The Princess
5 5 – Home
Notas iniciais
As semanas começaram a passar a uma velocidade alarmante e, com elas, um forte laço entre a humana atrevida e teimoso deus tornou-se cada vez mais evidente, podendo ser visto facilmente por qualquer um que observasse do lado de fora. Crystal se tornara, estranhamente, o pequeno ponto de luz que o trapaceiro parecia não conseguir viver sem, e isso deixou Frigga mais do que satisfeita, assim como Odin, que não havia acreditado nas palavras da loira quando a mesma afirmara que conseguiria encontrar o caminho para tornar Loki alguém digno. Ou, ao menos, o mais digno que um antigo vilão poderia se tornar.
A garota passeava pelo castelo um tanto distraída, afinal, o dia seguinte seria seu aniversário e não contara a ninguém sobre aquilo. Não era uma coisa que gostava, então não achava que deveria sair espalhando tal informação por aí como se orgulhasse a si mesma, por que não a orgulhava. Ela repudiava aquela data, por mais que fosse o dia em que nascera.
Ainda estava divagando quando avistou Lady Sif, a única mulher além de si própria que acompanhava os homens em suas batalhas e não os desapontavam. Nunca parou para conversar com a morena, mas ela sempre lhe pareceu uma boa pessoa, mesmo que Loki sempre diga coisas ruins sobre a “guerreira que deseja o que não pode ter”. Crys ainda não sabia o que ele queria dizer com aquela frase e, para ser sincera consigo mesma, nem desejava.
— Boa tarde, Sif. — A cumprimentou assim que os olhos cinzentos da mesma pousaram nela, que sorriu para ser simpática. — Você parece distante... Aconteceu algo?
Soltando um suspiro, a guerreira olhou para ambos os lados antes de se concentrar na loira e seus orbes escuros exalando uma curiosidade quase infantil. Com isso, Lady Sif hesitou, afinal, a princesa à sua frente era a pessoa conectada intimamente com o deus da trapaça. E se ela fosse tão confiável quanto aquele que já traíra tantas vezes a própria casa?
— Nada, somente estou com coisas demais em mente. — Respondeu simplesmente, transmitindo um sorriso tão sem graça à outra que Crystal foi obrigada a arquear a sobrancelha por ter percebido a grande mentira naquela curta frase. — Se puder me dar licença... — A morena estava prestes a se afastar, pois a única coisa que poderia fazer no momento era evitar conversas sobre aquele assunto para que, deste modo, possa tentar aquietar seu coração, mas a midgardiana fez uma pergunta que a fez estacar em seu lugar.
— Quem é ele? — Sif parou por um momento, assimilando aquelas três palavras com mais dificuldade do que de fato deveria. — Você está nervosa e distante demais para o meu gosto, mas meu faro não me engana, então... Quem é o cara?
Crys cruzou os braços contra o peito e esperou pacientemente a resposta da outra, que parecia bem inclinada a se esquivar de tal pergunta e sair apressada dali por se sentir desconfortável demais para comentar sobre isso.
— Não acho que seja necessário... — A loira arqueou sua sobrancelha, continuando a colocar o peso de seu olhar sobre a guerreira, que soltou um longo e exasperado suspiro. — Thor não esquece aquela midgardiana. Está sempre se lembrando dela, perguntando sobre ela a Heimdall... Nunca vendo o que está bem em frente aos seus olhos. — E desviou seu olhar da princesa, estressada demais com aquele fato para pensar em qualquer outra coisa.
— Nossa... Agora entendi o que Loki tanto fala. — Crystal murmurou pensativa, trazendo o olhar fulminante de Sif para si, mas ela não ficou nem um pouco amedrontada com isso, apenas abriu um sorriso de pleno conhecimento. — Há quanto tempo é apaixonada por ele?
Abraçando seu próprio corpo, a morena sacudiu a cabeça.
— Não tenho ideia, apenas... Sei que o quero. Sei que me importo com ele, que quero seu bem e que... — Ela suspirou em tom baixo, passando a mão por sua nuca antes de sorrir de leve. — Que o desejo mais do que pode sequer imaginar.
Involuntariamente, o trapaceiro veio de súbito à mente da loira, porém, Crys sacudiu a cabeça com discrição, não querendo tais pensamentos rondando-a enquanto se concentra nos problemas da outra. Precisava de foco – pelo menos, naquele instante.
— Uou! E eu pensando que odiar meu aniversário era algo ruim. — Comentou com uma leve careta presente em sua face, atraindo o olhar curioso da guerreira para si. — O dia que nasci é amanhã. — Explicou, sendo a vez dela de ficar desconfortável diante da conversa. — Não o comemoro desde os dez anos, pois foi a primeira vez que minha mãe o esqueceu, deixando-o passar em branco para nosso reino. As poucas pessoas que lembraram me deram presentes, mas nunca foi a mesma coisa do que ter uma festa como a dos meus irmãos e ser o centro das atenções naquele dia específico. — Sacudindo a cabeça, ela encolheu seus ombros, parecendo sentir o peso de algo invisível sobre eles, embora não soubesse exatamente qual era.
— Ser esquecida é a pior coisa que pode ocorrer a qualquer um. — Murmurou Lady Sif em tom baixo, aproximando-se da midgardiana e pousando a mão no ombro dela antes de sorrir suavemente, destacando a beleza da guerreira de uma forma indescritível. — Por que não conta a Frigga? Tenho certeza que ela não se recusaria em comemorar o dia de seu nascimento. Se sentiria mais que honrada por realizá-lo, afinal, está ajudando seu filho a ser alguém digno!
Crystal se afastou do toque da guerreira, negando com a cabeça e sentindo-se estranhamente exposta por estar conversando algo como aquilo logo com Sif. Era como se todas as coisas ruins retornassem, porém, ela não queria que sua mente voltasse a ficar enevoada com seus diversos problemas, então apenas começou a recuar.
— Sinto muito, eu... Não posso. Desculpe. — Sussurrou antes de se virar, saindo correndo o mais rápido que conseguiu e sem encarar nada do que havia em sua volta, pouco se importando caso atraísse alguma atenção. Ela somente parou quando encontrou um lugar no castelo que ninguém a perturbaria, muito menos a encontraria no estado em que se encontrava e, encostando-se a parede mais próxima, a garota escorregou até o chão, fechando seus olhos apertados. — Eu não sou amaldiçoada. — Repetiu para si mesma, se contendo ao máximo para não derramar uma única lágrima por causa das coisas que sua família já fizera consigo.
