The Orphan: Endless Love
18 Capítulo 18 - Be honest!
Notas iniciais
Seja honesta!

Estevam nunca imaginou que viveria para ver a demonstração de tamanho poder... Ele sempre soube que a família Prince era poderosa e já teve breves vislumbres da capacidade de raciocínio de Eileen, mas aquela realmente foi a última prova. Tanto a mais velha das irmãs quanto Ravenna e Goethe eram muito fortes e possuíam habilidades que estava ansioso para descobrir.
Ele sempre fora um admirador de “talentos”, em especial os vindos de Magia Negra, mas infelizmente nunca chegou a encontrar muitas pessoas com essa magia no sangue e contentou-se com o conhecimento da mãe e, logo depois, da própria Eileen.
E falando nela... Ele agradecia a Merlin, ou quem quer que fosse, por fazê-lo ir até a estufa aquela tarde para sanar sua desconfiança. Era uma segunda chance, tinha certeza, e iria aproveitá-la! Antes que pudesse continuar seus pensamentos, sorriu ao perceber a mulher de cabelos negros despertar lentamente na cama do hospital.
— Pensei que acordaria só amanhã... – comentou – Como se sente?
— Cansada. – respondeu piscando repetidas vezes na tentativa de se acostumar com a claridade – O que aconteceu? Eu... lembro que ela estava acordada... Violet está bem?
— Oh sim, muito bem... – sorriu ao lembrar de quando teve a oportunidade de conversar brevemente com a garota enquanto Robert a examinava – Ela ainda está confusa, é claro, tentando diferenciar o que é real da fantasia que você criou, mas está melhor... Aliás, é uma boa garota.
— Sim... – concordou encarando-o.
Era óbvio que ele, assim como todas as outras pessoas que passavam no caminho de Violet Snape Black, se afeiçoou à garota. Não que ela se importasse muito, mas aquele segredo que guardou sua vida toda estava começando a incomodar de tal forma que, se ele perguntasse, tinha certeza que abriria o jogo.
— Alguém me deu Veritasserum?
— Não que eu saiba, por quê?
— Certeza? – repetiu, Eileen não era uma pessoa dada a arrependimentos, mas aquela história estava corroendo-lhe de culpa por dentro... e aqueles olhos verdes sobre si deixava tudo pior.
— Eileen, você está bem? – estranhou colocando uma das mãos sobre sua testa, mas nenhum sinal de febre – Quer que eu chame o Tupper?
— Não, estou bem. Foi apenas uma... sensação que não estou acostumada.
— Bem, você acabou de ajudar uma garota a derrotar Voldemort. – ironizou — O que aconteceu realmente Eileen? Porque eu duvido muito que ela não iria usar a própria magia para escapar.
— Você sabe que... de acordo com as lendas, o limbo é um lugar totalmente vazio onde a alma perdida acredita estar sozinha pelo resto da eternidade, com todas as suas más memórias e arrependimentos. – começou ajeitando-se na cama desconfortável – Ontem eu... Foi ontem?
— Algumas horas atrás.
— Certo... De manhã eu finalmente consegui atingir o centro da mente dela... e se as lendas forem certas, a dela é um limbo. – arrepiou-se com a lembrança – Ela estava presa, lembra? Quando cheguei lá, eu a encontrei sozinha, num canto, remoendo as perdas da guerra... Mas pior que isso foi... Merlin, foi horrível...
— Você está bem? – preocupou-se, pois nunca tinha visto a mulher tão abalada daquela forma.
— Quando tentei falar com ela... parecia que não me via, era como se eu fosse invisível. – continuou ignorando a pergunta – E então eu percebi que ele estava lá. Uma versão... deformada, acho... Parecia uma criança pequena, mas era uma visão repulsiva e machucada... – franziu o cenho – A alma dele foi tão mutilada que espelhava-se no corpo franzino... Ele a incitava.
— Espera, você está dizendo que... Digo, já suspeitávamos que ela fosse uma Horcrux, mas a presença dele é... Merlin, aquele monstro estava realmente dentro dela?
