The Princess
4 4 – Stay
Notas iniciais

Seis meses depois
— Eu não acredito que você seja tão suicida, midgardiana idiota! — Exclamou Loki assim que foram trazidos por Heimdall pelo portal. — Poderia ter morrido!
— Mas não morri. — Falou entediada, virando-se para ele trajando uma armadura diferenciada de todos os guerreiros de Thor, toda em azul escuro com detalhes em prata e que, involuntariamente, destacava a pele clara da garota. — E, se não o fizesse, você teria sido gravemente ferido. Minha função é manter sua cabeça no lugar, literalmente falando, então não deveria ficar tão preocupado assim. — Crystal voltou a andar, colocando sua katana na bainha localizada atrás de suas costas. — De nada, Loki. — Soltou divertida ao se afastar enquanto todos olhavam a cena curiosos, como também um tanto divertidos.
A relação de ambos começou extremamente complicada. Não conseguiam ficar em um ambiente sem que começassem a discutir, mas Crystal sempre as vencia por conhecê-lo mais do que Loki a conhecia e isso divertia Lady Sif, assim como Volstagg e Frandal. Para eles, todas as discussões serviam para entretê-los, no entanto, quando os dois começaram a treinar juntos, uma paz estranhamente confortável rondava-os, embora brigassem sempre que um tentava proteger o outro.
Era como se já houvessem construído uma afinidade sem sequer terem notado, tanto que Crys até mesmo o fez rir sem ser de sarcasmo, fato que surpreendeu Thor mais do que qualquer outro. As mudanças, embora discretas, foram notadas por todo o reino e, a principal, foi que a única que conseguia conversar civilizadamente com ele quando estava irritado era aquela cuja espécie sempre havia pensado ser inferior a sua.
Thor aproximou-se do irmão, pousando a mão no ombro do mesmo.
— Ela só quer lhe proteger. Seja menos grosseiro. — Loki o encarou nada agradado com tais palavras, fazendo o loiro sorrir. — Você a conhece... Não vai aceitar ser coordenada por ninguém, incluindo você.
Revirando os olhos, o moreno afastou-se para retornar ao castelo, embora também estivesse fazendo aquilo para não desviar seus olhos da garota, que parecia alegre demais por estar vivendo em Asgard. Ela havia conquistado todos naquele reino com uma facilidade deveras invejável, pois conseguia boa parte do que desejava apenas abrindo um belo sorriso.
Sorriso este que até mesmo o deus da trapaça não sabia se gostava ou repudiava. E isso, para Loki, era uma dúvida que odiava ter.
∞∞∞
Após banhar-se, Crystal vestiu roupas confortáveis que teve de insistir às moças que serviam no castelo para que as fizesse. Ela se olhou no espelho grande que havia em seu quarto, ajeitando a cintura de sua saia branca, que alcançava dois dedos acima dos joelhos e ficava linda com a blusa de gola canoa cinza claro de mangas curtas.
Crystal recordou a primeira vez que se vestiu com aqueles trajes. Havia virado o falatório do reino inteiro. Não que se importasse com aquilo, já que estava acostumada a virar motivo de fofocas desde que começou a enfrentar os almofadinhas – vulgo amigos de seu irmão, Marloon. Sempre acabava fazendo-os beijar o piso perfeitamente bem limpo da mansão enorme da família Redwin.
Além de ser a diferente e a filha do meio problemática, era a única que tinha um psicológico parcialmente normal.
Assim que soltou seus cabelos do coque frouxo, houve uma batida na porta de seu quarto.
— Entre! — Gritou, se encaminhando ao criado mudo e pegando sua corrente de ouro com um pequeno pingente de sol que ganhou de seu pai quando era bebê. Assim que o colocou, olhou por sobre o ombro, franzindo o cenho ao ver Frigga parada na entrada. — Ah... Oi.
— Soube que vocês foram bem sucedidos em sua missão. — Comentou ao adentrar o quarto e Crys sorriu, confirmando com um aceno de cabeça. — Também soube que Loki retornou estressado demais com você.
