The Princess
6 Epilogue
Notas iniciais
Crystal dirigia em alta velocidade um carro vermelho vibrante com Loki no banco do passageiro analisando tudo, afinal, ele nunca havia visto um automóvel por dentro, então estava curioso com a maneira que a loira conhecia e manejava tudo que continha no interior do mesmo com a maior facilidade do universo.
Heimdall os mandou para a localização que a princesa havia indicado e, depois daquilo, foi fácil se encontrar pela cidade que ficava a três horas da mansão Redwin para alugar um carro. Agora, eles seguiam por uma estrada cimentada que passava pela entrada de sua antiga casa, e pela velocidade que a garota seguia, chegariam à metade do tempo previsto. O que de fato aconteceu.
Assim que dobrou na curta entrada antes do portão, Crys desacelerou até colocar o carro em ponto morto próximo a guarita de Jackson, um britânico idiota que sua família tinha contratado algumas semanas antes dela partir. Ao baixar o vidro fumê, o segurança arregalou os olhos ao constatar que era ela, e aquele fato a fez sorrir, mesmo que de maneira contida. O homem saiu de seu cubículo com uma rapidez surpreendente e abriu o portão, ainda com seu rosto embasbacado.
Erguendo o vidro, a jovem riu baixo.
— Aposto que eles acharam que eu tinha morrido. — Murmurou com certo humor, embora também houvesse irritação ali, e o trapaceiro percebeu aquilo.
— Ponto para você por eles terem desacreditado tanto na maior preciosidade que tinham embaixo de seu teto. — Tal frase a fez sentir-se melhor e, apoiada naquelas palavras foi que voltou a acelerar o carro, andando em velocidade baixa para que pudesse estacionar próxima ao jardim, que era pequeno comparado ao que havia nos fundos da residência.
Os dois desceram do automóvel assim que ela desligou o motor, andando em direção à pequena escada que havia na entrada, subindo-a com certa rapidez antes de Crystal se virar para Loki com certa apreensão.
— Promete que só irá surgir no momento certo? — Questionou enquanto retorcia seus dedos uns nos outros, pois aquele lugar lhe trazia diversas lembranças ruins que não queria que atormentasse sua mente nunca mais.
Aproximando-se com cautela, o moreno levou a mão até o rosto da midgardiana, acariciando-o com uma delicadeza que poderia ser incomum para todos, mas não para Crystal. Pelo menos, não mais.
— Não se preocupe, você comanda o show. — E piscou para ela, fazendo-a abrir um de seus melhores sorrisos antes de respirar fundo, logo abrindo ambas as portas de entrada, chamando a atenção de dois empregados que passavam, por coincidência, naquele instante.
Com o olhar superior, Crys passou por eles como se não os tivesse notado, dobrando em um corredor que daria à sala de jantar, afinal, era sete e meia da manhã na Terra, o que significava que os quatro integrantes de sua família estavam reunidos para tomar seu maldito café da manhã e, aparentemente, esquecendo de que ela existia.
A loira entrou no cômodo pouco se importando se os surpreenderia ou não, apenas parando de andar quando ficou próxima da cabeceira oposta de onde seu pai se encontrava sentado. O homem paralisou assim que notou sua presença, sendo seguido por sua mãe e irmãos, que pareciam tão boquiabertos quanto o próprio. Aquilo a irritou, pois apenas confirmava que haviam realmente considerado que estivesse morta em algum lugar dos EUA.
— Crystal...? — Murmurou Frederick, o que deveria ser o chefe daquela mansão, mas era apenas mais uma marionete da matriarca da família. — Meus deuses... Você sumiu!
— É, eu sumi, mas estou muito viva, como podem ver com seus próprios olhos. — Garantiu com frieza, vendo que todos desviaram o olhar da garota, porém, aquilo apenas lhe serviu de empurrão para continuar. — Estava em um lugar distante. Era bem tratada, fui treinada com diversas armas e vários estilos de luta, comemorei meu aniversário por 23 dias, além de ter me tornado alguém importante por todo o reino. — Ao frisar a última palavra, Saleev a encarou com curiosidade, embora se mantivesse em sua postura indestrutível.