— Uma projeção, mas sim. Os olhos vermelhos a encaravam como se fossem dois olhos de Basilisco... ele realmente estava tentando controla-la a ponto de assumir o poder dela e então retornar... E ele conseguiria, se demorássemos mais um pouco. – comentou, o olhar vago encarando a parede sem atrativos com um interesse descomunal – Quando você devolveu a essência mágica dela, foi como se um grande clarão invadisse aquele... lugar... se é que posso chamar disso. Ele sabia que seria mais fácil e pareceu ficar mais forte com aquilo. Eu tentei chegar perto dela, mas então ele... eu não sei bem o que aconteceu... parece surreal até, mas... nós... duelamos? – concluiu em dúvida, mais confusa do que nunca – Enfim, eu tive que usar todas as minhas capacidades para conseguir mantê-lo longe dela o suficiente para você fazer o que combinamos, mas... eu não estava no controle do meu próprio corpo e fui tomada pela Magia Negra, manter a consciência para ajuda-la não foi nada fácil. – constatou – Mesmo com aquela aparência fraca, ele estava tão poderoso quanto antes da guerra... Por um momento ele conseguiu me derrubar e foi até ela, estava tomando o controle... O... lugar, parecia sangrar enquanto ela ficava cada vez menor e ele mais forte... Mas então algo mudou. Eu senti um puxão horrível... Você sabe que, quando uma pessoa morre, o lado esquerdo do cérebro continua funcionando por 7 minutos, o que faz com que todas as memórias se despreguem de seu subconsciente e passem como um filme. – explicou e, após ele assentir, continuou – Eu vi algumas luzes tomarem forma alí dentro, e quando a Violet caiu e Voldemort recuou, eu sabia que você tinha feito.
Estevam ouvia tudo atentamente, fascinado com cada detalhe e absorvendo cada mísero pedaço de informação.
— Ele ainda poderia assumir o lugar dela, mas estava ficando tão fraco... Como se fosse um parasita que, sem o hospedeiro, morre. Eu aproveitei e, mesmo não sabendo como isso foi possível, lancei a maldição da morte. Ele simplesmente caiu e eu não tive problemas em cuidar do corpo, já que era apenas um reflexo da alma mutilada e logo desapareceu.
— E quanto a ela?
— Bem... Violet estava realmente caída lá dentro, as memórias apareciam com mais força e era quase impossível não se comover com aquela enxurrada de lembranças... Você tentou um Enervate, certo?
— Eu sei que combinamos que você a traria de volta, mas eu meio que fiquei desesperado. Você e suas irmãs estavam totalmente fora de consciência e era óbvio o esforço que estavam fazendo, parecia que iriam cair a qualquer momento e... era a melhor alternativa no momento.
— Eu não conseguia me manter consciente lá dentro... – concordou – Acredito que superestimei minhas capacidades ao pensar que iria aguentar tudo e ainda trazê-la de volta.
— Isso por acaso é um agradecimento disfarçado Srta. Prince? – provocou.
— Não se acostume Estevam. – ignorou – Eu senti o enervate porque a cada tentativa sua vi as lembranças se fragmentarem, como se não fossem fortes o suficiente para acabar com a vida dela... Então aproveitei que estava dando certo e fiz o mesmo. Minhas irmãs foram de grande ajuda, se não estivessem lançando aqueles feitiços curativos não sei se aguentaria... Devo ter feito algum feitiço também, mas não tenho muitas lembranças disso...
— Oh sim, um encantamento antigo e muito poderoso... – concordou – Era o feitiço que as bruxas originais usavam para curar os feridos e trazê-los de volta à vida. Como...
— Não sei. Sequer tenho lembranças disso... Só sei que ela estava morrendo e eu não poderia perdê-la. – assumiu confusa – Enfim, quando ela acordou foi como se um campo de força crescesse dentro da mente e se expandisse de tal forma que tudo que fosse considerado um “corpo estranho” fosse expulso sem qualquer aviso prévio. Logo me vi sendo jogada para fora e desmaiei em seguida.
— Foi um grande “show”, se quer saber... – comentou distraidamente – Aliás, você não tinha me dito que a Ravenna tinha mais controle que Goethe.
— Como assim?
