The New Continent
42 Capítulo 41 - Estopim
Will / Sarah
17 Fevereiro, 2200, 05:41.
O céu escuro era iluminado pelo brilho das constelações. A brisa fresca da madrugada faziam as árvores envolta de nós sacolejarem lentamente como numa sinfonia. E, assim, estávamos Elya e eu sobre uma gigantesca colina que ficava em volta de uma parte da cidade, deitados no gramado olhando as estrelas. Aquele momento me fizera reviver parte de uma boa lembrança que não precisava ser constatada em palavras mas apenas vivida em silêncio. Estar naquele lugar, naquele momento, com aquela companhia e sensação já era algo a ser apreciado, pois a vida tem tanta pressa, mas só a calma em meu peito pudera me trazer paz.
Por mais que estivesse gostando de estar vivendo a tranquilidade daquela situação a cisma com o fato de não saber o por que de estarmos ali me angustiava aos poucos.
—Por que você me trouxe aqui? – Perguntei desviando os olhos das estrelas e olhando agora seu rosto coberto por sardas e cabelo de chamas.
— Eu só queria apreciar essa visão do céu por mais uma vez. – A menina respondeu serena com um sorriso no rosto, no entanto com uma lágrima no olhar e uma angustia que continha guardada no peito.
— O que você quer dizer com só mais uma vez? Você não está querendo dizer o que eu estou pensando...
— Sim, Will. Eu estou deixando a cidade amanhã de manhã.
— Do que você está falando? Por que a pressa repentina? O que aconteceu? – Indaguei rapidamente quase que balbuciando as palavras.
— O que todos da cidade estão cansados de saber, que meu pai é um traidor. Minha mãe não aguenta mais as traições dele, e ela já está sofrendo demais com isso, e então, o melhor a fazer e deixá-lo aqui para que ambos possam seguir em frente com as nossas vidas. Portanto, amanhã de manhã eu já estarei longe daqui e longe daquele homem que desgraçou a vida da minha mãe. – A menina dizia tentando conter os sentimentos para se mostrar forte.
— E para onde vocês pretendem ir? – Perguntei relutante.
— Eu não sei, talvez nós iremos para a casa dos meus avós em outro estado ou ficaremos em algum hotel perto da fronteira longe daqui até as coisas se ajeitarem.
— E você já sabe quando você pretende voltar e visitar seu pai?
— Eu não vou voltar Will, eu não queria que as coisas acontecessem dessa maneira, mas isto aqui está sendo um adeus. Essa cidade, esse lugar e essa pessoas não farão mais parte da minha vida.
— Sua mãe não pode proibir seu pai de ter contato com você, isso é loucura.
— Você ainda não entendeu Will, eu não quero mais olhar para aquele homem, ele nunca foi um marido ou um pai de verdade.
— Parece que não estamos falando do mesmo cara, ele pode ter muitos defeitos e realmente ser o errado traidor, mas ele te ama demais e eu tenho certeza que perdê-la será um fim muito trágico para ele.
— Ele não tem mais chance, ele desgraçou toda a minha família, e você talvez não entenda isso.
— Não, talvez você não queira enxergar que por baixo de todo monstro que você criou existe alguém com sentimentos que está de braços abertos para você. Ele errou demais com a sua mãe e eu concordo com você em apoia-lá nesse momento e estar do lado dela nessa situação, mas esse monstro está relacionado ao casamento deles dois, isso não tem nada haver com a sua relação de pai e filha com ele, nós dois sabemos que apesar das circunstâncias ele sempre foi um bom pai. Você precisa perdoá-lo!
— Como eu vou perdoá-lo por isso, ele acabou com a vida dela.
— Eu não disse que seria fácil. Vamos lá, converse com ele antes de ir, eu sei que perdoar assim de cara é muito difícil, mas fugir dos seus problemas não lhe trará nada mais do que possíveis frustrações.
— Mas como eu posso seguir o seu exemplo se... – Nesse momento cabelo de Elya começou a clarear e seu rosto começou a mudar de conformação. — Você não consegue perdoar a si mesmo e nem aos seus próprios companheiros. – No final da transformação era Loren que estava ao meu lado falando comigo.
Nesse momento, eu houvera ficado completamente confuso, o som do ambiente ficou surdo enquanto os olhos da loira me olhavam fixos e uma voz gritando meu nome me chamava, porém o som não vinha dos seus lábios. Conforme o tempo foi passando os sons foram ficando mais intensos e as imagens cada vez mais se dissipavam até que por fim eu acordei com a voz de Ralf me chamando em frente ao meu iglu.
