The Olimpians – Livro 4: The Last Crown
6 Cócito.
Notas iniciais
Lilliel
29 de Janeiro
Cara, a gente tá tão ferrado.
Suspirei exausta só de pensar que as coisas poderiam ser mais difíceis do que com a Halley enquanto encarava Ashlley ser colocada na cama.
Ter um filho não é fácil, isso eu posso dizer, mas essas crianças estão dando mais trabalho para vir ao mundo do que o normal e o normal da Linhagem já é uma bagunça.
Sentei no canto do quarto tentando pensar no lado positivo: teríamos uma semana de folga entre Ashlley e Vivian ou pelo menos é o que esperamos.
Fechei os olhos e afundei no campo de combate que Kaíros havia preparado ou, sendo mais preciso, no espaço que temos para combater os demônios antes deles alcançarem o plano físico e matar a criança.
Por que a gente é tão azarado?
Minha mãe surgiu e tomou seu lugar com um olhar violento.
—Sabem o que fazer, é uma repetição do que houve no parto da Halley, mas eles devem vir com mais força. Não hesitem.
Andei até estar o mais distante possível de Leon e Carlo sentindo meu sangue ferver.
—Preparada?
Não olhei para Teresa, ela entendia.
—Seria cruel da minha parte querer que Nix estivesse aqui? –Notei que ela ficou estranha e a encarei. –O que foi?
—Eu acho que você não entendeu ainda não é? –Ela olhou o espaço na nossa frente, de onde eles viriam. –Os demônios que chegam até aqui são os poucos que Nix não consegue consumir.
—Isso quer dizer…? –O pensamento me assombrou.
—Que se ela não estivesse consumindo quase todas as forças deles, teríamos de sete a nove vezes a quantidade de demônios que enfrentamos da última vez.
Sete vezes?
Aquele exército tinha pelo menos de sete a nove vezes o tamanho que enfrentamos?
Engoli em seco.
—Me lembre de fazer uma oferenda generosa a ela depois.
—Pode deixar.
Vi a primeira onda surgir e pensei em como eles deviam estar desesperados para sacrificar tantos apenas para passar por Nix sabendo que estaríamos aqui, sabendo que continuariam a morrer. Tudo para matar uma criança.
Pensei em Hyde me esperando em seu quarto.
Tentei imaginar o quanto Nix estava se esforçando sozinha contra um exército de milhões ou bilhões de demônios apenas para nos ajudar a proteger aquelas crianças.
Lembrei do quanto Kaíros se esforçou na última vez e como foi difícil para cada um.
Tudo isso passou pela minha mente em uma fração de segundo e quando dei por mim a foice já havia se movido, varrendo a primeira onda de monstros e atingindo algum ponto distante onde a segunda se projetava.
—Mas que diabos…? –Teresa se assustou.
—Desculpe, fiquei com raiva. –Me preparei para o que restou da segunda onda. –E fodidamente motivada a segurar esses desgraçados aqui pelo máximo de tempo possível.
Acho que minha sogra sorriu, porque sua voz soou bem animada.
—Isso parece divertido.
Não sei bem como conseguimos fazer isso funcionar e tenho certeza que recebi pelo menos um incentivo de poder de Kaíros, mas seguramos eles até que a décima onda virou a décima primeira até a décima quinta de uma vez e mesmo assim tenho certeza que eu e Teresa destruímos um grupo de três ondas em sequência.
Não poupamos esforços ou alcance, mesmo assim foi inevitável contra os números crescentes.
Com base na luta anterior eu sabia que cada onda contava com uns três mil demônios, às vezes mais, e depois do que Teresa contou eu sabia que quanto mais deles chegavam de uma vez, mais eles haviam sacrificado, mesmo assim os números estavam ultrapassando quinze mil por vez.
Os impulsos de poder de Kaíros ajudavam a aumentar a quantidade que eu podia matar de uma vez e dessa vez já conseguia usá-los de forma mais efetiva e não apenas no impulso do momento.
Se com a minha força normal eu podia matar quase cinco mil, a ajuda de Kaíros aumentava meu resultado para até nove mil e Teresa conseguia facilmente cobrir a diferença mantendo uma reserva caso eu cedesse ao cansaço.