— Que reino a receberia, Crystal? — Inquiriu a morena, que empurrou sua cadeira silenciosamente para trás antes de se erguer, mantendo a coluna ereta e as mãos em frente ao corpo. — Todos que conhecem nosso sobrenome sabem que você não nos representa há tempos. Pode até ter nosso sangue, mas não nasceu para ser da realeza. — Os orbes escuros da princesa se estreitaram, permitindo que sua raiva se revelasse pelo mesmo, mas nada a faria agredi-la, por mais que ela merecesse.
— Graças aos deuses que não foi nenhum que teve o desprazer de encarar sua arrogância ou testemunhar sua prepotência. Foram indivíduos melhores e mil vezes mais honrados do que você será um dia, não importando quantas vezes tenha que renascer para que tal coisa ocorra. — As palavras da garota atingiram sua mãe em cheio, mesmo que ela não fosse perder a pose naquela discussão. Sabia que Crystal a odiava, assim como sabia que merecia aquilo, mas nada no mundo a faria confessar que fizera tudo aquilo por que a deusa Sygin havia lhe dito para que o realizasse. Era seu maior segredo, e o levaria ao túmulo. — Agora, se me der licença, preciso pegar algo em meu antigo quarto antes de sumir dessa casa para sempre. — E virou-se, retornando pelo caminho de onde veio, porém, subiu as escadas em espiral, em seguida andando até seu quarto assim que pisara no segundo andar.
Quando parou em frente à porta do cômodo, prendeu a respiração antes de abri-lo, sendo pega de surpresa por encontrá-lo imaculado ao invés de repleto de caixas e prestes a virar um quarto de hóspedes. A cor azul predominava o local, pois era a cor favorita da jovem, além de relaxá-la de uma forma que nem conseguia explicar.
Dirigindo-se à mesa de cabeceira do lado esquerdo da cama de dossel azul céu, ela abriu a segunda gaveta e pegou um lindo – e antigo – medalhão dourado repleto de desenhos que não compreendia, mas que Frigga lhe disse ser útil caso Crys fosse ficar entre os deuses por muito tempo. A loira parou de analisá-lo assim que ouviu barulho de salto batendo contra o chão do corredor, fazendo-a guardar o objeto dentro do bolso de seu casaco antes de olhar por sobre o ombro, pegando o exato momento em que seus irmãos adentraram seu quarto sem bater.
— Sei que não deveríamos invadir sua privacidade, mas... Queríamos conversar com você. — Murmurou Fyllie, sua irmã mais nova, ao se aproximar a passos cautelosos.
Stephen, que estava logo atrás da morena, pigarreou, ajeitando a gola de sua camisa na região do pescoço.
— Crescemos aqui pensando que nunca sairíamos dessa casa que apenas trouxe sofrimento para todo mundo. Nós respeitávamos as regras por medo de sermos uma decepção para mamãe, mesmo ela sendo horrível daquele jeito. — Começou a explicar, tendo o máximo de cuidado com suas palavras na presença de Crystal, pois tinha conhecimento da perspicácia da irmã. — Porém, isso mudou assim que ela lhe permitiu ir à Nova York e residir por lá.
— Isso nos deu coragem de falar o que de fato queríamos para nossas vidas, e agora vou fazer faculdade de moda em Manhattan! — Exclamou a morena, agitando os dedos e dando pulinhos em seu lugar, exatamente como a loira lembrava-se de vê-la fazendo quando criança. — Stephen vai realizar uma parceria da empresa de papai em NY e residir por lá. Ficaríamos próximos de você, teríamos mais paz e...
— Não estou naquela cidade. — Soltou a princesa, interrompendo a frase da mais nova. Ela respirou fundo e, após se certificar de que sua voz não tremesse, ousou continuar: — Estou residindo em um lugar muito mais distante onde vocês, infelizmente, não podem ir. Minha vida mudou de uma maneira drástica e, para ser completamente sincera com vocês, estou bem por lá. Estou feliz. Voltar à cidade grande não é uma opção que vou considerar por um bom tempo. — Confessou aos dois, que pareceram satisfeitos com sua resposta, embora a relutância fosse algo notável em ambos.