— O que foi? Por que está gritando? – Perguntei ainda sonolento.
— Temos um problema, Xiantong quer falar com você agora! – Eu não fazia a menor ideia sobre o assunto a ser tratado, por fim, eu levantei do monte de palhas e segui Ralf até a uma tenda enorme parecendo um celeiro. Cory, Kim, Xiantong e alguns de seus guardas esperavam em frente a tenda.
— Que bom, ele finalmente chegou. Por um acaso você sabe me dizer que merda é essa que aconteceu aqui. – Xiantong me olhava furioso.
— Do que você está falando? – Perguntei confuso.
— Ele ainda não lhe contou?! – Ele virou o olhar para Ralf, enquanto ele correspondeu com uma expressão de negação. – Pois bem, então, veja com os seus próprios olhos. – Ele abriu o tecido que cobria a entrada da tenda e, então, eu consegui avistar a gravidade de tanto ódio.
— O que aconteceu aqui? – Perguntei ainda descrente e espantado.
— Você não está vendo?! Fizeram uma chacina aqui, todos esses animais estão mortos. – Havia sangue para todos os lados e os animais estavam dilacerados em pedaços soltos e jogados pelo chão.
— Como isso foi acontecer? Quem fez isso? – Perguntei espantado com tanto horror.
— Se eu soubesse eu já teria o matado com as minhas próprias mãos. A única coisa que eu sei é que esses dois estavam na guarda quando isso aconteceu. – Disse ele apontando para Cory e Kim.
— Eu já falei que nós não vimos nada. Não éramos só nós dois na vigia, eles também estavam lá e não viram nada. – Disse Cory apontando para os dois outros guardas.
— Isso é verdade nós não conseguimos ver nem ouvir nada, quem quiser que tenha feito isso foi alguém muito esperto e sigiloso.
— E vocês já investigaram as cabanas das pessoas próximas aqui? – Disse Xiantong inconformado com a situação.
— Todos eles alegaram não ter visto ou ouvido nada na hora do ocorrido, parece que todos estavam dormindo. – Respondeu o outro guarda.
— Isso é impossível, como alguém entra aqui mata todos os animais e consegue fugir assim. – Gritou o líder de raiva.
— Talvez ele não tenha fugido, por mais cauteloso que ele possa ser, a única certeza que temos é que ele não entrou por aqueles portões durante a noite, é possível que ele ainda esteja aqui ou pior que seja alguém que convive entre nós. – Disse Cory.
— Isso pode explicar o fato da sua omissão, ninguém desconfiaria de alguém que já está aqui dentro. – Acrescentou Ralf.
— A questão é, por que alguém faria uma coisa dessas e logo com os animais. Eu não sei ao certo o motivo, mas parece que quem quer que tenha feito isso quer nos atrasar. – Deduzi.
— Isso não vai acontecer, patrulhem o local, se esse vagabundo ainda estiver aqui cassem ele. Estão liberados para entrar em tenda por tenda interrogando todo mundo, usem a desculpa sobre o recolhimento dos relógios, pois nós vamos descobrir quem fez isso. – Os guardas sem exitarem foram recrutar os demais e acataram a ordem imediatamente. – Você! – Disse apontando para mim. – Eu espero que cuide dos seus, eles não estão isentos disso. – O líder, então, saiu em direção a cabana.
Assim que ele partiu eu entrei na tenda dos animais, a sujeira e a carnificina dos restos orgânicos provocavam um intenso mau odor, porém eu precisava ver aquilo mais de perto. Naquele momento eu só conseguia pensar em quão demorado seria chegar no helicóptero agora sem o transporte dos animais. Eu vasculhei, então, todo o lugar a procura de alguma pista, porém quem quer que tenha feito aquilo, era alguém muito engenhoso. Eu continuei a averiguar o local até que acidentalmente eu chutei um objeto, aquilo era um dos ossos de algum animal, eu abaixei-me para ver de perto e passei minha sobre o osso caído no chão.