Infelizmente Kaíros não podia nos ajudar sempre, então eu sabia que Carlo e Leon tinham milhares daqueles desgraçados para matar quando eles nos superavam. Dessa vez meu pai e meu tio não demoraram para aparecer, provavelmente porque os números começaram a aumentar muito mais rápido e não pararam.
Queria gritar e perguntar como as coisas estavam, queria xingá-los, queria tomar um tempo para reorganizar nossa linha de defesa e empurrá-los, mas só conseguia gritar de raiva.
A nova onda veio e eu tremi.
Eram cinquenta mil.
Quantos demônios haviam atacado o lado de Nix para cinquenta mil chegarem até ali?
Eu senti a onda de impacto do poder de Teresa antes de entender o que ela havia feito e soube que ambas fomos arremessadas alguns metros pela medida desesperada dela.
Notei os vinte mil demônios mortos antes de notar o gelo que ameaçava devorar a minha alma e precisei ser rápida para seguir a liderança dela.
Apoiei minha mão no chão e finquei a foice tentando conduzir o máximo de poder que pudesse pelos dois enquanto observava outra onda com cinquenta mil demônios se juntarem aos trinta mil restantes e avançarem contra o nosso campo de gelo.
Eu sabia que aquele truque poderia nos matar e sei que Teresa também tinha consciência disso, mas enquanto a quantidade de demônios apenas crescia e avançava, uma satisfação sádica tomou conta de ambas.
Os demônios começaram a cair em sequência, como peças de domínio empurradas em um quebra cabeça, e quando seus corpos tocavam o chão, completamente sem vida, eles levavam os companheiros que os tocavam à morte.
O chão de gelo era mortal.
Os mortos congelados eram mortais.
E então eu senti o poder da morte fluir do âmago do meu ser, se infiltrar nas partículas de ar gelado enquanto os batimentos do meu coração diminuíam e eu sentia a vida de cada um daqueles demônios se esvair individualmente e em grupo.
—Se concentre!
O grito de alerta de Teresa me fez segurar o pequeno fio de sanidade que me mantinha viva e pude sentir que mesmo mais lento meu coração continuou batendo em um ritmo fixo.
Eu quase morri.
Segurei o medo daquela sensação para me manter alerta, mas não podia parar, ainda não.
Os números dos demônios não estavam diminuindo e eu podia ver que para cada cinquenta mil que matávamos entre o gelo e o ar da morte, outros sessenta mil estavam surgindo. Em algum momento eles passariam por nós mesmo com aquele campo da morte.
Senti um novo impulso de poder vindo de Kaíros e isso me ajudou a aumentar o campo de gelo, mas mesmo assim era questão de tempo.
Quanto tempo era a questão.
—Use o próximo impulso para fortalecer seu corpo, o campo vai segurar com o poder que temos. –Teresa conseguia gritar orientações e tenho certeza que ela sabe por que quer que use o impulso em mim.
Devo estar pior do que me sinto ou ela não estaria preocupada.
Não sei quanto tempo levou, apenas que foi o suficiente para eles começarem a superar o campo de gelo e avançarem contra os outros.
Sei que temos sorte.
O objetivo deles é alcançar o outro lado.
Matar as crianças que estão nascendo, não aqueles que já nasceram e podem lutar.
É por isso que eles nos ignoram no minuto que passam por nós.
Por isso e por que sabem que não podemos segui-los tanto quanto eles não podem perder tempo em nos matar.
Quando o impulso de poder me atingiu novamente e fortaleci meu corpo, as coisas ficaram mais claras. Consegui manipular o campo de gelo melhor, mesmo que alguns demônios ainda passassem e o poder fluiu de forma menos perigosa.
Tive certeza que estava mais morta do que viva antes disso e tomei mais cuidado.
Desejei que Ashlley desse a luz logo, porque não sabia direito por quanto tempo poderíamos manter aquela posição ou o campo de gelo.
Eu podia sentir, assim como Teresa, que estávamos matando quase cem mil demônios por vez e mesmo assim eles ainda passavam por nós.