Os três discutiam com frequência, brigavam mais vezes do que podiam contar em seus dedos por terem ideias divergentes, no entanto, quando um era castigado, o outro acabava sempre se consolidando. Eram completamente diferentes, fato inegável para qualquer um que os conhecia, mas eram amigos, mesmo que houvesse ocorrido alguns acidentes que os afastou.
Crystal era diferente, afinal de contas. E explicaria aquilo aos irmãos, mesmo que não conseguisse relaxar perto deles. Poderiam até ter o mesmo sangue correndo pelas veias, porém, nunca seriam uma família de verdade.
∞∞∞
Não era para o deus da trapaça ter se revelado antes do sinal de sua princesa, contudo, seu sangue subiu com as palavras ferinas que saíra dos lábios de Saleev. Assim que Crys sumiu pelo corredor, ele pensou nos prós e nos contras por um curto espaço de tempo... Até que resolveu tomar partido antes mesmo de pensar a respeito, revelando-se diante dos olhos humanos ao estreitar os orbes verdes enquanto encarava os pais da loira.
— Você não tem a mais remota ideia da preciosidade que é sua filha, não é mesmo? — Sua voz era puramente acusatória assim que dera passos lentos e silenciosos em direção à mulher, que se mantinha paralisada no momento em que encarou os olhos do deus.
— Quem é você?! — A morena o questionou, pouco se importando com a pergunta que lhe foi dirigida.
— Deveria saber, afinal, nos cultua com tanta veemência que pensei já ter extrema facilidade em nos identificar. — Insinuou o deus, vendo-a arregalar seus olhos ao ter certeza de quem ele era, afinal, Saleev recuou um passo.
— Loki. — Murmurou por debaixo de sua respiração acelerada. — Eu não pensei que... Que Sigyn falava realmente a verdade, pois fiz tudo isso a pedido de minha deusa. Fiz tudo acreditando nas palavras dela, afinal, foi Sigyn que me abençoou com essa família a que tanto prezo. — Explicou com certa rapidez, quase se atrapalhando em suas palavras. — Sempre soube que Crystal era especial, porém, precisava de um motivo forte para fazê-la sair de casa. Ela é dócil, mesmo que tenha um temperamento forte o suficiente para causar uma guerra. Se a criasse da mesma maneira que os outros, sei que nunca desejaria sair deste lugar, mas precisava garantir que as palavras de Sigyn se concretizassem e a única forma que encontrei na época foi essa. — Ela abraçou seu corpo esguio, encolhendo os ombros visivelmente enquanto encarava o fundo dos olhos do deus da trapaça. — Não me julgue por tentar fazer o certo, já que sou eu que lido com a consequência de nunca ver um sorriso dela dirigido a mim por livre e espontânea vontade.
Ambos se encararam por alguns segundos que mais pareceram uma eternidade. Por mais que visse que cada palavra dita por Saleev era verdadeira, tinha certeza de que sua falecida amada não condenaria a vida de alguém para que cumprisse o seu destino, o que o levava a crer que fora a própria mãe da princesa que decidiu condenar coisas tão importantes da vida da garota apenas para cumprir o que lhe foi pedido.
— Você fez as piores escolhas possíveis. — Murmurou o moreno ao sacudir a cabeça, demonstrando certa irritação. — Depois ainda me perguntam por que deprecio a maioria dos humanos. — Ele andou em volta da mulher, que apertava com força o colar simples que continha em seu pescoço. — Só não a destruo neste instante por que, além de estar tentando me tornar alguém digno, Crystal não gosta de mortes. Então, pelo meu singelo ponto de vista, você tem muita sorte, Saleev Redwin, mas não é digna de se nomear rainha de Swoodwing, pois reside em uma mansão, não em um castelo. — Loki apontou, observando-a com demasiada atenção.
— Nós nos atualizamos. O castelo já não era adequado para nenhum de nós, então resolvemos construir algo digno de nosso nome. Íamos mantê-lo para guardar a história de nossa família, mas tivemos outros planos e derrubamos nossa antiga casa enquanto Crystal estava, supostamente, em Asgard. — O deus arqueou a sobrancelha. A mulher era astuta, não podia negar aquilo. — E quero lhe pedir um favor.