Nesse exato momento, uma sequencia de cenas passaram a sobre a minha cabeça, todas elas sobre a morte de cada animal naquele lugar. Parece que uma série de memórias invadiam o meu cérebro e eu era sobrecarregado de impulsos elétricos, naquele instante minha mente começou a fazer uma série de construções lógicas. Era como se minha cabeça fosse explodir, eu larguei o osso e tudo sumiu de repente, e por fim, eu estava ofegante como se eu estivesse feito algum exercício físico. – Agora tudo faz sentido.
— O que está acontecendo? – Perguntou Ralf assustado ao entrar na tenda. – Por que você está gritando? – Eu não fazia a menor ideia do que havia acontecido comigo, eu acho que eu havia ficado inconsciente por alguns segundos.
— Não é nada eu acho que eu acabei me cortando com alguma coisa. Vai ficar tudo bem, eu preciso que você reúna todo o pessoal aqui e os avise sobre o ocorrido antes que eles sejam pegos de surpresa pelos homens de Xiantong.
— Tudo bem, mas você tem certeza de que você está bem? Deixa eu ver isso. – Ralf se aproximava.
— Não, tudo bem, não precisa. Faça logo o que eu te pedi. – Ordenei.
O moreno deixou a tenda, enquanto eu fiquei ainda paralisado no chão. – Aquilo não podia ser real. – Aos poucos eu levantei-me do chão e fui até o meu iglu, antes de entrar eu averiguei se havia alguém perto e, por fim, entrei. Assim que eu adentrei no iglu eu tirei meu casaco e a conclusão era inevitável. Minha blusa estava completamente manchada de sangue. Desesperado eu cai sentado no chão. – Eu ainda não consigo acreditar. — Aquelas memórias ao tocar no osso eram reais, e não havia dúvidas, eu havia matado todos aqueles animais. – Por que isso está acontecendo comigo?
No mesmo instante eu lembrei-me da cabeça da menina morta de alguns dias atrás. – Eu não entendo, por que é que eu estou tendo esses surtos enquanto eu durmo? – Eu fiquei estático por um tempo tentando administrar meus pensamentos até que, então, decidi tirar a camisa suja de sangue e rasga-la. – Eu preciso me livrar disso, eu não posso deixar que isso me atrapalhe agora. – Eu terminei de rasgar a camisa e coloquei o casaco por cima. – Eu preciso de uma blusa nova. – Eu sai dali e fui até a grande tenda de Xiantong já havia uma dispensa de alimentos e utensílios, talvez eu encontrasse um blusa limpa. Eu entrei na casa em sigilo, passando pelo hall principal, a sala na qual nós havíamos comido uma refeição a alguns dias atrás e, por fim, chegando na dispensa.
Havia uma série de caixas e mantimentos lá, eu tentei vasculhar todo o lugar cautelosamente , sem fazer qualquer barulho até encontrar uma caixa com roupas. Eu puxei a primeira blusa que tinha e guardei dentro do meu casaco, quando e me virei para sair dali, só havia uma sombra na entrada.
— O que você está fazendo aí? — Perguntou Selly. A menina trabalhava com as refeições na casa e eu havia completamente esquecido disso.
— Nada, eu só estava procurando umas frutas por aqui. – Tentei disfarçar tal apreensão, o coração batia rápido e as minhas pupilas estavam completamente dilatadas.
— Nós temos frutas na sala de refeição. – Afirmou a garota.
— Eu sei disso, mas eu estava atrás de uma fruta específica que eu não encontrei aqui.
— Bom, todos os estoques que temos ai você pode encontrar lá, seja lá que fruta é essa que você queira, não vai encontra-la aí.
— Tudo bem, eu já estava quase desistindo mesmo, obrigado. – Com um olhar desconfiado a garota me observou sair do cômodo e o trancou logo em seguida amarrando com algumas cordas.
Deixei a tenda de Xiantong e fui direto ao meu iglu, mais uma vez averiguei a movimentação de pessoas e em seguida entrei, troquei de blusa e coloquei mais uma vez o casaco. Depois de rasgar a camisa eu fui até um canto da vila e enterrei na neve os pedaços de panos. – Aquilo seria o suficiente para me livrar de qualquer suspeita. – Em seguida, eu fui novamente até a entrada da tenda dos animais e todos me esperavam de pé logo à frente.
— Como vocês já devem saber, hoje pela manhã descobrimos um incidente aos animais da vila e por mais que indiretamente isso causou um atraso nos nossos planos. Primeiro de tudo eu preciso recolher informações de vocês. Por um acaso alguém de vocês sabe alguma coisa sobre o incidente? – Perguntei mesmo sabendo sobre tudo aquilo.
