The Phantom Rider

7 Capítulo VII – Só sabe quem sente


Levantou-se logo da cama. Era cedo. Mayumi ergueu-se de seu sono e foi até a cozinha, onde estava sua mãe, preparando o café.

— Levantou cedo... – Comentou a senhora vendo a filha sentar-se à mesa.

— Sim, eu estava cansada. Acordei e não consegui dormir mais... – Respondeu. Após um tempo de pausa, continuou – Me desculpe por ontem, mamãe. Eu...

— Fiz bolinhos de arroz... Você quer? – Interrompeu prontamente, como não se não estivesse ouvindo a filha.

Percebendo que a mãe já havia lhe desculpado e que não era para tocar mais no assunto, Mayumi aceitou os bolinhos e permaneceu em silêncio. Não demorou muito para descerem Mayami e Sr. Watanabe para o café da manhã. Aquele dia começou bem cedo e Mayumi só esperava a hora de poder sair, precisava arranjar uma desculpa para fazê-lo. Foi quando, da janela da cozinha, viu Hajime passando para entrar na casa. Ele aproximou-se da cozinha e disse a senhora Watanabe:

— Sra. Watanabe, não terá como eu tomar café com vocês hoje, pois eu vou ao supermercado, comprar algumas coisas para o restaurante.

Sentiu que aquela seria sua chance!

— Nada disso, Hajime. Sente-se conosco para tomar o café. Não pode sair sem comer algo. – Interveio Sr. Watanabe.

— Mas...

— Nada de “mas”, Hajime. – Reforçou Sra. Nagazaki. – Coma um pouco. O restaurante só abre mais tarde, você tem a manhã inteira para fazer isso.

Vendo-se sem saída e sentindo sua barriga chiar, não viu alternativa a não ser aceitar o que diziam. Sentou-se à mesa, ao lado de Mayumi, que sorriu ao vê-lo. O rapaz sentiu seu rosto queimar ao ver o sorriso da menina tão perto de si, mas tentou disfarçar ao máximo, pedindo ao patrão que lhe passasse o vinagre. Nada tirava da cabeça dela que precisava sair para ir até a casa do “fantasma”, então puxou assunto:

— Hajime-kun, o que vai comprar no mercado hoje?

Ele, que estava um tanto distraído, olhou para a jovem, como se tivesse levado um susto com a pergunta e não tivesse escutado. Surpresa, a menina o fitou e tornou a pergunta. Logo ele respondeu:

— Algumas frutas, eu preciso comprar peixe, legumes que estão faltando... Verduras. Não é algo demais, não, é somente pra repor pra hoje, já que o caminhão ainda não vem...

— Mãe, pai, eu posso ir ajudá-lo? Acho que ele vai precisar de ajuda. – Disse a menina, levando para os pais.

Hajime a olhou surpreso e sentiu seu coração palpitar. De uns tempos pra cá, ele estava tendo a sensação de que esse sentimento que guardava por Mayumi estava cada vez maior e tinha medo de demonstrar, sem antes ter contado alguma coisa. E tudo o que menos queria era fazer cena na frente dos pais dela.

— Claro que pode, querida! – Respondeu Sra. Watanabe. – Não se importa, não é mesmo, Hajime?

— Imagina! – Foi a única coisa que conseguiu falar. Permaneceu olhando para seu prato, onde degustava sua comida com rashis. Começou a pensar no interesse que Mayumi tinha em ficar com ele. – Por que ela quer vir comigo ao supermercado? Ela nunca teve esse interesse antes... – Pensou.

Volta e meia virava os seus olhos para ela, mas ela não parecia estar muito ligada a ele. Na verdade, ele havia ficado nervoso. Será que ela está querendo dizer algo a ele? Será que Mayumi está querendo arranjar um pretexto para ficarem mais juntos? Tendo em mente estes pensamentos, passou a comer um pouco mais rápido, sentindo-se confiante. Ao terminar sua refeição, ergueu seu peito e levantou, dizendo, curvando-se diante da família:

— Muito obrigado pela refeição Srs. Watanabe, mas agora eu preciso ir. Vamos, Mayumi?

A menina rapidamente balançou a cabeça, agradecendo da mesma forma que ele e respondeu:

— Já volto, não se preocupem.

— Você está com Hajime, não temos com o quê nos preocupar. – Respondeu a senhora, com um largo sorriso no rosto, de satisfação, talvez.

