Notas iniciais
Agradecimentos ao comentário da Milena Corrêa (realmente o Percy é secundário em muitos momentos ou um coadjuvante de luxo, mas o tio Rick tem duas sagas com ele, então tudo bem, certo?). Mudando de assunto... Quando a gente entra em uma enrascada bem que podia ser algo como a Ártemis nesse capítulo (não a parte do fim do mundo, mas um partidão como o Kaíros). Vamos festejar que esse é um capítulo levinho (o próximo não vai ser...). Então... BOA LEITURA!!!

Ártemis

25 de Janeiro

Como meu irmão diria “eu certamente estou em uma grande enrascada”.

Não apenas por que eu realmente estou enrascada, assim como os outros deuses, como por que fazer esse tipo de coisa idiota não é da minha natureza, mas não é como se Kaíros atraísse o melhor da minha sanidade.

Conferi que a roupa que eu usava não chamaria atenção no mundo mortal e aparatei em uma rua pouco movimentada de Seattle, lá a noite estava apenas começando.

Caminhei duas quadras até a pequena lanchonete onde Kaíros já me esperava e sua aparência apenas me fazia ter certeza que eu era uma idiota por ainda não ter feito nada a respeito da nossa situação em dois anos. Não que as coisas tenham sido simples com a quantidade de crianças que nasceram na Linhagem ou os filhos dos meus sobrinhos.

Ainda assim, para alguém que andava ocupado como ele, Kaíros ainda se vestia muito bem e provava que o estilo refinado do meu pai podia ficar bem charmoso na pessoa certa. Admito que já passei algum tempo admirando Kaíros e hoje ele parecia mais bonito, mesmo que eu já o tivesse visto usando calça jeans, sapatos e camisa social com blazer.

Respirei fundo e me aproximei da mesa onde ele estava sentado, imediatamente Kaíros levantou e estendeu a mão para mim. Quando segurou minha mão ele a levou aos lábios naturalmente, como se soubesse que eu não iria negar aquilo.

—Você deve ser o ser mais lindo do universo.

—Hoje? –Brinquei.

Ele sorriu de uma forma que me fez sentir um calafrio.

—Todos os dias.

—Não precisa me elogiar tanto.

—Não é como se todas as mulheres ficassem lindas em jeans, bota, camisa e jaqueta de couro.

—Você me acharia linda mesmo se eu estivesse vestida com retalhos sujos.

—Verdade.

Aquele comentário me fez sorrir, como apenas Kaíros conseguiria com um comentário tão simples e sincero.

Sentamos e o garçom apareceu em seguida anotando os pedidos e sumindo tão rápido quanto havia aparecido.

—Então, por que pediu para eu te encontrar aqui hoje, minha querida?

Suspirei um pouco cansada de imaginar a nossa conversa estragando aquele bom momento.

—É sobre a Coroa.

—Oh! –Ele pareceu momentaneamente decepcionado. –Bom, acho que era esperado.

—Peço desculpa por isso, preferia me encontrar com você em uma situação melhor.

Ele negou.

—Tudo bem, meus últimos anos têm sido corridos com o aumento da minha família e o treinamento dos mais novos. Sei que você também tem estado ocupada. –Ele encolheu os ombros culpado. –Eu mantive um olho em você nesse tempo.

Aquilo me fez rir.

—Claro que manteve.

—Então, o que quer saber?

—Os outros deuses, eles já sabem?

Kaíros ficou tenso com a pergunta.

—Saber eles sabem, não sabem dos detalhes.

—Que de certa forma o destino foi manipulado.

—O estrago não é tão grande.

Aquilo me surpreendeu.

—Como assim?

Ele ficou desconfortável.

—Sabe, não é culpa dos dois, as coisas já estavam um tanto programadas para serem assim. É só ver a diferença de idade entre a Teresa e a Zöe, ou mesmo entre a ruiva e a primeira vez que perdemos uma Coroa.

—Realmente, são mais de duzentos anos de diferença. –Encarei ele preocupada. –O que isso significa?

—Que a profecia e o destino querem uma resolução.

—Por isso as coisas foram tão tensas com a Annabeth há oito anos?

—Por isso ela quase morreu antes do parto e monstros atacaram o Rigardo, por isso os monstros passaram a andar em bandos de diferentes espécies cada vez mais. Existem forças, que juntas são tão poderosas quanto eu, que estão tentando evitar o nascimento da Coroa e também existem forças que juntas são tão poderosas quanto eu que que querem encerrar a profecia.

—Por que? Não faz sentido.

