The Originals
15 Tão fria
Notas iniciais

POV Charlotte
Já é cedo, mas a casa é silenciosa.
Katerina dorme com Elijah. Consegui ouvir os dois, por toda a noite. Klaus saiu, com Stefan, talvez. Queriam todos comemorar a chegada dos mortos, achando que isso irá durar. Não sei como não se perguntam o porquê de Alaric e Stefan estarem aqui, assim como eu. Talvez achem que foi bondade dos espíritos, talvez de Deus, trazendo as nobres figuras do passado de volta a esse mundo.
Damon não se despediu de mim, não agradeceu. De certa forma isso é compreensível, afinal ele quis tanto que o irmão voltasse a vida e como bônus veio o beberrão que ele chama de amigo. Por outro lado, me sinto incomodada, porque não entendo o que Elena fez nessa história toda para ele ter a abraçado, beijado, tão feliz e bem.
Meus pés tocam o chão frio e arrasto meu corpo para fora da cama. Não dormi nada pela noite, devido a diversão de Katerina e Elijah. Não entendo como Hayley pode ter dormido tão profundamente e ainda não ter acordado.
Vou até ao banheiro e lavo meu rosto. Então sigo até a sala procurando por algum entretenimento, ainda com os cabelos desgrenhados.
Quando chego no cômodo grande, noto o piano branco posto em um canto. É provável que tenham colocado ali, para mim. Meus irmãos sabem o quanto eu apreciava a música clássica, principalmente o piano, antes de minha morte. Na noite passada ele não estava no local e naquele momento já estava. Não consigo entender como eles tiveram tempo de me comprar um piano.
Deixo que meus dedos deslizem pelas teclas, fazendo um som melódico soar e me sinto extasiada. Fazia muito tempo que eu não tocava piano. Não resisto e me sento diante do instrumento, deixando me levar pela nostalgia escorrego meus dedos pelas teclas pretas e brancas, formando uma canção que começa a sair de meus lábios.
Você não pode me ouvir chorar
Veja todos os meus sonhos mortos
De onde você está
Na sua própria casa.
É tão quieto aqui
E eu me sinto tão fria
Esta casa já não
Se parece com um lar.
Quando você me disse que iria embora
Eu senti que não podia respirar
Meu corpo dolorido caiu no chão.
As palavras que canto não são dedicadas ao Damon, mas a outro vampiro, em quem eu depositava toda a confiança do mundo: meu querido irmão — ou não tanto assim — Kol.
Então eu chamei você
Você disse que estava ocupado
Eu deveria saber
Agora dói muito mais
Você fez o meu coração sangrar e
Você ainda me deve uma razão
Porque eu não consigo descobrir o porquê
Por que eu estou sozinha e congelando
Enquanto você está bem
E eu estou apenas sozinha pra chorar
Você fez o meu coração sangrar e
Você ainda me deve uma razão
Porque eu não consigo descobrir por que
Você não pode me ouvir chorar
Veja todos os meus sonhos mortos
De onde você está
É tão quieto aqui
E eu me sinto tão frio
Esta casa já não
se parece com um lar.
Quando paro de cantar, não paro de pressionar as teclas do piano. É doloroso mas eu continuo, enquanto memórias me atingem rapidamente como em flashbacks. Quando morri perdi parte de minhas lembranças mas agora elas voltam com tanta rapidez e se chocam contra mim de maneira violenta. Preferiria não me lembrar. Não me lembrar de nada mais.
Em Nova Orleans. 1835. Há 178 anos atrás.
Eu corro tão depressa que mal posso ver meus pés tocando a relva verde. Meu coração bate em disparada e meus olhos procuram por algum lugar onde eu possa me esconder. Está escuro. A lua é a única fonte de luz que ilumina meu caminho. Minha respiração é ofegante.
Em algum lugar há uma coruja que não para de piar.
"Mais rápido, Charlotte. Mais rápido." — penso comigo mesma e no exato momento algo me agarra pelo ombro e me joga contra uma árvore. Minhas costas batem contra o tronco da mesma.
As mãos firmes de meu perseguidor agarraram meu pescoço e levantou-me do chão, fazendo com que eu esperneasse como uma humana patética pedindo por oxigênio. Mas eu não era humana. Era vampira. E quem quer que fosse meu perseguidor também era um ser sobrenatural, e mais forte que eu.
Nessa memória eu parecia com medo. Não sabia quem era meu perseguidor, mas algo em minha mente dizia que era Mikael, meu pai, que iria me matar ali mesmo, no jardim da casa do governador de Nova Orleans.
Foco minha atenção no rosto do ser, por um minuto penso que era Elijah a me segurar, mas logo a confusão de minha mente se desfaz e sei quem é. É meu irmão Kol.
Uma risada escapa dos lábios de meu irmão e sua mão se abre, fazendo-me cair no chão.
– Kol, ominoso*! Assustaste-me.
– Percebi, amada irmã. — Ele disse ainda rindo.
– Por que seguiste-me?
– Foi se encontrar com Viktor, não é?
– Por que perguntas se já sabe minha resposta? — falei irritada.
Viktor D'Aquin era um rapaz que morava no French Quarter. Era também musicista e tocava em bailes. Havia me convidado para assisti-lo em uma noite e naquela noite resolvi ir. Pensei que talvez Niklaus ficasse furioso por minha atitude, mas pelo visto quem havia se enciumado era Kol.
