Notas iniciais
Um oi pra você que já estava com saudade de ler The Other World, e um oi pra você que não estava com saudade. Então, muita coisa aconteceu, houveram muitos imprevistos, mas eu estou aqui com um novo capítulo. Espero que goste. P.s. um agradecimento especial e um abraço meio estranho para todas aquelas pessoas que comentaram no capítulo passado.

É incrível a capacidade que as más notícias têm de acalmar as pessoas. Depois do habitual desespero sempre vem aquele silêncio, o qual você aproveita para pensar nos momentos bons que já viveu e criar falsas ilusões de que o futuro será agradável, sim, elas são falsas, porque a vida nunca segue nosso cronograma, viver de sonhos é para os fracos, para ser feliz é preciso muito mais do que isso, muito mais do que forçar sorrisos. Sim, a situação está grave, já começaram as estranhas filosofias que ninguém entende. Vamos voltar para a história:

Silêncio, nada mais do que isso. Quatro pessoas perdidas em seus próprios pensamentos. Nenhuma palavra dita. O único som é aquela melodia do vento e dos pássaros. Percy voltou a brincar com a água, Annabeth estava olhando fixamente para o seu reflexo no rio, Thalia estava deitada na pedra aproveitando o sol e Luke tinha subido na árvore de galhos retorcidos novamente. A mesma cena monótona se estendeu por mais alguns longos minutos, até Luke mudar a situação trazendo todos de volta a realidade:

– Nós poderíamos, sabe? Fugir, viver na floresta, construir nosso próprio destino, fazer nossas próprias escolhas. – Os olhos azuis do garoto tinham um brilho estranho, como os de um cientista louco que havia acabado de descobrir algo igualmente maluco. Ele não estava de volta a realidade ao que tudo indica, parecia ainda estar sonhando.

E mais uma vez o silêncio se fez presente, era uma ideia, completamente maluca, mas ainda assim uma ideia.

– Não sei não, Luke...- Thalia disse indecisa. Annabeth a olhou abismada, a amiga não podia estar realmente considerando essa possibilidade, ou podia?

– Olhe Thalia, não é só por você. Pense, se nós fugirmos ninguém conseguirá nos encontrar, vamos ser livres, todos nós. Eu, você, Percy e Annabeth. Não vai me dizer que quer participar desse baile ridículo? Eu sei que não quer. E Annabeth? Ela também não parece nem um pouco animada com essa história de casamento. E eu e o Percy? Pode ser a vez de vocês passarem por isso, mas daqui um pouco será a nossa vez, garotas se casam mais cedo que garotos, mas ainda assim é uma situação ruim. E por favor, não me diga que pelo menos homens podem escolher com quem querem se casar, sabe que não é bem assim, só podemos escolher entre a mais bela ou a mais rica. Grande consolo.

– Pensando assim seria até interessante...- A morena começou a se pronunciar, aderindo a idéia do amigo, mas foi interrompida por Annabeth.

– Não, de jeito nenhum!- A loira falou chocada, porém decidida, a proposta do amigo era loucura.

– Por que não? – Luke quis saber mais por estar irritado com a recusa do que por curiosidade, ele ainda tinha aquele estranho brilho nos olhos.

– Pense bem, as chances de isso dar certo são...

– Não venha me falar estatística agora Annabeth. O que você quer? Se casar com um desconhecido? Seguir essas regras idiotas? Ser só mais um brinquedinho da sociedade? O que você quer? – O loiro falava em um tom agressivo e um pouco assustador, quase gritando.

– Ela quer uma vida. – Para a surpresa de todos foi Percy que respondeu as perguntas. O que ele queria dizer com isso? Que também concordava com ela?

– Uma vida? Uma vida? Tem certeza disso? Uma vida sem escolhas? Uma vida sem dar seus próprios passos? Uma vida em que você não pode errar, mesmo que tudo que os outros façam esteja completamente errado? Uma vida movida a aparências? Uma vida onde tudo o que se conhece são as críticas? Uma vida em que todos te julgam? Uma vida onde um sobrenome vale mais do que o que você é? Uma vida em que te condenam por ser diferente? Uma vida repleta de falsidade? Uma vida em que ninguém se importa com o que você sente? Uma vida em que te afastam das pessoas que você ama? Uma vida em que não solucionam os problemas, só os afastam, os escondem, os tratam como nada pra depois falar que está tudo bem, sem ao menos ligar com as pessoas que sofrem com isso?

