The Olimpians – Livro 2: Bloodlines Time
33 Nunca Tente Ganhar Uma Discusão Que Já Perdeu Antes de Começar
Notas iniciais
Lizandra
–
Eu ainda estava esperando meus companheiros de viagem reagirem e fazer aquilo de uma vez por todas.
Já era ruim saber que sua perna não tem concerto.
Prolongar tal sofrimento era pior ainda.
Então quando Gray se aproximou mais do meu rosto eu tinha certeza que seria para de alguma forma tentar me consolar, mas na verdade não foi bem isso.
O que ele fez mesmo foi me dar um cascudo.
Um cascudo tão forte que acho que chacoalhou meu cérebro fazendo ele bater nas paredes do meu crânio.
Quando foquei novamente no rosto de Gray sua expressão era de pura raiva.
–Vamos Lilli, você disse que tem um ótimo gancho de direita. Acerte uma nela para ver se o cérebro volta a funcionar direito.
–Se isso ajudar eu faço sim.
Desviei o olhar para Lilliel que parecia até mais furiosa que Gray.
Levantei a mão na defensiva.
–Espera, o que eu fiz de tão errado assim?
–Exatamente nada até abrir a boca para falar daquela sua ideia estúpida de decepar sua própria perna se quer saber. -Lilliel começou.
–Se quer saber eu tenho algo que pode cortar esse metal todo, só preciso saber o jeito certo para cortar e depois puxar da sua perna, mas vai doer muito.
Olhei para os dois descrente.
Não havia como.
O osso estava varado, Gray sabia disso até melhor que eu.
Isso sem falar no tendão de aquiles que provavelmente seria rompido ou nas veias e artérias que estavam dilaceradas.
–Gray, você sabe melhor que eu que isso não tem jeito. -Falei lenta e pausadamente, talvez pela luta ele estivesse com dificuldades de processar aquela realidade.
Gray apenas riu e me encarou.
–Assim como a perna da Lilliel não tinha salvação?
Olhei para ele incrédula.
Ele realmente pretendia apostar minha vida na possibilidade de que o ferimento fecharia da mesma forma milagrosa que o da perna da Lilli?
Aquilo era loucura além dos limites de um meio-sangue.
–Gray, a sua sanidade esta seriamente prejudicada. Nenhum meio-sangue poderia conseguir de alguma forma fazer isso de forma tão simples.
Ele assentiu negativamente.
–Quem disse que seria simples? -Ele respirou fundo. -Primeiro que vocês duas não são semi-deusas normais, segundo que certamente um semi-deus normal jamais poderia conseguir isso facilmente, mas não estamos nem de longe com um grupo de pessoas normais mesmo para o nosso mundo e isso também me inclui.
–Conte a novidade. -Resmunguei.
Ele apenas me olhou atravessado e foi até a bolsa pegar algo.
Quando voltou tinha uma das invenções do chalé de Heféstos que ele testava nas mãos.
–Isso corta metal, mas pode causar algumas queimaduras na sua perna.
–Gray, isso... -Mas a frase morreu pela metade.
–Calada! -Gray estava realmente furioso. -Não vou cortar sua perna antes de tentar. Então não insista nessa ideia retardada Lizandra Hanabi Zelothya.
Engoli em seco.
Gray havia me chamado daquela forma apenas duas vezes, três com a de hoje.
Nas outras duas uma era para me fazer prestar atenção que eu não estava sozinha depois da morte da minha mãe e a outra para me trazer de volta de um surto de violência gerado durante um treino com Clarisse.
Nunca com raiva como hoje.
Fora ele só a minha mãe me chamava assim e mesmo que fosse para chamar a minha atenção o tom de suas vozes nunca transmitiu raiva.
Demorei mais alguns segundos para notar algo estranho na atitude de Gray.
Ele estava transtornado e parecia que estava se culpando por aquilo.
Eu não conseguia entender, mas também não tive muito tempo para isso.
Logo em seguida ele começou a cortar o metal pela parte da frente da minha perna e aquilo realmente queimava um pouco minha perna.
Também entendi que ele pretendia puxar os pedaços de metal da minha perna e pé através do ponto de entrada.
A ferramenta que ele tinha era rápida, mas causava muitas queimaduras menores.