Pensei em como Nix devia estar se sentindo enfrentando pelo menos sete vezes aqueles números e desejei que ela tivesse algum tipo de ajuda.
E então eu senti o impacto assustador.
Cento e vinte mil demônios mortos e pelo menos trinta mil passaram por nós.
Merda!
Eu me preparei para injetar mais poder no campo de gelo quando o grito agonizante dos demônios ecoou as nossas costas e todos eles desapareceram.
Ashlley conseguiu.
Nós conseguimos.
Eu mal conseguia respirar de tão cansada e meu corpo pesava uma tonelada ao ponto de não sentir dor.
Queria levantar, voltar para casa, abraçar Gray e Hyde, comer e dormir, mas meu corpo não respondia.
—Não tente se mover mais. –Vi Teresa se aproximar e parar na minha frente.
Levei um susto.
Seu corpo parecia ter congelado e algumas partes pareciam realmente trincadas.
Eu queria perguntar o que tinha acontecido, mas a única coisa que respondia a minha vontade era minha respiração irregular.
—Pare. Respire devagar. Nós exageramos, mas você está bem pior do que eu.
Ela conseguiu invocar um espelho e pude ver como meu corpo parecia ter virado uma estátua gelada fundida ao chão do campo de gelo.
Engoli em seco.
—Parece pior do que realmente é, acredite. –Ela notou meu olhar. –Invocamos o Cócito para o campo de batalha, transformamos o ar em uma névoa fria que poderia matar qualquer um que esse inferno em particular seja capaz de punir. Acredite, o fato de estarmos vivas é um milagre.
—Um digno de nota. –Eu queria dizer que me assustei ao ver Nix, mas estou tão cansada que não acho que consiga me assustar com isso. –É, vamos ter trabalho para tirar ela daí inteira. –Ela notou o meu olhar. –Se quebrar seu corpo nesse espaço o seu corpo físico vai começar a apodrecer e ainda que possamos restaurar seu corpo aqui, os gregos e romanos não são nem de longe bons nesse processo para não causar danos.
—O que ela quer dizer é que para salvarmos seu corpo no caso quebrarmos algo é difícil sem a ajuda de um deus de outro panteão.
Fiz um ruído de quem tinha entendido, o que era verdade, e encarei Nix mais atentamente. Ela parecia bem cansada e suas roupas estavam em trapos completos.
—Não se preocupe. –A encarei. –Erébus me ajudou hoje, ainda que ele seja um pouco devagar, isso significa que eu enfrentei muito menos do que o esperado.
—Ele te ajudou? –Teresa parecia preocupada.
—Minha querida, meu marido é muito mais poderoso do que eu, você sabe disso. O problema é que ele é muito mais lento. Mesmo assim, sei que Erébus matou pelo menos dois terços dos demônios antes de chegarem até mim.
—Quantos você matou Nix? –Ah, droga.
—Perdi a conta em algum ponto depois dos nove milhões. –Tradução para ela ficou de saco cheio de contar
Merda.
—Merda! –Teresa pareceu ansiosa.
—Eu sei, pensei a mesma coisa.
Teresa me encarou e suspirou.
—Só me ajude a tirá-la daqui inteira, temos no máximo uma semana para o próximo campo de batalha.
—Eu sei, resolvi que vou recrutar todos os meus filhos para esse dia e Erébus me pediu para avisá-lo.
Merda.
—Merda.
—Vamos, isso vai demorar mais do que gostaríamos e Kaíros já desmaiou. –Não que Nix fosse explicar como sabia disso.
==========X==========
Nix não estava brincando quando disse que aquilo iria demorar.
Levou seis horas apenas para descolar meu corpo do resto do campo de gelo sem quebrar nada e mesmo assim eu ainda era uma estátua de gelo, então nós ainda estávamos na dúvida de como resolver o problema.
Felizmente Hades apareceu com uma resposta, uma dolorosa, mas eficiente para todos os efeitos. Ele não conseguiria me tirar do gelo, especialmente um tão forte como aquele, por isso foi tentar descobrir como resolver o resto do problema.