A loira revirou os olhos ao pegar suas sapatilhas e colocá-las.
— Ele deu chilique por nada. Estava segura de minha decisão, então fui lá e fiz. — Dando de ombros, fez um sinal para o lado de fora. — Podemos conversar andando por aí?
— É claro. — As duas saíram dos aposentos da jovem, começando a andar devagar. — Sabe que isso é bom, não é? Loki se importar com você. — Quando Crystal olhou para baixo, Frigga sorriu de leve. — Sei o que está pensando. Tem medo de que ele a confunda com Sygin mesmo depois de todos estes meses que estão passando juntos, que ele ainda não tenha aceitado tudo que aconteceu para se interessar em outra.
— Na verdade, meu medo é de eu mesma confundir toda a situação e acabar me apaixonando por alguém que tenho certeza absoluta que não gosta de mim da mesma forma. — Crys soltou sem pensar. — Por boa parte da minha vida, não tive o amor que uma criança deveria ter. Minha mãe sempre deixou claro que me repudiava, meu pai nunca teve muita voz ativa e era por isso que sempre agia por debaixo dos panos. Isso me tornou alguém insegura demais para acreditar em qualquer afeto vindo de outra pessoa, como também é por isso que fujo de qualquer conversa que leve para esse lado que me dá muito... Medo. — Confessou em voz baixa, entrelaçando seus dedos nervosamente enquanto olhava para qualquer ponto do corredor em que se encontravam.
Crystal não era conhecida por ser emotiva, no entanto, era a pessoa mais insegura que se poderia conhecer, e isso a prejudicava a ponto de evitar qualquer aproximação possível, incluindo amizades. Já havia perdido coisas demais durante os anos, principalmente o afeto familiar, e foi exatamente por isso que resolveu viajar para Nova York, assim podendo se livrar de tudo que a incomodava para ter uma vida que ela considerasse normal.
Uma vida que considerasse plenamente sua e, assim, melhorando sua autoestima.
— Medo é algo mais comum do que você pensa, Crystal. — Murmurou Frigga, deixando a jovem ainda mais desconfortável com tal situação. — Eu mesma sinto isso toda vez que vejo meus dois filhos viajando pela Bifröst, mas também um alívio dentro de meu peito quando os vejo retornar sãos e salvos. Sentir medo é bom, mas também tem de aprender a superá-lo. Irá gostar da sensação.
Colocando uma mecha de seu cabelo atrás da orelha, ela encarou a deusa ao seu lado.
— Ainda não sei como. — Falou baixinho, cruzando os braços contra o peito e sacudiu a cabeça. — Não gosto de falar sobre isso, me sinto exposta demais e... — Crystal parou quando ouviu sons vindos de uma sala adjacente ao salão do trono, já apostando quem deveria estar em seu interior. — Poderia me dar licença, Frigga?
— À vontade. — A deusa observou os passos seguros da jovem quando empurrou a porta e sorriu, pois sabia quem estava lá.
A primeira coisa que Crys viu ao adentrar o grande cômodo foi as costas do deus da trapaça. Ele encontrava-se sem camisa e concentrado no que estava fazendo, então a princesa andou até uma das pilastras, escondendo-se parcialmente atrás da mesma enquanto admirava-o de longe. Sabia que era errado se sentir atraída por alguém que não a correspondia, contudo... Era algo que não conseguia controlar.
Loki inspirava e expirava, acalmando a velocidade de seu coração, mas não conseguindo desacelerar o ritmo de seus pensamentos. Assim que apressou o passo pela ponte, Thor o seguiu e conversou um pouco com ele, sempre a levando até a maldita princesa, que vivia infortunando-o – mas também o ajudando, de certa forma. Ela o conhecia, sabia quando tinha algo errado e, principalmente, parecia ter sempre as palavras corretas para acalmá-lo quando estava prestes a se irritar.