Ele cruzou seus braços contra o peito, ficando desconfiado de imediato.
— Depende de qual seja. — Redarguiu com seriedade, controlando-se para não voltar atrás e mandá-la ao inferno com palavras bem deselegantes.
Respirando fundo, a morena recuperou sua postura antes de encarar o trapaceiro como se implorasse.
— Quero que cuide dela mais do que qualquer coisa que teve na vida. Crystal é forte, mas não de todo e acho que sabe disso. Posso não ter sido uma boa mãe para ela, mas os deuses são testemunhas de que sofri com isso, então... Minha princesinha está em suas mãos, deus de Asgard. — Assim que terminou tal frase, o pai de Crystal ergueu-se de sua cadeira e andou até estar atrás de sua esposa, mas seus olhos estavam cravados em Loki.
— Ela é apaixonada por azul. — Revelou ao encarar o deus, logo dando levemente de ombros. — Só acho que deve saber caso vá conviver com ela.
O trapaceiro sorriu ao erguer seu queixo, destacando ao máximo sua superioridade perante ambos os mortais.
— Ela anda de azul sempre que pode. — Passos chegaram aos ouvidos de ambos e o deus olhou por sobre seu ombro, vendo o exato instante em que a loira arregalou seus orbes escuros de leve antes de apressar o passo.
— Pensei que só apareceria quando eu pedisse! — Exclamou com certo stress antes de parar ao lado dele com os olhos estreitados. — Minha vontade é de lhe esganar por ter feito exatamente o contrário! — E socou o ombro do deus, que apenas sorriu perante a agressividade da garota.
— Não sou conhecido por seguir ordens, princesa. Sinto muito. — O tom divertido que ele utilizara fez com que Crystal revirasse seus olhos antes de retirar o medalhão do bolso e entregá-lo a Loki, que o pegou para que pudesse analisá-lo melhor. — É este mesmo. Frigga nunca erra. — Murmurou antes de voltar-se para a mensageira. — Podemos ir, se quiser.
Assentindo sem falar uma palavra sequer, a garota encaminhou-se para a saída sem olhar na direção de ninguém, pois se recusava a demonstrar qualquer emoção que revelasse sua fraqueza perante aqueles que não mereciam se nomear como sua família. Assim que se viu no lado de fora, foi que teve ciência do deus atrás de si, mas apenas parou de andar quando estava próxima do carro, onde pousou ambas as mãos sobre o porta malas e respirou fundo algumas vezes para controlar um pouco suas emoções.
Não demorou muito para sentir um toque suave em seu pescoço, que afastou seus cabelos antes de acariciar a extensão do mesmo, fazendo-a ajeitar sua postura para que pudesse se virar e, deste modo, encarar o deus ao seu lado.
— Estou transbordando de raiva. — Confessou em tom baixo, fechando seus olhos por um breve momento. — Mas não quero desperdiçar meu tempo e minha paciência com nenhum deles.
Colocando uma mecha do cabelo loiro atrás da orelha de Crys, ele a analisou com atenção.
— Não vale a pena, princesa. — Soltou Loki, apoiando a decisão dela enquanto refletia sobre algo que apenas lhe veio à mente naquele instante, mas que deixaria para outro momento. — Se sentirá melhor quando voltarmos a Asgard. Temos muito que fazer por lá, incluindo saber mais sobre as Joias do Infinito. — O deus apontou, fazendo-a concordar com um aceno e, surpreendendo-o, se aproximou apenas para abraçá-lo de lado.
Por simples reflexo, ele passou seu braço direito pelos ombros da garota, logo começando a andar com a princesa junto a si. Não se importaram de deixar o carro que alugaram para trás, apenas pararam no centro da trilha que daria ao portão para, em seguida, chamarem Heimdall. Não muito longe dali, Saleev observou a luz colorida que desceu pelo céu e cercou-os para logo levá-los a Asgard.