O jovem sorriu pela gentileza e ambos se retiraram prontamente da casa.

— Seria tão bom... – Comentou Sra. Watanabe.

— O que seria bom, querida? – Perguntou o marido, sem prestar muita atenção no que estava acontecendo.

— Se Mayumi e Hajime ficassem juntos.

Mayami e o pai olharam imediatamente para a senhora, que estava encantada com os pensamentos que lhe invadiam a mente. Seus olhos brilhavam assustadoramente com a ideia, enquanto os dois se entreolhavam pensativos.

— Será? – Murmurou o senhor para a filha.

A menina ergueu os ombros, também pensativa na possibilidade das palavras da mãe, mas sem saber o que responder para o pai.

Os dois andavam pelo quintal a fora, quando Hajime a olhou novamente. Ela andava a passos lentos e seus cabelos se mexiam, de acordo com que ela andava. Ela mirava fixamente para frente e o seu rosto, sempre calmo, parecia esboçar um pequeno sorriso. Seu rosto parecia ter uma pele macia e ele tinha vontade de tocá-la, saber como é acariciar sua pele branca. Ficou pensando consigo, enquanto admirava aquela figura pequena ao seu lado. Ela era tão frágil e inocente, trazia-lhe uma paz de espírito que nem mesmo ele sabia explicar. Pensou em puxar assunto, mas estava envergonhado demais para isso, esperou que ela mesma o fizesse, mas ela não fazia. Será que estaria tão envergonhada quanto ele?

— Eu vou para aquela subida, Hajime. – Mayumi quebrou o silêncio.

— Hã?! Como assim? – Perguntou o jovem, confuso.

A menina aproximou-se mais do jovem e respondeu em tom baixo:

— Eu preciso fazer uma coisa muitíssimo importante. Por isso pedi para vir com você.

— Ah...

— Olha, mas não diz pros meus pais, não, por favor! Dentro de três horas eu te encontro aqui. Eu prometo que depois te conto o que está acontecendo, tá bom?

— Tudo bem...

A menina vibrou com isso e, sem notar a decepção do rapaz, pulou e beijou a sua face demoradamente, com a empolgação que sentia. Subiu correndo a rampa, enquanto Hajime ficou parado na esquina, engolindo seco e refletindo. Nenhum carro, nem transeuntes passavam naquele momento. Abaixou a cabeça, soltando uma risada irônica e disse a si mesmo, tentando controlar a dor que sentia:

— Você é mesmo um idiota, Hajime... É claro que ela não quer nada contigo e você fica se iludindo à toa. Bem feito, mereceu. Melhor mesmo é desistir...

Olhou para a rua e logo atravessou. Sentiu que seu peito havia recebido a resposta, antes de fazer a pergunta: o amor não era correspondido por Mayumi, ela sequer imaginava que ele pudesse gostar tanto dela assim... Será que já estaria apaixonada?

Mayumi subia a rampa gradativamente agora, já cansada da ladeira. Certa hora parava para tomar um pouco de ar, mas, logo em seguida, permanecia a subir a rua. Foi quando, finalmente, chegou até a casa. Escancarou o sorriso e entrou nela, sem nem olhar para os lados. Quando chegou à porta, teve uma grande surpresa: ela estava trancada. O que era muito estranho... Ele nunca a deixava fechada... Andou em direção à janela, na tentativa em vão de enxergar algo lá dentro; estava tudo escuro. Não satisfeita com a situação, sentiu vontade de gritar, mas poderia ser arriscado. Até que um senhor entrou no quintal, olhando estranhamente para a menina. Mayumi levou um susto ao vê-lo, mas logo o cumprimentou.

— Quem é você? – Perguntou ele após os cumprimentos.

Ele a olhava desconfiado, mas não parava de olhar para seus olhos pequenos e rasgados que, neste momento, estavam o máximo possível arregalados, com o susto que levara.

— Me chamo Watanabe Mayumi, senhor. – Respondeu ela, educadamente, fazendo sua reverência, da educação japonesa que recebera.

— Não quero ser grosseiro... – Disse o homem, agora se aproximando um pouco mais. – Mas o que faz por aqui?

Tomou um susto quando ouviu a pergunta. A verdade é que esperava por ela, mas não sabia exatamente o que dizer. Contava ou não do fantasma? Será que ele o conhecia ou, sequer, sabia de sua existência? Era difícil de dizer... Mas ela preferiu não arriscar. Foi quando a porta se abriu, dando outro susto na menina. Devido ao susto, ela nem pensou duas vezes em correr, deixando o homem para trás, sem obter respostas. Deu com os ombros e entrou na casa rapidamente, com alguns sacos de supermercados.

