Notas iniciais
Musicas que me ajudaram a escrever essa one:
Phantom of the Opera /
Ghost Love Score /
Sleeping Sun: Ambas do Nightwish
As peças interpretadas por Christine eram cânticos, como em uma opera (daí o nome).
Mais uma fic desenvolvida por mim, para este personagem que eu amo tanto (Dorian Gray)

I ATO

Lá estava ela, tão linda e radiante como costumava estar todas as noites. Seus longos cabelos castanhos estavam presos em um coque e enfeitados com uma bela tiara de pedras brilhantes, falsas é claro, como todo o restante do cenário ao redor dela. Naquela noite, ela seria Desdêmona de Otthelo. Minha peça favorita do genial William Shakespeare. Adorava vê-la interpretar, amava o som de sua doce voz quando iniciava seu canto lírico ao citar suas falas. Um cântico fabuloso, e embriagante que banhava meus ouvidos, e envolvia minha mente. Christine O’Zera tinha o dom de me dominar com sua desenvoltura fantástica naquele palco. Era deveras valorosa, e esplendorosa. Fazia-me desejá-la a cada ato, com tamanha força e obsessão. Sentia-me ligeiramente emocionado ao ser tocado pelas notas de sua cativante voz. E a cada ato que se encerrava, eu sentia-me fortemente inclinado a ir até ela e dizer o que havia me feito sentir. Mas eu não podia me dar ao luxo de mostrar-me aos outros, já que ninguém além do proprietário e contratante dos espetáculos sabia da minha presença naquele teatro. Passei metade da minha vida me escondendo de todos, por duas razoes particulares. A primeira delas era minha aparência desfigurada, cuja mesma eu escondia há anos embaixo de uma máscara tão escura quanto minha alma. A segunda razão era que não desejava mais companhias sociais de nenhum tipo. Mas eu ainda era o verdadeiro proprietário daquele teatro, e meu nome ainda constava nos documentos legais, mas todos pensavam que eu estivesse morto. Há alguns anos, o local foi incendiado e alguns atores perderam suas vidas naquele palco, ficando presos entre as madeiras que se desprenderam do teto por conta do fogo. Eu estava presente na data, e não consegui sair a tempo do lugar que foi totalmente destruído. Porém, vi naquele terrível “acidente”, uma oportunidade de desaparecer para sempre. Desde então, vivo em um nível abaixo dos esgotos da cidade, e subo apenas em noites de espetáculos. Nos últimos anos, nada me empolgava mais, ou estimulava meu interesse, até que Christine fora contratada, para substituir a tediosa e arrogante Isabelle Brunet, uma mulher vulgar que costumava pintar seus lábios de cor escarlate. Sua voz mais parecia a de um asno, e não era nada agradável aos meus ouvidos. Quanto a Christine, ah essa sim, sua voz era como a de um anjo, e me apaixonei por ela desde o primeiro minuto que a ouvi.

Quando a peça chegou ao fim, pude ver Christine se aproximando da beirada do palco com um sorriso esplêndido, e um brilho intenso no olhar. Alguém enviou um belo buque de rosas vermelhas junto com um cartão, para ser entregue a ela no final da peça, e ela sorriu grata ao recebê-las. O que me deixou furioso.

“Quem ousa?” –disse para mim mesmo, enquanto apertava as cortinas entre meu punho.

- Obrigado! –a ouvi dizer enquanto sorria e abanava para o publico logo se retirando do palco.

Christine era maravilhosa, e tinha o dom da interpretação perfeita, o que chamava atenção de muitos homens. Era obvio que todos a admiravam, mas nem tanto quanto eu. Ela sempre recebia agrados dos seus fãs em seu camarim. Alguns se atreviam a fazer-lhe uma vizita após a peça, o que me causava um ódio terrível. Segui pelo topo do teatro até encontrar uma passagem que me permitia andar por todo o teatro sem ser visto e fui até o camarim de Christine. Arrastei parcialmente uma estante falsa e fiquei esperando até ela chegar. Porém, para minha ira Christine não voltou sozinha, mas sim acompanhada de um cavalheiro.

