The Olimpians – Livro 2: Bloodlines Time
37 Eu Deveria Saber Que Era Muita Sorte Para Pouco Semideus
Notas iniciais
Gray
–
Deu tudo errado tão rápido que ficou difícil acreditar que algo tinha dado certo nas últimas doze horas, que dirá nós últimos trinta minutos.
Cara, como três pessoas podem ser tão azaradas desse jeito?!
Em um minuto eu estava bem com a Lilliel, começando provocar a Liz (o que é muito bom, mas não me atrevo a dizer isso em voz alta), dei uma lição no ex da Lilli e estava esperando de verdade uma resposta para a minha provocação.
Então tudo explodiu, literalmente.
Quando saímos da lanchonete e encontramos aqueles caras, bom, eu me senti muito ferrado. Principalmente por que algo me dizia que os avisos que tinha recebido era para esse momento e isso significava que eu estava ferrado, assim como Lilli e Liz.
Quando tudo começou eu ainda estava hesitante e foi por isso que a primeira coisa que fiz foi me desfazer dos colares.
–Bom garotas, espero que não precisem disso, mas, é melhor que esteja com vocês. -Estendi um colar para cada, já sentindo a culpa por colocar aquilo nas suas mãos.
Mesmo assim elas pegaram os colares e guardaram em seus bolsos, para em seguida avançarem, cada uma a sua maneira, contra os monstros e eu começar a atirar flechas contra os monstros que no geral pareciam me ignorar.
O que mais me dava atenção era o areia negra com cara de caveira, aliás, espero que essas coisas tenham nomes mais decentes.
Atirei uma flecha na direção do olho do meu amigo de areia que rebateu a flecha na hora, devolvendo uma flecha de areia na minha direção, o que me fez rolar para o lado para não morrer.
A boa noticia é que tinha ganho a atenção real do cara de caveira.
A má noticia eu tinha ganho a atenção real do cara de caveira de verdade.
Peguei minha melhor reserva de flechas pronto para começar um jogo de gato e rato com ele quando notei cactos brotando e soltado algum tipo de gás muito familiar, segundos depois as garotas simplesmente voltaram para o meu lado e saquei uma flecha inflamável assim que o leve cheiro de gás se levantou de onde Lilliel saiu, atirando-a contra os monstros enquanto Lizandra aterrissava ao nosso lado.
Tudo ao redor deles explodiu com violência concentrada.
Para nossa tristeza quando a fumaça e areia baixaram percebemos que aquilo fez só o gigante de gelo sumir.
Lilli e Liz voltaram a investir contra os outros, meu amigo de areia resolveu que eu era mais interessante que elas e decidiu continuar de onde tinhamos parado.
Ele jogava suas flechas de areia na minha direção enquanto eu desviava e atirava minhas melhores flechas na sua direção, o que admito, era muito estranho, já que ele só se preocupava com as flechas que podiam acertar sua cara de caveira branca.
Para meu alivio pude ver de canto de olho Lilliel dar conta do cão mutante e daquele bicho chifrudo, enquanto Lizandra sobrecarregou cada circuito do robô vermelho, até fiquei feliz por estar conseguindo segurar o caveirudo arenoso.
Isso durou até o gigante de gelo e o cãozinho feio surgirem inteiros, foi quando eu soube que as coisas não terminariam bem naquele ritmo.
“-Mas você sabe o que fazer. Por que está hesitando agora?”–Aquela voz era de Melindra? “-Vamos, não é de morrer que você tem que ter medo e sim de não fazer tudo que pode, usar tudo que tem, até mesmo sua vida e liberdade para fazer o que precisa, salvar o que tem que ser salvo. As vezes a disposição em se sacrificar é mais importante que o resultado final.”
Engoli em seco entendendo o que ela queria dizer.
Para uma pessoa que não tinha tara por relacionamentos Melindra tinha o maldito dom de ler emoções.
Ou talvez ela tivesse algumas habilidades que eu considero muito desagradáveis em Teresa, Percy, Annabeth, Galatea e Rigardo. Por que mesmo conhecendo os Portões de Ojesed só de nome ou das meias conversas que peguei no acampamento, bom, eu não gosto do que ouvi.
Mesmo assim as palavras de Melindra mexeram com meus sentimentos.
Larguei o arco e a flecha em minhas mãos no chão, posicionei os braços e me lembrei de como era o poder do meu pai através do meu corpo: cada terminação nervosa, cada veia, cada gota de sangue e fio de cabelo, todos os poros do meu corpo e até mesmo minha alma tão quentes quando o próprio sol, brilhando com a intensidade de uma explosão solar.