Com a faca que tinha em mãos, começou a realizar movimentos rápidos e ofensivos, sentindo seus músculos das costas tencionarem sempre que puxava o braço direito para trás. Realizou aquilo por um tempo, porém, sua nuca arrepiou como se estivesse sendo observado, então ele se interrompeu repentinamente e ouviu a risada breve dela.
— Sabia que uma hora iria me perceber aqui. — Comentou Crystal assim que Loki olhou por sobre o ombro, vendo o leve sorriso que continha nos lábios rosados da garota. — Você infelizmente sempre percebe.
— Tenho uma percepção excelente. — Ela arqueou a sobrancelha antes de juntar as mãos atrás das costas. O deus analisou as roupas da princesa com atenção. — Não veio para treinar. — Concluiu, encarando-a curioso. — O que anda passando por sua mente, midgardiana?
Viu-a morder o lábio inferior e desviar seu olhar, parecendo decidir como falar o que se passava em sua cabeça.
— Tenho... Duas perguntas para você. — Crys soltou enquanto via-o levar a arma que ainda tinha em mãos à mesa, que se localizava do outro lado de onde ela se encontrava. — Quero que as responda com o máximo de sinceridade que é capaz de ter. — Pediu, embora houvesse algo no tom dela que o deixou intrigado, mas não se virou para confirmar.
— E o que seria? — Questionou ao pousar o objeto na mesa antes de virar-se com calma para ela, cruzando os braços.
Foi difícil para Crys desviar seu olhar daquela linda barriga repleta de quadradinhos que ainda não havia visto até aquele instante, porém, fez um esforço para tal e se concentrou nas perguntas que desejava fazer.
— Bem, a primeira é sobre minha estada em Asgard. — Isso pareceu deixá-lo em alerta. — Estes seis meses foram incríveis, nunca me senti tão... Em casa... Como me sinto quando estou perambulando por aí. Claro, tirando os trajes antiquados que não combinam nem um pouco com a moda de NY. — Ela sorriu um pouco, recordando de alguns fatos, mas logo se tornou séria. — Só que eu não pertenço realmente a Asgard. Não tenho nada além de amigos e uma missão que, nesse meio tempo, percebi que já atingiu seu objetivo.
Loki não estava gostando nem um pouco do rumo que aquela conversa estava tomando, contudo, não demonstrou o que realmente sentia em seu interior, apenas revelou uma crescente curiosidade em sua face.
— Não compreendo seu ponto. — Murmurou, firmando suas mãos na beira da mesa e apertando-a discretamente.
Crys soltou um suspiro baixo.
— É que estou cogitando retornar ao meu mundo. — Revelou, não conseguindo encará-lo, apenas suas próprias mãos. — Posso me sentir bem aqui, mas não é meu verdadeiro lugar, entende? Ainda preciso encontrá-lo, e sinto que não será neste reino.
O deus da trapaça não esperava receber uma notícia como aquela, por mais intimidade que ambos haviam criado conforme conviviam com mais frequência perto um do outro. Pensava que estava tudo bem. Que sempre teria a mensageira de Sigyn por perto para lhe dizer exatamente o que sua amada lhe diria caso ainda vivesse.
Ele se virou, digerindo aquelas recentes informações com certa dificuldade.
— E qual a outra pergunta? — Questionou em um tom de voz contido, virando o rosto discretamente para o lado, mas não chegou a encará-la. Crystal ficou quieta, então Loki a encarou. — Qual a outra? — Repetiu, fazendo-a perceber que estava a dar certos indícios de irritação.
— Você... Você entende que preciso ir? — Inquiriu com algo lhe pesando o peito e, examinando-o com atenção, percebeu que o trapaceiro não parecia muito feliz. — Que preciso encontrar meu lugar?
Repentinamente, ele ergueu o rosto com aquele sorriso irônico que a loira odiava do fundo de seu ser. Foi assim que soube que havia algo de muito errado e que isso envolvia sua decisão.