—Na verdade faz muito. –E ele não parecia nada preocupado.

—Então explica, por que eu não entendi.

—A última Coroa representa o seu pai, o único olimpiano que ainda não está protegido pelo novo sistema de poder.

—Isso não é verdade, Hera e Atena...

—Isso já foi resolvido de outras formas.

—Vou querer saber?

—Melhor não, até porque isso só vai se tornar oficial quando a Coroa de Zeus nascer.

—Uma situação condicionada.

—Uma de várias.

Suspirei vencida naquela questão.

—Então, eles não afetaram tanto o destino?

—Não, uma das condições para a última Coroa era a Lilliel e a Lizandra se encontrarem.

—Que sorte que tivemos dois anos entre elas se encontrarem em isso acontecer.

—Verdade.

—Havia outra condição?

—Melindra e Easley.

—Mais uma vez ainda tivemos tempo. –Kaíros riu e eu reagi com outra risada, parece que ficou mais difícil resistir a ele. –Mais alguma condição.

—Edward e Melissa.

—Claro que desgraça pouca é bobagem. –Ele ria do meu comentário como se não pudesse evitar, quem sabe não sou a única com defesas fracas aqui. –Mais alguma coisa preocupante relacionada?

—O nascimento da nova Coroa vai trazer mudanças para todos os deuses. –Ele pareceu um pouco perturbado ao dizer isso. –Mesmo eu serei afetado por isso.

—Você? –Ele fez que sim e eu fiquei realmente preocupada, porque sei bem que o tempo dele está acabando naquele relógio. –O que vai acontecer com você?

—Se a criança nascer, a última peça dos meus preparativos estará encaminhada e é certo que o filho da Lilliel vai casar com a filha da Lizandra, mas só se a criança nascer viva.

—O que exatamente isso significa para você? –Ele ficou em silêncio por um tempo maior do que eu gostaria. –Não me diga que você vai morrer, isso é tecnicamente impossível.

—Bom, não exatamente morrer, mas sim, eu vou.

—Como? –Minha voz era um sussurro.

—Não é simples de explicar, mas uma parte de mim vai morrer. –Ele suspirou. –Faz parte do meu acordo com Nix.

—Aquele acordo que tanto ouço falar? –Ele assentiu. –Qual seu acordo com ela?

—É complicado de explicar, mas ela vai me fazer renascer, por assim dizer. –Ele fez uma careta. –Claro que não é tão simples como eu gostaria, tem um monte de regras e pagamentos que eu tenho que fazer para ela se tudo correr bem.

—Que tipo de pagamento?

—E você acha que minha tia contou isso.

—Não. –Até parece que ela contaria alguma coisa a alguém. –E nós dois?

—Isso é decisão sua meu amor, sempre foi. Por isso o meu tempo até o acordo ficou visível para você mesmo contra a minha vontade.

Hesitei sobre a parte final do que ele falou.

—Você não sabe? –Kaíros me olhou curioso. –Sobre minha escolha.

—Eu tento, mas você sempre foi mais difícil de prever sem tentar ir para o lado que eu queria ver acontecer. –Ele sorriu daquela forma carinhosa que sempre me deixa constrangida. –Acabei me focando nas pessoas ao seu redor, isso facilitava saber de você sem focar em você ou no que eu quero ver sobre você.

Felizmente para mim o garçom voltou, porque eu estava quase saindo dali de tanta vergonha que sentia.

Começamos a comer a pequena porção que pedimos enquanto continuávamos a conversa, a comida foi uma boa desculpa para não ficar encarando o olhar intenso de Kaíros.

—Alguém dos outros deuses falou alguma coisa?

—Não, eles até que estão bem calmos com a previsão de confusão que temos a caminho, especialmente depois do parto da Halley. É quase como se já estivessem preparados e conformados, mas não sei quanto tempo isso vai durar. Especialmente por que a maioria não sabe os detalhes do que vem acontecendo, só o geral.

—É bom não apostar em muito tempo. –E eu e ele sabemos que os deuses nunca foram pacientes, os gregos são apenas um exemplo.

—Isso eu tenho certeza.

—Sabe onde eles estão?

—Tenho uma ideia, mas não sei se Hades e Perséfone estão realmente escondendo os dois. –Aquela pequena confissão dele não me surpreendia tanto, eu também havia imaginado algumas opções.

—Onde mais eles estariam?

—Não sei, mas teria que ser um lugar que os deuses não possam interferir e o Hades é um dos poucos lugares seguros com essa qualidade.