— Eu sei. – Disse Tina.
Naquele momento minhas mãos pareceram congelar e eu fiquei completamente em pânico. — Será que ele viu alguma coisa? – Eu perguntava a mim mesmo temendo qualquer palavra que ela fosse dizer.
— Então diga. – Insistiu Ralf.
— Bom ontem enquanto eu e Loren visitávamos as casas eu pude notar que existe uma abertura na montanha no fim do vale atrás da cabana principal. Eu descobri isso por meio de algumas pegadas desconexas que levavam até lá por meio da neve, a passagem é completamente secreta e fica atrás de um arbusto congelado. Talvez quem tenha feito isso possa ter entrado e saído por ali.– Por um momento o fato de não ter tido qualquer menção sobre mim já houvera me aliviado.
— Isso é uma pista interessante, mas será que eles já não saibam desta passagem? – Questionou Cory.
— Eu acho bem improvável, mas só resta perguntar.
— Alguém tem mais alguma coisa para falar?... Nofre e Jihan, vocês que trabalharam na tenda não sabem de nada? – Os garotos simplesmente negaram qualquer informação sobre o assunto. – Tudo bem, estão dispensados. – As pessoas começavam a se dispersar até que eu fui até Loren e a segurei pelo braço. – Espera, eu quero conversar a sós com você. – Nesse exato segundo Tina entrou na frente e tirou a minha mão dos seus braços.
— Não, ela não vai conversar com você. – A morena me encarava séria.
— Não, tudo bem, Tina não tem problema. – Falou Loren.
— Você tem certeza? – Elas olhavam no fundo dos olhos uma da outra. A loira simplesmente assentiu com a cabeça. – Tudo bem, eu já estou indo. – Eu e a loira, por fim, nos distanciamos do resto do grupo e fomos para um lugar vazio.
— Você está com medo de mim. – Perguntei considerando a atitude de Tina.
— Por que?! Eu deveria ter? – A loira retrucou.
— Não, eu acho que não. – Dei um sorriso tentando descontrair o clima inicial da conversa.
— Bom, então, é isso que você queria saber ou você ainda vai dizer mais alguma coisa?
— Não, na verdade eu só vim aqui me desculpar por tudo que eu posso ter causado a você, eu estava muito transtornado com tudo o que aconteceu e você foi uma das pessoas que eu não queria machucar.
— Tudo bem, Will, eu te perdoou... Você foi a maior vitima disso tudo.
— Ah que bom que você me entende, eu não aguentava mais não ter nenhum aliado aqui. – Disse aliviado.
— Aliado?! Não é porque eu te perdoei que eu concordo com tudo o que você faz.
— O que?! – Indaguei confuso.
— O peso da culpa dói muito mais do que um tapa no rosto, eu espero que você possa entender isso o quanto antes. – A menina simplesmente me olhou mais uma vez com um olhar depreciativo – Você vai dizer mais alguma coisa? – Sem reação eu não conseguia pensar nas palavras, sendo assim, ela me olhou mais uma vez e se distancio para longe dali.
Talvez tenha sido arrogância minha me precipitar em restabelecer aquela relação, no entanto eu não podia ficar me preocupando com aquilo agora. Sendo assim, em seguida, eu fui até a cabana central do líder e subi as escada até o seu cômodo, no corredor, antes de entrar eu pude escutar a conversa de Xiantong com alguns de seus homens:
— O Felix e Max estão fazendo as revisões finais, mas parece que ninguém sabe nada sobre o que aconteceu ontem a noite. – Disse uma voz masculina de dentro do cômodo.
— Como assim ninguém sabe de nada, impossível esse cara ter fugido assim. –Disse o líder irritado. – Eu quero que vocês fiquem de olho em todos aqui, nós precisamos achar o culpado.
— Eu acho que eu posso ajudar. – interrompi entrando no cômodo, os dois homens, então, olharam para mim desconfiados.
— Como assim? Você sabe de alguma coisa? – Perguntou Xiantong curioso.
— Por um acaso vocês sabem que existe uma passagem secreta nas montanhas no fim do vale? – Perguntei.
— Passagem? – Indagou o líder. – Do que você está falando?
— Eu conversei com o meu pessoal e uma de nós notificou a existência de uma passagem secreta e de pegadas que levavam até lá, é uma pista muito suspeita. Quem quer que seja pode ter entrado e saído por ali.