- Obrigado pelas flores senhor Wayne! –dizia ela sorridente entrando ao camarim, “como ela ousava sorrir daquele jeito para outro homem”. – São realmente muito bonitas...

- E quanto ao cartão? –disse o sujito se atrevendo a tocar uma das mãos da minha Christine.

- Ah! Eu fiquei lisonjeada com seu convite para o jantar senhor Wayne, mas... – “um jantar?”

- Por favor, ao menos diga que pensará no assunto! –insistiu ele.

- Está certo! Mas agora realmente preciso me trocar senhor Wayne! –ela continuava sorrindo, “por quê?”.

- Pois bem! Devo deixá-la em paz! –o homem se inclinou e beijou as costas da mão dela. – Mas voltarei a procurá-la senhorita O’Zera! Esperarei ansioso por sua resposta... –tal homem sorria.

Eu podia saber exatamente o tipo de pensamento que aquele homem estava tendo com minha inspiração, minha musa. Mas ele estava louco se realmente pensava que realizaria quaisquer de seus desejos. Eu o mataria antes que ele pudesse tocar em Christine outra vez. Ela o acompanhou até a porta, e assim que ele partiu, eu adentrei ao camarim assustando-a.

- Céus! –disse ela levando a mão ao peito. – Me assustou Dorian!

- Mais rosas vermelhas? –mantive-me onde estava enquanto a encarava. – Pensei que tivesse preferência por amarelas...

- Adoro as flores que recebo, sejam elas quais forem! –respondeu com um ar feliz.

Sentia-me profundamente irado quando sabia que seus sorrisos não eram pra mim. Continuei onde estava vendo-a andar pelo camarim com aquelas malditas flores em mãos.

- O que veio fazer aqui? –perguntou ela. – E por que parece zangado?

- Vim lhe dar os parabéns pela atuação desta noite, mas me deparei com aquela cena desagradável. –disse em tom rude.

- A que cena se refere? –disse sentando-se diante de sua estante e retirando seus brincos.

- Tem um novo admirador? –respondi indo até ela e parando atrás de sua cadeira.

- O senhor Wayne foi muito gentil me trazendo essas flores! –ela sorriu. – Vem assistindo a peça quase todas as noites...

- Gosta dele? –perguntei olhando também meu reflexo no espelho.

Meu rosto estava parcialmente coberto por uma meia mascara de cor preta, que escondia minha deformação, mas mesmo assim eu odiava me ver exposto diante daquele reflexo, principalmente quando dividia o quadro com a criatura mais bela que já vi em vida.

- Ainda nem o conheço! –ela riu.

- E pretende? –apertei meus dedos no encosto da cadeira.

- Ainda não decidi! –ela virou e rosto e me encarou. – Acha que eu deveria aceitar o convite para um jantar?

- Certo que não... –como ela tinha coragem de me perguntar aquilo.

- E por quê? –sua ingenuidade às vezes me tirava do sério.

- Ele não serve pra você... –me afasto do espelho e de Christine.

- E quem serviria? Nenhum dos meus admiradores parece bom pra você. –ela se levantou e andou em minha direção. – Você sempre encontra um defeito terrível em todos eles... –ela sorria quando tirou seu cachecol.

- Nenhum deles merece a sua companhia... –a encarei.

- Não sou tão importante assim! –seu sorriso lindo me incomodava profundamente naquele momento.

- Parece feliz...

- E estou! –ela se afastou e continuou me olhando. – O teatro estava cheio esta noite! Foi incrível!

- Você é incrível todas as noites. Já era hora de reconhecerem seu talento...

- Sem duvida alguma você é meu maior fã Dorian! –disse com aquele ar tímido e reservado que me enlouquecia.

- Nunca se esqueça disso. –disse em tom autoritário.

- Eu preciso me trocar agora! Incomoda-se em me deixar sozinha?