— Claro que entendo, e a apoio, midgardiana. Será menos uma coisa com que me preocupar enquanto vou ajudar meu irmão com seus afazeres nos Nove Reinos, afinal, você sempre fora um peso em cada um deles. — Aquelas palavras foram um soco no estômago de Crys, que sentiu seu coração se apertar... E sua raiva aflorar por um motivo que ainda não compreendia. — Ainda não entendo o motivo de Sigyn ter escolhido logo a pior espécie de todo o Universo para tentar me ajudar.
Apertando sua mão direita em punho, ela andou até estar a centímetros do moreno, pouco se importando com a proximidade em que se encontravam.
— Você é um ingrato, sabia? Eu larguei tudo na Terra para poder lhe ajudar... Minhas metas, a faculdade que estava prestes a iniciar, o trabalho que Tony Stark me ofereceu em sua empresa. Larguei até mesmo a minha vida para ajudar a sua, e é assim que me agradece?! Sendo um maldito filho da... — Ela se impediu de completar a frase, sentindo-se hiperventilar ao jogar todas aquelas coisas na cara do maldito deus à sua frente. — Eu realmente pensei que Sigyn estava certa. Que você tinha que ser salvo de alguma forma, ou, ao menos, que precisava de ajuda para encontrar um caminho para proseguir. Um caminho correto. Mas a única coisa que vejo é um homem egocêntrico, mesquinho, egoísta, burro e cretino que parece acreditar que há apenas um caminho a ser seguido nessa vida! — Crystal deu um passo para trás, sacudindo a cabeça. — Para mim, chega. — Lhe dando as costas, a garota começou a seguir em direção à porta, mas parou assim que o ouviu falar.
— Sigyn era minha amada. Ela era a única pessoa em todo o Universo que conseguiria realizar essa missão e ser bem sucedida. Você não é nada comparada a minha princesa. — Loki sabia que suas palavras haviam a ofendido, contudo, ele não era conhecido por se arrepender, nem por se desculpar com frequência, por isso não mexeu um só músculo quando a observou sair dali tão rapidamente que não demorou a perdê-la de vista.
Ele empurrou alguns fios de seus cabelos para trás, passando cada coisa que foi dita em sua mente e, sem que percebesse, soltou um grito irritado, fazendo a mesa ir de encontro à parede e partir. Os objetos que estiveram sobre a mesma tilintaram contra o piso. O deus fechou seus olhos apertados. Como uma simples humana conseguia deixar sua mente completamente bagunçada?
Loki não tinha nenhuma explicação plausível e, para piorar sua situação, não tinha ideia do que estava acontecendo consigo. Havia uma sensação estranha em seu peito que apenas não conseguia distinguir o que era. Sentia-se confuso, perdido e sem saber realmente o que fazer. Sem rumo. E tudo isso, por causa de algumas palavras agressivas.
Sacudindo a cabeça, o deus soltou um suspiro baixo. Resolveria aquilo em outro momento.
E rezava para que não fosse em breve.
∞∞∞
Crystal teve de ser discreta com o que desejava, então ficou em silêncio durante todo aquele dia, não se dignando a encarar o maldito trapaceiro por nada no mundo. Ainda estava fervendo de raiva, mas o que predominava era a mágoa que havia em seu coração sem que tivesse permitido tal coisa.
Isso a deixava ainda mais furiosa.
O único problema era que ela havia aprendido a disfarçar suas emoções muito bem, pois quando se juntou aos outros para jantar, ninguém percebera sua mudança de humor, apenas a carranca que havia se transformado o rosto de Loki. Frigga e Thor lhe perguntaram o que havia ocorrido, mas ele não os respondia, apenas os encarava de soslaio antes de se concentrar em comer.
Ele também a encarava vez e outra, como se quisesse conversar com a garota. No entanto, a princesa era teimosa e encontrava-se mais do que decidida a ignorá-lo... Assim como em ir embora daquele maldito lugar. Não aguentava mais aquela sensação de que faltava algo, de que precisava daquilo que jamais poderia ter.