Eu não precisava ver que meu corpo estava definitivamente ficando parecido com o de um deus assumindo sua verdadeira forma, ainda que não fosse tão forte ao ponto de matar quem olhasse eu sabia que aquilo podia matar quem me tocasse.
Então me lembrei o poder e minha tia, seu pequeno e quase efêmero brilho em meio as profundas trevas da noite guiando os perdidos, dando esperanças aos que não sabiam o que fazer e acalentando aqueles que não tinham para onde ir ou a quem recorrer. Aos poucos a intensidade do calor do poder de meu pai foi aplacada de uma forma terna, como se a Lua tivesse convencido o Sol a ser mais cuidadoso sem perder seu brilho.
A fúria abrasadora de Apolo e suave brilho acolhedor de Ártemis cresciam em meu corpo, começando uma disputa perigosa que foi redirecionada para os meus braços instantes depois de surgir procurando por seu ponto de saída: as placas de madeira em meus braços.
Abri os olhos e lá estavam o arco de Sol e a flecha da Lua.
Eu já podia sentir meu braço esquerdo ser queimado pelo poder do Sol e a luz da Lua forçar um brilho quase tão perigoso quando o do seu irmão.
Olhei para as garotas e gritei o mais alto que pude:
–Saiam!!!
Assim que se virou e viu aquilo Liz gritou tão alto quanto eu:
–Não faça isso!
Lilli sem entender nada agarrou Liz e submergiu nas sombras liberando o caminho para o meu ataque.
Eu apenas sussurrei, tentando me acalmar:
–Desculpa caveirudo, brincamos mais na próxima.
Soltei a flecha assim que Liz e Lilli apareceram do meu lado.
A flecha pegou na cara do caveirudo e em seguida tudo explodiu com uma força única, enquanto eu cai no chão gritando de dor sentindo meu braço esquerdo ser queimado pelo meu próprio poder herdado.
O poder queimando meu braço era tão forte e intenso que mesmo eu não consegui a olhar diretamente, apesar de tudo aquilo só durou pouco mais de um minuto, ainda que tenha reduzido meu braço a não muito mais que um pedaço carbonizado de carne e deixado uma dor muito maior que se Clarisse tivesse chutado minhas partes baixas com toda sua força e fúria.
Quando consegui olhar par meu braço esquerdo grunhi agoniado. O que não estava preto de tão queimado estava vermelho, o que me fazia pensar se ainda não estava em brasa, mesmo que na verdade fosse a pele exposta.
O direito para minha felicidade estava irritado como se tivesse passado o dia inteiro sob um sol de cinquenta graus muito queimado, mas até ai isso era fácil comparado ao outro.
Enquanto Liz e Lilliel olhavam meu braço reavaliei a situação do esquerdo, por um segundo quis gritar. Eu estava vendo um pedaço de osso na região do polegar!
Isso sem falar no resto da triste situação entre meu cotovelo e pulso que decidi ignorar, ou iria me irritar ainda mais sem descontar em quem não tinha nenhuma culpa.
–Seu idiota! -Liz gritou e me deu um tapa no braço bom. -Isso pode te matar. Você sabe disso a anos e que não deve usar isso. -Ela estendeu a mão pegando as placas de madeira intactas ao meu lado. -Não entendo o que se passa pela sua cabeça.
Forcei uma risada que realmente me fez sentir mais dor.
–Estou sacrificando a minha parte, afinal eu esperei que a situação fosse sem saída como me falaram e agora esta feito. -Estiquei meu braço bom e tirei uma pequena besta de repetição. -Dá pra continuar com o braço bom, então esqueçam essa besteira por hora.
–Besteira! Você pode perder o braço! -Eu realmente tenho que dizer que fiquei na dúvida do que mais me impressionou, esse grito da Lilliel que quase me deixou surdo, ou ela agarrar a gola da minha camiseta com tanta força.
Ainda que tudo que eu tenha feito foi rir.
–Espero ver você chorar de felicidade um dia, mas agora, não vai rolar. Olhe. -Apontei para onde os monstros estavam e ela pareceu entender o que eu queria dizer.
Três deles ainda estavam muito vivos e inteiros, na verdade mais inteiros do que quando a luta havia começado, ouso dizer. O cara feito de energia, o de armadura negra e o humano em roupas de trapo, ainda que eu não possa falar das roupas dele.
