The Proposal

2 Capítulo 2 - Lembranças


POV KEMI

Um feriado está se aproximando, e eu estou me organizando para ir visitar meus pais, que já não os via presencialmente a muito tempo. Então fui logo para casa me preparar para que nada desse errado.

Chegando lá, eu fui como sempre bem recebido por ambos, meu pai como sempre falando da minha altura, que eu não cresço mais, isso me deixa tão fora de mim. Pois eu gostaria de ser mais alto, mas um dia quem sabe, talvez numa próxima reencarnação.

Minha mãe me mimando como sempre,dizendo que não estou me alimentando como eu deveria, eu deixo pois vejo o carinho que ela coloca nas coisas que faz, mas mesmo assim eu reclamo. Digo para não se preocuparem e que eu estou me cuidando bem.

Eu subo e vou ver como está meu quarto, e fico impressionado que nada está fora do lugar, está tudo como eu deixei no dia em que saí. Aquilo me dá uma nostalgia, um conforto tão grande em saber que eu posso voltar e encontrar aquilo tudo, me reconectar novamente comigo mesmo. Com meu eu mais jovem. Vejo meus desenhos antigos, meu Deus, como eu desenhava assim? Pera, não mudou muita coisa. Será que eu estou fazendo faculdade direito? Fica aí o questionamento.

Quando eu olhando tudo me deparo com o Flopi, meu ursinho que eu carregava para todos os lados, ele ainda possui o mesmo cheiro de quando me lembro. Nossa, aquilo é forte, aquele sentimento me revira, me emociono. Mas logo minha mãe me chama e me tira desse sentimento profundo e antigo que eu nem sabia que ainda carregava aquilo.

Eu tomo um banho e desço, quando me deparo com aquela mesa repleta de tudo o que eu lembrava e gostava quando era mais novo. Minha mãe sabia cozinhar como ninguém, e aquilo me aquecia, aquilo me deixava extasiado. Nós comemos, conversamos sobre a vida, foram me lembrando de momentos ainda mais antigos, uns que eu nem sequer sabia, mas claro, eu era muito novo. Que eu pintava sempre o meu quarto, eu não queria saber de pintar em papel, só queria pintar as paredes, então sempre tinham que pintar tudo, quase todo o mês, até que eu parei de fazer isso e passei a usar as folhas. Eles não sabem se eu cansei de pintar ali por dar muito trabalho ou porque me bateu remorso.

Depois de todo aquele momento eu subi para descansar.

No outro dia eu saí para visitar uma velha amiga, minha mãe mandou mandar um beijo para ela. Essa minha amiga nunca saiu da cidade, mas por pensar que ali era seu lugar e não queria se desfazer de nada daquilo, a Hina, ela estava a mesma coisa que me lembro, porém bastante diferente, seu corpo, seu cabelo, seu comportamento, ela amadureceu tanto esse tempo todo. Ela era e não ao mesmo tempo, a mesma pessoa. Mas quando ela me viu, disse que eu não havia mudado nada, até mesmo com o tamanho, pois ela era poucos centímetros maior que eu.

Nossa, aquilo me derrubou de um jeito, nitidamente fiquei travado sem reação de fala, mas ela logo conseguiu descontrair a conversa, ela soube bem quebrar o gelo, perguntou como estava minha faculdade, se eu tinha conseguido encontrar alguém bacana que fosse gentil comigo. Eu claramente falei que não, ela meio que pediu para não mentir para ela, eu não entendi muito bem aquela atmosfera. Pois havia mudado rapidamente, mas, mais uma vez ela contornou a situação.

Nós acabamos indo no café que costumávamos ir e conversar muito nos finais de semana, falávamos sobre mangás, jogos e derivados. Rimos a noite toda ali, me ativando mais ainda minhas lembranças de infância, ela pediu o de sempre, comemos e logo depois ela disse que gostaria de dar uma volta no parque. Eu obviamente aceitei, fazia tempos que eu não visitava tudo aquilo, então fomos.

Chegando lá não tem quase ninguém no ambiente, já era meio tarde, ela se vira e pergunta.

— Você gosta disso?

Eu não entendi nada do que ela estava falando, não entendi o que ela estava se referindo. Então eu perguntei.

— Disso o que?

— De me machucar. — ela responde.

Passou diversas coisas em minha cabeça no momento, eu não estava entendendo absolutamente nada, o que ela queria dizer tudo aquilo?

— Porque você pergunta isso? — pergunto confuso com todo aquele questionamento.

— Não faça isso, não finja que não sabe do que eu estou falando. — pede firme enquanto vejo suas mãos tremerem.