— Bem, Goethe foi tomada pela magia logo que entrou, mas a Ravenna ainda se manteve lúcida para expulsar o Tupper do quarto e dar as últimas instruções... do tipo “não deixe ninguém entrar”, ele parecia realmente disposto a ficar no quarto antes disso.
— Goethe tem mais controle de suas emoções quando ainda tem consciência, mas também é mais suscetível à Magia Negra. Raven é impulsiva, mas consegue manter a consciência se precisar, mesmo que cause uma dor descomunal...
Nenhum dos dois sabia o que dizer em seguida, todas as palavras pareciam já ter sido ditas e um silêncio insuportável preencheu o quarto. Mas Estevam estava disposto a acabar com isso.
— O que acontece agora? – perguntou finalmente – Digo... Violet voltou, não vai mais precisar tanto de você. Dumbledore não existe, nem Hogwarts e nem Voldemort. O que vai fazer daqui pra frente?
— Ela ainda precisa de ajuda. Vou ensiná-la a controlar a própria magia para que possa voltar para sua vida. E depois... não sei. – admitiu – Vai voltar para a Toscana?
— Depende de você.
— O quer dizer? – perguntou, tentando ignorar o rumo que a conversa estava tomando.
— Eileen, por favor, eu preciso de respostas. – disse, tomando fôlego para perguntar algo que sempre quis, mas nunca teve coragem suficiente – Eu tenho memórias... de quando nos conhecemos. E isso me assombra há anos! Na época eu não disse nada porque você estava voltando para o seu marido em outro país, mas agora eu preciso saber...
— O que você quer?
— Eu amo você. – confessou, pegando-a de surpresa com a intensidade dos olhos verdes – Acho que desde a primeira vez que a vi. Sempre me peguei te observando interagir com a minha mãe e, mesmo quando sorria apenas para disfarçar, eu esperava que pudesse algum dia ver o sorriso verdadeiro.
— Estevam...
— Sempre te amei Eileen – falou aproximando-se e sentando na cama da mulher, que engoliu em seco quando o homem pegou uma de suas mãos –, mas fui idiota o bastante para nunca te dizer isso. Talvez fosse preciso, mas... eu tive sonhos... muito reais... em que você ia se despedir da minha família e eu simplesmente não aceitava. Eu me arrependo tanto de não ter impedido! De te puxar pelos braços, beijá-la e nunca mais solta-la! De dizer tudo que sentia... – murmurou elevando a mão feminina até os lábios e beijando-a ternamente – Foram sonhos realmente realistas que me torturaram por anos...
Eileen não podia acreditar que a fizeram tomar Veritasserum enquanto dormia, mas a sensação de culpa ao encarar aqueles olhos verdes ficava mais intensa a cada segundo... E então o bichinho da honestidade que pulsava em seu peito ficou mais forte.
— Você fez.
Pronto. Não havia volta e, Eileen percebeu, teria que engolir seu orgulho a partir daí.
— O quê?
— Esse... sonho... que você diz ter. – começou, o campo de explicações mágicas era um de seus fortes e, já que ela confessaria a verdade, iria pelo campo que dominava – Não é um sonho, são lembranças reprimidas.
— O que quer dizer?
— Digamos que... sou boa em manipulação mental, lembra? Especialmente se a pessoa em questão estiver em sono profundo.
— Eileen? – repetiu surpreso, tinha uma leve desconfiança, mas esperava que fosse apenas um mal entendido e...
Quando percebeu, Eileen ergueu o braço direito e, com a palma voltada para ele, seus olhos azuis brilharam de encontro com as orbes verdes e logo os mesmos sonhos que o perturbavam anos atrás voltaram com força, mas com um acréscimo: Eileen levantava-se da cama e o obliviava antes de deixar a casa e, consequentemente, Toscana.
— Você me obliviou! Por que fez isso?! – exclamou indignado levantando-se da cama.
— Porque eu sabia que assim que colocasse os pés na minha casa você viria atrás para tentar me convencer e estragar todos os meus planos.
— É claro que iria! – esbravejou – Se eu desconfiasse que você realmente queria aquilo eu teria ido correndo até a Inglaterra, nem que para isso eu tivesse que te deixar viúva!