Olhei para Lilliel e Lizandra, ambas ainda em choque, embora não saiba dizer se pela nossa situação ou pelo meu braço. Só que agora nem elas e muito menos eu tinhamos tempo para choque ou para ficarmos paralisados, então estiquei meu braço direito ainda um pouco dormente até o bolso da calça de Lizi, que a principio me olhou assustada como se estivesse muito distraída.
Ela não falou nada, apenas colocou a mão no bolso e puxou o colar, na mesma hora eu pude ver seu corpo inteiro tremer de medo e não poderia nem mesmo culpa-la por isso, mas Liz entendeu o que deveria fazer. Soube disso por que mesmo tremendo ela segurava firme o colar ao chamar Lilliel.
–Lilli. -Conhecendo a Liz, eu podia sentir o medo quase sólido em sua voz.
Da mesma forma como o olhar de Lilliel transmitia o mesmo medo ao olhar o colar.
Ainda assim ambas estavam cientes do que fazer e colocaram os colares, que no mesmo instante pareceu surtir o efeito mais do que esperado.
As duas avançaram em direção os monstros Liz pegou o de armadura e Lilli o de energia, enquanto eu fiquei encarando tudo de longe sem conseguir mexer meu braço bom direito como um perfeito inútil.
Eu podia ver tudo.
O braço da Lilliel ser rechaçado ao tocar o monstro de energia enquanto o braço dele sumia por alguns instantes, o raio de Lizandra acertar sua arma e o monstro enquanto o impacto jogava ambos para longe.
As duas estavam tão cansadas que minha falta de condição em ajudar de verdade era quase uma piada e isso por que me falaram que da minha decisão dependia mais do que eu poderia imaginar.
Tentei ajudar com uma flecha de prata, que atirei a duras penas, ao notar que o inimigo de Liz era um lobisomem, mas aparentemente o nosso amigo é imune a prata, o que deve ser uma presente de Kaíros para ele. Pelo menos Liz pareceu apreciar a tentativa.
Na verdade eu não sei como elas viam suas próprias ações, mas era tudo tão rápido que quando vi as duas desferindo os golpes finais fiquei feliz por um instante.
Isso até ver que nossos amigos haviam deliberadamente preparado um golpe final para dar a caírem.
A mão perigosamente afiada do monstro de energia acertou a lateral do rosto de Lilliel e mesmo longe eu pude ver o sangue praticamente jorrar do lugar que ele acertará.
Já a espada do lobo de armadura acertou a cabeça de Lizandra com tanta força que a mesma foi jogada para trás devido o impacto contra o crânio.
As duas coisas aconteceram ao mesmo tempo, para meu total desespero, e pude ver as duas caírem desmaiadas sem o menor movimento a vários metros de onde eu estava.
–NÃO!!!
O grito de fúria e medo, que mais lembrava um rugido, para minha surpresa era meu.
Me levantei do chão usando até as forças que não tinha, por que para minha surpresa tinha usado mais do meu poder do que poderia ter imaginado, agarrei a minha bolsa de remédios e arrastei até onde Lilliel estava, ela era a mais próxima.
Só que assim que me aproximei, bom, a coisa não estava nada boa.
–Mas que merda... como eu... -A muito custo me ajoelhei ao lado dela para poder ver aquilo.
O rosto estava desfigurado e sujo de sangue. Aparentemente o último golpe não foi nada perfeito, por que de alguma forma o monstro de energia acertou a lateral do rosto da Lilli. O golpe rasgou a pele e os músculos da face, quebrando ainda um pedaço considerável do osso.
A marca tinha pelo menos doze centímetros de circunferência, felizmente o olho não tinha nenhum dano. O osso na base do nariz estava quebrado, assim como o quase cem por cento da ferida envolvendo o osso da testa, têmpora, maçã do rosto e a lateral da mesma.
Todo o tecido estava rasgado e as pequenas ligações de osso eram tão frágeis que poderiam quebrar a qualquer segundo.
Foi o som de passos que me fez virar assustado.
Ali ao meu lado estava o último dos guardas de Kaíros trazendo Liz em seus braços e, mesmo sem ter visto, notei que ela deveria ter uma ferida tão ruim quanto a de Lilliel, por que seu longo cabelo estava quase totalmente encharcado de sangue pingando abundante no chão de areia.
Me coloquei de pé a duros protestos do meu corpo e encarei o guarda que colocava Lizandra no chão revelando enfim um corte de lamina horizontal na testa dela que havia rompido não só a carne, mas o osso quase de uma têmpora a outra.