Foi pensando nisso que, quando retornou ao seu quarto, a primeira coisa que fez foi trocar de roupa, vestindo as mesmas peças que vestia quando chegara naquele lugar. Colocou seu celular dentro do bolso traseiro de seus jeans, as chaves do seu quarto no hotel – o qual ela nem sabia se ainda estava em seu nome –, alguns dólares que trouxera e, após de passar seu olhar por aquele quarto, como também por seus trajes de batalha, saiu apressada daquele cômodo, fechando a porta atrás de si para não chamar qualquer atenção indesejada.
Enquanto a princesa dobrava o corredor, Loki se encaminhava para o quarto de Crystal. Estivera pensativo durante todo o tempo após a conversa que tiveram, acabando por perceber que, se ela fosse embora, ficaria sem seu pilar. Por mais que seu único desejo fosse ter sua Sigyn de volta, ele tinha ciência de que ele não lhe seria concedido, então acabou se... Afeiçoando... À midgardiana de uma forma que nem mesmo sabia explicar.
Ao ficar em frente à porta, bateu na porta duas vezes e esperou alguns instantes, mas não obteve nenhuma resposta. Mesmo que fosse uma invasão da privacidade alheia, ele girou a maçaneta e, ao comprovar que não havia ninguém no corredor, adentrou-o com rapidez, fechando a porta atrás de si. O deus olhou em volta, percebendo de imediato que a) Crystal não estava em seu quarto e b) O cômodo estava imaculado demais para seu gosto.
Não soube exatamente o motivo, mas ele saiu do quarto apressado, começando a passar cada palavra dita por ela em sua mente enquanto se dirigia para longe da área dos aposentos.
É que estou cogitando retornar para o meu mundo.
Seus passos tornaram-se apressados e sua expressão tornou-se decidida assim que começou a se encaminhar para fora do castelo.
Posso me sentir bem aqui, mas não é meu verdadeiro lugar, entende?
— Você não vai embora, midgardiana insuportável. — Falou em tom baixo ao andar em direção à ponte do arco íris. — Não sem me ouvir.
Ao mesmo tempo em que Loki se dirigia para o ponto em que a loira se encontrava, Crystal adentrou a entrada para Bifröst semelhante a um furação, não surpreendendo nem um pouco o guardião da mesma.
— Quero que me leve de volta. — Ela pronunciou com a voz firme, embora a raiva ainda fosse presente em seu olhar, e parou ao lado de Heimdall. — Quero voltar para Nova York.
Assim que os orbes dourados pousaram no rosto da garota, Crys engoliu em seco discretamente, mas não vacilou em sua decisão um só momento, revelando o que desejava através de seus olhos escuros e rosto impassível.
— Tem certeza de sua decisão, Crystal? — Questionou o moreno com seriedade, tentando ganhar tempo para que Loki pudesse vir e convencê-la a ficar. — Você conquistou muitas coisas aqui.
Os olhos dela desviaram do guardião, encarando as estrelas brilhantes em contraste com o céu escuro. Não conseguia esconder que estava triste pelo rumo que tudo havia tomado, mas não podia ficar ali quando seu frágil coração encontrava-se no meio de toda a confusão que havia dentro de si. Nunca se apaixonara antes, porém, se fosse para ficar daquela maneira, preferia ir para sempre ao invés de ficar e continuar tentando consertar alguém que não tinha mais conserto.
— Mas não o que realmente pensei. — Murmurou baixo, sacudindo a cabeça e afastando os cabelos para trás. — Bem... Não vim para falar disso com você. Quero retornar para o meu planeta, se não se importa. — Ela mudou de tom com brusquidão, tornando-se tão séria que nem ao menos parecia a mesma pessoa que parou naquele reino. — Por favor. — Acrescentou, lhe implorado com o olhar.
Heimdall soltou um leve suspiro.