— Eu não poderia simplesmente abandonar meu marido na lua de mel. – rebateu calmamente – Minha família era uma das mais tradicionais na época, eu não poderia arriscar um escândalo por uma aventura de verão! E nós mal nos conhecíamos.
— Não importa! Você não tinha o direito de fazer isso! – explodiu – Nunca lhe ocorreu, em sua mente brilhante, que talvez eu quisesse ter lembranças disso? Mesmo que você não estivesse por perto? Era só falar Eileen, uma palavra sua e eu te deixaria em paz.
— Não, não deixaria, e nós dois sabemos muito bem disso, você é a pessoa mais persistente que conheço!
— Tem algo mais, certo? Porque você não ia gastar seu “talento” para apagar a aventura de verão da minha cabeça se não tivesse significado algo. – concluiu irritado – Você ao menos foi feliz? No casamento?
— Não. – admitiu.
— Então... Droga Eileen, eu realmente não te entendo! Por que ficar presa em um casamento infeliz? Nem mesmo um sádico iria...
— Era um disfarce! – interrompeu irritada – Eu era uma das servas de Voldemort e espiã de Dumbledore, queria que eu simplesmente causasse um escândalo no mundo bruxo abandonando meu marido para fugir com um bruxo que mal conhecia? Que eu atraísse atenção para mim e, consequentemente, para meus ‘negócios’?
— Eu não... Merlin, agora eu entendo. – disse incrédulo – Sempre te mandei cartas enormes, mas você não parecia propensa a responder... a não ser para falar que estava grávida. Foi de propósito, certo? Para eu ver que estava formando uma família, desistir e seguir em frente? Seu filho foi um disfarce também?
— Severo foi a melhor coisa que me aconteceu! – rebateu rapidamente, se tinha algo que nunca poderiam dizer dela era que não amava o filho – A única em anos de casamento!
— Você parecia tão apaixonada... Esclareça-me essa dúvida, por favor, por que não era feliz? – indagou cheio de sarcasmo.
— Porque ele pensou que eu estava saindo com outro homem em nossa lua de mel. Tobias viu nós dois juntos Estevam, pensou que eu o estava traindo.
— Não deixa de ser verdade. – sorriu em deboche, mas não como antes, era um deboche frio e distante – Aliás, que tipo de mulher passa a lua de mel inteira com desconhecidos, enquanto o marido fica no hotel esperando como um idiota? Eu desconfiei, juro que desconfiei, mas meu irmão dizia que, talvez, a mulher estranha queria apenas uma aventura antes de brincar de casinha.
— Você não faz ideia, não é?
— Não, não faço Eileen, e sabe por quê? Porque você vive de segredos, esconde as coisas, rouba memórias sem ao menos pedir e se acha no direito de fazer o que quiser! – debochou – Ora, não seja cínica, era só manipula-lo também! Fazê-lo de trouxa, como fez comigo.
— Não... Eu não aguentaria ser tocada por ele.
— Mas...
— Você acha que realmente amei meu marido?
— Não são pra isso os casamentos?
— É claro que não. – negou veemente — No início talvez, eu era jovem, ele foi gentil, me ajudou e, claro, era atraente... e eu precisava de um disfarce para que ninguém soubesse das artes nas trevas. – engoliu em seco, estava a ponto de confessar o segundo maior segredo de sua vida – Casar com um trouxa era a desculpa perfeita. Nos dávamos bem, mas depois da lua de mel tudo acabou... Ele pensa que me tocou apenas uma vez, esse é um dos motivos pelos quais ele não acreditou quando eu disse que estava grávida. Disse que não era dele. – riu ironicamente – Estava certo, afinal.
— Ele... o que?
— Acha mesmo que, com toda a criação puro sangue que tive, eu realmente ficaria grávida de um trouxa? Casar é uma coisa, ter um filho com ele é outra totalmente diferente. Mas mesmo assim, ninguém poderia desconfiar. Eu já sabia como essa criança seria, e a não ser que nascesse com os meus traços ou meus olhos, eu teria que mudar algumas coisas.