–Di Immortales! Mas o que é isso? -Nesse momento o guarda ficou de pé e me encarou. -O que vai fazer? Nos matar?
Mas ele apenas meneou negativamente antes de responder com uma voz quase infantil.
–Eu não luto. Digamos que sou o juiz e vocês passaram, meus irmãos não vão voltar, mas se aceita um conselho eu usaria o presente daquela "Coroa" agora e os anéis assim que elas começarem a sair do controle.
Ouvir aquela voz infantil, como de uma criança de oito ou sete anos, me assustou, mas não o bastante para não registrar com atenção as palavras dele.
O que foi bom, por que ele sumiu dois segundos depois sem me dar chances de perguntar nem o nome dele ou dos outros.
Cai de joelhos no chão devido o cansaço.
Aquilo era mau, eu estava ficando sem tempo e minha concentração já era nula.
Procurei desesperado na minha bolsa tudo que pude pensar até achar as ampolas de Teresa, pegue uma abri e derrubei todo o conteúdo dentro da rachadura na cabeça de Liz, depois peguei a outra e fiz o mesmo elas fendas do osso rachado de Lilli.
Eu não sabia por que, mas sabia que aquilo deveria ser usado assim e não fazendo elas engolirem ou injetando com uma agulha.
Respirei fundo e peguei uma garrafa de néctar e repeti o mesmo processo despejando metade do conteúdo nas feridas de cada uma.
Na verdade ali eu já não sabia o que estava fazendo ao certo, apenas via as coisas na minha mochila e começava a usa-las aplicando nas duas com meu braço bom, quase como se possuído. Foi dessa forma que consegui até mesmo aplicar antibióticos nelas antes de aplicar uma dose de antibióticos no meu braço ruim, para em seguida ter a ideia insana de acertar uma seringa com néctar em alguma veia tão próxima do meu coração que automaticamente pude senti-lo esquentar de uma forma muito dolorosa.
Eu tinha certeza que tinha assinado meu suicídio quando a sensação sumiu sem deixar nem rastro, o que nem se comparou quando notei que minha respiração até então acelerada e descompassada estava normal novamente.
Aquilo me acalmou, mas essa calma não durou mais do que alguns segundos quando as feridas de Lilliel e Lizandra começaram a reagir, mas não exatamente como eu queria.
A principio foi como das outras vezes com a pele, carne e até mesmo os ossos se emendando em um tipo de movimento de puxa e empurra, torce e retorce bizarro. Mesmo assim eu estava feliz por estar indo bem e isso mudou quando do nada a pele, músculos e ossos começaram a se mover em direções opostas rompendo ligações e expondo ainda mais as feridas de ambas.
Por um segundo o movimento se deteve e voltou ao normal, mas eu não tive tempo para alivio, por que pela segunda vez naquele dia Melindra simplesmente deu o ar da graça na minha cabeça.
“-Rápido, pegue os anéis e espere até que eu dê o sinal para coloca-los nos polegares delas.”–Eu poderia dizer que falei que ela estava louca, mas não fiz isso.
Na verdade tirei os anéis do bolso e deixei eles perto dos polegares de ambas, enquanto isso poderia ver de conto de olho que tanto as feridas de Liz como de Lilli estavam quase totalmente curadas no que dizia respeito aos ossos.
Então quando o tecido muscular começou a se regenerar um grito me chamou a atenção:
“-Agora.”–Melindra me avisou e coloquei os anéis as pressas nos polegares delas.
Imediatamente fiz o que ela mandou e, para a minha surpresa o processo se interrompeu no exato instante em que tudo pareceu começar a retroceder com o tecido muscular voltando a se rasgar.
Eu não fazia ideia do que tinha acontecido, mas aparentemente não precisaria perguntar.
“-As duas estão fora de controle. Os poderes da linhagem foram expostos além da capacidade física e mental de ambas. Os anéis servem para reter os poderes caso isso ocorra, o que na verdade era a intenção de Kaíros desde o começo ou vocês não poderiam terminar a missão a tempo, mas isso não vem ao caso agora.”–Melindra falou aquilo e ficou em silêncio por alguns segundos. “-Bom, eu tenho que dar o fora. Já interferi demais. Só que desejo boa sorte aos três, por que garanto que de certo ponto vão desejar terem morrido agora. Enfim, se divirtam.”–E assim ela deu no pé da minha cabeça como se não tivesse feito mais do que falar que as torradas estavam queimando.