Tudo levou uns dez minutos e logo ele me encarou tenso.
–Deite. Lilliel vai te segurar. Eu vou realocar sua perna e puxar todos os ferros um atrás do outro. Então isso vai doer.
–Como?!?!?!
Mas não tive tempo de retrucar ou ter uma resposta.
Lilliel entendeu o que Gray falou e bem dizer pulou sobre o meu corpo me prendendo contra o chão.
No minutos seguintes eu perdi totalmente a noção do que acontecia.
Gray puxou minha perna de volta para o lugar e a dor da realocação do membro foi tão intensa que eu gritei a plenos pulmões.
Eu achei que não poderia gritar mais alto que aquilo, isso até Gray puxar a primeira barra de ferro da minha panturrilha.
O ar sumiu dos meu pulmões com o grito seguinte, mas Gray não parou.
Em seguida ele puxou a outra barra e minha visão ficou turva.
Quando ele puxou a barra que havia varado meu osso eu tenho certeza que perdi a consciência por alguns instantes.
Quando voltei a entender o que acontecia ao meu redor um puxão tirou a barra do meu tendão de aquiles e mesmo com pouco ar nos pulmões eu dei outro grito.
Por fim quando ele puxou as barras que ainda estavam nos meus pés a dor já era tanta que só restou meu corpo de retrair, por que nem força para gritar ou capacidade para perder a consciência eu tinha mais.
Levei alguns segundo para notar que minha perna começou a se retrair de forma dolorosa sendo puxada em tantas direções que fiquei zonza e vendo estrelas mesmo de olhos fechados.
Naqueles instantes também pude sentir algo ser jogado sobre as feridas abertas.
Provavelmente néctar como Gray havia feito com Lilli.
Levou uns cinco a dez minutos para que minha respiração se normalizar e quando isso aconteceu Lilliel já havia saído de cima do meu corpo a algum tempo, mas agora tinha um expressão um tanto assustadora.
Provavelmente minha perna sofreu o mesmo efeito que a dela no dia anterior quando tive aquela reação exagerada e agora ela parecia tão confusa quanto eu naquela hora.
A dor causada pelo estresse da remoção das barras era tão forte que meu corpo inteiro doía de uma forma medonha, fazendo com que até mesmo respirar fosse algo não desejável, isso por que respirar é essencial e eu precisava muito de ar.
Acho que Gray cansou de esperar, por que segurou meus braços e me puxou para que ficasse sentada. A dor da movimentação foi muito forte, mas quando olhei para minha perna eu voltei a ficar na dúvida do que deveria dizer ou fazer.
Meu joelho, meu tendão de aquiles e o meu osso da perna estavam inteiros.
No caso do joelho e do tendão não havia resquício de fratura alguma. Já o osso estava inteiro, mas os outros buracos...
Bom, a perna da Lilliel estava perfeita perto da minha.
Os nervos, veias e artérias haviam contornado perfeitamente as crateras que estavam na minha perna, mas a menor tentativa de movimento fazia toda a perna doer e o sangue escorrer das feridas.
Encarei Gray ainda mexendo na minha perna com uma persistência digna de um filho de Ares em um guerra, mas agora meu irmão estava colocando o algodão especial que ele mesmo fazia nos buracos ainda abertos, que eram quase todos, ainda que felizmente o osso do pé também estivesse cicatrizado.
Ver Gray colocar cada um daqueles pequenos tufos enrolados de algodão nos buracos não cicatrizados era demais para minha força de vontade. Eu sabia que nenhum buraco estava aberto de um lado a outro, mas ainda era assustador demais e não consegui conter nenhum pouco daquele medo.
Comecei a chorar de forma quase desesperada.
Toda aquela missão e tudo que me atingiu nos últimos dias era demais para qualquer um, mesmo um deus não suportaria tanta coisa junta desse jeito.
Lilliel sentou ao meu lado e me abraçou em meio a um ataque histérico de risadas medonhas em meio a lágrimas e um choro quase tão desesperado quanto o meu.
Em poucos segundos eu ria histericamente entre o meu choro e Gray começou a falar maldições absurdas como “Jogue a cabeça de um gigante do penhasco para dar sorte” ou ideias retardadas como “Vou usar a cueca de Hades para fazer café para o primeiro imbecil do acampamento que perguntar se a missão foi legal”.
