The Other World
9 Perguntas
Notas iniciais
As terças-feiras podem ser bem entediantes quando querem, e ainda fazem questão de passar lentamente. Tortura? Com certeza! Mas o incrível é que você sente saudades daqueles dias chatos e intermináveis quando está no meio de uma prova dificílima e o tempo resolve passar rapidamente. Irônico? Talvez! E infelizmente essa é a situação que os nossos protagonistas se encontram. Perdoe-me, eu realmente disse infelizmente? Acho que o termo certo é felizmente. Bom, pelo menos para um observador o termo certo é felizmente. Pode parecer maldade, porém é um ótimo passa-tempo reparar na cara de preocupação e nervosismo daqueles aluno que não tem nem ideia de como resolver a décima questão.
Porém, para a minha tristeza, após passar mais alguns minutos minha distração acaba. Hora do intervalo. Acho que vou voltar a narrar à história. Ah sim, antes que eu me esqueça, se te interessar a resposta correta da questão 10 é a letra “d”.
Depois de ter feito toda a prova de história Annabeth se encontrava sentada no refeitório encarando a comida que, por algum motivo desconhecido pelo limitado conhecimento humano, se encontrava com a aparência pior que o normal, porém o gosto era bastante agradável. Enfim, enquanto dava as primeiras mordidas a garota loira passou a encarar a porta. Ela não estava exatamente prestando atenção, mas em determinado momento percebeu que Luke tinha entrado no refeitório, entretanto ele olhou para ela e deu meia volta em um movimento hesitante, seguindo em outra direção.
Annabeth não estava entendendo o motivo dele querer se afastar dela, mas, pensando melhor, ele não tinha exatamente olhado pra ela, mas sim para algo atrás dela. Porém, antes que a garota pudesse se virar para tentar descobrir do que o amigo estava fugindo ela é despertada de suas teorias com um barulho às suas costas:
– Olá!- O susto foi inevitável, Annabeth estava muito concentrada em seus pensamentos a ponto de não perceber a aproximação de certo alguém, então acabou dando um leve pulo e quase derrubando a comida.
– Você me assustou! – Ela disse constatando o óbvio, quando percebeu que era Percy quem tinha falado.
–Desculpe-me! – Ele falou claramente tentando não rir.
– Tudo bem.- Annabeth comentou, mas, quando Percy começou a rir de verdade, atirar um guardanapo na direção dele se tornou uma questão de necessidade.
– Também não precisa apelar. — O moreno disse em tom de brincadeira, e em resposta recebeu um pedaço de papel voando em sua direção e uma loira rindo.
Entretanto a brincadeira deles foi interrompida quando viram Thalia passar pela porta. Ela olhou para onde eles estavam e ia seguindo para lá, mas parou como se percebesse que havia algo errado. Seus olhos buscaram alguma coisa no refeitório, e, quando finalmente encontraram, ela seguiu nessa direção, que por sinal era a mesma que Luke tinha seguido.
Percy deu um suspiro cansado e ficou encarando sua comida, enquanto Annabeth o encarava disfarçadamente em busca de respostas. Depois de alguns segundos ele levantou a cabeça e olhou pra ela, e disse com um sorriso um pouco forçado:
– Pode perguntar. – Annabeth não sabia ao certo como interpretar a fala do amigo, então decidiu que a melhor opção era se fazer de desentendida.
– Perguntar o quê? – Dessa vez Percy sorriu de verdade antes de responder, pelo visto ele não tinha caído na interpretação dela.
– Não sei, é você que quer perguntar, não eu. – Ele deu de ombros, ainda com um sorriso, parecia estar achando graça na situação.
– Como sabe que eu quero perguntar algo? Sou tão previsível assim?
– Só quando você começa a abrir a boca como se fosse falar algo, mas depois desisti.- Percy comentou divertido, a loira começou a negar a afirmação dele, mas pensou melhor e tentou lembrar se realmente tinha essa mania.- Exatamente como você está fazendo agora.
Annabeth resolveu ignorar isso, decidiu que depois pensaria no assunto, ela tinha muitas perguntas, então começou pela a que julgava mais simples.
– Por que Luke e Thalia estão nos evitando? – Sua voz estava cautelosa, mas Percy estava calmo, como se já esperasse por isso.
