The Phantom Rider
6 Capítulo VI – O motoqueiro fantasma
Notas iniciais
Ao fim da aula, Mayumi se despediu de algumas amigas e se foi em direção à porta. Logo ouviu a voz de Erika a chamando para acompanhar-lhe na ida para casa. E assim foram as duas pelas ruas. Já eram sete horas da noite e o céu já estava completamente escuro. As jovens já estavam acostumadas com o frio da noite e também com as ruas que, naquele momento, já estavam desertas. As duas conversavam distraidamente, até que novamente Mayumi teve a tal sensação estranha. Parou no meio do caminho, respirando profundamente e seus olhos fixaram somente em um ponto à sua frente. Erika ficou parada, observando a amiga, tentando fazê-la despertar, chamando-a diversas vezes, mas era em vão. Logo, sem muitas saídas, seguiu o ponto em que ela olhava e assustou-se com o que viu. Um rapaz, numa moto, estava parado a poucos quilômetros de distância delas. Estava escuro, pouco dava para ver... Mas ele, definitivamente, vestia roupas de couro pretas, uma jaqueta e calça, além do capacete que cobria todo seu rosto. A única parte que se via eram os olhos que estavam destampados do vidro e eles olhavam diretamente para Mayumi. Uma troca de olhares intensa. Os dois estavam parados, diante um do outro. Ligeiramente, o rapaz abaixou o vidro do capacete e deu partida com a moto, sem trocarem uma única palavra. Erika estava totalmente assustada.
— Meu Deus, o que foi isso? Pensei que ele ia sequestrar a gente, Ma...
— Ele quer que eu o siga. – Disse Mayumi, ainda paralisada.
— Quem? O moto...
— Não conte pra ninguém, por favor, amiga. Já volto pra casa.
— Aonde você vai, Mayu...
Sem nem deixar a amiga terminar a frase, Mayumi correu na direção em que foi a moto. Erika, desesperada, começou a gritar pela amiga, acreditando ser um caso perdido. Conhecia a curiosidade de Mayumi e toda sua inocência, contudo poderiam acontecer inúmeras coisas... Mas faria o que a amiga pediu: não contaria a ninguém, mas nada tirou da cabeça de Erika a preocupação para com a amiga.
Mayumi mais uma vez foi correr. Correria, mas não sabia para onde, a moto havia sumido e o caminho que percorria estava escuro, cada vez mais escuro. Parecia mais uma ladeira. Pensou em desistir, mas, de repente, viu o farol da moto a conduzir mais acima. Tomada por sua curiosidade de natureza, tomou fôlego e permaneceu subindo o caminho que nem mesmo ela conhecia. Ficava mais escuro e cada vez mais escuro... A única coisa que, de fato, iluminava seu caminho era a moto. O motoqueiro a conduzia devagar, ou seja, queria mesmo que a jovem o seguisse. Porém, em momento algum, a menina imaginou para quê seria toda essa visita. Só queria saber quem era...
O motoqueiro virou a curva, parecia entrar em alguma casa. A jovem o acompanhou. Ele parecia acender uma pequena lanterna que estava pendurada em um chaveiro. A menina, assim que o viu, foi em direção, mas mantinham certa distância. Abriu a porta sem muitas dificuldades e isso pareceu muito familiar para a menina. Aonde será que ela havia visto isso antes? Por fim, ela entrou na casa junto com ele. O ambiente era gélido e muito, muito escuro. A menina pensou que ele fosse acender a luz, mas permaneceu tudo do mesmo jeito. Estavam os dois em silêncio, um diante do outro. Ela tentava enxergar nele o rosto, algo que pudesse identificar e nada. Sequer o capacete o rapaz tirou! Ele era, obviamente, maior que ela. Tinha uns traços um pouco fortes, não sabia ainda se era por causa da jaqueta e ele apenas iluminava o chão com a lanterna, nem para ela apontava. A menina ergueu os olhos e, quando ia dizer alguma coisa, o rapaz, com uma voz autoritária e forte, perguntou em um tom tão baixo, que somente ela pôde mesmo ouvi-lo:
— O que você quer aqui?
Sem entender muita coisa, a jovem olhou para os lados, para ver se reconhecia o local e respondeu:
— Eu não sei... Eu nem sei onde estou.
— Sim, você sabe. – Disse ele no mesmo tom de voz. – Você veio aqui mais cedo. O que queria?
Pôs a mão na testa, lembrando-se.
— Ah, aqui é a casa mal assombrada! E você é o fantasma, não é mesmo?
Ele permaneceu em silêncio. Não parecia estar muito a fim de responder perguntas. Mayumi procurou com os olhos o jardim da casa, mas estava tão escuro que nem mesma ela conseguiu localizar. Ela abriu um leve sorriso, mirando agora o jovem e disse docemente:
— Você tem um lindo jardim, com as flores mais perfeitas e mais bem tratadas que eu já vi na vida. Meus parabéns, senhor fantasma!
— O que você queria aqui? – Insistiu.
A jovem não parecia estar com medo, mas não se atreveu a aproximar-se.
— Eu só quis pegar o meu gatinho, o Buyo. – Respondeu. – Ele fugiu quando vim vaciná-lo e ele entrou aqui. Eu não queria roubar nada, muito pelo contrário.
O rapaz permaneceu em silêncio. Ela estava dizendo a verdade, afinal de conta ele mesmo estava observando o tempo todo.
