The Princess
3 3 – Salvation
Notas iniciais

Fugir de seus seguranças foi a parte mais fácil de seu plano, mas encontrar Thor foi extremamente difícil. Teve de se concentrar ao máximo para ter pelo menos uma remota ideia de onde aquele bendito deus poderia estar, afinal, viu basicamente toda a cidade em fotos, mas quando foi recorrer a uma reza, sentiu uma energia que lhe era um tanto familiar.
— Vire à esquerda e siga reto. — Comandou com um olhar distante e o motorista nem ao menos questionou a respeito. Assim que seus olhos alcançaram o lugar, sentindo aquela estranha energia mais forte, seu coração acelerou involuntariamente. — Pare! — O carro deu um solavanco assim que freou, logo parando. Pegou do bolso da calça de couro uma nota de cem dólares e entregou ao motorista com um leve sorriso no rosto antes de sair apressada do interior do automóvel.
Correu em disparada, chamando a atenção de algumas pessoas, mas pouco se importando com aquilo. Ela atravessou o que parecia ser uma praça, pegando o exato momento em que Thor pegou o que parecia um cilindro com duas alças em cada lado, contendo um cubo azul brilhante em seu interior. Ela desacelerou, tentando controlar sua respiração ofegante e concentrou sua visão no objeto brilhante, vendo que só teria uma chance, já que nunca tentou sugar à distância – e não faria isso no momento.
Assim que viu o deus do trovão se aproximando de Loki, voltou a correr o mais rápido que suas pernas permitiam. Ouviu exclamações de surpresa quando passou pelos heróis que salvaram o planeta, no entanto, seu foco estava no cubo, então freou quando estava perto o bastante, caindo ajoelhada e tocando no cilindro no instante em que o moreno torceu seu lado da alça.
A única coisa que sentiu foi algo sugando seu corpo antes de sentir outro chão abaixo de si. Crystal deixou sua mão cair, tendo ciência dos joelhos doloridos antes da ponte abaixo de si, que demorou certo tempo para notar que era colorida.
— Ponte do arco-íris. — Sussurrou, ficando em pé e focando na construção enorme que tinha à sua frente. — Realmente... As pinturas nunca conseguiram fazer jus a magnificência desse lugar. — Comentou fascinada antes de encarar os irmãos com expressões tão incrédulos que a fez rir. — Que foi, gente? A mãe de vocês me queria aqui, então... Aqui estou eu! — E abriu os braços com um sorriso de canto, que foi murchando quando eles continuaram com aquela cara de “o que diabos está fazendo aqui?!”. Foi naquele instante que que percebeu que Loki estava com um negócio cobrindo a boca, acabando por cair na gargalhada. — Colocaram focinheira no trapaceiro! Adorei! — Quando ele estreitou os olhos, claramente desgostoso com a piada, somente a fez rir mais. — Queria rir mais de sua cara, mas eu preciso entrar lá para livrar sua barra. E não me agradeça, Sigyn deu um jeito de tomar conta de você, mesmo sendo um idiota ingrato. — E se virou, começando a caminhar em direção ao reino.
Ouviu passos atrás de si.
— Explique isso, pois minha mãe não me disse nada sobre este assunto. — Disse-lhe Thor, obrigando-a a parar de andar para encará-lo abertamente.
— Acho melhor explicar quando estivermos em frente à Odin, aí todos sabem de uma vez só. — E voltou a caminhar. — Fora que, se ela não contou, talvez não quisesse que você soubesse. — Isso vez todos entrarem em um silêncio pensativo enquanto se encaminhavam para o castelo repleto de dourado, que a obrigou a semicerrar seus olhos quando se encontrou próxima ao mesmo.
Era lindo, mas achou um tanto exagerado. Não gostava de dourado, afinal, ele sempre ofuscava seus cabelos loiros e isso a irritava profundamente, embora não fosse tão ligada à sofisticação quanto seus irmãos que, de acordo com sua mãe, nasceram para reinar enquanto ela nascera com alma de plebeia.
Crystal queria ver a cara de Saleev ao ver que Sigyn lhe tinha dado um propósito ao invés dela. Uma gargalhada maldosa quase escapou de si. Ela faria por merecer tal graça que a deusa que nunca gostou lhe dera, mesmo que achasse que não seria bem sucedida em livrar o deus da trapaça de ser preso.
Thor foi quem a ajudou a passar pelos guardas que encontraram pelo caminho, que sempre a olhavam de soslaio como se estivessem questionando o que ela fazia ali, mas Crys estava ignorando tudo ao seu redor. Só naquele instante estava caindo sua ficha de que iria falar com Odin, Pai de Todos. O único deus da cultura nórdica, da sua cultura, que tinha medo do que podia de fato realizar.
O único que a fazia se sentir como um pequeno grão no vasto Universo.
Assim que adentraram o salão do trono, a loira engoliu em seco enquanto andava hesitante atrás do deus do trovão e de Loki, que parecia levemente vulnerável ao ver Frigga ao lado do rei de Argard com seu rosto tomado pela preocupação, tristeza e pesar. Por mais que desejasse ver seu filho livre, tinha a mais absoluta ciência de que não poderia passar a mão pelos erros que o trapaceiro realizara.