– Luke é orgulhoso. Ele está mal pelo que aconteceu ontem. Você sabe, por ter perdido o controle, por ter ficado com raiva e tudo mais. Bom, eu também estou, mas a diferença é que ele prefere ficar sozinho, evitar as pessoas como se isso fosse mudar o que aconteceu. Ele não admite saber que errou, sempre tenta fazer tudo certo. É sempre assim, não precisa se preocupar. Com o tempo tudo volta ao normal. E Thalia, bem, ela deve ter ido falar com ele, se há alguma pessoa mais teimosa que Luke, esse alguém é Thalia.
Annabeth concordou com ele, de um certo modo conseguia compreender Luke, ele deve se cobrar demais, e ficar muito mal quando erra, mesmo que os outros não o julguem por isso. Porém uma frase na fala do garoto a deixou incomodada, fazendo com que a segunda pergunta não fosse a que ela pretendia fazer originalmente:
– Você está bem?
Dessa vez ele pareceu surpreso com a pergunta, como se não esperasse por ela, mas respondeu assim mesmo:
– Eu estou um pouco mal pelo que eu fiz ontem, fui um tolo. Acho que se aquele monstro não tivesse aparecido, eu... eu e Luke poderíamos... poderíamos ter matado um ao outro. Eu deveria ter mantido o controle...
Annabeth estava chocada por ele pensar assim, não conseguia acreditar que aquilo terminaria em morte, e tinha quase certeza que não terminaria. Percy só estava sendo pessimista. Claro, eles tinham poder para matar, mas apostava que nunca teriam a coragem de ferir um ao outro. Disso ela tinha certeza.
– Ei!- Ela chamou a atenção dele, fazendo-o olhar para ela. – Não foi culpa sua, foi do momento. E nem tente dizer que foi culpa sua, eu não vou deixar.- A loira disse quando ele fez menção de a interromper para contradize-la. – E não se cobre tanto, aposto o que você quiser que você não teria coragem nem de ferir Luke.
– Como pode ter tanta certeza?
– Você é uma boa pessoa.
– Não, eu não sou, você viu o que eu fiz...
– Ei! Não tente mudar de assunto, já disse que você é uma boa pessoa. Agora, se eu me lembro bem, você tem que responder minhas perguntas.
– Não é justo! Eu não tenho mais o direito de ficar me torturando pelo o que eu fiz de errado? — O moreno perguntou em tom de brincadeira, o que era um bom sinal, ele estava voltando a ser o mesmo Percy de sempre.
– Na verdade tem, desde que não fique me cansando com essa chatice. – Ela disse tentando parecer séria, mas deixando um leve sorriso brincar em seus lábios.
– Sabia que isso a torna uma péssima amiga? – Ele continuou na brincadeira.
– Sabia que eu não me importo?
– Sabia que deveria se importar?
– Por que eu deveria?
– Porque sim.
– Viu, nem você tem uma resposta concreta pra isso, ou seja, eu não deveria me importar.
– Tudo bem, você venceu, o que quer saber agora? – Percy disse levantando os braços ao alto em sinal de derrota, mas sem parecer irritado com isso.
– Luke já tentou fugir pra floresta?
– Sim. – O moreno respondeu simplesmente, porém essa ainda não era a resposta que ela queria.
– E ele quase morreu?
– Sim.
Isso já estava irritando a loira, isso ela mesma já tinha concluído sozinha, o que Annabeth queria saber eram os detalhes, podem julgá-la por isso, mas se havia algo que ela não conseguia controlar era a sua curiosidade.
– Mas por que ele fez isso?
– Você já deve ter ouvido falar da mãe dele, May Castellan...
Annabeth já tinha ouvido falar dela, todos a julgavam como louca, mas a garota loira nunca tinha ouvido a verdadeira história.
– Bem, aconteceu o seguinte... – E a partir desse ponto Percy começou a narrar a história de vida dos Castellan, eu poderia fazer uso das palavras dele, porém ele não conhecia todos os detalhes, e, com toda certeza, não sabia como contar uma história. Então, permita-me fazer uso de mais um flashback :
Para todas aquelas pessoas com imaginação limitada e sem sentimentalismo era só mais um insuportável dia quente de verão, porém essa regra não se aplicava a nossa pequena May Castellan, ela podia ser uma criança, mas era uma grande sonhadora. Ela era uma daquelas pessoas que reparava nas pequenas gotas de orvalho na grama, nas minúsculas formiguinhas andando nas flores, nos diferentes tons de cor que o céu esboçava todos os dias. May via o que os outros não viam, enxergava beleza em tudo o que os outros ignoravam.