— Que você seja feliz, minha linda princesinha. — Sussurrou ao permitir que uma singela lágrima escorresse por sua face.
∞∞∞
Assim que ambos retornaram à Ponte do Arco Íris, a loira pediu para ficar um tempo sozinha, então Loki aproveitou para ir até sua mãe, que ficou surpresa por ver seu filho tão cedo de volta ao castelo. Ela desceu os degraus do trono, pois ficaria no lugar de Odin, que entrara em seu sono após deixar todas as suas ordens muito bem explícitas a todos que ali viviam.
— Pensei que ficariam mais tempo pela Terra. — Comentou a deusa assim que se aproximou do trapaceiro, pousando uma das mãos no rosto dele apenas para se certificar de que não havia ocorrido nada com seu menino.
— Crystal precisou retornar antes do esperado. O encontro com sua família não lhe fez bem. — Explicou com displicência, não querendo entrar em detalhes sobre o ocorrido para não precisar revelar tudo à Frigga. Aquele era seu segredo, e nada mais justo que fosse apenas seu. Pegando o medalhão de um bolso interno de seus trajes, o moreno entregou-o a sua mãe, que o examinou com atenção. — É este? — Resolveu questionar para ter certeza.
Ela assentiu ao passar os dedos pelas runas que havia em volta do centro, onde se localizava um pequeno furo para que pudesse encaixar as outras partes do mesmo.
— Sim. É exatamente isso. — Repentinamente, a asgardiana começou a afastar-se do salão, encaminhando-se para seus aposentos e Loki a acompanhou, sendo movido por sua curiosidade do que qualquer outra coisa. Assim que chegaram, a mulher fez um sinal para que o trapaceiro esperasse ali, coisa que ele fez, embora um tanto impaciente.
Cada minuto que sua mãe demorava no interior daquele quarto, era uma enorme tortura para Loki, que não conseguia ficar parado em um só lugar, pois sua mente não se aquietava. Ficara medindo os prós e contras daquele amuleto que nunca soubera da existência até que ele fora mencionado para que a jovem princesa pudesse ficar ao seu lado pelo mesmo tempo que o deus. Por mais que soasse um pouco egoísta – fato que não o incomodava nem um pouco –, ele gostara muito daquela opção. E agora, entendia melhor o motivo para tal.
Ao ver a porta se abrindo, o moreno tornou-se alerta e mirou as mãos de Frigga, que carregava as três partes do amuleto, assim como uma corrente para colocá-lo. Ali mesmo, em sua frente, ela o montou com habilidade e pegou o momento exato em que o objeto brilhou, logo voltando ao normal, nem parecendo que acabara de ser montado. Os dois lados estavam planos assim que a deusa o entregou a Loki.
— Há quanto tempo isso existe?! — Questionou com o cenho levemente franzido, observando quando sua mãe sorriu de sua forma misteriosa e ele logo percebera que Frigga não contaria nada sobre aquilo. — Acho melhor eu levá-lo a Crystal. Com licença. — O deus se virou, começando a se afastar da deusa, mas uma pergunta que ela lhe fez acabou por paralisá-lo.
— Você se importa com ela, não é? — Loki olhou por sobre o ombro e apenas a encarou, sem proferir qualquer palavra. Nem foi necessário, pois Frigga conseguiu ler perfeitamente aqueles orbes claros que conhecia melhor do que qualquer outro naquele reino. — Então demonstre, meu filho. Crystal ainda não adquiriu a habilidade de adivinhar o que está se passando pela mente dos outros. — Comentou com um sorriso bem sugestivo que acabou tirando uma risada baixa do homem que, por mais que o tempo passasse, continuava sendo o menino que a deusa criara com o maior carinho do mundo.
Acenando em concordância – sem deixar o sorriso de lado –, Loki se afastou, começando a procurar pela loira pelos lugares mais prováveis, não a encontrando em lugar algum e até sentindo a frustração lhe tomar. Onde será que ela estava...?
— Procurando alguém, Loki? — A voz de Frandal o alcançou, logo surgindo em seu campo de visão com um sorriso estranho presente em seus lábios, já que tinha certos palpites de quem ele queria encontrar com tanta urgência.