— Sabe... Loki nunca foi uma pessoa fácil. Nem quando era apenas uma criança. — Comentou o guardião, atraindo o olhar intrigado de Crystal. — Isso apenas se intensificou conforme o tempo foi passando, mesmo sendo amado por Frigga, e piorou assim que Sigyn faleceu. Lembro-me de ter assistido a tudo daqui. Vanaheim enfrentava um grande perigo, perigo este que não poderia ser derrotado apenas com armas. Teria de ser com a pureza de uma ação.
A ficha de Crystal caiu aos poucos enquanto certas recordações que não lhe pertenciam tomavam sua mente, fazendo-a compreender o que a motivou.
— Ela se sacrificou para que Loki vivesse. Ela deu a vida dela para que o trapaceiro não perdesse a dele! — A princesa encarou Heimdall. — Essa foi sua pura ação... Morrer para que seu amado pudesse sobreviver.
O guardião assentiu, apertando discretamente o cabo de sua espada.
— Ela era tão boa quanto você é. Deve ser por isso que são tão semelhantes, embora, ao mesmo tempo, sejam completamente diferentes. — Comentou com certa sutileza. — Loki sabe disso. Notou isso. Apenas não conseguia compreender o motivo de se sentir bem ao seu lado, afinal, não queria se tornar novamente dependente de alguém como era de Sigyn.
A loira cruzou os braços contra o peito, começando a refletir se sua decisão era mesmo a correta. Sigyn havia cedido de sua existência para que ela ajudasse o trapaceiro, mesmo sabendo que poderia ser complicado para ambos os lados. Tinha ciência de que poderia até mesmo dar errado. Mas arriscou. E isso influenciou diretamente na forma de Crystal pensar a respeito da deusa.
Assim que Loki alcançou a entrada da Bifröst, encarou as costas da midgardiana antes de cruzar seu olhar com Heimdall e acenou com a cabeça, agradecendo por ter conseguido segurá-la até que ele chegasse. O guardião encarou a princesa com um leve sorriso em seus lábios, chamando a atenção da mesma antes de sinalizar para o deus da trapaça, fazendo-a olhar por sobre o ombro.
— Veio se despedir? — Questionou a loira em certo desafio, mal notando que Heimdall estava se encaminhando para a saída com o intuito de deixá-los a sós.
— Na verdade, minhas intenções são completamente contrárias. — Ele revelou com seriedade, dando passos cautelosos na direção da garota, que não conseguia se decidir se era indiferente com o moreno à sua frente ou grosseira a ponto de ser mal educada. — Sei que não sou o melhor indivíduo para lhe convencer a ficar, no entanto... — Loki soltou um discreto suspiro, desviando seu olhar. Nunca fora bom com as palavras, e o que desejava dizer apenas deixava a situação ainda pior. — No entanto, não posso deixá-la ir, princesa de Swoodwing. Sigyn realmente foi o que me fazia ser bom, pois queria que ela me merecesse. Queria ser digno de seu amor. — Confessou em tom baixo, nunca a encarando diretamente para não acabar cometendo um erro do qual não pudesse corrigir mais tarde. — Perdê-la me destruiu a tal ponto que escolhi um caminho completamente contrário ao que seguia por ela pelo simples fato de que me fazia recordar de tudo o que ocorreu. Lembrar-me de Sigyn... Doía. Muito. Então fui pela alternativa mais fácil.
Ela o analisou por um momento antes de dar um passo em sua direção.
— Está sendo difícil para você confessar isso, não é? — Perguntou o mais suave que conseguira, recebendo apenas um assentimento como resposta. — Mas o que isso tem a ver com me convencer a ficar? — Crystal tinha que saber, já não aguentava mais a curiosidade e, infelizmente, de cultivar a pequenina chama de esperança nascendo em seu interior.
Finalmente, Loki a encarou, pousando toda a força de seu olhar sobre a loira.