Dessa vez era Luke que parecia estar à beira das lágrimas, ou talvez fosse só o reflexo do sol e do rio. Mas o que importa é que em suas frases, em cada palavra, era possível sentir a dor, era como um desabafo. Ele já estava de pé, gesticulando muito, uma raiva anormal parecia dominar todo seu ser. Annabeth não sabia o que estava acontecendo, não entendia o motivo de toda aquela raiva, de toda aquela dor, porém os outros dois sabiam, e estavam olhando para o amigo com uma mistura de sentimentos indefinidos. E mais uma vez Percy foi o primeiro a se recuperar:

– Ainda assim é uma vida. – Mesmo com tudo o que estava acontecendo o moreno parecia decidido, não ia mudar de ideia. Ele também já estava de pé, encarando fixamente o amigo.

– Ah, então é isso que vocês são? Covardes? Medrosos? Não querem tentar algo só porque é diferente?- Uma raiva anormal ainda dominava o loiro, ele parecia cuspir as palavras com desprezo.

–Luke...- Thalia começou a falar em uma falha tentativa de acalmar o amigo.

– Não peça que eu me acalme Thalia. – O loiro disse sem ao menos olhá-la nos olhos.

Enquanto isso Annabeth assistia assustada a briga dos dois, ela não sabia o que estava acontecendo com o loiro. A garota queria ajudar, mas não sabia como.

– Nós não sobreviveríamos. Não teríamos comida nem abrigo. E você já pensou em quantos monstros habitam essa floresta? – O moreno estava controlado, só queria fazer o amigo desistir dessa ideia maluca.

–Nós conseguiríamos! Eu quase consegui uma vez!- O garoto de olhos azuis pronunciou essas palavras com um orgulho doentio.

– Ah, sim! Quase conseguiu morrer! É isso que você quis dizer, não é mesmo?- Desdenhou Percy, ele não queria ofender o amigo, porém as circunstâncias o estavam obrigando a agir impulsivamente.

–Melhor do que você! Que nunca tentou nada de perigoso! É só mais um garotinho mimado em uma família perfeitinha! Espera...

Thalia estava desesperada, definitivamente essa conversa não ia terminar nada bem. Annabeth levantou o mais rápido que conseguiu e correu um pouco para se afastar do riacho que já começava a se levantar. Luke claramente ia ofender a mãe de Percy,e esse era um ponto bem sensível ao que tudo indica.

E, por mais incrível que pareça, Luke começou a rir, e as águas do riacho continuaram a se levantar, formando uma onda bastante grande que começava a se inclinar na direção da clareira. Quando Annabeth pensou que os garotos iam se tornar agressivos, algo aconteceu. Aconteceu não, perdoe-me, está mais para o que deixou de acontecer. Os sons cessaram, os pássaros pararam de cantar, tudo ficou extremamente quieto.

Percy deixou que as águas do rio voltassem ao seu curso natural, ele, Luke e Thalia se entreolharam, quase como se nada tivesse acontecido, o que só ajudou a comprovar as suspeitas de Annabeth. E só para não sobrar mais dúvidas de que tinha algo terrivelmente errado acontecendo começaram os barulhos de passos.

O que quer que tivesse vindo na direção deles poderia estar a cem metros de distância, mas parecia só um metro. Os passos eram muito altos, e faziam a terra tremer. E os barulhos começaram a ficar cada vez mais fortes, a criatura estava cada vez mais perto. Percy sacou sua caneta e tirou à tampa, transformando-a em uma espada de bronze, Thalia bateu em sua pulseira que logo virou um escudo, e Luke tirou sua espada da mochila. Eles entraram em o que parecia uma formação de batalha, cada um olhando para um lado, esperando o monstro. Após alguns longos segundos a criatura apareceu. E a única coisa que Annabeth desejou foi que não tivesse sido diretamente na direção em que ela estava olhando.