– Não sei o que vê naquele humano estúpido.
– Você só está enciumado. Ciúmes de irmão. Eu esperava isso de Nik e não de ti, Kol.
– Enciumado? Não sejas tola. Estou apenas dizendo que aquele rapaz não passa de um fanfarrão.
Abro a boca para falar, mas outra voz me interrompe.
– Ouça Kol, Charlotte. Uma dama não deveria sair sozinha a essa hora da noite. — a voz não é nobre para ser de Elijah. Também não se trata de uma voz debochada como a de Niklaus. Se trata mesmo é de uma voz masculina autoritária, que só de ouvir me dá nos nervos.
– Finn. — falei entredentes, procurando-o no meio da escuridão, mas não o faço por muito tempo pois logo um vulto passa por trás de mim e Finn para ao lado de Kol, em minha frente. — O que queres?
Por tantos anos ouvi Finn falar sobre sermos criaturas do inferno, sobre nossa família ser amaldiçoada, que aprendi a simplesmente ter ódio de sua voz, de sua respiração, de sua presença.
– Acalme-se, irmã. — ele ergueu as mãos como se estivesse se rendendo. — Só vim trazer notícias. Soube que Klaus, Elijah, vocês dois e Rebekah agora moram aqui nessa cidade.
– Rebekah mora num caixão, nesse momento, para ser exato. — Kol diz.
– Por que isso não me surpreende? — Finn diz com desdém.
– Ela bem que estava merecendo. Não calava a boca em minuto algum. — falei, irritada. Rebekah certamente também tinha conquistado um pouco de minha ira na época. Se não estivesse apaixonada por um tal de Marcellus Gerard naquele século, provavelmente já teria se deitado com Viktor pois sabia que eu estava interessada no rapaz.
Finn me lança um olhar desaprovador e diz:
– Está se tornando como Niklaus. Isso é vergonhoso.
– Diga-me logo o que veio aqui para dizer e suma, pois não quero mais ter de ver essa sua cara.
– Mikael está em Nova Orleans. E está procurando por vocês. Notícia dada, agora realizarei seu pedido, Charlotte. Vou-me embora e não voltarei. — dito isso, Finn se foi com sua velocidade sobrenatural, deixando-me no silêncio da noite, sozinha com Kol.
Fiquei em silêncio. Sem saber o que dizer. Havíamos nos instalado naquela cidade e eu sabia que estava prestes a ser feliz ali novamente. Tudo naquela cidade me agradava, o clima, a música, a arte, a culinária. Eu estava prestes a ser feliz e então Mikael resolve aparecer de novo, para nos infernizar.
– Vamos arranjar nossos pertences e irmos embora daqui. — Kol disse em tom taciturno.
– Kol, Klaus não arredará o pé daqui e sei que Elijah também não. Estou com tanto medo. Não posso mirar Mikael, nosso próprio pai. Ele quer nos matar.
Os braços consoladores de Kol envolveram-me em um abraço confortável.
– Então vamos nós.
– Deixaremos nossos irmãos?
– Os avisaremos e sairemos daqui. A não ser que queira ficar.
– Ficar? E te deixar ir só? Jamais, Kol.
– Amo-te, Charlotte. Só quero proteger-te.
– Então proteja.
Tempos atuais.
Volto ao presente quando a mesma voz que disse: "Amo-te Charlotte. Só quero lhe proteger" soa em meu tempo real.
– Ótima música.
Me levanto rapidamente do banco em que eu sentava para tocar o piano e encaro Kol, que abre um sorriso irônico para dizer:
– Alguma dedicatória especial? Acho que te magoei. E muito pelo jeito.
– Não olhe por esse lado, querido irmão. Você apenas me deixou morrer e nem tentou me ajudar contra Mikael. Você sabe que não sou de guardar rancor. — abro um sorriso irônico ao nível do dele.
– Não é o que dizem essas lágrimas. — ele estende a mão e toca meu rosto, secando as lágrimas estúpidas e salgadas.
Seguro seu braço e o olho nos olhos. Entredentes digo:
– Não me toque.
– Você sabe o que é certo e o que é errado, Charlotte. E tenho certeza que sabe o que deve fazer. Deve libertar sua família desse mal.
– Olhe para você, Kol. — afasto-me dele. — Você está falando como se fosse Finn. Você fala como se não acreditasse mais na esperança para nossa família.
– Klaus terá um filho com uma loba. Se restar alguma esperança essa criança devorará.
Penso em suas palavras e me seguro para não dizer a ele que concordo, que o filho é uma má ideia, que aquela loba deve morrer junto com aquela criança que carrega no ventre.
– Klaus é um monstro. E você estará fazendo um favor a todos se o entregar para a morte.
– Fazer com Klaus o que você fez comigo? Entrega-lo como você me entregou?
– Não te entreguei, Charlotte. Você foi me ajudar e quando conseguiu me salvar eu tive que fugir. Era você ou eu.
– Seu coração nada monstruoso me deixa encantada. — dou-lhe as costas pronta para sair dali e encerrar aquela conversa.
– Faça o que deve ser feito, Charlotte.
E subitamente tenho uma vontade enorme de entregar Klaus para o feitiço. É uma vontade que vem além de mim, que não consigo explicar. E contra minha vontade meus lábios se movem e dizem:
– Farei o que deve ser feito, Kol.
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