— O que quer dizer? – perguntou, mas no fundo de seu coração uma vozinha irritante insistia em gritar o final daquela história. E ele esperava que estivesse errado.
— Procurei até encontrar um feitiço que alteraria sua aparência permanentemente e preparei a poção. Assim que nasceu e olhei seu rosto, vi que era muito parecido com a família do pai, um ou outro traço meu, mas era óbvio que não tinha como se passar por um filho de Tobias. Dei a poção e, desde então, meu filho adquiriu alguns traços do “pai” trouxa, mas a personalidade e magia eram minhas, e eu fiquei extremamente satisfeita por isso.
— Você... Merlin, Eileen...
— Severo tinha olhos verdes e poucos cabelos castanhos quando nasceu, uma mistura perfeita entre o pai e eu. – disse pensativa, as lembranças do parto ainda mais vívidas em sua mente.
— Quem é o pai? – perguntou cruzando os braços e, por Merlin, que estivesse errado!
— Você sabe que na minha família apenas as mulheres desenvolvem magia negra, então tive esperança que nesse quesito ele puxasse ao pai... Mas ele carregou o meu gene e, então, teve uma filha. Por que você acha que precisamos de quatro bruxos com magia negra para trazê-la de volta? – ironizou – Como acha que ela é tão poderosa, mesmo sendo tão nova e não ter nem metade do conhecimento que nós quatro tivemos? Se ela quisesse poderia derrubar todos nós...
— Eileen...
— Como acha que ela, sendo apenas uma adolescente, tem uma das magias mais poderosas de que já ouvimos falar? A única capaz de derrotar o Lord das Trevas sozinha, de derrubar os Pendragon, e sabemos o quanto são poderosos e antigos, destruir Horcruxes e acabar se tornando uma?
A essa altura Eileen já não pensava nas consequências do que dizia, precisava colocar tudo para fora antes que aquele segredo a trucidasse por completo.
— O sangue que corre nas veias dela é uma mistura de dois dos mais poderosos... e se não fosse pela Evans, Violet seria sangue puro. A junção de dois bruxos com magia negra... duas famílias puro sangue tão antigas quanto a lenda dos bruxos originais.
— Oh Merlin...— assustou-se, sentando na cadeira após não acreditar no que ouvia – Você... Merlin, Severo... ele é...
— Você sempre quis ter filhos, certo? E já me disse uma vez que queria ter filhos comigo, e por mais que...
— Chega! – gritou, assustando-a pela primeira vez na vida.
Ninguém jamais chegou a erguer o tom de voz com ela, ninguém importante ao menos. Mas o que realmente a assustou foi a expressão confusa e furiosa do bruxo à sua frente. Todos os sinais do amor que ele dissera sentir haviam desaparecido, restando apenas a cólera da traição.
— Você não tinha o direito!
— Tinha todo o direito do mundo, era o meu filho!
— Nosso filho! – corrigiu – Sabe, eu nunca acreditei no que me diziam, que você era perversa e cruel, uma das piores de Lord Voldemort... Mas agora... – falou decepcionado – Merlin, eu nunca tinha percebido isso antes... você... é uma as piores pessoas que já conheci...
— Não foi isso que disse quando me impediu de voltar para casa! – gritou com a mesma intensidade – Eu nunca menti para você Estevam, jamais disse que era santa ou que minha fama não condizia com a verdade! Eu te avisei, avisei que não era boa e você insistiu! Acreditou em mentiras criadas na sua cabeça! Simplesmente ignorou tudo isso e...
— Eu te amava! – exclamou – Por isso acreditei, porque eu amava a mulher que conheci em Toscana! Aquela que queria aventuras e fingiu ser minha noiva por um mês inteiro!
— E o que queria? Que eu largasse minha vida para ir morar com você? Que simplesmente ignorasse a marca no meu braço e fosse brincar de casinha com um cara que conheci em um mês na minha lua de mel? – debochou – Ou que jogasse para o alto toda a educação que recebi e criasse um escândalo? Você que se aproximou Estevam, você que começou nosso jogo!
— Claro, e eu sai queimado.