Em poucos segundos tudo ficou tão contagiante naquele momento que nos duas começamos a imitar as maldições e ideias de Gray enquanto ele ria histericamente.
Ficamos assim por mais de uma hora depois que Gray conseguiu de alguma forma deixar a minha perna apresentável.
Não faziamos a menor ideia de como continuar a missão com duas pessoas impossibilitadas de andar sem apoio e Gray não poderia carregar ambas mais a bagagem nas costas.
No final era quase duas da tarde quando concluimos que estavamos ferrados de vez.
Gray tomou a decisão de servir de burro de carga, muito embora ele e Lilli tenham dado o nome de quarto de milha premiado antes de que eu fizesse essa piada, e pegou um pedaço de madeira grande razoavelmente inteiro. Depois de fazer uma amarração muito suspeita com os restos de corda e tecidos que achou, meu irmãozinho colocou eu e sua namorada não oficial em cima da madeira junto com nossa bagagem, vestiu a blusa, passou a corda pelo corpo dando um nó e começou a fazer força puxando tudo como uma carroça sem rodas.
Eu admito que para quem não sabia o que fazer e duvidava muito de outra carona amigável a ideia poderia até ter parecido muito boa, mas não foi por várias razões e a primeira é que a madeira não estava tão inteira assim.
Bom, claro que o que Gray fez nos rendeu um pedaço razoável do nosso percurso final e em duas horas já haviamos percorrido quase metade do que faltava até Mesquite, então mesmo com toda a areia que precisamos engolir naquele momento as coisas pareciam ter melhorado um pouco.
Não vou dizer que minha perna não doía horrores, por que seria mentira pra começar.
Na verdade ela pinicava, ardia, doía, repuxava, dava pontadas e as vezes eu podia jurar que sentia algo entre dentes e garras revirar a minha carne de forma lenta e programada para que a dor fosse ainda mais poderosa.
Isso me fazia perguntar se Lilliel não havia passado pelo mesmo e como eu poderia ser tão fraca, por que ela ainda andou com a perna sendo bem dizer devorada presa ao seu corpo e que de alguma forma minha prima escondeu isso até dela mesma.
Era exatamente isso que eu estava pensando enquanto Gray tinha um ataque de raiva contra uma árvore velha e seca jogada no chão desértico ao nosso redor, nisso e no maldito fato que mesmo que meu irmão não desperdiçasse suas forças seria impossível terminarmos nosso caminho até Mesquite com duas pessoas e algumas bolsas sendo carregadas por um único ser-humano por cinco desprezíveis quilômetros.
Isso até ouvir a última voz na face desse universo que poderia querer ajudar um semideus soar dentro da minha cabeça.
–Irritada a toa, nada disso vai te ajudar agora criança.–A voz feminina era tão pouco familiar e ao mesmo tempo tão nostálgica que eu perdi a reação de dar um grito e fazer Lilliel pular sobre a perna machucada.
O que fiz na verdade foi bem menos inteligente.
Engoli em seco, respirei fundo e me preparei para responder algo para aquele ser.
–Deveria estar como? Feliz por nossas feridas e pouca sorte crescente? –Sim, eu fui irônica, mesmo que isso não fosse mais inteligente do que responder. –E afinal de contas, quem diabos é você?–É, eu precisava falar isso.
Uma risada divertida ecoou pela minha mente.
–Impertinente como os outros da “Linhagem”, um pouco distraída com detalhes, certamente poderosa como sempre e tão linda quanto da última vez que a segurei em meus braços, claro.–A mulher acariciava as palavras de uma forma que mexia comigo e isso me deixou assustada, eu conhecia aquela voz, aquele tom melodioso de quem está falando com uma criança pequena e fazendo-a se sentir tão importante que nada no mundo poderia dar mais felicidade a nenhum filho. Era a voz de uma mãe orgulhosa falando com a filha perfeita. –Sim, exatamente. Ainda que eu não seja sua mãe devo admitir que te conheço melhor o que imagina Lizandra, afinal você é uma das poucas crianças que me defende e provavelmente a única de quem eu era quase amiga da mãe, assim como certamente sou a única pessoa em quem Kira confiava o bastante para fazer certos favores. Afinal, fui a única que entendeu o que ela queria.