Mas com o tempo ela passou a ver demais. A ver mais do que seria saudável, a ver mais do que seria necessário. E para ela, tudo que era belo, passou a ser assustador. E toda aquela tranquilidade, virou medo. May sempre adorou enxergar o que os outros não viam, porém agora ela se arrependia, porque aquelas lindas flores se transformaram em monstros.
E em um momento em que ela podia jurar estar chegando à loucura, alguém apareceu com as explicações que ela tanto queria. E foi um alívio finalmente compreender em que mundo ela vivia, podia não ser perfeito, podia não ser um conto de fadas, mas ao menos May sabia que era real, que ela não estava ficando louca. Porém ela não sabia o quanto estava errada.
Existem vários tipos de loucura, várias maneiras de enlouquecer, e ela caiu na mais fácil, naquela chamada amor. E caiu tão fundo que não conseguiu se levantar de seus próprios sentimentos, e mesmo sendo irracional e errado, ela viveu seu romance de verão. Mas o problema dos romances de verão é que eles acabam rápido. Rápido demais.
E, no primeiro dia de primavera, seus sonhos foram embora, levados para longe por um deus. E os meses após esse verão foram duros, May teve que aguentar um casamento com um homem cruel e uma gravidez. Entretanto, infelizmente, as coisas não chegariam a melhorar, na verdade, piorariam, como se o universo quisesse testá-la. E os testes eram difíceis, com o nascimento de seu filho, uma lindo menino que ela colocou o nome de Luke, May conseguiu voltar a se alegrar. Independe do que acontecia, aquele era seu filho, fruto de um amor real. Porém, como se fosse bom demais, o marido dela começou a desconfiar de Luke, como era possível que aquela criança não se parecesse nada com ele?
E , essas suspeitas, levaram a raiva do marido. E essa raiva fez que todo o medo que May sentia voltasse, e dessa vez o monstro estava em sua própria casa. E, depois, outros monstros começaram a aparecer, aqueles mesmo monstros que a atormentavam no passado, mas dessa vez era pior, porque dessa vez eles tinham um objetivo, e esse objetivo era fazer seu filho, seu maior tesouro, de jantar, e isso era simplesmente insuportável. E, com tantos monstros em sua vida, ela enlouqueceu, e dessa vez, não havia ninguém que conseguisse reverter essa situação. Dessa vez não haveria um deus. Dessa vez só havia ela, e ela se rendeu.
E é nesse ponto que a história acaba pra May Castellan, mas é também nesse ponto que o pesadelo de Luke piorava. Com a situação de May, seu marido começou a descontar sua raiva em Luke, e os monstros começavam a alcançar ele. E em um dia de cólera de seu pai, não aguentando mais essa vida, ele fugiu. Fugiu para o meio das árvores, fugiu para o meio das sombras noturnas, fugiu para a floresta. Entretanto, um pouco tarde demais, percebeu que não tinha como sobreviver na floresta, não tinha alimento, não tinha forças, não tinha esperança, não tinha nada.
E, movido pela fome e pelo desespero, ele começou a roubar. Mas com o tempo, seus problemas foram piorando, e um dia em que voltava da cidade para a floresta, um monstro que ele não tinha forças para combater o alcançou, e poderia ser o seu fim, se não tivesse aparecido uma garota de cabelos negros e olhos azuis elétricos.
Ele não agradeceu a menina, saiu correndo em disparada. Anos depois ele descobriu o nome dela, mas essa história fica para depois, ou talvez ela nem precise ser contada. Dias depois ele descobriu que aquele homem que chamava de pai tinha morrido, e que a loucura que atormentava sua mãe era psicológico, e com o tempo foi melhorando.
E, nesse momento em que se passa a nossa história, a relação de May com Luke era quase obsessiva, ela nunca se curou exatamente de sua loucura, as vezes tinha recaídas, e sempre tentava proteger seu menininho. E isso era sufocante, mas Luke entendia, mesmo que essa estúpida sociedade não entendesse,mesmo que eles não aprovassem, Luke a amava, independente de qualquer coisa.
– Bem, essa é a história de Luke. – Percy concluiu ao terminar de narrar, muito mal, a história.
Annabeth agora entendia a história de Luke, mas a de Percy ainda era um mistério, e talvez um dia, ela conseguisse descobrir
Fale com o autor