— Isso explicaria muita coisa, eu quero vasculhar isso de perto. – O líder levantou e foi até uma sacola de pano. – Tome, aqui estão todos os relógios que conseguimos reunir. Vocês precisam continuar o trabalho o mais rápido possível, ainda temos um acordo.
Eu assenti com a cabeça e concordei em finalizar de uma vez o acordo. Sendo assim, eu fui até Tina e pedi para que ela mostrasse o lugar a Xiantong e seus homens e depois disso me encontrei com Ralf no portão da vila para seguirmos viagem em direção ao helicóptero para etapa final.
...
A lascas de gelo saltavam como faíscas beirando aos estilhaços, meus pés se alinhavam e se arrastavam com firmeza e leveza ao mesmo tempo. Meu corpo inteiro emanava uma fonte de serenidade e paz, de modo que, aquilo era o suficiente para me manter longe do frio e dos problemas. Meus pés pulavam, rodopiavam e tocavam o chão como se todo o ambiente estivesse na mesma frequência e, assim, eu dançava com minh'alma no gelo naquela terra vazia.
—Um, dois, três, quatro... Um, dois, três, quatro... Um, dois, três, quatro...– Eu repetia a mesma sequencia de acordo com meus movimentos.
Eu começava com os pés cruzados, esticava-os em direções oposta, saltava com o corpo girando no ar e pousava com um dos pés na delicadeza de um cisne. Eu repetia esses mesmo passos repetidas vezes em escalas cada vez mais rápida, no entanto, todo detalhe era imprescindível à não alcançar a perfeição. Inconformada com meus próprios erros eu continuava seguindo a mesma sequencia até tudo estar impecável.
Aquela já era a trigésima sétima tentativa e eu não conseguia enxergar quaisquer evolução. – Eu preciso me arriscar mais. – Antes de começar a próxima tentativa eu fechei os olhos, respirei fundo e busquei o mais intimo do meu espirito. Eu abri os olhos focados enxerguei o horizonte e inicie os movimentos. Como um mecanismo automático e perfeitamente sincronizado eu fazia os movimentos sem o menor esforço. Quando eu iria finalizar o passo final do pouso meu pé escorregou no gelo e eu cai de joelhos no vidro congelado.
— Eu não vou errar, eu não vou errar de novo. – Eu dizia as palavras alto para mim mesma. – Mais uma vez vamos lá, você consegue.
Eu me reergui mais uma vez e dessa vez mais focada do que todas as outras. Novamente eu fechei os olhos e respirei fundo, em seguida eu corri o mais rápido que pude e quando encontrei a oportunidade perfeita eu executei os movimentos.
— Um... Dois... Três... Quatro... – No final de toda aquela sequencia, meu coração batia acelerado, minha respiração ofegante e meu corpo inteiro estava completamente incendiado de calor. – Eu consegui. – Sussurrei para mim mesma. – Eu consegui! – Eu gritei o mais alto que eu conseguia com uma lágrima escorrendo em um dos olhos.
Eu cai de joelhos na neve como uma vitoriosa e orgulhosa de mim mesma. Depois de dois anos executando os mesmos passos, finalmente eu havia me superado. Completamente inundada de felicidade eu descansei um pouco ainda desacreditada de todo aquele momento, e por fim, eu repeti o movimento mais uma vez alcançando os meus padrões de perfeição. Eu continue mais uma dezena de vezes até compreender tal capacidade e quanto mais eu fazia mais fácil parecia fluir os movimentos. Eu não consegui conter tal felicidade, eu poderia passar o dia todo revivendo aqueles segundos,porém uma voz me despertou de toda minha fantasia.
— O que você está fazendo ai sozinha? – Eu olhei para trás assustada e avistei Ralf e Will me olhando confusos.
— Eu só vim dar uma volta – Respondi um pouco desconcertada.
— Conseguimos as bateria e agora estamos indo para o helicóptero, você vem? – Perguntou Will.
— Sim, eu já estava pensando em voltar mesmo, aqui fora está um pouco frio.
Eu me juntei aos meninos e seguimos em direção ao helicóptero, chegando lá Frank parecia inquieto mexendo em toda mecânica novamente do helicóptero.
— O que você está fazendo? Algum problema? – Perguntei receosa.