Depois disso me lembro de muita pouca coisa por um certo tempo.
Só que senti meu corpo inteiro desabar contra o chão depois que consegui colocar todas as nossas coisas no lugar, o que foi muito mais rápido do que imaginei, por que ela pereciam ter voltado sozinhas para nossas mochilas, isso incluía as armas de Liz e Lilli em seus devidos disfarces como bracelete e pingente.
Passei vários minutos, que só depois descobri serem horas, ouvindo pessoas falarem coisas desconexas, ruídos altos e insuportáveis, gritos de ordem e outras coisas que nem de longe pareceram familiares mesmo dias depois, na hora então eu nem dei importância.
Quando minha consciência começou a voltar de verdade, bom, digamos que nada parecia melhor do que quando apaguei. Na verdade, de certo modo, estava pior.
O que pode parecer estranho, mas não é.
Acordei em um hospital, dentro de um centro cirúrgico com um monte de médicos prontos para simplesmente cortar meu braço queimado.
Dai você pergunta como eu acordei se eles tinham me dopado, bom, eles também, assim como os médicos que tiraram meu apêndice quando eu tinha oito anos e acordei no meio da cirurgia. Eu sou meio que imune a anestesias e analgésicos em geral, tenho sorte de antibióticos fazerem efeito.
Nossa, a briga na sala de cirurgia era tanta que ninguém pareceu notar quando eu pulei da cama, isso até eu derrubar uma bandeja de instrumentos.
–Calma a rapaz, precisamos cortar esse braço agora ou ele vai piorar. -Uma mulher de olhos castanhos tentou me segurar pelos ombros.
Tirei as mãos dela dos meus ombros e a encarei furioso.
–Se algum açougueiro vai cortar meu braço me fazendo sentir dor eu peço para a Clarisse, pelo menos sei que vai ser um golpe só e depois meus irmãos costuram, tratam e deixam o que sobrar novo. -Encarei todos os outros e lembrei de Liz e Lilli. -Minhas amigas. Minha irmã e minha namorada, onde elas estão?
Um dos médicos me encarou.
–Qual delas é qual?
–A morena é minha irmã, não de sangue, mas de coração. A alva é minha namorada... rolo... enfim, eu gosto dela e o resto é confusão. Cadê elas?
–A morena estava esperando avaliação do ortopedista sobre a perna e a alva deve estar em cirurgia agora na sala ao lado.
Certo.
Eu poderia ter ficado parado na minha, certo?
Só que não.
Eu pulei a mesa de cirurgia e passei correndo pela porta na direção da sala vizinha, enquanto meia dúzia de médicos na sala davam de cara uns nos outros tentando me segurar e seguir. Só o cara que me falou das duas ficou na dele e me seguiu depois dos outros já estarem no chão.
Assim que invadi a sala vizinha respirei aliviado, apesar de todos os médicos estarem na sala a cirurgia ainda estava longe de começar.
Peguei o suporte de soro que deveria estar ali para o final da cirurgia e segui até Lilliel falando alto e claro para que não restasse dúvida.
–O primeiro idiota que tentar encostar um bisturi na minha garota é um defunto embalado e enmortalhado. -Por um segundo precisei segurar o riso quando usei a piada da Clarisse sobre as mortalhas.
O médico que me seguiu se aproximou cuidadoso.
–Olha, eu não sei o que aconteceu, mas só queremos ajudar.
Olhei para Lilliel e puxei um pedaço do lençol expondo a ferida na perna, que para minha felicidade estava até um pouco melhor que na lanchonete.
–Esta vendo isso amigo. -Apontei para a ferida. -Estou tratando disso a dias com um remédio muito melhor que os seus e nem de longe ele terminou um processo que deveria levar no máximo um dia e meio. Se meus recursos sendo melhores que os seus não deram certo com algo pequeno se comparado com o do rosto dela, o que te leva a acreditar que eu vou deixar você tentar algo para ferrar tudo de vez.
–Eu posso te dopar novamente.
–Vai ter menos da metade do efeito anterior que pelos meus cálculos foi dez minutos, já que antes eu estava desmaiado pelo cansaço. -Ele não respondeu sobre me dopar, o que significa que eu tinha razão.
–Mas posso te nocautear.
Dei uma risada.
–Olha, eu posso ser proibido de fazer certas coisas por você ser mortal, mas estou disposto a correr certos riscos se isso provar que posso carbonizar seu braço mais do que o meu caso me nocauteie para depois me operar ou as minhas companheiras de viagem.