Crystal foi ignorada, esquecida e quase deserdada. As únicas coisas que carregava deles era um sobrenome que não servia para porra nenhuma e uma mágoa que cresceu conforme o tempo foi passando, tornando-a a pessoa que ela era agora. Trincando os dentes, a loira começou a massagear seu peito enquanto o pânico tomava sua mente depois de tantos anos.
Como não sabia nenhuma forma de fazer aquilo passar, a princesa apenas se encolheu o melhor que pôde, inspirando e expirando por um tempo que pareceu demorar uma eternidade para passar, então Crys apenas ficou lá, quieta naquele cantinho.
Ela só esperava que se tornasse apresentável o suficiente para comparecer ao jantar.
∞∞∞
Loki adquiriu o mesmo costume de seu irmão: ir quase todas as noites conversar com Heimdall e admirar as estrelas, que pareciam ficar cada vez mais interessantes conforme o tempo ia passando.
Assim que adentrou o local em que o guardião observava as estrelas, ele parou ao lado do mesmo e admirou a luz dos pontos brancos e brilhantes em contraste com aquela imensidão que era o Universo, fazendo-o divagar por alguns segundos antes encarar o moreno ao seu lado, que parecia mais sério que o habitual.
— Algum problema, Heimdall? — Questionou o deus da trapaça, logo atraindo os orbes grandes e dourados para si, que estavam transparecendo certa irritação, emoção que raramente havia vislumbrado no homem. Loki ficou sério de imediato. — O que aconteceu?!
— Como alguém pode ser tão má com o próprio sangue? — Soltou em um tom que mais parecia um rosnado, apertando com força o cabo de sua espada. — Crystal era apenas uma criança! Eles tinham a obrigação de amá-la e cuidá-la da maneira que era devido, e não traumatizá-la a ponto dela não comemorar o próprio aniversário! — Isso fez o trapaceiro ficar imerso em pensamentos por alguns segundos antes algo lhe tomar. Uma raiva tão grande que quase consumiu sua sanidade.
— Onde ela está? — Soltou repentinamente, não entendo muito bem o que estava se passando consigo, mas naquele instante, a última coisa que ele desejava era pensar. — Heimdall, onde ela está?! — Perguntou novamente, e sua pouca paciência fora notada pelo outro.
— Crystal está se encaminhando para o salão, quer jantar com sua família. Aparentemente, está tentando deixar a impressão de estar bem para não preocupar ninguém, a não ser si própria. — Revelou o guardião, aparentemente distante. — Se apressar o passo, a alcançará antes de adentrá-lo.
Antes mesmo de Heimdall terminar sua frase, Loki se encontrava do lado de fora, andando a passos rápidos e decididos em direção ao castelo. Ainda não compreendia muito bem aquela urgência em ver se a midgardiana que tanto o infortunava estava bem e, por mais que tentasse procurar uma justificativa em si mesmo, ele não conseguia encontrar. Sabia, lá no fundo, que Crystal se tornara especial em sua vida. Que ela estava mais do que disposta a ajudá-lo no que fosse necessário para que pudesse ter uma vida no mínimo agradável, sem que se culpasse por coisas que não poderia reverter. E a garota estava tendo sucesso, em certa parte.
Ao passar pela entrada, o deus começou a se encaminhar ao salão, contudo, antes de ao menos alcançá-lo, Lady Sif surgiu em seu campo de visão, logo andando até ele, como se houvesse algo que Loki necessitasse saber antes de qualquer outra coisa.
— Preciso falar com você. — A morena proferiu assim que se encontrou em frente ao trapaceiro. Sif encontrava-se com trajes ligeiramente diferentes de quando saía para acompanhar Thor em suas batalhas. — Conversei com Crystal mais cedo e você não tem ideia da angústia que ela carrega com relação à própria existência. A garota parece ter medo do dia que deveria ser totalmente dela, tanto que não contou a ninguém que o dia em questão é amanhã.
As palavras da guerreira o fizeram pensar com certa rapidez, acabando por ter uma ideia que o fez abrir um sorriso quase vitorioso surgir em seus lábios. Lady Sif ergueu a sobrancelha, examinando-o por alguns instantes antes de perceber que o moreno havia pensado em algo, só não sabia dizer se era algo bom ou ruim.
— Acho que tenho uma forma de reverter isso. — Declarou, mais parecendo falar consigo mesmo ao invés de com a mulher à sua frente. — Se é um novo ponto de vista de que ela precisa, é exatamente o que terá. — A morena ficara curiosa de imediato, no entanto, não perguntou absolutamente nada, nem o trapaceiro lhe deu oportunidade para tal ato.
Ele afastou-se da guerreira exalando expectativa e, assim que visualizou a mesma, como também todos que ali estava, seus olhos procuraram por Crystal, não demorando muito para encontrá-la ao lado de sua mãe trajando um vestido verde musgo com diversos detalhes na parte de cima que o deixou um tanto impressionado. A loira havia utilizado presilhas em um tom de verde mais claro para ajeitar seu penteado, que era uma trança muito bem feita que começava no lado direito e terminava no lado oposto, ficando sobre seu ombro.
O deus ficou mais tempo que o previsto admirando-a, apenas dando-se de conta que estava parado a olhando quando Crys ergueu seus olhos escuros em sua direção, logo arqueando a sobrancelha em questionamento mudo. Loki apenas sorriu em retorno, fazendo-a estreitar os olhos de leve, afinal, ela sabia que não era costumeiro do trapaceiro sorrir daquela forma. Principalmente em sua direção.
O jantar passou de forma tranquila e leve, com o deus sempre observando Crystal com discrição, que parecia distante o bastante para se tornar um tanto deslocada daquele ambiente. A princesa revelava suas emoções facilmente, fato que Loki concluiu conforme convivia com Crys. Ela era uma garota muito transparente, o que, para as coisas que estava planejando, era algo ótimo.
Assim que a viu se erguer da mesa no momento em que todos estavam distraídos com uma das antigas histórias heroicas de Odin, O trapaceiro tornou-se alerta, vendo-a se dirigir ao lugar com a melhor vista do castelo – ou, naquele caso, a segunda melhor. Esperou o momento correto para ir até ela sem chamar atenção, algo que pareceu conseguir depois de algum tempo, aproximando-se de onde a midgardiana encarava o que estava em frente aos seus olhos sem realmente ver.
Cuidando para não assustá-la e acabar derrubando-a daquele parapeito, ele soltou um pigarro discreto antes de se posicionar no lado oposto, fingindo olhar para o mesmo ponto que Crystal. Só deu errado pelo simples fato dela conhecê-lo tão bem.
— O que quer, trapaceiro? — Inquiriu antes mesmo de virar seu rosto para o moreno, que se fingiu de desentendido. — Você nunca fica muito em minha volta, a não ser que queira algo e que eu possa conseguir isso para você.