— Eu estava conferindo os motores e eu descobri que a bateria de ignição está ruim, e isso significa que não da para subir ao ar com o helicóptero mesmo que colocássemos a bateria dos relógios ela só serviria para manter o motor de transmissão constante, mas ela não tem como fazer a força inicial para ligar todo aparato para fazer a força necessária para ele subir.
— E você tem alguma outra solução para esse problema? – Perguntou Ralf.
— Se eu estivesse uma solução eu não falaria que tínhamos um problema. – Resmungou Frank – Mas eu vou pensar numa saída isso não pode ser tão difícil.
— Tudo bem, aqui estão as baterias. – Disse Will entregando um pequeno saco de pano para Frank. – Se precisar de quaisquer ajuda pode falar, nós iremos ficara aqui até encontrarmos uma solução.
— Eu vou instalar as baterias por enquanto e eu espero ter alguma ideia, enquanto isso vocês poderiam arranjar algo para comer eu estou faminto. – Disse Frank.
— Não vai ser necessário – A porta do helicóptero se abriu e Victor apareceu com um punhado de peixes. — A comida está quase pronta. Eu só preciso de mais alguns minutinhos.
Os meninos, então, armaram uma fogueira e cozinhavam um caldo com o peixe e alguns frutos. O cheiro parecia delicioso, no entanto eu não sentia nenhuma fome, pois ainda estava anestesiada com a emoção que eu continha dentro de mim. A refeição finalmente ficou pronto e todos se reunirão para comer. Após o fim do banquete Will solicitou que o ajudasse a projetar o transportador do helicóptero sobre os pés da nave, enquanto Frank pensava ainda em como tirar o helicóptero do chão. Não foi uma tarefa tão simples, mas aos poucos sobre cada barra de ferro de suspensão nós conseguíamos colocar o transportador embaixo do helicóptero, amarramos cordas nas suas hastes de aço laterais e tentamos ao máximo espalhar a neve para fazer o deslocamento dele posteriormente. Todo o trabalho durou cerca de algumas horas e isso havia nos deixado exaustos. Por fim, sentamos novamente em frente a fogueira para descansar.
— Sarah eu gostaria que você me ajudasse com uma coisa. – Disse Victor de repente.
— Eu? – Indaguei surpresa. O menino foi até dentro do helicóptero e trouxe nas mãos dois ramos de flores.
— O que você acha? Qual você prefere a amarela ou a vermelha? É que eu já não vejo a Anne desde que ela acordou e eu gostaria de fazer uma surpresa.
— Em que era você vive? Flores é um presente tão medieval que fazia as mulheres serem comparadas a seres frágeis e inocentes. Olha bem ao seu redor, olha a situação em que estamos vivendo, você acha mesmo que ela vai gostar de receber uma flor.
— Bom, eu achei que poderia ser um bom presente, eu não sabia que...
— Não, isso não é um bom presente, mulheres apreciam atitudes fortes do jeito que elas são. – Disse com altivez.
— Tudo bem, esquece as flores eu vou pensar em outra coisa. – O menino decepcionado entrou novamente no helicóptero.
— Will você pode me ajudar aqui – Gritou Frank de dentro do helicóptero. Sendo assim, o ruivo foi até ele.
— O que você está fazendo? – Perguntou Ralf nos pequenos segundos assim que os outros entraram no helicóptero.
— Como assim? Do que você está falando? – Perguntei confusa. O menino , então, arrastou-me para um lugar um pouco mais afastado e começou a falar.
— Por que você foi tão rude com ele? Estava na cara que ele estava todo cheio de esperanças e você tirou qualquer ideia que ele tivesse.
— Por que está me questionando isso, eu só falei o que eu penso sobre as flores.
— Não, você não falou o que você pensa, você só destruiu as esperanças dele, você sabe muito bem que ela adoraria o presente, todas as mulheres gostam de flores.
— Olha só não venha com essa barba falar por nós mulheres, você não sabe do que nós queremos. – Disse irritada.
— Eu posso não saber o que todas as mulheres querem, mas eu sei muito bem o que você quer. Para de estragar a relação dos dois, se você está com ciúme corra atrás daquilo que você quer, ou vai ser tarde demais e o cara ali vai levar a melhor.
— Do que você está falando?! Você enlouqueceu? – As palavras quase não saiam da minha boca.