Eu dou uns passos para trás e questiono a mim mesmo, o que eu fiz? Será que eu não lembro de ter magoado? O que está acontecendo aqui?

— Hina por favor me fala, o que eu fiz para você para te deixar assim? — eu suplico encarando ela.

— EU TE AMO. — ela grita em prantos. — Você nunca percebeu? A forma que eu te tratei a minha vida toda, o tempo que passamos juntos, tudo aquilo que conversava com você sobre mangás e jogos, eu nunca gostei de nada daquilo, foi sempre por sua causa, você quem alimentava aquele conversa e eu continuava com esperança de você olhar para mim de uma forma diferente, mas… — ela desvia o olhar de mim enquanto seus olhos se enchem de lágrimas. — Nunca olhou não é mesmo? Você sempre me viu como uma grande amiga num é verdade? Eu sou muito tola de achar que poderia ter você, eu sempre pensei, sempre sonhei que você um dia voltaria para cá e que passaríamos o resto da vida juntos, que você diria que me ama, mas nunca me amou desse jeito, me dói tanto, olhar para tudo isso e ver que eu vivi esse tempo todo como uma sombra sua, como um cachorrinho que espera seu dono, isso é insustentável. Eu simplesmente não aguento mais isso. — suspirou chorando mais forte. O silêncio parecia cada vez mais opressor e eu não sabia o que dizer. Ela levanta o olhar magoada e grita. — FALA ALGUMA COISA, QUALQUER COISA.

Eu simplesmente não consigo reagir a isso, é como se cada palavra que emitisse de sua boca fosse um disparo de dardos paralisantes em meu corpo. Eu só não sei o que fazer com isso, enquanto ela grita e chora ao mesmo tempo, me fazendo questionamentos que eu sequer tinha conhecimento. Foi uma noite torturante para mim, era como se o tempo estivesse congelado naquele momento e eu estivesse vivendo aquilo eternamente . Eu não sabia o que responder a ela, pois eu não tinha conhecimento sobre nada daquilo. Como alguém espera e guarda esse sentimento por tanto tempo? O quanto ela não deveria estar sofrendo calada com isso.

— Eu sou uma tola né? Você não tem culpa disso, você sempre foi tão gentil comigo, você me mostrou que a vida é mais do que a ela realmente é, e eu vivi em torno dessa idéia, eu só não aguento mais, eu queria tanto que nós dessemos certo, mas eu não posso prender você a mim. Pois no início eu iria estar no paraíso, depois no inferno, pois só seria eu em meio a isso tudo, enquanto você estaria lá como uma casca vazia sofrendo calado, como um boneco sendo aprisionado, e eu sei que eu não quero isso para você.

Ela suspirou tristemente enquanto enxugava as lágrimas do rosto.

— Acho que está na hora de ir, por favor, não me abrace, não me olhe só vai embora sem falar nada. Não suportaria deixar você ouvindo você, abraçando, segurando sua mão, sentindo seu cheiro, seria um pesadelo ainda maior, então se gosta de mim e me respeita como amiga, só vai. Eu preciso desse tempo.

Eu só a respeitei, não sabia também como agir, então saí correndo enquanto eu a ouvia gritar, VAI LOGO, chorando no processo.

Eu não sei porque aquilo estava acontecendo, tava tudo tão bem, porque eu a machuquei daquela forma? Como eu não percebi nada daquilo? Eu sou um monstro, eu nunca irei me perdoar por isso, nunca. Na volta para casa eu nem falei com meus pais, fui logo para o quarto chorar, eu quando começo não paro tão facilmente, não gosto que ninguém me veja naquele estado, então foi ali que eu desabei, perdido em meus pensamentos me perguntando sempre o que eu tinha feito. Querendo ir embora dali e voltar para Tóquio, me ocupar, aquilo tinha dado uma enorme chacoalhada em mim mesmo.

No dia seguinte, eu não desci, meus pais sabiam que tinha algo de errado, eu pedi um tempo para organizar minha cabeça. Eles entenderam, no dia seguinte eu desci, conversei com eles, não sobre o motivo em si, mas que tinha acontecido algo entre eu e a Kira, pois a forma que eu cheguei em casa a dois dias atrás, foi por conta disso. Passou Se às férias, eu voltei finalmente para Tóquio, agradeci o máximo aos meus pais, e a força que eles haviam me dado perante a tudo. Então segui firme, voltando ao apartamento em Tóquio, fui arrumar tudo, as malas, recolher minhas flores que já estavam murchas, trocar água, limpar a casa, me ocupei bastante, até porque faltava poucos dias para voltar a minha rotina diária então eu não poderia descansar agora. Tinha coisas importantes para fazer.