Odin analisou os três recém-chegados, com extrema atenção e rosto impassível, parando na única que não deveria estar presente.
— Quem é você e o que faz em meu castelo? — Questionou em um tom grave que a fez estremecer discretamente, porém, ela teve de reunir um pouco de coragem para dar um passo à frente e encará-lo.
— Meu nome é Crystal e...
— Quero seu nome completo. — Ele a interrompeu, estreitando de leve o único olho visível. A loira desviou seu olhar, tentando controlar seu temperamento para não soltar uma resposta grosseira. — Eu não tenho muito tempo, senhorita, então... — E fez um gesto para que a garota falasse.
Crystal soltou um longo, pesado e indignado suspiro, logo cruzando os braços contra o peito.
— Crystal Sigyn Redwin. — Ouviu dois ofegos ao seu lado, mas que fora ignorado pelos outros presentes. — Minha mãe venera tanto vocês que queria que todos os seus filhos tivessem ao menos um pouco de suas essências, então colocou o nome de um dos deuses em cada um de nós. Resumindo: ela é uma pirada que deveria estar internada ao invés de sentada em um trono. — Falou com naturalidade, conseguindo capturar a curiosidade do deus à sua frente.
— De onde você vem? — Perguntou interessado, fazendo-a realizar uma careta.
— Ah... Bem... — Crys retorcia os dedos das mãos, um tanto nervosa. — Sou midgardiana. E vim para tentar defender o deus irresponsável, quer dizer, da trapaça. — Ela sentiu um olhar pesado sobre si, mas ela não quis encará-lo com receio de perder sua precária coragem.
O interesse de Odin evaporou, assim como sua paciência.
— Ele será preso por seus crimes e ninguém poderá fazer absolutamente nada para salvá-lo! — Exclamou alto, erguendo-se de seu trono e deixando Crystal incrédula.
— Espere aí... Você quer prender a pessoa que salvou, criou como seu e que, por sua própria culpa, se tornou quem é agora?! — O estranho silêncio que reinou a seguir foi resposta o bastante. — Agora estou curiosa. Como o grande rei de Asgard pretende se defender de tal acusação? Afinal, foram suas próprias ações que destruiu a família que, no início, era perfeita em sua visão, mas agora que precisa lidar com suas próprias consequências, o que você faz? Manda prender a porra do seu filho! — Crystal mal percebera quando sua voz tornou-se alta o suficiente para se tornar um grito enraivecido, porém, assim que finalizou seu monólogo, teve ciência do quão exaltava se encontrava.
Viu que o rei estava tentando controlar-se ao ouvir tais atrocidades que, por mais que desejasse negar que não era verdade, a humana tinha toda razão. Sabia que tudo aquilo estava acontecendo por sua culpa, mas que não poderia resolvê-los mais por ser muito tarde para isso. Loki já estava corrompido pela inveja e pelo poder, pois foi a única coisa que lhe sobrara após a morte de Sigyn. Odin não tinha ideia de como era aquela sensação, afinal, protegia sua Frigga para não perdê-la para seus inimigos. Ela era sua preciosidade. Seu coração. Sua vida.
E isso o fez reconhecer o olhar feroz no rosto da jovem Crystal.
— Corajosa. Fiel. Um pouco imprudente, mas ainda assim, verdadeira. Bondosa e guerreira. Há apenas um indivíduo em toda Asgard que tinha essas qualidades, contudo, até onde sei, sua alma está com as estrelas. — Comentou com seriedade ao descer cada degrau com lentidão e se aproximar da loira, que não desviara o olhar do dele em nenhum momento daquela conversa. — Quem realmente é você?
Sorrindo estranhamente, ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— A garota que, eventualmente, precisa salvar uma família que está mais destruída do que a dela. — O tom levemente debochado fez Odin estreitar o olho, não tendo nenhum efeito em Crys, que tinha apenas uma única coisa a fazer e não pararia naquele instante. — Que, por intermédio do destino, foi escolhida para concertar a família mais ferrada que já se deparou e concluindo que vocês são exatamente como nós, humanos. A única coisa que muda é que vocês têm poderes e conhecimento. — Ela riu brevemente. — Se as pessoas que os veneram soubessem disso...
O deus deu um passo à frente e, quando percebera o olhar mortal que lhe era dirigido, o interior da garota se encolheu, mas por fora continuou impassível ao peso que sentira naquela simples ação.
— Somos propícios ao erro sim, e não negamos isso. Vocês que nos imaginam perfeitos, intocáveis e incapazes de morrer. — Cuspiu tais palavras, fazendo a raiva dela aflorar.