Ele não falou nada por uns dois minutos, até que seguiu para o telefone e discou um número, quando atenderam tudo que ouvi foi:
–Isso, esqueça qualquer cirurgia para ela no momento. Sim, temos uma pequena crise sobre o assunto. O rapaz é resistênte a anestesia e acho que conseguir um dialogo em que eu possa entender o que ele quer pode demorar um pouco. -Então houve uma pausa. -Não, isso pode ser importante para caso realmente operemos elas, ele parece saber mais sobre o quadro clinico delas do que nós podemos considerar seguro ignorar. Além disso... -Então outra pausa e o rosto do médico ficou lívido. -Como...? Isso... sim, absolutamente. Compreendo. Vou providenciar isso senhor.
Quando o homem desligou o telefone e se virou, eu pude jurar que sua pele morena estava branca, agora se era medo ou descrença não saberia dizer, pelo menos não naquele instante.
Então o médico gesticulou para o alto enquanto anunciava.
–Ordens superiores. As cirurgias deles estão canceladas até segunda ordem. Levem eles para um quarto principal do hospital e levem todos os pertences deles junto, o sobrinho do dono do hospital está no comando do caso deles de agora em diante.
Eu estava prestes a perguntar quem era esse novo responsável e por que ele estava interferindo, mas ai entraram na sala de cirurgia, ou melhor dizendo, uma pessoa entrou. Um cara da minha altura, cabelos negros como breu, usando jeans, tênis, camisa polo, jaqueta de couro, pele castanha no mesmo tom que a Lilli e olhos prata que por um segundo vacilaram para o cinza e depois para o branco.
–Mas quem...? -Minha pergunta morreu quando ele deu um passo na minha direção e apertou minha mão boa.
–Carlo. Carlo Ian Eucaristia, prazer em conhece-lo Gray Anthony Archer. Sou primo da Lizandra e da Lilliel. De verdade, te desejo muita sorte cara, vai precisar de cada gota que tem.
Engoli em seco.
–Prazer, eu meio que não sei o que dizer. -Sim, eu falei isso.
Carlo deu uma sonora gargalhada, depois pegou um lençol e cobriu Lilliel que já estava sem os soros para em seguida pega-la nos braços.
–Essa sinceridade foi boa. A proposito... -Carlo estendeu a mão, pegou um outro lençol cirúrgico e me entregou. -Não acho uma boa ideia que fique andando sem roupas por ai.
Essa foi uma das coisas que reparei quando ele falou e dedico essa em especial ao meu pai, por que uma pessoa normal notaria logo de cara que está sem cueca, mas eu não.
A outra coisa que reparei foi que o anel prata ainda estava no polegar de Lilliel, mas não só isso, ele havia se multiplicado e agora estava em todos os dedos das duas mãos.
–De onde saíram tantos anéis? Ou melhor, por que os médicos tiraram? -Olhei para Carlo curioso, por que ele deveria saber.
–Bom, eles não conseguiram. Só você e a pessoa que gosta da Liz, assim como ela dele podem remover isso. Até por que isso é uma trava de segurança por assim dizer. -Ele estava tão calmo ao me falar aquilo e tão descontraído que fiquei na dúvida de como agir diante daquela resposta, o que não passou despercebido. -As habilidades delas estão ativas agora e devido a tudo que aconteceu elas não tem nenhum controle disso, por isso poderiam facilmente transformar em pó qualquer humano. Apesar de admitir que se elas tivessem sido treinadas isso não precisaria acontecer desse jeito é fato que todo mundo na nossa família já surtou assim.
Pisquei duas vezes me perguntado se ele havia enlouquecido para falar daquele jeito.
–Como consegue falar isso tão calmo, o que os médicos vão pensar disso tudo?
–Nada. Você pode não ter notado, mas eu estou falando em grego antigo desde que te cumprimentei e as suas respostas também estão em grego. -Então ele encarou o médico e a falou, o idioma soando estranho e distante. -Abra a porta. -Aquilo era inglês, mas eu não conseguia reconhecer como meu idioma, foi quando Carlo se virou e acenou. -Vamos, já está tudo pronto para esperar as duas acordarem.
Sem precisar perguntar eu sabia que ele estava falando em grego, assim como a minha pergunta:
–Quanto tempo passou desde que desmaiei?
–Algumas horas, mas ainda é dia 17. Então relaxe, as duas vão demorar a acordar.
–Se você diz.