—Também pensei na caverna da Teresa e dos meninos, ela tem estado abandonada a algum tempo.

—O problema é que não podemos nos aproximar sem autorização dela e sabemos que Teresa está do lado dos garotos.

Era verdade, agora eles iam lá apenas duas vezes por ano, mas com as crianças pequenas isso se tornou ainda mais difícil.

—Alguma outra ideia? –Ele me olhou como se não entendesse a pergunta. –Sabe, os dois chegaram longe, mesmo para semideuses, talvez outros deuses possam ter ajudado.

—Não, disso eu tenho certeza.

Terminamos de comer e Kaíros deixou o dinheiro sobre a mesa.

Assim que levantamos ele me ofereceu o braço e acabei deixando Kaíros me guiar para fora do restaurante. Paramos na calçada e ele sorriu carinhosamente.

—Posso te levar a um lugar?

—Sim.

Aparatamos em algum lugar de Seattle, uma espécie de parque no alto de uma colina que dava vista para os prédios e o mar.

—Gostou?

Aquilo me fez sorrir.

—Sim, é muito bonito.

—É mesmo.

Olhei para ele admirando a cidade e além do que as luzes encobriam: as estrelas.

Eu podia ver todas as estrelas ao ignorar a luz da cidade, incluindo minha querida Caçadora, minha amiga e irmã Zöe. Ela brilhava intensamente e eu quase podia ouvi-la me dizendo que eu era muito enrolada.

Pensar naquela possibilidade me fez rir.

—Tudo bem? –E chamou a atenção de Kaíros.

O sorriso foi inevitável.

—Eu estaria cometendo um erro se dissesse que quero te beijar agora?

Ele pareceu surpreso por um momento e então riu.

—Se fosse o caso, então seríamos duas pessoas cometendo o mesmo erro.

Se estivéssemos na escadaria do Lótus eu teria simplesmente beijado ele, mas Kaíros é tão alto quanto meus sobrinhos e isso significa que ele é uns trinta centímetros mais alto que eu na minha forma adulta.

Respirei fundo.

Se era para beijá-lo, então eu faria aquilo.

Até porque eu realmente queria beijar Kaíros, como naquele dia no Lótus.

Segurei suas mãos e coloquei ambas nas minhas costas, o que o assustou. Passei minhas mãos em volta do pescoço dele, o puxando na minha direção e então Kaíros reagiu.

Ele flexionou os joelhos e me puxou contra seu corpo me abraçando. Um de seus braços me mantinha fortemente abraçado contra meu corpo, enquanto a outra mão deslizou até a minha nuca e eu beijei o único homem que conseguiu mexer com a minha sanidade daquela forma, desde que nasci, pela oitava vez na minha vida.

Não resisti ao momento que a língua dele pediu passagem ou estranhei o sabor do beijo dele, mas me surpreendi com o hálito frio que invadiu minha boca enquanto sua pele estava quente sob a minha mão na sua nuca.

Foi Kaíros quem rompeu o contato e me colocou no chão, podia jurar que por um segundo o mundo girou um pouco quando meus pés tocaram a grama.

—Isso foi diferente. –Comentei.

—Realmente. –Ele parecia um pouco perplexo, antes de recobrar a feição um pouco mais séria que o normal. –Acho que é melhor você voltar meu amor.

Eu sabia que ele estava sendo responsável por nós dois, mas às vezes mesmo eu me sinto um pouco irritada com isso. Ainda assim ele estava certo e eu não podia negar.

—Tem razão. –Segurei sua mão e indiquei que ele abaixasse. –Nos vemos em breve. –E dei um beijo na testa dele.

Kaíros sorriu e beijou a minha testa.

—Nos vemos em breve.

Aparatei em seguida na minha sala privativa ainda sentindo meu coração bater muito rápido para conseguir ignorar qualquer coisa dos meus últimos minutos com Kaíros e sentei no sofá.

Quando consegui me acalmar, pelo menos dez minutos depois, me sentia ainda mais idiota do que antes de ir ao encontro dele.

—Eu estou muito enrascada.

Continua...

No próximo capítulo: Cócito.

Notas finais
Eu me coloco na posição da Ártemis e penso: por que diabos ela ainda não disse sim? Então eu lembro que eu decidi que isso não iria acontecer tão cedo e a culpa é minha. Apesar disso, se não fosse todo esse lance e tals, eu diria sim para alguém como o Kaíros, por que bons partidos como ele estão em falta (em ambos os sexos). O próximo vai sair por volta do dia 14 de Novembro.