— Eu posso ver o seu jardim novamente? – Animou-se a menina.
— Não. – Respondeu ele imediatamente. – Não quero que volte mais aqui!
— Por quê? É só para ver as plantinhas, eu não vou perturbar você. Eu juro!
— Já disse que não! – Respondeu o rapaz agora alterando o tom de voz. – Não insista, menina.
— Só quero ajudar a cuidar delas.
— Elas não precisam de ajuda.
— Precisam sim! E você também...
— Eu menos!
— Aquela dedicatória na pedra... Foi você quem fez para o seu pai?
— É ali. – Respondeu prontamente apontando a lanterna para trás dela, onde estava o jardim, querendo evitar mais insistências.
A jovem deu com um pulo e virou-se para trás, indo em direção ao jardim. Ao contrário de dentro da casa, estava iluminado, mas era pela lua. Mayumi desceu as escadas que davam acesso e mirou as estrelas no seu.
— Que lindo... – Murmurou – Da cidade não dá pra ver as estrelas assim.
Abriu um sorriso tão belo no rosto, que parou até mesmo para sentir o sereno bater em seu rosto. O céu estava infestado de estelas, uma mais brilhante que a outra. Aliás, estava tão estrelado que elas se juntavam formando um desenho espetacular no céu. E a lua então? Mais perfeito que ela aquela noite lhe parecia impossível. Ouvia apenas o leve barulho das plantas batendo umas sobre as outras com o vento. Desceu, por fim as escadas e foi direto para o pequeno roseiral que ali tinha. Ela segurava as plantas com cuidado e conversava com elas. Conversava até mesmo com as estrelas. Por que ela fazia isso? O jovem ficava a observando da janela lateral da casa, onde era o antigo sótão de brinquedos. Ele não conseguia parar de olhá-la, ela era feliz demais, contente demais... Por que ela lhe parecia tão frágil e tão... Sonhadora? Provavelmente, nunca havia passado por nada de tão horrível na vida e não sabia o que era ter que sofrer sozinha...
A menina, desta vez, foi esperta. Não se aproximou da pedra para terminar de lê-la. Aproximou-se da árvore que havia ao lado da pedra e ela dizia:
Querido pai...
Hoje faz exatamente sete anos que se foi e que deu sua vida por mim.
Eu deveria agradecer... Então, fiz este pequeno lugar pra você, no lugar da casa onde mais passávamos juntos e eu sei que jamais na minha vida poderei agradá-lo da melhor forma. O senhor, mais que ninguém, sabe que eu te amo... E sempre irei amar o meu herói. Obrigado por tudo, pai. Meu grande herói.
Ass.: Bill, filho orgulhoso do Super Michael.
— Bill... – Repetiu para si.
Mayumi não pôde conter o sorriso e a tristeza que sentiu no momento. Virou seus olhos para trás, tentando encontrar o rapaz, mas foi em vão. Virou seu rosto para o céu e fechou os olhos respirando profundamente, com um sorriso leve nos lábios. Seus olhos puxados estavam contentes e seu rosto branco estava feliz.
- O que ela está fazendo? – Espantou-se o rapaz, enquanto observava a jovem atentamente de seu recanto secreto. – Começo a crer que essa menina é maluca.
Ela ficou assim por um bom tempo, pensativa, parecia fazer pedidos. Em seguida, tomou nas costas a sua mochila e resolveu subir em direção à porta. Mas não conseguiu conter a voz:
- Obrigada, senhor fantasma! Boa noite.
Quando se virava para ir embora, ouviu aquela voz novamente:
— Por que confiou em mim?
Mayumi soltou uma risada, escancarando um sorriso singelo. Então respondeu:
— Eu não sei... Mas foi no momento em que olhou em meus olhos lá embaixo. É como se eu pudesse ter sentido exatamente você conversando comigo.
Quando falou isso, deu com as costas e foi embora. Já que sabia onde estava, sabia também o caminho de casa. Aquela foi a experiência mais estranha da sua vida... Mas sentia que não havia acabado por aí, que ainda tinha muita coisa para acontecer. Algo em seu interior lhe dizia que ter conhecido Bill não foi em vão.
Em alguns minutos chegou ao restaurante e logo foi recebida por broncas de sua mãe que a bronqueava em japonês. Já era quase nove e quinze da noite, esta hora ela já deveria estar em casa. Falou tanto e a única resposta que recebeu foi uma cabeça baixa. Isso chamou a atenção de todos que estavam no local, que pararam para observar Mayumi que nada falava, apenas ouvia. Lentamente, após todo o discurso, ergueu-se e foi para o quarto para se arrumar e ajudar no atendimento do restaurante. Hajime, que via tudo e não estava fazendo nada de muito interessante, até pensou em ir até ela, mas Sra. Watanabe o impediu prontamente e firme. Tanto que o rapaz se assustou com a atitude da senhora, que quase nunca se zangava daquela forma. Levantou-se também e foi em direção à cozinha.
Mayumi permanecia no quarto, pensativa, enquanto tomava banho. Não tirava de sua cabeça a visita que fizera ao “fantasma”. Sua curiosidade em conhecê-lo era maior que o medo, então decidiu por ela mesma que, no dia seguinte, pela manhã, iria ter com ele novamente em sua casa, para conversarem. Após se arrumar, preparou-se para descer e terminar seu expediente no restaurante, descendo quase que imediatamente.
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