Carlo não falou nada, apenas deu uma risada e saiu do quarto, eu segui ele até um quarto grande com três camas.
Naquele momento a dor insuportável no meu braço que estava ignorando a todo o custo até então, o que não foi difícil até chegar no quarto, voltou com força dobrada, o que me fez cair de joelhos.
Carlo colocou Lilliel em uma das camas no mesmo momento que duas enfermeiras entraram para me ajudar, só que ele foi bem claro.
–Eu cuido dele, vocês duas vão deixar minhas primas o mais limpas o possível, certo? -Me surpreendi primeiro que a resposta em inglês não me soou distante e estranha, mas familiar. E segundo que apesar da pergunta não havia margem para que as moças contestassem ele. -Vamos lá garoto-Sol, esse braço tá uma porcaria.
Antes que eu pudesse reclamar ele me arrastou para o banheiro e me fez sentar enquanto mexia em uma maleta tirando frascos, ampolas, ataduras, linha e agulhas muito parecidas com as minhas.
–Estenda o braço para que eu possa decidir o que vou fazer nessa meleca que vocês conseguiram. -Acho que ele notou minha cara, por que deu uma longa gargalhada antes de segurar meu braço. -Relaxe, pode não parecer, mas eu sou médico e dentro da família sou especialista em reparar esse tipo de dano, embora normalmente possa usar de outros meios para fazer isso.
–Como?
–São as habilidades da minha família, mas no seu caso... -Ele deixou a frase em suspenso.
Eu pretendia perguntar o que ele queria dizer, mas minha atenção foi desviada para o fato de que Carlo havia começado a puxar um pedaço negro de pele queimada e no momento que fui protestar gritei de dor.
Primeiro que o maldito tinha puxado a pele com força, segundo que aquilo me assustou e muito, o que me fez gritar mesmo sem uma dor suficiente.
–Larga a mão de ser fresco. Isso já estava solto da carne, olha só. -Carlo apontou para eu braço e mostrou o ponto onde a pele enegrecida estava.
Para minha surpresa no lugar apesar da carne exposta havia uma camada nova e perfeita de músculos, como se a queimadura não tivesse chegado nem perto de atingir o lugar. Desviei o olhar para o pulso aonde lembrava vagamente de ter visto um pedaço de osso exposto, mas no lugar havia pouco mais que uma ferida de bolha que não parecia que iria deixar cicatriz.
–Como isso...?
–Quando as duas saíram do controle lá no deserto não era só a habilidade de retroceder os próprios machucados que elas usaram. O poder vazou e pegou no seu braço, por isso não posso interferir no processo, já que elas começaram elas é que precisam terminar. Mas, enfim, para resumir, se os médicos soubessem o que estavam vendo não teriam tido a ideia de cortar seu braço ou tentar mexer no rosto da Lilliel e na perna da Lizandra. Só que é pedir demais que mortais procurem por esse tipo de anormalidade.
Por mais que alguns minutos eu fiquei olhando Carlo mexer no meu braço e tirando vários pedaços de pele queimada já solta, passando unguentos, pasta médica de néctar, aplicando injeções humanas contra infecções variadas, costurando pequenos pontos aonde o processo de cura não foi o bastante ou o perigo de novas lesões era maior.
Ele trabalhava tão rápido e com tanta precisão que acabei perguntando:
–Tem certeza que não é filho de Apolo ou Hermes?
Carlo deu uma gargalhada antes de aplicar outra injeção e pegar as ataduras especiais que tinha separado.
–Olha, te garanto que não sou filho de nenhum deus ou deusa, mas neto já é outro assunto.
Pisquei duas vezes.
–Quem?
Ele me olhou irônico.
–Minha mãe é filha de Apolo. Desde que a “Linhagem” da Lizandra quase desapareceu os filhos de deuses tem sido atraídos aos enxames pelo sangue da minha família. É difícil encontrar um dos meus primos que não seja neto ou bisneto de deuses, mas a Lilliel é a única filha até o momento e como os meus tios ou tias são todos casados resta somente meus primos ou eu.
–Quantos deuses? Não precisa ser exato.
–Contando com a tia Erza são cinco irmãos, três mulheres e dois homens. Cada um tem pelo menos três filhos, a exceção é a tia Erza até agora, mas ainda temos esperanças. Em um total somos dezessete primos contando com a Lilliel. Claro que normalmente é seguro tirar dessa lista de possíveis pares de deuses pelo menos Ashley e Lear, mas eu nem garanto isso.