— Dessa vez, não é exatamente para mim. — Comentou com certa indiferença, logo estendendo a mão em direção à Crystal. — Me acompanha?
Ela encarou a mão de Loki por alguns segundos antes de mirá-lo hesitante.
— Para onde? — Perguntou, pouco se importando se estava soando grosseira. Seu humor não estava dos melhores e a única coisa que desejava era trocar de roupa, deitar sua cabeça no travesseiro e dormir por uma semana.
Aquele mesmo sorriso que vira quando o trapaceiro pisou naquele salão surgiu nos lábios do mesmo, levando-a a ter certas dúvidas em relação a confiar nas intenções de Loki no momento em questão.
— Confie em mim, não é nada que vá achar... Como é que você diz... Ah! Ilegal. — A princesa estreitou os olhos de leve, sabendo que estava mais hostil do que o esperado. — Vamos lá, midgardiana! Cadê sua coragem?
O deus tocara em um ponto frágil da garota naquele momento, pois sua coragem estava sendo profundamente esmagada pelo maldito medo que a consumia pouco a pouco. Ela baixou seu olhar, revelando seu grande receio em realizar qualquer coisa mínima na véspera de seu aniversário.
— Não acho que... Que é uma boa ideia. — Murmurou, erguendo-se repentinamente. — Estou cansada, então, se me der licença, retornarei aos meus aposentos. — Crystal estava prestes a se afastar quando sentiu a mão dele rodear seu antebraço, puxando-a com certa força em direção ao corpo esguio, porém forte do trapaceiro.
— O que aconteceu? — Questionou sério, e ela somente encolheu os ombros, fazendo-o soltá-la apenas para erguer o rosto dela gentilmente. — Sabe que não precisa esconder nada de mim, não é?
A princesa tinha ciência de tal fato, no entanto, era um assunto deveras delicado para simplesmente contar, então resolveu focar em outro ponto.
— Aonde quer me levar, Loki? — Questionou-o assim que meneara a cabeça, vendo um singelo brilho nos orbes esverdeados do deus à sua frente. — Não me vem nenhum lugar em mente para que esteja tão animado em mostrá-lo a mim.
Deixando-se soltar uma discreta risada, o moreno pegou a mão de Crystal e a colocou na dobra de seu braço. Isso fez com que a humana sacudisse a cabeça, mas que também sorrisse com o singelo esforço do trapaceiro em vê-la feliz.
Tentando ignorar ao máximo os olhares que ambos atraíram assim que passaram pela enorme mesa de jantar, Loki ficou em silêncio, porém deveras agitado em seu interior por estar prestes a mostrar exatamente o mesmo local que revelara a Sygin quando se viram pela terceira vez. Estranhou um pouco o fato da loira ao seu lado não ter feito qualquer pergunta com relação à situação, mas preferiu deixar daquela forma, pois algo lhe dizia que teriam que conversar assim que estiverem lá.
Ao ver que estavam próximos, o deus a obrigou a parar e ficou em frente à Crystal, que lhe parecia curiosa o bastante para permitir que uma ruguinha que conhecia bem surgisse em sua testa.
— Preciso que feche os olhos. — A midgardiana arqueou a sobrancelha de forma inquisitiva, tendo que vislumbrar o revirar de olhos do deus. — Ande logo, Crystal! Não temos a noite toda! — Esbravejou, ficando estranhamente agitado de uma hora para outra.
Mesmo estando com um pé atrás, a garota fechou seus olhos, logo tendo suas mãos seguradas pelas de Loki, que estavam um pouco escorregadias. Aquele discreto fato a fez pensar no motivo de ele, o deus da trapaça e da enganação, estar tão nervoso.
O moreno a guiou com extremo cuidado pela entrada do jardim, ajeitando-a da melhor forma possível antes de se posicionar atrás de Crystal, que demonstrava sua impaciência através de seus suspiros constantes. Não estava acostumada a ser surpreendida, muito menos com demasiada atenção sobre si mesma.
— Pode abrir os olhos. — Murmurou Loki próximo ao seu ouvido e ela ergueu suas pálpebras lentamente, logo os arregalando ao vislumbrar a bela paisagem à sua frente.
Havia ramos e mais ramos com flores das mais diversas cores e formas, assim como árvores frutíferas, canteiro com rosas brancas e vermelhas sendo iluminadas pelos vagalumes que flutuavam sem rumo. Os orbes castanhos brilhavam em fascínio, pois jardins sempre lhe passaram a sensação de casa, embora não soubesse muito bem o motivo para tal.
— Como você sabia que eu amo flores?! — Questionou, voltando-se completamente para o deus. — Esse lugar é tão... Lindo! — Ela se aproximou de um dos canteiros, acariciando com a ponta dos dedos uma rosa azul tão delicada que a fez se sentir bem.
— Não venho aqui há muito tempo. — O moreno juntou ambas as mãos atrás das costas, andando lentamente em direção à abertura onde se podia ver o céu estrelado de Asgard. — É o melhor lugar para se pensar, embora, nos últimos tempos, pensar no meus atos é a única coisa que evitava fazer.
Encarando-o por alguns segundos, a loira andou até estar ao lado do deus, logo admirando as estrelas brilhantes que ali havia. Pareciam iluminar tudo ao seu alcance e, mordendo com discrição seu lábio inferior, virou-se para ele.
— Ela já veio aqui, não é? — Resolveu confirmar, logo tendo sua resposta ao vê-lo se remexer de maneira desconfortável. Crystal suspirou. — Por que me trouxeste?
— Você precisa ver algo, mas para isso, necessitava ser de um lugar apropriado. — Explicou com certa simplicidade, capturando toda a atenção da garota, que não conseguia esconder a leve desconfiança em seu olhar. — Não me olhe assim, só preste atenção nas estrelas, midgardiana.
Revirando os olhos ao achar aquilo desnecessário, ela fez o que lhe foi dito, achando um pouco estranho. Demorou um pouco, mas logo as estrelas mudaram de cor, tornando-se rosadas e cintilando de tal modo que a fez firmar-se no beiral de pedra, assim podendo se fazer crer que aquilo era realmente real.
— Oh, meu... — A princesa não conseguiu terminar sua frase, estava simplesmente encantada com o que via, por mais que fosse algo que nunca pensara admirar. — Como isso...?
— Dizem que, de tempos em tempos, elas mudam de cor para juntar casais. Se torna um bom presságio para a relação que se inicia. — Loki deu de ombros, em seguida pousando seus olhos na loira. — A propósito... Feliz aniversário, Crystal Redwin.