O moreno comprimiu as sobrancelhas, fazendo pouco caso da atitude do guerreiro.
— Lhe interessa? — Rebateu de uma forma nada educada. Queria resolver seus assuntos o mais rápido possível e aquele idiota estava lhe atrapalhando ao ficar em seu caminho. — Saia do meu caminho, Frandal. — Ele apressou o passo, mas o loiro voltou a ficar em sua frente, conseguindo deixá-lo um pouco estressado por aquele infortúnio.
— A princesa está no jardim privado, se é isso que tanto deseja saber. — Frandal o informou ao juntar suas mãos atrás das costas, continuando com aquele mesmo sorriso em sua face. — A propósito, ela me parece bem diferente desde que chegou a Asgard. Você não acha? — Comentou em um tom tão sugestivo que fez Loki pegá-lo por seus trajes, erguendo-o um pouco.
— O que está insinuando, seu inútil?! — Inquiriu com uma seriedade anormal para o deus, resultando em um largo sorriso no rosto do guerreiro.
— Você gosta dela. — Não era uma pergunta, mas uma confirmação dos fatos. — Se importa com aquela garota da mesma maneira que se importava com Sygin, e não estou lhe julgando. Não mesmo. Apenas queria ver se era mesmo verdade.
O trapaceiro franziu o cenho, não compreendendo muito bem o comentário bem humorado do outro.
— O que, exatamente? — Indagou o deus, querendo ter certeza do que ele dizia para não interpretar de forma errônea.
— Você está seguindo em frente. — Aquelas simples palavras fez com que o aperto se tornasse mais fraco, e deixasse Loki um tanto pensativo. — Agora, se puder fazer a gentileza de me soltar, eu agradeço. — Comentou com certa diversão, logo tendo as mãos do moreno longe de suas roupas.
— Só... Não me encha mais a paciência. — Murmurou o deus, tentando ao máximo soar firme antes de se afastar com certa pressa, pois agora sabia onde encontrar sua garota e não mudaria seu rumo até encontrá-la.
∞∞∞
A garota precisava de um lugar para pensar, e o único que lhe passou pela cabeça foi o jardim que Loki havia lhe apresentado há algumas semanas. O perfume das flores tranquilizava aquela desconfortável tristeza que parecia fazer parte da vida de Crystal, pois mesmo que desejasse com todas as suas forças deixar todo seu passado para trás, aquilo não passava por nada no mundo.
Ela encontrava-se sentada na grama baixa, admirando as rosas azuis pensativa quando ouviu passos leves a se aproximarem dali, então moveu seu olhar em direção a entrada, onde viu o deus da trapaça adentrar com sua sobrancelha arqueada em questionamento mudo.
— Precisava de um lugar calmo para ficar com meus pensamentos. — Explicou antes que ele proferisse a pergunta, colocando parte de seu cabelo atrás da orelha. — Você demorou. Não estava conseguindo me encontrar, trapaceiro? — Indagou em tom provocante, fazendo-o revirar os olhos antes de mostrar o medalhão a loira, que se ergueu com a maior rapidez que conseguira, logo se aproximando para ver o objeto de perto. — Uau... Não pensei que ele fosse tão maneiro.
— E eu nem sabia que ele existia. — O deus murmurou assim que o esticou em direção à garota, que o tocou para analisá-lo mais de perto, porém, seus olhos foram tomados por uma luminosidade dourada repentina antes de sumir, forçando-a a piscar por alguns segundos para se situar do que estava ocorrendo. — Crys...?
— Eu sinto. — Ela encarou suas mãos, tentando identificar alguma diferença em seu corpo, mas apenas percebendo tal coisa dentro de si. Era uma energia pulsante que circulava por seu corpo e que era completamente diferente de qualquer outra que sugara para seu sistema. — Acho que não vou precisar utilizá-lo em meu pescoço. — E sorriu antes mesmo de perceber tal ato, um dos mais brilhantes que Loki já admirara.