–Quem?
–Dois dos meus primos que jogam com regras alternativas.
–Ah. Eles são homossexuais.
Carlo me encarou em dúvida, então eu respondi aquilo que pareceu mais óbvio:
–No acampamento tem dois semi-deuses, Halley e Reynald, que são homossexuais, então eu meio que estou acostumado com esse tipo de classificação por parte deles mesmos.
Carlo deu uma risada.
–Bom, eles são ótimas pessoas se quer saber e eu confiaria minha vida a qualquer um deles sem a menor dúvida, mas... eu sinto pena deles muitas vezes. -Carlo ainda estava concentrado no meu braço, mas algo na voz dele havia ganhado uma certa tristeza. -Os dois estão tentando encontrar alguém, mas parece que nunca dá certo e cada tentativa eles parecem mais distantes, até deprimidos. A maior parte das pessoas, mesmo entre alguns homossexuais, não entende que algumas pessoas não querem ficar se aventurando. Na minha família amor é para toda a vida.
–Por isso sua tia Erza nunca se casou com um mortal. -Eu não precisava que ele confirmasse, já havia entendido isso quando vi a tia Kira e Hermes.
Havia entendido isso quando conversei com Kaíros e Melindra.
–Sim. Alguns de nós tentam, casam com mortais e lutam para ama-los ao menos um décimo do que amaram o deus, mas normalmente morrem segurando a mão dele. Pra nós, para sempre é com apenas uma pessoa e pela eternidade, mesmo que demore anos. -A voz de Carlo era quase rouca e carregada.
–Você ainda não achou essa pessoa, assim como seus primos, todos eles. Exceto a Lilliel e a Lizandra.
Ele deu uma risada triste no mesmo momento que terminou de enfaixar meu braço e colocar o esparadrapo, depois me encarou com os mesmos olhos perdidos de Melindra e Kaíros ao falarem de quem amavam, mas não podiam ter ainda.
–Não, eu ainda não encontrei. Espero em breve ter a sorte da Lilliel. Sabe, ela se perdeu um pouco ao se envolver com aquele moleque a alguns anos, mas pensando bem, a culpa é da família como um todo. Nós que crescemos em bando sempre juntos todos os dias bem dizer, sabendo quem somos e como nossa família funciona sabemos ouvir, detectar mentiras e ligações especiais. Só que nós deixamos Lilliel a própria sorte e isso deu a chance de ela se ferir daquele jeito, por que todos poderiamos ter evitado aquilo se contassemos a verdade da nossa natureza. -Carlo começou a colocar tudo o material usado no cesto de metal e depois estalando o dedo uma chama voou para o cesto queimando tudo sem nenhuma fumaça.
–Não sei se isso é sua culpa ou dos seus outros parentes. Eu cometi um erro parecido com o da Lilliel e todos os meus irmãos, amigos e até a Liz me alertaram, mais mesmo assim, com todos os sinais resolvi não ouvir e, claro, que me machuquei. -Tentei amenizar aquele papo depressivo, mas não deu tão certo.
–Só que você não via por que a pessoa se mostrava de um jeito. Na nossa família se você pode usar seus dons mesmo que alguém minta na sua frente com toda a convicção do mundo, você ainda vai saber que é mentira. Mas como a Lilli estava bloqueada e nós nos afastamos dela era impossível tentar alertar.
Acabei entendendo que apesar do que Lilliel ou Lizandra pensassem sobre seus parentes, eles eram como os deuses que apesar de querer sair em socorro delas ao menor sinal de perigo ou dor estavam, de alguma forma, tentando não interferir mais do que o necessário nas vidas delas e, com certa frequência, se arrependiam muito disso.
Ao menos foi o que pude notar pela minha conversa com Ártemis e Melindra, com Kaíros e quando ele me falou de Hera ser madrinha da Liz, das palavras tortas do meu pai, dos enigmas maliciosos de Teresa ou mesmo da reação frustrada de Annabeth.
Ouvindo Carlo ali, naquele momento, tudo parecia se encaixar dessa forma, por mais que isso pudesse parecer estranho ou confuso para um semideus normal e de alguma forma eu entendi.
Assim como finalmente tinha decidido que Lilliel não poderia me afastar novamente.
Dessa vez a decisão era minha e não deixaria um argumento dela me barrar, nem que precisasse amarra-la.
Ao menos essa foi a minha ideia até ela acordar e eu ver o tamanho da confusão que a luta contra os guardas de Kaíros me arrumou.
Continua...
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