O sorriso dela desmanchou-se de imediato, retesando seu corpo e fechando as mãos em punhos de forma involuntária. Pensou de imediato como ele sabia sobre aquilo, porém, logo lhe veio à mente a preocupação no rosto de Sif, fazendo-a compreender facilmente como tal fato chegou aos ouvidos do moreno ao seu lado.
— Lady Sif deveria cuidar de sua própria vida. — Praticamente cuspiu tais palavras, não conseguindo disfarçar quão desagradada estava com aquilo. — Não gosto de ficar pensando sobre isso, então é melhor deixar essa ideia para lá e esquecer que sabe dessa data. — Deixou claro antes de recuar, pronta para sair dali e encolher-se no canto mais disfarçado que conseguisse encontrar para se recompor.
Pela segunda vez em pouco tempo, Loki a pegou pelo antebraço, impedindo-a de ir embora. Ele a fez encarar o fundo de seus olhos verdes enquanto dizia a seguintes palavras:
— Antes de tudo, soube disso através de Heimdall. Ele fez questão de deixar escapar no momento em que fui até lá para conversar por um momento e arejar a mente. — Contou com rapidez, percebendo que Crys não o encarou em um só momento enquanto falava. — Lady Sif veio depois, então tive a ideia de trazê-la até aqui e ao menos tentar melhorar algo que deveria ser uma alegria para você, como também ser comemorado apenas por aqueles que querem seu bem. — A firmeza em sua voz pareceu mexer com o emocional da garota, pois ela se soltou com agressividade ao mesmo tempo em que seus olhos marejavam.
— Você não tem ideia do que eu tive de lidar para estar aqui hoje e não ter me suicidado do local mais alto da mansão para evitar continuar coexistindo dentro daquele maldito lugar... Até que surgiu a viagem para Nova York. Me sentir livre daquela família que não era realmente uma, que me desdenhava, ignorava e maltratava apenas por que sempre fui diferente! Sempre fui aquela que poderia ser deixada de lado por não ser importante! — Ela cuspiu o que estava entalado dentro de si, pouco se importando se estava surtando. Naquele instante, nada poderia pará-la de dizer todas as coisas que mantivera para si mesma por todos aqueles anos. — Você nunca teve de sentir o olhar de seus pais querendo que tivesse nascido melhor, ou ao menos um pouco semelhante a sua irmã, que era a sombra exata de minha mãe. Mas nunca quis por ela era perversa, arrogante, exibicionista, sem escrúpulos e sempre colocar os deuses acima de qualquer integrante da própria família, o único problema era que somente eu falava o que estava pensando dentro daquele lugar, o resto apenas se importava com o conforto que teriam, o dinheiro em seus cartões de créditos sem limites ou nas pessoas extremamente influentes que teriam ao seu redor. — Permitindo que as lágrimas escorressem por sua face, a princesa aproximou-se de Loki, pousando seu indicador no centro do peito dele sem medo algum, apenas tendo a raiva como guia. — Para piorar, sempre tive esses malditos poderes que nunca soube muito bem para qual finalidade eles serviam. Isso somente me destacava como a aberração da família, o monstro que ninguém conseguia ou queria lidar!
O moreno nada disse durante aquele monólogo, apenas ouvindo cada palavra dita por Crystal, que se aprofundavam cada vez mais em seu interior e, ao ver a grande mágoa entrelaçada com a raiva que ela sentia revelando-se em seu olhar, percebeu que compreendia aquela sensação, mesmo que fosse por um motivo completamente diferente.
— Talvez não tenha nascido para viver no mundo humano, mas sim entre nós, asgardianos. — Loki argumentou, fazendo-a soltar uma risada seca enquanto via mais lágrimas molharem o rosto dela, fato que o incomodou mais do que conseguia colocar em palavras.
— Não é por que sou a mensageira de Sygin, que este é o lugar ao qual pertenço. Pelo amor de Deus, Loki, sou humana! Deveria continuar sendo apenas humana, droga! — Exclamou alto, levando ambas as mãos aos cabelos presos e os empurrando com raiva para trás, deixando nítido a dor que aquilo tudo lhe trazia. — Por mais que tenha feito coisas erradas em sua vida, você foi criado com amor, carinho, dedicação. Você teve uma família, você teve alguém para lhe beijar a testa à noite, você teve alguém para cuidar de seus machucados quando caía. — Em cada coisa dita, ela empurrava o deus na região do peito, que parecia extasiado naquele momento em questão. — Você teve tudo que eu mais desejei por sua vida inteira e fez uma das suas maiores burradas invadindo a Terra! Você foi burro, idiota e tão fraco! — Antes de perceber o que estava fazendo, Crystal estava socando o moreno com força, descontando tudo o que sentia nele. — Eu invejo o que sempre teve! Eu invejo tudo isso! Queria ter alguém que me amasse como Frigga. O. Ama! — A loira simplesmente deixou-se ir, soltando um grito raivoso e prestes a bater verdadeiramente em Loki, porém, ele circundou os pulsos dela com suas mãos, trazendo-a de encontro ao seu peito. Crys tentou se soltar, demonstrando que ainda estava descontrolada ao se debater. — Me solte, Loki! Por favor, me solte... — Sua voz começou a se esvair, dando permissão aos soluços que interromperam as palavras da garota.
O deus não sabia muito bem o que fazer, coisa que piorou quando ela recostou a testa em seu peito e amoleceu os braços, parecendo absorta demais no próprio sofrimento para se importar verdadeiramente com a proximidade que estavam a ter naquele momento. A única vez que chorara na frente de alguém foi quando Sigyn faleceu, então sabia, de certa maneira, o que Crystal sentiria quando voltasse a si. E foi por aquele motivo que a esperou com uma paciência que nem sabia que ainda tinha, perdido em suas próprias emoções, assim como naquela consciência que continha com relação à presença da princesa.
Crys não soube por quanto tempo ficara molhando os trajes de Loki com suas lágrimas, mas sentiu-se envergonhada por tê-lo feito, pois nunca foi alguém que demonstrava seus sentimentos para ninguém, afinal, nunca tivera uma pessoa específica para ouvi-la se lamentar sobre tudo que a cercava. Somente quando se certificou de que se encontrava bem o suficiente, foi que se afastou apenas o bastante para que pudesse encarar o rosto do moreno a uma distância segura. Estava prestes a falar algo quando ele a surpreendeu, dizendo:
— Melhor? — Mesmo com o olhar sério e não revelando muito em suas feições, a garota sabia que ele estava preocupado, o que era meio estranho se fosse pensar no que se dizia sobre ele, como também os motivos que a trouxera até ali. Acabou assentindo em confirmação para evitar falar enquanto passava a mão pela bochecha, tentando se recompor. — Todos nós temos nossos problemas, você tem conhecimento disso tanto quanto qualquer um que resida neste reino. Mas isso não quer dizer que não possa receber ajuda, assim como está me ajudando.