— Foram vocês que nos contaram tudo! A culpa não é nossa se temos a triste mania de elevar pessoas que consideramos superiores a nós, colocando-as em pedestais! — Exclamou irritada, colocando a ponta de seu dedo no centro do peito de Odin. — Vocês são os culpados. Sabiam que nossa mente era tão malditamente influenciável a ponto de adotarmos novas crenças, costumes e conhecimentos com extrema facilidade. — Ela lhe deu as costas, entrelaçando os dedos em seus cabelos ao colocá-los para trás. — E não é somente culpa de vocês, mas sim de seus ancestrais que nos depreciavam. Os humanos sempre são colocados por último por destruirmos quase tudo que tocamos e não tiro suas razões, afinal, é a verdade, mas... Mas há aqueles que ainda são bons. Que querem fazer a diferença. — Crystal soltou um suspiro. — É o que quero fazer, por isso acabei vindo. Talvez até mesmo fosse um dos desejos de Sigyn, mesmo que seja algo que nunca saberemos. — Involuntariamente, ela encarou Thor, logo movendo seu olhar para Loki e franziu o cenho. — Gente... Dá para soltar ele? O trapaceiro é meio idiota, mas fugir quando algo lhe interessa não é de seu feitio. — E o encarou com um sorriso provocante. — Não é?
Quando o moreno simplesmente esticou os braços na direção do irmão, Thor ficou um tanto desconfiado e encarou o pai, que apenas assentiu antes do deus do trovão destravar as algemas, libertando as mãos de Loki. Assim que libertou sua boca, jogando tal objeto no chão, ele se aproximou a passos apressados da loira e a pegou pelo antebraço, segurando-o apertado.
— Ela não mandaria alguém como você para me ajudar, e sim arranjaria uma forma de vir ela mesma para mim! — Rosnou furioso, fazendo com que Crys estremecesse de leve e se encolhesse involuntariamente, em seguida percebendo sua reação.
Sua fúria fora tão grande que ela arrancou seu braço com força de tal aperto e empurrou o peito do trapaceiro para que ele se afastasse de si, assim voltando a ficar em sua zona segura.
— Não tinha como! Será que você não entendeu isso?! — A loira quase gritou para ele, que respirava com rapidez e não afastava em um só momento o olhar atordoado e irritado da princesa. — Se houvesse qualquer opção que resultasse em ficar com você pela eternidade, ela teria feito sem pensar duas vezes! Mas isso não existia, apenas... Essa.
Loki levou ambas as mãos aos cabelos, entrelaçando os dedos nos fios escuros e puxando-os com força enquanto insistia em não acreditar em nada que a midgardiana petulante lhe dizia, mesmo que contivesse tanta verdade que chegava a ser dolorosa. Não havia percebido quando ficou fora de si a ponto de atacar a mensageira de sua amada, mas o fez, embora não tivesse a acertado por um triz. A garota desviara com destreza de cada ataque que ele começou a realizar contra si como se já conhecesse seu estilo de luta, contudo, teve um momento em que ela se distraiu por alguns segundos, acabando por ser atirada do outro lado do salão.
Assim que sentiu o impacto do seu corpo contra o chão, algo nela se desprendeu. Uma raiva tão grande e intensa que não conseguiu manter dentro de si, fazendo-a se erguer com lentidão antes de encarar seu oponente. Crystal começou a andar em direção ao deus e todos ali presentes pensaram que seria um suicídio... Mas não contavam com suas habilidades, muito menos com a energia do Tesseract que ainda cotinha dentro de si.
Quando Loki estava prestes a jogá-la novamente sem piedade, cego pela dor que ainda perdurava mesmo após tanto tempo, fora surpreendido quando os olhos castanhos da garota tornaram-se estranhamente azuis antes de sumir em frente aos seus olhos de repente. Incredulidade era a única coisa presente em seu rosto ao olhar e volta, procurando por todos os lados, mas sendo pego de surpresa por um forte chute em suas costas, desequilibrando-o.
— O que você é, sua humana maldita?! — Rosnou assim que conseguiu ajeitar sua postura novamente, percebendo que ela havia desaparecido. — Diga logo!
— Sou aquela que vai te colocar na linha. — Todos moveram seu olhar para o trono, onde Crystal encontrava-se escorada confortavelmente e o encarava com superioridade. — Você pode não me querer aqui, mas Sigyn queria e é isso que me importa. — Ela andou até ficar próxima do primeiro degrau. — Fique puto o quanto quiser, trapaceiro, pois não me importo nem um pouco com seus pitis. Só quero me livrar das malditas memórias que não me pertencem e dessa coisa estranha que deseja seu bem. E se isso significa fazer com que se torne pelo menos um pouco digno de estar com a cabeça sobre o pescoço, vai ser exatamente isso que vou fazer. — E, pela primeira vez em toda aquela conversa, um sorriso convencido tomou conta de seu rosto. — Vai ter de me aguentar, Loki.
Odin encarou Frigga, que se encontrava um tanto satisfeita com a cena, embora fosse notável o impasse presente no rosto de seu filho. Crystal era a única que poderia convencer Loki de que nem tudo poderia ser resolvido apenas se unindo a indivíduos perversos ou seguindo um caminho do qual não poderia retornar mais. Por mais que todos ali fossem culpados por não terem percebido as mudanças que ocorreram após a morte de Sigyn, isso não o fazia menos digno de ser ajudado.
E era exatamente nisso que ela acreditaria até o fim de sua vida.
Fale com o autor