Meu sangue gelou nas minhas veias e pude sentir uma gota de suor gelada correr pela minha nuca descendo pelas minhas costas.
Gray ainda estava em seu ataque de raiva, embora menos potente, chutando os restos que havia quebrado do velho tronco. Lilliel encarava em silêncio a cena quase como se estivesse sonhando em fazer o mesmo.
Nenhum deles havia reparado que meu coração batia muito acelerado e que algo poderia estar errado, então eu estava ali com uma visita não convocada falando coisas suspeitas.
–O que quer que eu faça, Hera?–Na dúvida perguntar doeria menos.
–Nada. Apenas ter uma breve conversa, pois acredite ou não eu gosto muito de você.–Cada palavra parecia tão boa na atual situação que quase me faziam duvidar, mas eu não conseguia evitar de sentir que aquilo era verdade. –Sabe, de todas as traições de Zeus que geraram semideuses as que resultaram nos seus ancestrais são as únicas que não consigo sentir raiva, na verdade ninguém consegue. Além disso tem o fato que fora as coroas existe apenas uma deusa que é totalmente imune ao charme da “Linhagem” e posso garantir que mesmo nunca tendo traído meu marido eu não sou nem de longe tão forte quanto Ártemis a ponto de não me apaixonar pelos seus antepassados, ainda que eles sempre tenham a mesma característica em comum.–O final daquelas palavras tinham um tom de humor levemente maroto que nunca pensei que pudesse existir em Hera.
Além disso minha mente estava em branco com o que ela tinha falado.
–Eu... exatamente do que a senhora fala? Quero dizer, Ártemis nunca ter se apaixonado pelos membros da “Linhagem” não é exatamente novidade, mas a senhora já se apaixonou por um deles? Como... Atena eu até entendo por que ela não... mas isso, como?
–Certo, acalme-se antes de mais nada criança. Para início de conversa eu me apaixonei pelos filhos do meu marido, nenhum outro caso foi diferente exceto por Jasão e o amor que tinha por ele foi diferente. Os filhos de Zeus com a “Linhagem” chamam a minha atenção e me encantam, isso não tem com mudar, afinal eles são meu marido só que livre dos defeitos irritantes e com todas as qualidade de Kaíros, o meu marido se fosse perfeito se preferir imaginar. Apesar dessa ideia ser tentadora eu nunca traí Zeus, embora ele merecesse, mas, não quer dizer que não interferi nas linhas da sua família.–Hera parou como se tivesse lembrado de algo.
Infelizmente eu havia pensado em algo muito assustador e imperdoável quando ela disse que interferiu.
–Foi você que interferiu e causou aquilo?–A minha mente processou as palavras lenta e surdamente mesmo para um pensamento.
–Como?–Hera pareceu confusa.
–Foi você que fez o ser idiota se apaixonar por uma patética criatura doente e ferrar a vida de toda a droga da minha família com aquela história porca e suja de “prova de amor” que matou a minha mãe?!–Dessa vez as palavras, o pensamento, a simples ideia daquilo e minha raiva sairam como gritos, o que não melhorou meu humor com o silêncio de Hera. –Me responda Hera!!!
Então uma sensação fria de perigo se apoderou do meu corpo e eu notei que havia passado dos limites que alguém poderia desafiar um deus, então tinha certeza que a próxima ação de Hera seria pulverizar minha existência da face da história.
Por isso quando ouvi um suspiro de puro cansaço me assustei, mas não recebi a sequência que esperava.
–Escute bem criança, não fui eu e nem mesmo foi culpa de algum deus essa ideia distorcida de “prova de amor”, por que se tivesse partido de algum deus juro que teria sido a primeira a me opor. Até por que, acredite você ou não, mesmo eu me preocupo com a “Linhagem”, Afrodite foi a deusa mais próxima quando tudo começou na sua família e ela tentou remediar aquilo, a Deusa do Amor ainda se culpa pelo destino que o filho dela impôs aos próprios descendentes mais do que você possa imaginar.