Mesmo que tenha se surpreendido com a forma compreensiva que ele falara cada palavra, ela meneou a cabeça com um discreto sorriso nos lábios.
— Olha só... Acho que minha missão está mais que cumprida. Consegui deixá-lo humilde, Loki! — Isso o fez fechar a cara e Crystal rir por um momento antes de pousar a mão no ombro do deus. — Estou brincando! Obrigada por me suportar e... Desculpe por ser grosseira. Ninguém tem o direito de falar coisas tão horríveis à outra, por mais que ela seja aquilo ou tenha sido um dia. Muito menos eu, que sou apenas mais uma nesse vasto universo em que vivemos. — Ele não falou nada, apenas observou-a até deixá-la desconfortável. — Que foi?
Ele permitiu que um sorriso tomasse sua face e pegou uma mecha solta dos cabelos de Crys, colocando-o atrás de sua orelha.
— Somos mais parecidos do que pensei. — Soltou antes de encarar o fundo dos olhos da garota, que sentia seu coração batendo forte em seu peito, como se desejasse pular para fora do mesmo a qualquer momento. — Claro, nunca faria nem metade da revolução que fez, pois amava uma discórdia e, admito, ainda não acho tão ruim assim, mas... Sigyn acertou quando escolheu você. Não se esqueça disso nunca, midgardiana. E não é um pedido. — Ela não conseguiu fazer outra coisa a não ser assentir em acordo, logo percebendo que o olhar de Loki mudou, contendo certa curiosidade ali. — Quantos anos está fazendo, Crystal?
— 23. — Murmurou a ele, aparentemente distante. — Ainda não entendo como consegui viver por tanto tempo. — Confessou com uma careta, abraçando seu próprio corpo ao voltar a encarar as estrelas, que ainda brilhavam rosadas.
— Talvez você tenha mais força do que pensa. — Comentou o deus, atraindo o olhar de Crystal e fazendo-a sorrir com tais palavras.
Talvez você tenha razão, trapaceiro. — Pensou ao sentir aquele peso se esvair de seus ombros pela primeira vez em sua vida, conseguindo perceber o quão leve ficara após falar tudo a Loki e, mesmo que ele não fosse o melhor confidente do mundo, era quem a estava ajudando.
De uma forma um tanto confusa, ambos sabiam exatamente como fazer o outro se redimir, e deviam tudo isso à deusa que falecera por amor.
ΞΞΞ
Mesmo contra a vontade da princesa, Loki comentou com sua mãe sobre o aniversário de Crys e, consequentemente, os motivos de tê-lo mantido oculto de todos em Asgard. Frigga entristeceu-se por ela, mas também concordou com o filho que deveriam fazer algo para que compensasse tudo o que a loira havia passado ao ser negligenciada pela própria família. Em segredo, planejaram 23 dias de comemorações, deixando-a completamente paralisada ao saber daquilo.
No entanto, quando chegou ao quarto dia, já parecia mais do que acostumada com as risadas, os banquetes, os bailes e, principalmente, os presentes que ganhava. Fez bem para o trapaceiro vê-la sorrindo, com os olhos brilhando... Porém, estava notando a diferença de seus pensamentos com relação à garota. Ela não era mais a mensageira de Sigyn, mas sim Crystal, a garota com extrema facilidade de aprendizado, irritante, metida, linda e fascinante que entrara da forma mais turbulenta possível em sua vida, fazendo exatamente o que havia prometido.
E ele não tinha a mais remota ideia do que sentia com relação a ela, apenas sabia que vê-la sorrindo deixava seu humor melhor, então faria com que aquilo fosse frequente.
A princesa estava extasiada demais com o que tivera e, de certa maneira, alegre por ter sido agraciada com momentos tão felizes que a fizera se sentir em casa. Pela primeira vez em todos aqueles meses. A casa em que ela fora destinada a ter por alguém que sempre odiara. Isso apenas a fazia crer em como o destino escrevia certo por linhas bem tortas.
Loki fora discreto nos 23 dias de comemorações, mas ela não tirara os olhos dele um só momento. O trapaceiro foi o principal motivo de ter aproveitado aquela festa prolongada de aniversário, fazendo-a acreditar a cada dia que estava se apaixonando pelo homem que viera ajudar. Tinha dúvidas quando ameaçou ir embora, mas agora estava tendo quase certeza, e aquilo fazia com que borboletas dançassem em seu estômago.
Após as festividades e a plena alegria que dividiram, assim como as batalhes que tiveram de enfrentar para semear a paz pelos Sete Reinos, Heimdall surgiu repentinamente no castelo comunicando a Thor que sua humana, Jane Foster, havia sumido de sua visão, os ares de Asgard começaram a mudar com lentidão. Crystal sentia que algo ruim estava a se aproximar, por mais que houvesse indivíduos que lhe diziam ao contrário... A não ser Frigga. Ela compartilhava as mesmas sensações que a jovem, então, juntas, tornaram-se alertas a qualquer fato diferente que ocorria pelo reino.
Aos poucos, o clima mudou com a chegada da namorada do deus do trovão e a descoberta de que ela continha algo que chamavam de Éter em seu corpo, acabando por atrair a atenção de seres que há muito os asgardianos pensaram estarem extintos do universo: os Elfos Negros. Agora, Crystal estava correndo até a sala do trono com suas espadas já presas em suas costas, onde Thor, Loki, Lady Sif e os três guerreiros estavam presentes.
— Vou com vocês. — Soltou a garota assim que ficou próxima o bastante do grupo.
— Acho melhor você proteger Jane com minha mãe. — Interpôs Loki, trazendo o olhar estreitado da loira para sua direção. Ele não se abalou. — Confio nas habilidades de Frigga, mas uma garantia não faria mal algum. — O deus continuou, logo a vendo cruzar os braços contra o peito.
— Você está me mantendo longe do furacão, não é? — Loki ficou quieto diante da acusação, confirmando a pergunta de Crys. Suspirando, ela desviou seu olhar. — Foi o que pensei. Vou ajudar Frigga a esconder Jane, com licença. — E se virou, andando a passos duros em direção aos aposentos da de Odin, pois sabia que a encontraria lá.