Parece que Nix ajudou ele em paralelo a minha retirada e meu tataravô usou um condenado para ajudar se sua teoria daria certo. Ele congelou o condenado no Cócito e depois o arrastou até o Flegetonte, atirando-o no rio de fogo que o restaurou.
E foi exatamente isso que fizeram com a carcaça do meu espírito congelado.
Doeu, não vou negar.
O lado bom é que funcionou e meu corpo não vai apodrecer.
No final deu tudo certo e eu voltei para casa, onde Teresa me esperava sentada na beira da cama em que estava.
—Eu pensei que ia descansar. –Olhei ao redor e vi que estava em outro cômodo com um acesso venoso no braço. –Quanto tempo?
—Trinta e seis horas de trabalho de parto para Ashlley e mais seis para te trazer de volta.
—Nossa. –Eu ainda estava exausta, mas tinha que perguntar algo que estava me deixando curiosa. –Pensei que o Cócito fosse o rio das lamentações, porque ele é um campo de punição do Hades?
—Ele é os dois.
—Dante Alighieri?
—Incrível o que os humanos não podem criar, não é mesmo?
—Então existe o rio Cócito, que é o Rio das Lamentações.
—E as almas sem moeda devem passar cem anos as suas margens antes de ter direito a um julgamento. –Teresa completou.
—E o inferno de punição Cócito.
—O lugar onde todos aqueles que traem os deuses são punidos eternamente.
—Por isso os demônios congelavam ao tocá-lo?
—Originalmente qualquer traidor congelava ao tocá-lo, Dante foi cruel ao criar aquele lugar sem saber o quanto aquilo poderia se tornar real. Hades não gostou, ele queria mudar toda a mecânica, mas não conseguia apagar a noção de traição que criou o lugar. –Teresa me encarou. –Humanos podem ser muito mais sádicos e perversos que os piores e mais cruéis deuses.
—O que Hades fez?
—Ele pensou que poderia adicionar mecânicas ao funcionamento do Cócito já que não podia mudá-las, então ele pensou em traidores dos deuses e depois adicionou outros termos para excluir quem seria punido, como traição fingida e arrependimento, sacrifício maior e outras coisas. –Teresa riu. –Não é tão difícil assim evitar o Cócito, mas tem muita gente que faz muita coisa e consegue ir parar lá em segundos.
—Luke e Ethan?
—Não passaram nem perto, assim como Silena.
—Eles se arrependeram e ela tentou proteger o Charles, foram perdoados.
—Silena nem passou pelo julgamento, Hades é um romântico incorrigível no final das contas.
Acabei sorrindo ao pensar naquilo.
—Bom, vamos conversar essa semana sobre o parto da Vivian, pode ser? –Ela concordou. –O que mais eu perdi?
—É uma menina e Reynald pediu que o nome seja Ariana.
—Em homenagem a Ares?
—Segundo ele, ao menos o pai não o rejeitou e isso vale mais do que a mãe até o momento.
—Faz sentido. Ashlley e os outros concordaram?
—Sim. Decidiram que o nome completo vai ser Ariana Liza Ackerman Eucaristia e o Liza é por causa da avó do Reynald, que acabou criando ele depois de tudo.
—E o Gray?
—Cuidando do seu filho, que ficou bem preocupado quando você não acordou.
Me senti culpada por aquilo, mesmo que não fosse algo proposital.
—Acho melhor eu ir falar com ele e dar os parabéns a Ashlley.
—Tenho certeza que todos vão ficar mais tranquilos em te ver. -Teresa levantou para aparatar.
—Antes que me esqueça… –Ela me encarou. –Valeu por salvar a minha vida lá.
Ela sorriu de uma forma carinhosa.
—Seria ruim se você morresse, muita gente iria ficar triste.
E por fim Teresa aparatou me deixando com a tarefa de fazer toda uma lista de cuidados extras para o próximo nascimento da nossa família.
Algo que na verdade eu nem deveria precisar que ela me lembrasse.
—
—
—
Continua...
—
—
—
No próximo capítulo: Nuclear.
Fale com o autor