Aquelas palavras me desarmaram, jogaram minha raiva no fundo do Tártaro e pisaram em todos os meus planos de bater em um “vilão” pelo que eu e minha família haviam passado.
–Eu não... isso... me desculpe Rainha.–De alguma forma consegui transmitir aquilo para ela.
–Não precisa, afinal os deuses vem escondendo muitas coisas de você e eu não sou a exceção. Mesmo assim preciso terminar o que vim aqui para dizer e creio que parei ao dizer que não deixei de interferir, o que me leva a questão que é o fato que eu nunca trai Zeus, mas, a paixão que eu tinha por seus antepassados me fazia querer dar a eles algo e por isso quando eles encontravam a mortal perfeita para quem se dedicariam pela eternidade recebiam a minha benção. Literalmente, eu realizava seus casamentos e até mesmo dava as alianças, era minha forma de demonstrar meu amor e não trair em nada aquilo em que acredito. Hades não tem tanta sorte, mas Perséfone sempre se apaixona pelo neto dele que é, ao menos segundo minha enteada, igualmente charmoso ao avô e como as poucas traições dela ocorrem sempre nesses termos ele nunca discute a questão ou fica bravo pelos descendentes dela.–Hera falava de uma forma tão calma tudo aquilo e eu estava quase pirando ao ouvir aquilo.
Respirei fundo e encarei Gray agora sentado ao longe jogando pedrinhas pela areia do deserto com um ar um tanto desolado, enquanto Lilliel suspirava ao meu lado de uma forma irritante, o que me fez preferir voltar a minha conversa com Hera.
–Certo, mas eu realmente não entendo a utilidade dessas informações, até por que não tenho muito interesse se todas as deusas menos você, Ártemis e Héstia não tiveram filhos com meus antepassados por que até onde sei eu continuo com a mesma ascendência.–Sim, eu falei isso.
Para a minha surpresa havia mais informações para receber sobre um erro na minha fala.
–Quem disse que foram só essas?–Uma risada cortou sua continuação. –Pelos deuses criança, Atena nunca teve filhos com a “Linhagem”. Seria impossível para ela conceber um filho com seus ancestrais da forma como ela faz normalmente, afinal, os descendentes de Kaíros são imunes a habilidade dela de gerar filhos sem nem mesmo um contato físico, que dirá contato íntimo. O sangue de Atena que corre em suas veias é dos filhos e filhas que ela teve, em algum momento essas crianças cruzaram o caminho de seus ancestrais da “Linhagem” e tiveram filhos que nasceram com as habilidades de um filho de Atena por esse parentesco.–Apesar do excesso de informações que Hera passava seu tom de voz era calmo e quase divertido, enquanto a minha mente estava mesmo era dando saltos ornamentais de confusão.
–Espera. Eu não estou entendendo mais nada. Quatro deusas não são minhas ancestrais, mas duas delas estão ligadas a minha família de uma forma meio bizarra e as outras eu nem tenho certeza que não estão ligadas. É isso mesmo?–Certo, eu deveria ser louca de perguntar coisas em uma conversa dessas, ainda mais odiando perder eu estava em vista de que perderia a segunda discussão do dia.
–Bom, você não está errada, mas não está certa. Héstia faz como eu, abençoa a união e as vezes dá algum presente para os noivos, algo que normalmente se fará presente nos seus filhos e foi o que ela fez com seu avô. Apesar de ele ser um completo idiota ela abençoou sua união e como resultado dessa benção nasceu Kira que se tornou a salvação da sua ramificação da “Linhagem”, bem como sua mãe e... me tornou sua madrinha.–Certo, meu cérebro travou e acho que Hera notou isso muito bem, por que ficou em silêncio esperando minha resposta por vários minutos.
–COMO É QUE É?!?!?!–Foi provavelmente o grito mental mais alto da década.
–Eu sou sua madrinha, qual a novidade?–Sim, Hera teve a cara de pau de me perguntar isso.
–Eu... isso... como... mas não é... desde...–Sim, a descendente de Atena aqui perdeu a capacidade de formar um pensamento. –Deixa pra lá.–Consegui responder por fim.