O trapaceiro trocou um olhar significativo com o irmão antes de seguir a loira enquanto o deus do trovão fez um sinal para que os guerreiros o acompanhassem. Não demorou muito para que ela sentisse uma mão cercar-lhe o pulso e a obrigando a se virar, não surpreendo Loki ao ser encarado com raiva. Mas, o que a deixou em um breve choque foi quando ele levou a mão aos fios loiros que lhe cobriam parte do rosto, empurrando-o para trás antes de pousá-la em seu rosto.
— Tome cuidado. — Proferiu com seriedade, mirando o fundo dos orbes escuros de Crystal, que se encontrava com um enorme receio de encarar os lábios do deus e desejar algo que, talvez, ele não quisesse. Paralisando-a ainda mais, Loki recostou sua testa na dela, fechando seus olhos por um breve instante. — Enfie suas espadas em qualquer indivíduo que não seja nossos guerreiros, ouviu bem?
— Não confia no que me ensinou, trapaceiro?! — Retorquiu Crys, permitindo que o humor tocasse sua voz ao inspirar o suave perfume que exalava do deus. — Quando falei que não se livraria de mim tão cedo, estava dizendo a verdade. — Ela afastou o rosto para encará-lo melhor, notando de imediato o sorriso torto nos lábios dele. — O que foi dessa vez?!
— Você fica linda quando está confiante. — A observação pegou-a desprevenida, então a princesa desviou seu olhar, sentindo-se enrubescer antes do moreno largá-la. — Agora vá.
Focando no que estava ocorrendo, Crystal assentiu em acordo e virou-se, afastando-se com pressa. Sentiu os olhos de Loki acompanhá-la até que sumisse do alcance de sua visão, aquecendo algo dentro de seu peito que ainda estava aprendendo a lidar e, sacudindo a cabeça, teve de deixar aquela questão para depois.
Assim que adentrou o quarto que a deusa compartilhava com Odin, encontrou-a conversando urgentemente com Jane, que transparecia sua agitação diante do que ocorria ao seu redor e, quando a loira cruzou seu olhar com a asgardiana, sabiam com perfeição o que deveria ser feito.
— Precisamos que se esconda Jane. Nós fazemos o resto. — Pronunciou Frigga, fazendo a humana assentir, mas logo franziu o cenho na direção da mensageira.
— Você não deveria se esconder comigo? — Questionou, estranhando tal atitude. — Pode se ferir com facilidade, afinal, é tão frágil quanto eu sou. — A princesa foi obrigada a arquear sua sobrancelha antes de soltar uma breve risada.
— A diferença entre nós duas é que eu sou a mensageira de Sigyn e, como consequência, também sou dotada de certas habilidades que você não tem a remota ideia da extensão. — Crystal esclareceu da melhor maneira possível, lógica retornando ao foco principal da situação. — Esconda-se ali, Foster, e não saia até que o perigo esteja plenamente amenizado.
Concordando, embora transmitisse um olhar estranho à princesa, ela se encaminhou ao local que lhe indicaram, a deixando a sós com Frigga.
— Vou realizar duas ilusões: uma dela, outra sua. Você se esconderá na varanda e apenas interfira em algo caso for estritamente necessário. — Os orbes claros da deusa estavam sérios, então Crys achou mais sensato somente assentir naquele instante, embora já estivesse pensando no que poderia realizar caso a situação se complicasse. Ambas ouviram diversas explosões, sentindo o chão vibrando por debaixo de seus pés e ela começou a ficar preocupada com Loki, por mais que fosse quase ridículo, afinal, ele sabia muito bem se cuidar sozinho. — É a sua vez de se esconder, querida. Vá!
A loira assentiu antes de apressar o passo em direção à varanda, escondendo-se o melhor que pôde e aguçou sua audição, ficando atenta a qualquer coisa que acontecia próxima a si. Crystal ouviu com perfeição passos adentrando o cômodo, assim como a curta conversa que se seguiu, podendo identificar logo após o barulho da espada de Frigga com clareza. Ela arriscou espiar com discrição para se certificar de que a asgardiana não estava em qualquer perigo, podendo identificar ao longe o holograma tanto de si própria, quanto o de Jane.
Estava prestes a se esconder novamente quando viu um indivíduo enorme adentrar o quarto, fazendo-a agir por puro e simples instinto. A garota sentiu perfeitamente o poder do Tesseract passar por seu corpo, como se houvesse guardado uma parte dele dentro de si, e foi com isso que desapareceu no ar, surgindo em seguida nas costas daquele ser, surpreendendo todos ali presentes, inclusive ela mesma. Mas como não tinha tempo para raciocinar sobre aquilo, ela procurou rapidamente um ponto que tivesse contato com a pele de seu inimigo, encontrando no instante em que ele estava a alcançá-la com uma das mãos.
Crystal sugou a energia que o fazia forte, mudando a cor de seus olhos para negro antes que o ser caísse de joelhos no piso, desmaiando em seguida. A midgardiana encarou as próprias mãos por alguns segundos antes de ficar em pé, assimilando aos poucos a descoberta de um detalhe que nem sabia que podia realizar. Sorrindo com isso em mente, seus orbes modificados pararam em Malekith, que não se mexeu um só centímetro por causa da espada pousada habilidosamente em sua garganta pela deusa que a manejava.
— Olha o que temos aqui... Um elfo feio! — Debochou a loira, tornando-se ameaçadora em seguida. — Que tal retirar o Éter do corpo da midgardiana antes de conversarmos como conseguiram adquirir uma das joias?
— Quem é você? — Questionou o elfo, pouco se importando com a pergunta que lhe foi feita. — Seu poder é incomum, para dizer no mínimo. Nunca ouvi falar em nada assim, muito menos em alguém contendo um dom tão... Interessante. — Os olhos da garota se estreitaram e, antes que percebesse o ato, deu um forte soco na cara do elfo, apagando-o facilmente.
— E não vai saber de mais nada, seu filho da puta. — Murmurou antes de encarar Frigga, que sorria em sua direção como se tivesse visto o maior dos milagres. — Ah... Que foi?
— Sigyn não poderia ter escolhido uma mensageira melhor. — Interrompendo o devaneio da asgardiana, uma nave inimiga surgiu repentinamente, assustando ambas as mulheres.
— Pelo amor de Deus, me diz que você tem um arco e flechas em algum lugar desse quar... — Antes que conseguisse terminar de falar, Mjölnir passou voando por elas, quase fazendo Crystal soltar um grito gutural. A arma acertou em cheio a nave, derrubando-a nas águas. A garota soltou um suspiro de alívio. — Nunca me senti mais salva do que agora. — Murmurou ao se virar, encarando o deus do trovão em nítido agradecimento. — Valeu Thor.
Ele sorriu e, tentando ser humilde – coisa que não combinava muito com o loiro –, deu de ombros.