— Eu não conto, certo? Não importa que eu tenha que enfrentar um turbilhão de julgamentos por estar grávida de um trouxa? Que eu tenha recebido advertências do Lorde e que tenha tido que conviver com o medo de que, se fosse dormir, meu filho seria sequestrado no meio da noite por algum comensal a mando de Voldemort porque era um mestiço? Ou que ele seguisse o mesmo caminho que eu tentava destruir?
— Eu merecia saber! Nada disso teria acontecido!
— Não?— repetiu incrédula – Você não tem ideia do que passei por ter tido esse filho, o seu filho! Por ter que lembrar todos os dias de alguém que eu precisava esquecer! Porque eu sabia que se te falasse você viria atrás de mim, causaria um rebuliço e ia querer assumir a criança, talvez leva-lo com você e então destruir meu disfarce perfeito!
— Um disfarce que te matou!
— Para proteger meu filho! – gritou e, dessa vez, boa parte das coisas de vidro se quebrou e as luzes piscaram – Por que acha que fui assassinada?! Para garantir que ele não fosse pelo mesmo caminho que eu! Porque eu caí em tentação e resolvi que iria te procurar, falar a verdade e desaparecer. Mas o que aconteceu? Voldemort descobriu e chegou primeiro. Ele sabia que meu filho tinha um sangue poderoso e o queria para ele, de alguma forma ele sabia!
— Ia me procurar?
— Uma grande besteira, é claro. Se eu tivesse continuado no caminho racional que mantive desde que descobri a gravidez, nada disso teria acontecido. – ralhou – Eu sabia das Horcruxes e como destruí-las. Dumbledore estava reunindo um exército e em pouco tempo agiríamos, Voldemort cairia pelas minhas mãos e nada disso teria acontecido! Mas não, eu fui burra o bastante para pensar que você merecia saber e coloquei tudo a perder, ele descobriu, me eliminou e começou uma guerra. Eu era a principal arma de Dumbledore, e sem mim ele perdeu. Sinto muito, mas tinha muita coisa em jogo.
— Sente? – riu sem humor – Você casou com um trouxa para criar um disfarce, o deixou sozinho na lua de mel enquanto se aventurava com uma família que mal conhecia, fingiu ser noiva de um deles, traiu seu marido e depois resolveu apagar a minha memória, enquanto o Snape te odiava por te ver comigo. Como se não bastasse, quando ficou grávida... Merlin, Eileen, você mudou a aparência de um recém-nascido! Tudo para manter seu disfarce na sociedade e garantir o poder, não é? – disse e, então, percebeu algo – Você sempre reclamou do seu pai, que ele era controlador e ambicioso, mas já se olhou no espelho?
— Para!
— Ahhh, agora eu tenho que parar? – ironizou rindo – Qual a próxima ordem?
— Você é desprezível...
— E você não lembrou disso quando passou aquela noite comigo. Sua vida foi uma completa mentira Eileen, e não se importou nem um pouco, não é?
Eileen tinha fortes argumentos contra ele e estava preparada para jogar tudo. Mas alí, olhando o quanto Estevam estava furioso e decepcionado, ela não conseguiu dizer nada.
— Tem razão. – admitiu, para o espanto de Estevam, pois Eileen Prince era a mulher mais geniosa que conhecera, nunca admitia algum erro, sempre dona da verdade... e em seus pensamentos – Severo foi a única coisa verdadeira em minha vida. Você perdeu um filho, mas eu perdi a melhor coisa que já me aconteceu. O único motivo para eu me levantar todos os dias e continuar fingindo ser a serva perfeita com um casamento perfeito. Na noite em que eu... – disse, e Estevam percebeu que, pela primeira vez, Eileen estava fraquejando e com os olhos úmidos.
Ela vai chorar?
— Naquela noite ele estava chateado com a Lillian, nós conversamos, o coloquei para dormir e dei um beijo em seu rosto... disse que o amava. – parou, a garganta fechou enquanto os olhos encaravam o vazio – Quando desci, o idiota do Tobias estava bêbado, discutimos novamente e logo ele saiu. E então apareceu Voldemort, ele já sabia que Severo era astuto e extremamente habilidoso, e de alguma forma descobriu que era filho de um bruxo puro sangue, era óbvio o interesse. Mas eu nunca deixaria.