–Bom, eu adoro ser sua madrinha e fiz tudo que um madrinha na minha posição deveria fazer, até infringi umas duas ou três vezes as regras, mas, até Zeus achou melhor fazer vista grossa, afinal ele te ama como a uma filha. O fato é que por mais estranho que pareça eu sempre estive ao seu lado e você não é fraca como pensa. Se fosse não teria se quer chegado perto de usar os poderes que usou para derrotar Liácon, por que acredite quando digo que você acessou pelo menos três poderes de deuses naquela luta e isso eu ainda estou cortando metade fora da conta, enquanto Lilliel mal usou dois. Sua prima usou na verdade apenas os poderes de Thanatos e Urano, você, menina, usou os poderes de Ares, Atena, Zeus, Hermes e até de Hefésto com aquela última arma, sem falar que vem usando os poderes de Afrodite como se fossem fáceis e creio que já ouviu de suas amigas naquele chalé que isso não é tão simples.–Com aquele final eu engoli em seco, realmente iria perder outra discussão e para piorar contra uma deusa que além de tudo era minha madrinha.
Que maravilha.
–Eu sinto muito por isso. Apenas achei que... é tudo tão estranho. Eu, Lilliel, Kaíros, minha mãe, meu pai, Urano, os deuses, a senhora, essa missão e esses malditos segredos. Eu queria saber que normalidade eu posso ter quando aparentemente apenas uma deusa está fora da minha vida.–Eu encarava agora Gray ir para a beira da estrada esperar um carro passar pedindo carona e Lilliel deitada com a cabeça na mochila olhando para o lado oposto.
–Lamento te desapontar com a última informação, mas, Ártemis não se apaixona pela “Linhagem” por que ela é apaixonada por Kaíros.–Tá legal, eu engasguei com meu ar, muito embora nem Lilliel ou Gray tenham notado. –Calma, vou te explicar. O fato de a minha filha ser apaixonada por Kaíros não muda o fato que ela não pretende quebrar seus votos, mas isso ainda pode mudar, afinal grande parte da recusa vem pela existência dessa vingança tão bem elaborada dele e do pai. Mas, de tempos em tempos uma caçadora ou um membro dos grupos de adoração que servem Ártemis acaba se casando com sua família, assim como sua avó Julia que é de uma longa linhagem de adoradores de Ártemis e tem alguns dons por conta disso, como ter visões do futuro, uma habilidade para fazer curativos com efeitos quase instantâneos e um jeito com os animais selvagens que só a própria deusa costuma ter.–Aquilo explicava por que normalmente os pégasos amavam eu e Gray, ou por que na vez que a Corsa de Bronze cruzou nosso caminho ela parou e fez um tipo de reverência.
Além das demais bizarrices, claro.
–Então eu tenho todos os deuses na minha lista de ancestrais, menos os que estão na lista da Lilliel. Que perfeito. Faltou só os primordiais.
–Quem disse que eles estão faltando? Desde de Erébus e Nix, até os mais novos incluindo Hemera, cada um está ligado a uma das ramificações da “Linhagem”, sem exceções. No final sempre existe uma ligação, seja ela uma benção, um casamento, um devoto, um filho ou nós mesmos, sempre estamos ligados a vocês de alguma forma criança, isso nunca mudou.
Respirei fundo e encarei meus companheiros.
–Entendi. Acho que no final, não tem jeito, por que se até você é minha madrinha, significa que nunca houve uma forma de se quer tentar fugir disso. Nem antes e nem agora.–Sim, essa era a verdade, não havia como se evitar aquilo afinal, assim como eu resolvi não evitar nosso caminho aquela manhã quando nos deparamos com Liácon.
Não havia uma formulá, um jeito de mudar aquilo, ao menos não as partes que já estavam definidas, apenas o resto da jogada.