— De nada, Crys. — E seu olhar parou em Frigga, parecendo revelar pelo mesmo o que desejava saber e, como conhecia o filho melhor do que qualquer um, tinha a absoluta certeza do que Thor queria antes mesmo de expressá-lo em palavras. — Onde ela está?
— Aqui! — Jane surgiu no corredor em que se escondera, aproximando-se do loiro e o abraçando com certa força, logo se afastando para encararem um ao outro com aquele sentimento puro que a princesa sabia identificar. — Você está bem?
Rindo, ele assentiu ao levar sua mãos em direção aos cabelos da humana, colocando uma mecha do cabelo da mesma atrás da orelha.
— Melhor impossível. — E a trouxe gentilmente para perto de seu corpo, abraçando-a com delicadeza antes de encarar os dois inimigos no chão. — Estão mortos?
— Nah... Apenas desacordados. — Garantiu Crystal ao cutucar o maior com o pé. — Acho melhor já colocar esse aqui na prisão, pois quando ele acordar, posso não estar por perto para apagá-lo de novo. Fora que me estressar com um brutamontes desses não seria legal dada minha atual condição recém-descoberta. — Deixou aquela questão no ar, atraindo olhares curiosos em sua direção, mas deixou por aquilo, ficando pensativa logo a seguir para erguer uma questão bem deslocada do momento em questão. — Alguém aqui está com fome?
∞∞∞
Odin ordenara para que seus guerreiros levassem Kurse para a prisão – a mensageira se pôs a rir quando soube do nome daquela coisa gigantesca – enquanto a loira conseguia dar uma escapadinha para ver se encontrava algo para comer e, quando retornou com três maçãs ao salão do trono, todos já estavam ali reunidos, inclusive Loki.
Ela andou até ficar ao lado do trapaceiro, que a encarou com a sobrancelha arqueada assim que registrou as maçãs que continha em mãos.
— Que foi? Algum problema? — Murmurou Crystal, assim não atrapalharia o olhar mortal que todos transmitiam a Malekith, que era trazido por três guardas e estava muito bem acordado. O trapaceiro continuava a mirá-la com certo humor. — Pare de me olhar comer! Estou com fome, oras!
Sacudindo a cabeça e permitindo que um discreto sorriso lhe tomasse os lábios, ele voltou sua atenção para o que ocorria ao redor, observando o inimigo ser arrastado até estar em frente a Foster, que se mantinha agarrada ao braço do deus do trovão. Odin deu um passo à frente enquanto todos faziam o mais absoluto silêncio, menos Crys, que mastigava tranquilamente ao olhar a cena.
— Exijo que retire o que colocou no corpo da humana. — Falou em alto e bom som, embora parecesse que o elfo pouco se importava com tais palavras, fazendo com que o rei de Asgard ficasse estranhamente curioso. — Irá se recusar?
— Irei. — Respondeu, erguendo o queixo e a princesa quase soltou um assovio impressionado, impedindo-se ao dar outra mordida na primeira maçã. — Vocês já têm a pessoa perfeita para fazer isso por mim e ignoram suas crescentes habilidades. Pergunto-me o motivo para tal ato. — Tais palavras os deixaram confusos, embora Frigga houvesse compreendido perfeitamente de quem ele falava. — A garota loira pode acumular qualquer energia que tocar dentro de seu corpo e, deste modo, manipulá-lo a seu bel-prazer. Peça para que ela retire o Éter.
Isso fez todos encararem Crystal, que havia parado de roer a maçã enquanto assimilava as palavras pronunciadas por Malekith. Meneando a cabeça, ela pensou por alguns instantes antes de encarar Odin com certa seriedade.
— Não sei se posso retirar isso dela, afinal, ainda não sei controlar. Na verdade, nem sei como consegui trazer o poder do Tesseract à tona para poder combater aquele bicho gigantesco e horrível. — A loira deu de ombros, começando a ficar nervosa com tantos olhares sobre si. Isso a fez encarar o elfo desconfiada. — Por que diabos quer ver meus poderes? Ficou interessadinho? — A ironia em seu tom era algo perceptível, mas também a deixou curiosa sobre sua própria capacidade, então, ao entregar suas maçãs a Loki e a jogar o resto da outra em algum canto, Crys andou até Jane com uma concentração atípica de seu jeito costumeiro.
Gentilmente, a loira pegou o braço da outra, que não recuou do toque e Crystal conseguiu sentir, mesmo que misturada com a energia vital de Jane, a poderosa energia que ali existia. Movendo sua mão sobre as veias da midgardiana, a garota conseguiu movê-la com lentidão até a região do pescoço com o maior cuidado que poderia ter, mas, repentinamente, o Éter saiu com tudo do corpo da humana, rodeando a princesa de uma forma que fez seu coração acelerar dentro do peito, lhe dando muito medo.
Ouviu gritos e uma agitação ao seu redor, porém, precisava ter o máximo de foco que conseguiria no momento, forçando-se a estender a mão para tentar controlar aquele poder que sentia pulsar como se vivesse. Não soube como aconteceu, mas houve um momento em que não ouvia nada além de sua respiração e sussurros incompreensíveis que pareciam querer lhe dizer algo que não conseguiu identificar até que eles se tornaram coerentes.
— Você pode mudar o que desejar... Sua realidade não é a que realmente queria e sabemos disso. — A loira engoliu em seco, não vendo um palmo a sua frente além da escuridão que tomou seu campo de visão repentinamente. — A realidade é incerta, inconstante e pode ser mudada com apenas uma singela modificação de escolha, seja sua ou de qualquer outro. Qual a sua realidade, Crystal Redwin? Sua verdadeira realidade?
Sua mente estava confusa, no entanto, como se alguém apertasse um interruptor dentro da mesma, ela começou a ver todos os fatos de sua vida que poderiam ser modificados caso dissesse o de queria, era como se estivesse sendo guiada para tal ato. Mas Crys não faria aquilo. Não mesmo. Reunindo o máximo de forças que conseguiu, ergueu seu rosto para cima e gritou para que aquela coisa pudesse ouvir:
— Quero a minha realidade atual, não uma coisa fajuta feita por magia! — Aquela coisa negra pareceu se rachar aos poucos, fazendo-a ter mais coragem para continuar. — Me leve de volta! — Exigiu, começando a ficar com raiva e, enquanto via-o se desmanchar ao retornar ao seu estado aparentemente natural, aquelas vozes retumbaram mais uma vez.