— Eileen... – tentou, baixando a guarda.
— Nós duelamos aquela noite, e mesmo com o Abaffiato na sala ainda me pergunto se Severo ouviu alguma coisa... – comentou – Eu não estava em condições de lutar, não depois de derrubar dezenas de prisioneiros que os comensais haviam capturado. Meu último pensamento foi... “Ele não”.— fraquejou – Foi como se eu tivesse colocado meu filho para dormir e, na manhã seguinte, 25 anos se passaram e ele está morto. – uma lágrima finalmente caiu, seguida por outras – Você pode ter perdido um filho que nunca conheceu Estevam, mas eu perdi uma parte de mim... Você não faz ideia do que eu passei. – ele então pegou suas mãos entre as dele e beijou-as carinhosamente – Ele se foi, mas ela continua aqui. Nossa... neta.
— Nunca pensei que teria uma neta tão cedo... – riu sem humor, para o alívio de Eileen.
— Ela tem esse... magnetismo. Puxou a mãe, claro. É impossível odiá-la... – sorriu minimamente – E mesmo que ela seja uma cópia minha, quando a olho vejo meu filho... Eles têm a mesma personalidade... É como se ele ainda estivesse aqui, entende? – perguntou rouca, ele assentiu tristemente, fechando os olhos – Sinto muito Estevam...
— O que acontece agora?
— Ela está perdida, precisa, mais que nunca, da família de volta. Ela acha que perdeu tudo quando os pais e os amigos morreram, mas não é verdade. E eu farei qualquer coisa para trazê-la de volta, quero ver como é a verdadeira Violet.
— Acha que... ela aceitaria essa loucura toda?
— Não sei... – sussurrou fechando os olhos.
Confidenciar seu segundo maior segredo foi mais difícil do que imaginou, Estevam não era uma pessoa tão compreensiva quanto se lembrava e, por um momento, ficou admirada por finalmente vê-lo perder o controle... e fazê-la perder o seu.
— Você ainda não respondeu minha pergunta. – disse ele segundos depois.
— Que pergunta? – receou, sentia que o que quer que lhe perguntasse ela iria responder, sabia que não havia tomado Veritasserum, mas realmente estava exausta para mentir.
— Alguma vez você chegou a gostar de mim? Ou sequer uma afeição?
Outra pergunta difícil, concluiu ela.
— Você acha que eu deixaria alguém me impedir de voltar para casa tão facilmente? – perguntou incrédula – Ou que eu realmente me sujeitaria à possibilidade de ter um filho de um homem qualquer ou me importaria em esquecê-lo por toda a minha vida? Que trairia meu marido e, consequentemente, os votos de lealdade que aprendi com meus pais?
— Quero ouvir de você Eileen. – pressionou – Chegou a me amar algum dia?
Longos segundos se passaram enquanto Eileen o encarava profundamente. A mais velha dos Prince nunca foi de sentimentalismos e odiava ceder ao seu lado emotivo... Mas ele merecia aquilo.
— Não posso dizer... – sussurrou e ele cobriu o rosto com as mãos em desistência, nunca entenderia aquela mulher e, possivelmente, nunca teria o suficiente dela – Mas posso mostrar, se quiser. – avisou encarando-o, não demorou para que ele percebesse o que ela queria.
Os olhos azuis o encaravam em convite para a alma, um convite que ele aceitou prontamente ao sibilar Legilimens.
Estavam juntos em uma praia de Pisa, Marina de Vecchiano, quando percebeu que Eileen caminhava mais à frente com a mãe de Estevam. Daquele jeito, de longe, viu quando a mulher fechou os olhos para apreciar a brisa do mar e o por do sol, e também notou quando o sorriso no rosto de sua mãe abriu-se, seguido por uma negação com a cabeça. Eileen não estava rindo ou se divertindo, mas sabia que apreciava a companhia e desejava não sair dalí tão cedo, tanto que quando Sam os chamou para voltar Estevam percebeu uma leve decepção no olhar safira.