A garota já tinha lido sobre esse monstro, mas a surpresa de vê-lo pessoalmente a deixou imóvel por alguns segundos, seus batimentos cardíacos se aceleraram, ela prendeu o fôlego por alguns instantes, porém quando voltou a respirar desejou que não tivesse feito. Um cheiro horrível envenenou o ar, era o cheiro do monstro. Ele tinha quase três metros de altura, usava uma toga velha de pele de carneiro e cabelos compridos sujos de terra. Seu olho mostrava certa alegria por saber que estava diante de um ótimo jantar, o que só o deixou mais assustador ainda. Sim, seu olho, era um ciclope.

Enquanto o ciclope adentrava na clareira ele gritou algo como “carne de semideuses”, mas ficou parecido com um rugido. O som fez Annabeth despertar, e seu cérebro começou a trabalhar rapidamente. Era incrível o quanto de informações que ela conseguia processar em alguns segundos, podia preparar várias armadilhas e planejar a maneira mais fácil de matar o monstro, mas se continuasse parada todas as suas ideias não iam servir de nada. Porém, antes que pudesse agir, Annabeth foi empurrada para o lado. Thalia passou por ela com uma lança em uma das mãos e o escudo sinistro em outra. Onde ela tinha conseguido aquela lança? Mistério.

Percy avançou pela esquerda enquanto Luke ia pela direita. Os três trabalhavam em perfeita harmonia, em um momento Percy estava atacando, em outro desviava de um golpe do monstro e Luke aproveitava para cravar sua espada nas pernas do ciclope. E enquanto os dois lutavam Thalia os dava cobertura com seu escudo e espetava os pés da criatura para irritá-lo. A luta parecia ganha, mas em um momento de distração o ciclope conseguiu acertar Thalia e arremessou-a para longe, a garota bateu a cabeça na pedra e caiu inconsciente. Annabeth correu até ela desesperada, porém ao chegar mais perto pode ouvir sua respiração. A amiga ainda estava viva.

Percy tinha virado para olhar se a amiga estava bem, no entanto antes que pudesse voltar a lutar o monstro o acertou bem em seu peito e ele caiu no chão arfando. Agora só restava Luke de pé combatendo o monstro. O loiro desviou para a direita e obrigou o monstro a se mover também, ele fingiu atacar pela esquerda, mas no último momento deu um giro e cravou sua espada na lateral direita. Porém não foi suficiente, o ciclope continuava de pé, com mais raiva e determinação que antes.

Luke tentou repetir o golpe, entretanto o monstro estava preparado dessa vez, e se defendeu do ataque, lançando longe a espada do garoto. Parecia o fim, tudo parecia acabado, a luta parecia perdida, mas nesse momento Annabeth agiu, foi impulsivamente, ela não conseguiu se controlar, e talvez isso justificasse o que talvez fosse a coisa mais idiota que a garota já fizera na vida dela, ela chamou o monstro:

– Oi, você!

Patético, ridículo e estúpido. Como ela pretendia enfrentar aquele monstro sozinha e desarmada? No entanto agora não importava mais, porque o ciclope virou-se na direção dela, e em seu olho havia um misto de surpresa e curiosidade. Provavelmente ele estava se perguntando se a garota podia ser tão idiota. Pois bem, parece que era, pois ela continuou falando:

– Sim, eu falei com você. O monstro grande e feio.

Burrice ou coragem? Ninguém poderia dizer. Mas já não tinha como voltar atrás, era hora de lutar usando as armas que tinha.

– Você não pode matar meus amigos assim. — A garota loira continuou a falar, o mais importante agora era ganhar tempo.

– E por que não, garotinha? – O ciclope perguntou em tom de deboche.

– Por quê? – A garota riu com descaso. – Não me diga que você não sabe.- Era um plano com muitas chances de dar errado, não dependia só dela, mas ela tinha que tentar, sua vida e a vida de seus amigos dependia disso.