— Então ficaremos com você até que deseje nos utilizar. — Crystal voltou a ouvir o rebuliço que ocorria na sala do trono e continuava com a mão esticada, então todo aquele poder reuniu-se em sua palma, tomando a forma de uma pedra linda na cor laranja antes de dissolver-se no ar.
Piscando algumas vezes, seus olhos miraram Malekith, que parecia mais do que fascinado por ela, estava encarando o que lhe poderia ser a maior arma do universo inteiro. E se encontrava nas mãos dos deuses de Asgard.
— O que isso é? De verdade? — Questionou com seriedade, andando em direção ao elfo prestes a dar-lhe outro murro quando Odin colocou o braço em frente à garota, impedindo-a de continuar o que estava pretendendo realizar.
— É uma das Joias do Infinito. — Proferiu o rei, conseguindo capturar a atenção de Crys. — Esta é a joia da Realidade, capaz de realizar qualquer desejo que seu portador queira. Apenas precisa pedir. Porém, ela é perigosa, então queria que me entregasse a joia para que possa colocá-la em um lugar seguro. — A garota tornou-se pensativa por alguns segundos, apertando seus lábios juntos e fazendo uma careta desagradável. — O que foi?
— Eles disseram que ficarão comigo até que eu a use. — Confessou, retorcendo os dedos das mãos uns nos outros em um sinal claro de nervosismo. Odin soltou um longo e pesado suspiro. — Nem se eu quisesse, conseguiria retirá-lo. Desculpe.
— Não é culpa sua. — Frigga interveio, parando ao lado da jovem e cercando os ombros dela com um de seus braços, logo sorrindo para tranquilizá-la. — Agora, acho melhor nos preocuparmos em prender este elfo por seus feitos e pensar no retorno de Jane Foster ao seu mundo. — Isso fez a princesa olhar por sobre o ombro, pegando o momento em que o casal se encarou com certa melancolia.
E aquilo lhe deu uma ideia maravilhosa.
— Por que não permitem que Thor fique com ela na Terra? — Perguntou repentinamente, trazendo todas as atenções novamente para si. — Eles se amam e querem ficar juntos, nada mais justo que sejam agraciados com isso, fora que ele faz parte dos Vingadores. Essa mudança facilitaria o contato dele com seus parceiros de grupo, podendo salvar muitas vidas e não precisar de Heimdall para lhe avisar do que ocorre por lá. — Um silêncio tomou o salão, fazendo-a soltar um suspiro e revirar os olhos. — Qual é! Eu e Loki ficaremos por aqui. Podemos muito bem resolver os problemas enquanto, bem... Você entendeu.
Odin a encarou por alguns instantes antes de pousar seus olhos no filho. Crystal sabia exatamente o que ele queria que o deus do trovão fosse e fizesse, mas aquele não lhe parecia ser o futuro que o destino escreveu para o mesmo. Thor tinha aquela vontade de proteger aqueles que necessitavam e, lá no fundo de seu ser, algo lhe dizia que essa vontade salvaria mais vidas do que qualquer um poderia contar.
Pareceu que o rei também entendeu a mesma coisa – claro, após uma longa troca de olhares entre ele e sua esposa.
— Está bem. — A mensageira abriu um enorme sorriso, encarando Thor com uma alegria sem tamanho. — Thor, está permitido a ir a Terra e residir com sua humana pelo tempo que desejar, contanto que retorne de tempos em tempos. Sua mãe não irá conseguir ficar longe de você por muito tempo. — O sorriso no rosto do casal foi o que fez o coração da garota tornar-se maior e, involuntariamente, ela encontrou o olhar de Loki por simples reflexo.
Ela sorriu antes mesmo de notar tal movimento, logo mordendo seu lábio inferior e encarando a deusa ao seu lado com suavidade.
— Poderia pedir uma coisa? — Inquiriu com certa timidez, recebendo um assentimento de Frigga como resposta. — Queria passar um dia em meu país. Apenas um. Matar a saudade de algumas coisas que não existem aqui e tudo o mais. Posso?
— Não vejo mal algum. — Proferiu a deusa assim que moveu seu olhar ao marido, que não demorou muito para perceber que aquela decisão já estava tomada antes mesmo de receber aquele olhar da mesma, então assentiu em consentimento. Frigga voltou seu olhar a Crystal, que aparentava continuar desejando algo. — Há mais alguma coisa, não é?
— Sim. — A loira respirou fundo, olhando tanto para a deusa, quanto para Odin, pois era com ele que estava a se preocupar no momento. — Queria que Loki viesse comigo.
Os olhos do trapaceiro se ergueram de imediato assim que seu nome alcançou seus ouvidos, tornando-se curioso perante o pedido da princesa. O que poderia ser tão interessante a ponto de ela desejar levá-lo? A não ser que...
— E eu queria ir, se não for pedir muito. — Pronunciou-se o deus, atraindo diversos olhares para si, mas ignorando cada um deles para se focar no que estava ali, a sua frente. — Prometo que não farei nada que possa me levar a uma prisão, afinal, estarei com Crystal. Não existe melhor garantia que essa, não é mesmo?
Demorou certo tempo, mas assim que viram a aprovação nos olhos do Pai de Todos, a garota começou a pular em seu lugar em pleno êxtase enquanto Loki sorria de canto, tendo ciência de que aquela ida a Terra valeria a pena. Crys não desejaria retornar ao seu país se não fosse para realizar uma única coisa. E era isso que o deus não estava nem um pouco a fim de perder.
∞∞∞
A princesa praticamente correu ao seu quarto, decidida a vestir os mesmos trajes com que parara naquele reino e, assim que o adentrou, se pôs a procurá-los no enorme closet que aquele quarto continha. Quando os encontrou, retornou ao quarto e os colocou sobre a cama para começar a se trocar quando sentiu algo diferente no ar. Algo que, lá no fundo de seu ser, soube que não deveria estar ali.
Foi exatamente por isso que se virou, deparando-se com a visão inesperada de uma mulher loira de cabelos ondulados que caíam em cascata até abaixo da cintura. Trajava um vestido longo verde claro e sorria em plena satisfação para Crystal, que estava prestes a sair correndo, mas se deteve ao analisar melhor as feições daquele... Espírito. Ou ao menos, se parecia com um.
— Obrigada por ter acreditado nele. — Pronunciou a mulher que, após tais palavras, a princesa soube perfeitamente quem ela era e o motivo de suas palavras.
Crys sorriu de canto ao enrolar o indicador na corrente em seu pescoço, sentindo certa cumplicidade por Sigyn como nunca havia sequer imaginado, assim como nunca imaginou se apaixonar pelo deus da trapaça, e aqueles pensamentos a fizeram sentir-se estranhamente feliz.
— De nada, deusa da fidelidade.
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