Logo a imagem mudou consideravelmente e viu que era o almoço agitado que sua mãe preparara quando descobriu o noivado. Naquele momento, em especial, a Sra. Ambrósio pedia que os dois se beijassem. Na hora pensou que Eileen não gostaria nada daquilo e daria uma desculpa, mas foi surpreendido quando a mulher puxou-o pelo colarinho da camisa e depositou um suave encostar de lábios, que ele logo tratou de aprofundar e foi correspondido.
Na época dizia a si mesmo que era apenas para manter a farsa, mas observando aquelas memórias ele sabia que era muito mais... E pela primeira vez ele viu com os olhos dela. Percebeu detalhes que não se lembrava, como o sorriso cálido que enfeitou seu rosto assim que se separaram, ou as mãos delicadas apertarem seu braço levemente durante o beijo...
Como ele não notara?
A próxima memória deveria ser da mesma tarde, a considerar que a roupa não havia mudado. Foi com grande satisfação que viu Eileen Prince encostar-se à porta de seu quarto, tocar os lábios com uma das mãos e sorrir... logo em seguida ela estava na varanda do quarto e, encarando um Tobias Snape adormecido, ouviu-a murmurar um “sinto muito” enquanto uma pequena lágrima molhava o rosto pálido.
Sua vontade foi aproximar-se e enxugá-la, mas o quarto desapareceu e então viu-se no corredor de sua casa na tarde em que Eileen lhe disse que iria embora. Alí estava ela, de costas, com uma bolsa nas mãos e com Estevam lhe pedindo para ficar.
— Eu sei que esses dois meses significaram alguma coisa para você também.
— Não posso ficar Estevam, será que não entende? Sou casada...
— E, no entanto, passou sua lua de mel com desconhecidos! – viu sua versão mais jovem exclamar – É obvio que não o ama Eileen, então fica aqui comigo... Se quiser eu mesmo o faço esquecer que existe, invento uma desculpa ou qualquer outra coisa, você não precisa vê-lo novamente...
E então, com a visão privilegiada que as lembranças lhe davam, viu quando Eileen hesitou fechando os olhos... a mão que segurava a bolsa afrouxou o aperto... ela queria ficar!
— Tem muita coisa em jogo... – tentou ela novamente, mas Estevam parecia determinado em não deixa-la ir, pois no segundo seguinte a puxou pelos braços e, empurrando-a para a parede do corredor, beijou-a. Eileen não mostrou qualquer resistência e retribuiu com todo o ardor com que ele lhe dedicava, a bolsa foi jogada no chão enquanto um Estevam satisfeito pegou-a nos braços.
Estevam viu nas lembranças que Eileen realmente hesitara em partir e não recuou um segundo sequer quando ele a beijou, mas sim abraçou-o pelo pescoço e apertou os dedos em sua nuca... Mas também viu quando ela estava saindo na manhã seguinte. Sua versão mais jovem dormia como um bebê debaixo das cobertas enquanto a Eileen de anos atrás acariciou seu rosto ternamente.
— Acho que amo você... – sussurrou a mulher, tornando a visão ainda mais real – Mas não posso fazer isso.
A mulher então abaixou-se e depositou um beijo cálido na bochecha do homem, levantou-se e, erguendo a mão, “Obliviate”. Em seu rosto, entretanto, lágrimas escorriam dos olhos azuis entristecidos antes de deixar o quarto e aparatar.
Estevam pensou que aquela era a última memória que veria, mas não estava preparado para quando uma Eileen com roupas escuras entrou em casa – que ele reconhecera sendo a dos Prince – e, desesperada, tomou uma poção...
— Grávida... – sussurrou horrorizada, segundos depois, ao perceber o resultado da poção e o que significava – Estevam!
E por fim... Ouviu um choro baixo e fino preencher o quarto, que mudava novamente. Viu Eileen deitada numa cama com um bebê nos braços... e viu o sorriso enorme e verdadeiro que se abriu em seu rosto ao olhar para o filho pela primeira vez... pequenos olhos verdes, que logo escureceram-se para um negro profundo e brilhante.
— Eileen...
Fale com o autor