meu rosto esquentar.

— Podemos?

Então ele me senta à mesa. Tem de tudo um pouco ali, e tudo feito por ele, tem porco, sushi, onigiri, guioza, tempurá, e no centro um porco que brilhava de tão crocante que parecia. Aquilo estava me ganhando de uma forma que não conseguia pensar em mais nada a não ser experimentar tudo aquilo. Mas eu não posso me desviar muito, eu tenho que conversar com ele. Então enquanto corta um pedaço para me servir eu o pergunto.

— Sabe, Hayato. O que foi aquilo mais cedo, porque você agiu daquela forma comigo na frente do Yuto?

— Então o nome dele é Yuto? — Hayato rebate parecendo sarcástico.

Ele não parecia mais tão agradável, só em saber o nome do novo contratado da loja.

— É sim, ele vai começar a trabalhar comigo na loja, ele é sobrinho do Sr. Toso. Que por sinal me pediu para o treinar, pois ele tinha acabado de começar a trabalhar naquela semana, eu estava tão cheio de coisa e tinha acontecido tantas outras que havia esquecido que ele tinha mencionado, mas não sabia que era seu sobrinho. — expliquei encarando seriamente Hayato e absorvendo todas suas reações. — Estamos precisando de ajuda na loja desde o último evento que teve, as vendas aumentaram muito e como eu só trabalho a tarde, ele precisa de ajuda para suprir a demanda das vendas. Ele é uma pessoa mais velha, então fico feliz que ele tenha encontrado alguém que tenha responsabilidade com a loja, principalmente por ser seu sobrinho. Ele vai ter um cuidado ainda maior.

Hayato concordou com a cabeça mas não me encarava mais. — Entendi, mas… o que você sente por ele?

Eu o encarei sem entender. — Como assim? Eu nem o conheço, literalmente. Como eu disse, eu estava passando o que eu sei para que ele não fique tão perdido e não se atrapalhe com as vendas da loja.

— Não me parecia, ele estava muito em cima de você e você parecia estar gostando. — Hayato afirmou com desdém.

— Continuo sem entender, ele estava provavelmente me agradecendo por eu estar tirando do meu tempo para o ajudar.

— Passando a mão em você? — Hayato perguntou brutamente.

— O que você acha que aconteceu? — o pergunto confuso.

— O que eu vi foi um estranho passando a mão no meu… — Hayato se interrompe com um bufo.

— Seu o que? Você poderia por favor ser direto, eu ainda continuo sem entender.

— O que você acha que nós somos?

— Eu também gostaria de saber isso, porque eu não sei o que eu e você somos. Não sei o que você quer de mim, de uma entrevista de estágio se tornou isso, que eu nem sei o que é. E nunca recebi um E-mail, ligação, nada para que eu tenha esse tal “estágio”. Então por favor, me diga o que foi aquele comportamento, e o que você está tentando me dizer, porque claramente eu deva ser muito desprovido de neurônios que me façam entender as situações recorrentes que me vem acontecendo nesses últimos meses. — falei aproveitando para beber um pouco de água.

Hayato me encarou segurando minha mão. — Eu já disse uma vez e vou dizer de novo, eu te amo.

Eu afasto minhas mãos das suas. — Não me vem com essa. Como você pode amar alguém assim que nunca viu, não sabe como eu sou realmente, não sabemos tanta coisa assim um do outro. Como isso é possível?

Hayato suspira sentando reto na cadeira. — Primeiro, sim, concordo que não nos conhecemos tão bem assim, mas isso pode ser resolvido com o tempo. E não, não sei dizer porque eu amo você, só sei que aconteceu. Eu não mando nos meus sentimentos.

Eu vou conversar com ele, mas não perco tempo e vou comendo tudo aquilo que posso, eu não ia desperdiçar comida e principalmente daquele jeito, tão deliciosa.

— Então o que vamos fazer? — o perguntei entre uma garfada e outra.

Hayato afasta os talheres e me encara. — O que você sente por mim?

— Eu não sei dizer, mas sim eu sinto algo por…

Digo isso e me vem uma vergonha, eu fico meio sem jeito, eu nunca havia sentido algo parecido por ninguém, e ele é uma pessoa que fez parte de apenas cinco por cento da minha vida. Como isso é possível?

— Então vamos dar esse tempo para nos conhecer melhor? — pergunto.

Hayato concorda. — Eu iria gostar muito disso.

— Mas porque você agiu daquela forma mais cedo na frente do Yuto?

Hayato suspira desviando o olhar. — Vocês pareciam ter algo, então acho que fiquei com raiva e um pouco de ciúmes talvez. Quando me dei conta eu já tinha me irritado e segurado você.

— Eu não sinto nada por ele, eu não o vejo assim dessa forma, não sei porque pensou algo desse tipo. E eu tenho certeza que ele me vê do mesmo jeito, pois como eu já havia dito, não o conheço a muito tempo e só estava ajudando para que se adapte logo e ser sobrinho do meu chefe.

Hayato resmungou. — Não foi isso que eu vi dele.

— Eu na minha antiga cidade não tinha muitos amigos, não tinha um olhar romântico para ninguém. Eu só queria pintar e ler mangas, conversar sobre qualquer coisa.

Quando lembro disso, me vem à mente a Hina mais uma vez. Aquilo ainda me consome muito. Então fico meio receoso e ele percebe minha cara de desânimo.

— Aconteceu alguma coisa? Mudou de repente.

Eu gaguejo tentando mudar de assunto. — N… não é nada, então, estamos esclarecidos? Vamos nos conhecer melhor e ver no que vai dar.

Hayato sorri. — Sim, e eu quero isso.

Enquanto vou terminando a conversa com ele escuto um batido que vem lá de cima, como se tivesse alguém em casa, me assusto quase me engasgo com o onigiri. Tomo um pouco de água para me recompor.

— Tem mais alguém aqui? — pergunto.

— Ah sim, meu irmão, ele finalmente está em casa, daqui a pouco ele desce, deve esta apenas terminando de trabalhar, ele se esforça muito. — Hayato diz olhando para cima esperando o irmão aparecer. — Desde que éramos pequenos, ele nunca teve tempo para aproveitar a vida e eu me preocupo um pouco com isso.

Achei muito bonito a forma como ele se refere ao seu irmão, sinto como se o visse de verdade quando fala dele. Talvez seja uma impressão minha. Eu escuto alguns passos.

— Ele está descendo. — Hayato avisa.

— Tori, você viu minha pasta com os dados da empresa?

Quando me viro e percebo, eu fico sem acreditar no que estou vendo. Eu tento me certificar que meus olhos estão realmente vendo aquilo ou seria um delício, um devaneio da minha mente me pregando uma peça. Eu estou em estado de choque, como isso pode estar acontecendo comigo? Como isso pode estar acontecendo? Será o destino tentando me pregar uma peça?