— É que ainda não estou seguro de que seja a hora apropriada para que retorne ao seu reino. — Falou com um pouco mais de naturalidade, fazendo-a trincar os dentes, irritadiça por ele estar enrolando tanto.
— Dá para ser direto, pelo menos uma vez na vida?! — Soltou alto repentinamente, não conseguindo refrear seu temperamento. — Sacrifiquei seis malditos meses para que você pudesse ver que não existia apenas um caminho a ser seguido, mas parece que você não reconhece qualquer mínimo esforço que fiz para que não desperdiçasse sua vida maldita dentro de um cubículo!
Ele estreitou os olhos de leve, soltando um suspiro baixo. A garota não estava entendendo onde queria chegar e já estava considerando burlar as palavras, mas tentou mais uma vez.
— Crystal...
— Não! Cheguei ao meu limite, Loki! — O interrompeu, deixando transparecer a mágoa em seus olhos escuros. — Criei expectativas demais com relação a isso e acho que precisarei me afastar para colocar a cabeça no lugar, pensar racionalmente... — Ela suspirou, encarando qualquer ponto que não fosse o deus à sua frente. — E decidir se é bom continuar com isso.
O deus da trapaça demorou a assimilar o que foi dito pela garota, deixando transparecer sua incredulidade assim que compreendei o que tais palavras.
— Mas eu estava melhorando! Estava melhorando por sua causa, midgardiana irritante! — Levantou sua voz, falando alto o bastante para ecoar no ambiente em que se encontravam. A surpresa presente no rosto de Crystal foi o que lhe deu impulso para continuar. — Foi por você que fiz tudo o que deveria para se convencerem de que estava me redimindo a ponto de mudar.
A garota piscou algumas vezes, tentando ver se havia de fato compreendido as palavras vindas de Loki e afastou seus cabelos do rosto, colocando-o para trás enquanto tentava, inutilmente, pensar em algo decente para dizer.
— Eu... Bem... Ahn... — Ela pigarreou ao juntar suas mãos em frente ao corpo. — A ideia original era que você melhorasse por si próprio, que desejasse isso para ter uma vida melhor e ver as diversas possibilidades de ser feliz sem que precise seguir um caminho ruim. Essa era minha missão principal antes de qualquer outra coisa e... — Crys sabia que estava tagarelando, no entanto, estava sendo difícil de controlar e, como o deus não era de todo paciente, acabou por cobrir a boca da garota com uma das mãos, fazendo-a paralisar.
— Você fala demais. — Observou, deixando que um sorriso sombreasse seus lábios antes de suspirar levemente. — Quero que fique até que eu consiga pensar em Sigyn e não me sentir culpado pelo que aconteceu. Não sentir a mesma dor todo o tempo. — Loki ficou distante por alguns segundos, mas logo sacudiu a cabeça e a encarou ao abrir um de seus melhores sorrisos provocantes. — Terá de me aguentar, princesa.
Mesmo que houvesse arqueado a sobrancelha pelo trapaceiro ter utilizado a mesma frase que ela quando o enfrentou, Crystal sentia-se... Feliz... Pelo deus ainda necessitar dela. Retirando a mão dele de sua boca, assentiu, mas antes de falar qualquer coisa, o surpreendeu ao dar-lhe um forte soco no ombro.
— Eu fico, mas se surtar comigo de novo, quebro sua cara e sumo daqui para sempre. — Avisou séria, mirando o fundo dos olhos do moreno, afinal, não queria sentir de novo aquela mágoa que parecia partir seu coração ao meio. — Entendeu bem, trapaceiro? — Massageando seu ombro, ele reprimiu a risada que estava prestes a soltar antes de vê-la passar por si, encaminhando-se para a saída. Observando-a andar à sua frente, notou algo que não tinha percebido até o momento.
A loira já havia conquistado um lugar em sua vida. Já era uma presença constante que não saberia viver sem. E, pela primeira vez desde que sua princesa faleceu, gostou de ter alguma coisa concreta em sua longa vida.
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