–Agora que já entendeu tudo assim com uma conversa e até mesmo pelo fato que ao menos você já admitiu a sua própria ascendência me diga, você é mais fraca que Lilliel? Você tem tentado mudar o destino que viu em seus sonhos ou mesmo evitado assumir para si mesmo quem é? Eu gosto da Lilliel assim como de você, mas eu não posso falar com ela como faço agora por que não existe um meio, aquela menina está em negação constante maior que a sua. Lizandra, você nega para não sofrer, ela nega por puro medo, assim como faz com relação a Gray. Lilliel tem medo de tentar e errar, não de ser rejeitada, e da mesma forma ela tem medo de cometer erros na missão, mesmo que os erros precisem acontecer para a missão ser concluída. Afinal, foi um erro que causou a missão. Quem é realmente forte? Quem é realmente dependente, sendo que ela não pode nem sonhar em perder ninguém próximo e você continua tentado mesmo depois de perder a Kira? Lizadnra, eu te segurei nos meus braços no dia em que você chegou a Saint Louis e prometi a sua mãe que quando ela faltasse seria sua protetora, mas, a verdade é que nunca precisei de verdade te proteger, por que você, minha princesa, é a pessoa mais forte e auto-suficiente que conheço mesmo nos momentos de fraqueza, por que você brilha e atrai pessoas para o seu redor que podem te ajudar sem que eu precise fazer nada.–Naquele momento eu sentia uma pontada no peito, um calor forte se espalhar ali enquanto as lágrimas escorriam do meu rosto de forma abundante.
Nem achava que poderia chorar mais em um único dia, mas, ali estava eu chorando novamente como se a água fosse inesgotável em meus olhos.
–Obrigada Hera, muito obrigada.
A resposta veio em um sussurro um pouco embargado, como se a infalível Rainha dos Céus também chorasse:
–Não agradeça criança, apenas volte viva para sua casa e me de aquele sorriso que sempre estava no seu rosto quando saía com a sua mãe, por que eu sempre adorei aquele sorriso e faz anos que não vejo nem a sombra dele. Mas, apenas quando estiver a salvo.
Limpei as lágrimas do rosto um pouco e devo ter sorrido como uma criança arteira.
–Pode deixar, que eu vou voltar sim e vou dar o maior sorriso que a senhora já viu, para você e pra minha mãe.
–Assim espero.
E depois disso minha mente ficou vazia novamente, o que me fez duvidar por alguns instantes que aquela conversa havia acontecido, mas, eu não pude se quer duvidar direito, pois a pena de pavão na minha mão era uma clara mensagem: “Volte a salvo para a casa, eu estou te esperando”.
Então um grito animado me chamou a atenção e fez Lilliel quase pular ao meu lado achando que era um ataque, mas, apesar de tudo que pudesse parecer a voz de Gray aos gritos era de puro entusiasmo e eu soube disso logo que ele começou.
Respirei fundo e comecei a pegar minhas coisas para podermos ir pegar fosse lá a carona que meu irmão havia nos arrumado, o que para minha surpresa até que foi muito bom na verdade.
Na estrada um casal com os filhos estava em uma caminhonete 4x4 cabine dupla branca e Gray conseguiu que nos oferecessem a carroceria como bancos.
Foram os quinze minutos mais gratificantes e cruéis da viagem depois da minha perna ser empalada, por que eu quase desmaiei duas vezes nesse pequeno espaço de tempo.
O casal nos deixou do outro lado de Mesquite, na saída para Vegas em um hotel de beira de estrada que Gray disse conhecer de quando ainda morava com mãe antes do acampamento.
Quando entramos no quarto usando Gray como apoio de vida tanto eu como Lilli notamos que não estavamos lá muito bem, o que era recompensado com o fato que meu irmãozinho era um gênio de alguma forma bizarra, mais isso não era importante.
Enfim, Gray precisou fazer muita coisa aquele dia incluindo ajudar com que eu e Lilliel pudessemos tomar um banho antes de limpar a meleca que nossas pernas estavam. Por que minha perna conseguiu estar muito pior que a da Lilli no dia anterior quando chegamos ao hotel.
Só não me pergunte como ele não fez uma besteira enquanto ajudava Lilliel.
Primeiro que não sei se ele fez besteira ou não por que eu já tinha desmaiado e segundo que se ele não fez é por que é muito mais controlado do que imagina, ou mais idiota, o que na minha opinião é quase o mesmo que assinar o próprio atestado de burrice.
Ah, sim.
Claro que não contei a eles sobre minha conversa longa, demorada e familiar com Hera, afinal, aquilo poderia esperar os dois estarem mais inteiros e eu também.
Como falei, eu dormi assim que Gray terminou meu curativo e antes de ele ajudar Lilliel, felizmente eu não sonhei nada.
Continua...
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