Ele analisou cada mínimo detalhe do rosto da garota, convencendo-se aos poucos de um fato que ainda não havia lhe caído a ficha, mas que, naquele instante, era algo óbvio demais. Havia nutrido sentimentos pela humana à sua frente. Se importava, se preocupava e se dedicava a loira a um tempo, mas ao tinha notado até abrirem seus olhos.
Ignorando qualquer pensamento que cultivara sobre a Terra e seus habitantes, Loki se apaixonara pela midgardiana que viera salvá-lo de si mesmo. Talvez seja por esse motivo que não consigo parar de encarar seus lábios, pensou em certo momento assim que ergueu a mão livre para tocar o rosto da loira.
Crystal prendeu a respiração, pois o clima mudara de súbito e seu coração martelava freneticamente contra seu peito pela antecipação. Nunca tivera um namorado em sua existência, muito menos algo semelhante. Sentia-se uma criança com relação a tal assunto, embora não fosse mais uma há vários anos, e aquele pensamento lhe deu um pouquinho mais de coragem.
O deus aproximou-se devagar, sentindo a textura da pele dela e apenas percebendo neste momento quão macia era, assim como a suavidade da mesma. Não queria apressar nada, mesmo que algo lá no fundo de sua mente desejasse desesperadamente que pousasse seus lábios nos dela o mais rápido possível apenas para saber qual era o sabor deles. Tal pensamento fez sua mão descer até o queixo de Crystal, passando o polegar pelo lábio inferior da princesa da maneira mais delicada que conseguiu antes de recostar sua testa na dela, fechando os olhos ao sentir o perfume incomum que ela exalava.
A loira poderia estar nervosa ao extremo, porém, sua ansiedade era maior, e foi por este motivo que acabou tomando a iniciativa de pousar seus lábios nos dele, levando suas mãos ao peito do trapaceiro. Não sabia muito bem o que diabos estava fazendo, mas surpreendeu-se com a doçura que Loki estava agindo no momento, deixando-a se acostumar com aquilo como se soubesse que era a primeira vez que o fazia.
Levou algum tempo para Crys tornar-se menos receosa, no entanto, aconteceu, e foi no exato momento em que o moreno pedira passagem com sua língua, não demorando muito para entrelaçar-se com a sua. A possessão começou a tomar conta de ambos, fazendo o deus largar o medalhão que ainda encontrava-se em sua mão para pousá-la na cintura de sua garota, enrugando de forma involuntária a blusa que ela vestia, acabando por permitir que a ponta de seus dedos roçassem a pele exposta.
Um arrepio subiu pela espinha dela enquanto levava uma das mãos aos cabelos de Loki, sentindo certa satisfação assim apreciou os fios lisos entre seus dedos. A outra subira pelo braço dele, parando no ombro do mesmo e ela se aproximou ainda mais do seu belo trapaceiro, conseguindo sentir a textura dos trajes através de sua blusa fina.
Não souberam por quanto tempo ficaram daquela forma, mas houve um momento que ambos precisaram de ar e foram obrigados a separar seus lábios, logo encarando um ao outro tão perto que ainda não parecia muito real para nenhum dos dois.
— Isso foi... Perfeito. — Murmurou Crys após um breve momento de silêncio enquanto tentava obrigar seu coração a bater normalmente.
Tais palavras fizeram o moreno sorrir de forma presunçosa, recuperando um pouco de sua natural essência antes de puxá-la novamente contra si, revelando uma pegada que Crys não havia esperado, e este detalhe a surpreendeu.
— Era de se esperar, afinal, sou um deus. — Observou de uma forma que a fez arquear a sobrancelha antes de rir de leve.
— Você é melhor de boca fechada. — Comentou a mensageira, mordendo seu lábio inferior com discrição antes de pousar seu olhar na boca que estava desejosa por sentir mais uma vez. — Agora sei de uma forma bastante eficaz de mantê-lo calado. — E puxou o rosto dele em sua direção, voltando a beijá-lo.
Era algo novo para ambos lidarem, porém, nada que os dois não poderiam resolver juntos, de uma maneira que apenas eles seriam capaz de compreender. Suas diferenças não pareciam mais tão relevantes.
E, por ora, era o suficiente.
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