– Não sei o quê? – O monstro hesitou, claramente estava em dúvida agora.

– Então você não sabe! Nossa! Tudo bem, não importa, você não entenderia mesmo. Retiro o que eu disse, vai em frente, mate meus amigos. – As cartas estavam na mesa, agora tudo dependia do orgulho do ciclope, se ele não perguntasse sobre o que a garota estava falando eles estariam perdidos.

– É claro que eu entenderia menina, pode me dizer qualquer coisa, eu entendo tudo. – Ela não podia acreditar na sua sorte, nunca esperava que ciclopes pudessem ser tão burros assim, mas é sempre a mesma coisa, as pessoas agem como idiotas quando se pisa no orgulho delas.

– Hum, não sei, é algo meio complicado, nem eu entendo direito. Precisaria ser alguém muito inteligente. – A loira disse pensativa, torcendo que ele caísse nessa, ela estava completamente assustada, entretanto sabia que tinha que continuar com o plano.

– Eu vou entender, sou muito inteligente.

– Tudo bem, eu conto. — Annabeth suspirou dramaticamente, fingindo estar derrotada. – Da última vez que nós estivemos aqui nós matamos o minotauro, sabe? Cara grande, forte, desagradável, com cabeça de touro? Ele mesmo. Mas aconteceu algo muito estranho hora que ele morreu, parecia uma espécie de maldição que passou para nós, é realmente desagradável, tem momentos muito constrangedores. Entende? E pelo que eu entendi a maldição passa para quem matar quem estiver amaldiçoado. Chato, não é mesmo?!

O ciclope pareceu meio em dúvida, meio receoso, mas depois de um tempo ele se virou para a garota de forma acusadora, parece que o monstro não era tão burro afinal.

– Você está mentindo, isso não é possível.

É, realmente o ciclope não era tão burro quanto aparentava, era hora do plano B. Annabeth não sabia que existia um plano reserva, mas existia.

– Tudo bem, se você duvida de mim então nos mate, mas não se esqueça que eu avisei. – O monstro pareceu estar em dúvida, e Annabeth usou isso em seu favor.- Olhe só, Percy está tendo uma crise nesse exato momento.

O garoto já tinha se recuperado da falta de ar, mas quando percebeu o que Annabeth pretendia voltou a se contorcer e a fingir que estava sufocando, só que é claro que ele exagerou duas vezes mais. Enquanto o ciclope olhava para Percy com uma careta de dúvida Annabeth fez contato visual com Luke, e graças a tudo que há de mais sagrado no mundo o loiro entendeu o que ela estava tentando dizer só com o olhar. O monstro virou-se para contestar Annabeth, porém, quando ia falar, algo saiu de suas costas, uma ponta de lâmina afiada. Era tarde demais, Luke o tinha apunhalado pelas costas, e do ciclope só restou um estranho pó.

Luke ajudou Percy a se levantar, depois foi ver como Thalia estava. Annabeth só então conseguiu notar o quão desesperada estava, e aquele medo apossou-se dela. Após alguns minutos Thalia recobrou sua consciência:

– O que aconteceu?

– Annabeth aconteceu, ela foi incrível. – Luke e Percy olharam admirados para ela, Thalia a encarou confusa, mas feliz. – Desculpem-me por ter sido um idiota, vocês estavam certos. Não daria certo...

– Está tudo bem! – Percy encerrou o assunto.

Luke ajudou Thalia a se levantar e os dois foram andando, o garoto estava contando pra ela o que tinha acontecido. Percy ia segui-los, mas reparou que Annabeth ainda estava imóvel, e ao se aproximar da garota percebeu que ela estava tremendo.

– Ei, não precisa ter medo! Você foi incrível! Obrigada por ter salvo as nossas vidas. Você foi genial.

– Eu devo ser louca.

– Talvez, mas é incrivelmente corajosa.

E os dois saíram andando da clareira. E o sol se punha atrás deles. Annabeth estava aprendendo a amar esse dias estranhos.

Notas finais
Foi isso, espero que tenha lhe agradado. Beijinhos da autora. Até o próximo capítulo.