Quando ele entrou, foi recebido calorosamente por um abraço de Bill, que o estava esperando. Ambos entraram e novamente a porta foi trancada para que ninguém os interrompesse. Sentaram-se os dois à mesa e o homem foi retirando alguns alimentos de dentro das sacolas. Este homem era Oliver, o tio de Bill. Ele ia visitar o sobrinho duas vezes por semana, para lhe deixar algo para comer, já que o menino não saía de casa para nada. Quando via todas aquelas guloseimas que o tio trouxera, parecia uma criança faminta. Seus olhos até brilhavam diante dos cereais, biscoitos e demais doces que o rapaz adorava! Mas o entristecia... Entristecia-se com o fato de ver o seu tão amado sobrinho daquela forma... Ele possuía em seu rosto uma máscara que cobria metade de sua face, a parte que estava desfigurada pelo fogo. A máscara não permitia ver como seria o rosto do menino se não houvesse aquelas cicatrizes horríveis. Somente durante a luz do dia que dava para ver seus olhos castanhos claros, puxados para um mel, que só ficavam cintilantes, quando esquecia a dor que sempre sentira. Ora seus cabelos pretos caíam sobre a máscara, que era tão fria, que parecia que o menino não tinha sentimentos, o que, na verdade, era completamente contrário. Ele possuía sentimentos demais, mas não podia demonstrar sequer ser um ser humano. Suas roupas eram sempre pesadas: casacos de couro pretos e luvas também de couro, em ambas as mãos, para esconder também as cicatrizes, com calças jeans ou também de couro.

Oliver se casou cinco anos depois o acidente com Bill. Tornou-se um grande tatuador de Nova Jersey, estudou bastante para se especializar no que gostava... E o sobrinho também se tornou seu cliente. Fez duas tatuagens com ele: uma em seu braço direito e em sua barriga, também na parte direita do corpo, que não foi afetada pelas chamas. Seus lábios possuíam dois piercings argolados e em sua sobrancelha direita também uma argola.

— Quem era aquela menina que estava aqui quando eu cheguei, Bill? – Perguntou o tio, após um bom tempo de conversa.

— Eu não sei, tio. – Respondeu o menino, degustando do cereal com leite, em uma tigela. – Ela também esteve aqui ontem, acredita? Ontem à noite quase que ela me viu...

Oliver espantou-se e perguntou abismado:

— Mesmo?!

— Sim... Mas acho que não chegou a ver. Senão não teria voltado.

— O que será que ela quer?

— Não sei. Eu não queria ter que ir descobrir.

— Mas vá! – Aumentou o tom de voz.

— Por que essa interatividade toda? – Indagou arregalando os olhos completamente sem entender a reação de Oliver.

— Notou como ela é bonita, filho? – Maliciou no tom de voz.

— E o que tem isso?

— Como “o que tem”, Bill? Você já tem vinte e um anos e não sabe nem como é estar na presença de uma mulher. Com exceção de sua tia, claro.

Bill ouvia aquilo se sentindo completamente ofendido com as palavras.

— Você precisa conhecer novas sensações, estar aberto para novas realidades. Você tem que saber que existem outros mundos, além deste aqui que você criou. E uma mulher... Uma mulher seria pra você uma ponte pra sair disso e...

O rapaz soltou com raiva a colher dentro da tigela, com força, fazendo um barulho um tanto estrondoso, pelo fato da tigela ser de vidro, a ponto de interromper o que o tio dizia. Foi então que disse, em um tom de voz sério e seco, como se tivesse até mesmo raiva em seus olhos, apoiando sobre a mesa seus cotovelos e sua cabeça em cima de suas mãos cruzadas. Disse:

— Oliver, isso não teve a menor graça.

Após ter proferido essas palavras, voltou a comer e Oliver o ficou observando, entendendo o porquê de tanta resistência em querer conhecer novas pessoas. Como seriam aquelas cicatrizes? Ele nunca deixou ninguém ver, somente no hospital, antes de ele acordar, porque, assim que acordou e soube que poderia se mexer, não deixou nem mesmo as enfermeiras mexerem em seus ferimentos, aprendendo sozinho, como se mexia nos curativos, os remédios, os cuidados com o banho e etc.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.