Sim, aquilo me incomodava, pois eu desejava o contrario, desejava que ela me pedisse para ficar. Queria vê-la sair do corpo de Desdêmona e imergir em Christine novamente. Gostaria de ver a pele suave dela, sem aquelas vestes, e com o seu consentimento. Já a teria visto anteriormente, quando ela ainda não sabia da minha existência. Costumava ficar do outro lado da parede, assistindo-a trocar de pele com suas personagens, e ficava excitado com a ideia de possuí-la. Mas nunca tive coragem de invadir aquele cômodo e tomá-la em meus braços como tanto ansiava. Apenas tive de me conter todas às vezes para não fazê-lo.

- Voltarei a vê-la amanhã. –disse.

- Não sei se virei ao teatro amanhã. É minha noite de folga se lembra? –eu odiava tal data.

- Então nos veremos quando voltar. –respondi no mesmo tom rude de sempre e depois eu me aproximei. – Boa noite minha adorável Desdêmona! –apanhei sua mão e a beijei, mas, querendo beijar os seus lábios.

- Boa noite meu cavalheiro mascarado! –seus lábios sorriram dessa vez pra mim, e me senti grato por isso.

Retirei-me deixando-a sozinha, e não fiquei para espioná-la. Ela merecia um pouco de privacidade depois da noite esplendorosa a qual proporcionou a mim naquele palco. Voltaria a vê-la em breve, e talvez dissesse a ela como me sentia. Já não aguentava mais apenas vê-la, eu precisava tocá-la, e sentir sua pele na minha. Eu a desejava mais do que qualquer coisa, mais do que desejei tudo até então em minha vida miserável e solitária. Não precisava da companhia de ninguém, exceto a dela. Christine era minha... Apenas não sabia disso ainda, mas logo eu diria a ela. E depois disso, nenhum outro homem se aproximaria dela novamente. Christine pertenceria a mim, para todo sempre, e eu daria a ela todo meu amor, tudo de bom que eu ainda tinha em minha alma. Christine já possuía meu coração, e eu estava totalmente entregue a ela. Se ela desejasse-o em uma bandeja, eu o arrancaria do meu peito e entregaria a de bom grado. Mas jamais permitiria que outro homem a tirasse de mim. Jamais...

Vaguei novamente pelos mesmos caminhos que sempre usava para regressar a minha cova fria e silenciosa. Destranquei os portões daquilo que costumava ser uma antiga masmorra medieval, e desci as escadas passando pelas fracas luzes dos lampiões a gás. Adentrei ao lugar que transformei em uma sala, imensa e quase vazia. Apenas alguns poucos e antigos moveis preenchiam o lugar. Aproximei-me de um pequeno bar no canto do cômodo, e servi-me de uma bebida forte e amarga, apenas para agradar meu paladar de acordo com meu estado de espírito. Depois andei até um espelho grande que eu costumava deixar mais afastado em um canto, e coberto por um pano negro e grosseiro. O retirei de sobre o espelho e me vi refletido ali. Levei minha mão até a máscara que me dava uma falsa aparência agradável, e a retirei devagar vendo sob ela as marcas terríveis da minha deformação. Todo lado direito do meu rosto tinha sido coberto por cicatrizes medonhas causadas pelas mesmas chamas que destruíram o antigo teatro que pertencia a meu pai, e fora passado para mim naquele mesmo ano quando eu completara dezoito anos.

- Uma grande herança não é mesmo meu pai? –disse vendo apenas meu reflexo ali.

Digo apenas, por uma única razão. Quando se vive sozinho por muito tempo, passasse a criar ilusões dentro de sua mente. As minhas eram de que meu pai ainda vagava por aquelas paredes. E às vezes eu até podia vê-lo através daquele reflexo diante de mim. Mas sua companhia nunca fora das mais agradáveis ainda em vida, e não seria depois de morto. Sorri com o canto da boca e me afastei sem repor a máscara em meu rosto. Eu não precisava usa-la ali em baixo, quando os únicos olhares que podiam me julgar eram os meus. E em breve, mais uma pessoa poderia me ver daquele jeito, mas ela não se importaria. Pois ela me amaria... Tanto quanto eu a amava.

Notas finais
Mereço Revs?