— Eu sei muito bem que você gosta da Anne, isso está estampado para qualquer um que queira ver e hoje você fez questão de deixar isso bem claro. Se você está apaixonada por ela, vai atrás dela, mas não tente estragar os sonhos de outra pessoa com os mesmos objetivos que os seus. — Minhas pernas babeavam, meu corpo inteiro estremecia, eu não conseguia colocar em palavras o turbilhão dos meus sentimentos. – Sabe todo aquele discurso que você fez para ele agora, é hora de agir, tome uma atitude forte ou deixa-a ser livre.
— O que vocês estão fazendo aí? – Will saiu do helicóptero e nos avistou distante.
— Nada só estávamos calculando o quanto de neve ainda vai ser necessário tirar para deslocar o helicóptero.
Minha felicidade do inicio do dia havia se esvaído por completa, estava confusa, perdida numa vontade insana de me esconder. Eu não tinha reação, todas as aquelas palavras eram tão verdadeiras no meu peito e eu não sabia lidar com nenhuma delas.
— Bom, todos os dispositivos estão devidamente instalados e eu tive uma ideia para ligar o motor de ignição, nós vamos ter que usar um campo magnético da ilha junto com uma forte concentração de luz solar. Vão por mim vai dar certo. – Disse Frank animado com sua própria inteligência.
— Eu não estou acreditando que finalmente conseguimos, e vamos dar o fora daqui de uma vez por todas. – Discursou Will. Levados pela emoção todos ali se abraçaram e pareciam felizes, por outro lado, eu estava completamente atordoada com todos os meus pensamentos. – Agora que é o fim da linha, iremos todos para a vila trazer a boa notícia e comemorar a nossa vitória contra o CAIG.
Os meninos começaram arrumar as mochilas e todos estavam completamente animado com as novidades, eu apenas esbocei um falso sorriso e aprontei as mochilas em silêncio para partir. Você via no olhar de cada um ali um sonho futuro, a esperança crescendo dentro deles, infelizmente eu me sentia apática a toda situação refletindo sobre tudo que estava acontecendo no meu subconsciente.
Partimos dali em direção a vila, o céu estava prestes a escurecer, então, precisávamos chegar o mais rápido possível. Durante o caminho, os meninos não paravam de comentar os seus desejos para além daquele lugar, da chance de voltar para casa e ter uma nova oportunidade, entretanto eu me mantinha quieta e pensativa. Caminhamos por cerca de quatro horas e estávamos quase chegando na vila, o sol já havia se posto e a escuridão tomava o vazio gélido. Durante o percurso inteiro Ralf não parava de me observar, sendo assim, aos poucos nós diminuímos as passadas e deixávamos os outros seguirem na frente.
— O nome dela era Cloe. – Comecei o assunto como se houvesse desabafando um fardo necessário. – Nós eramos bailarinas de companhias rivais. No campeonato de dança ela me ganhou por cinco pontos na final, quando todos da companhia apostavam em mim e diziam que eu seria a chave de ouro que ganharia o campeonato. Infelizmente eu errei a última sequencia de passos e cai no meio da pista, aquilo fez minha nota cair e nós não conseguimos alcançar nem o bronze, mas Cloe ganhou em primeiro lugar recebendo todo o prestigio daquele evento. Infelizmente a minha companhia dependia do orçamento da competição e acabou fechando. Então, eu não tinha mais onde morar, do que sobreviver e nem ao menos dinheiro para voltar para casa, quando numa noite de plena decadência eu encontrei Cloe em um bar da cidade, ela me reconheceu e começamos a conversar, eu contei sobre tudo o que eu estava passando e ela resolveu me ajudar, porém eu orgulhosa do jeito que sou resolvi não aceitar a sua ajuda e preferi resolver as coisas do meu modo. No entanto, eu fiz a pior escolha que eu podia fazer, eu acabei me envolvendo com o pessoal da pesada eu finalmente consegui entrar na companhia em que a Cloe estava e desde, então, eu estava decidida a ser melhor do que ela. No entanto, ela me ensinou que o mundo não precisa ser só uma competição e com o tempo viramos amigas e, logo depois, acabamos nos envolvendo. Depois que isso aconteceu eu quis deixar todo aquele trabalho sujo e viver minha vida em paz, entretanto uma vez lá dentro você nunca mais consegue sair. No meu último trabalho, quando eu cheguei em casa Cloe estava morta no sofá, eles chegaram antes de mim e eu não pude mais fazer nada. Eu precisei fugir e o CAIG foi a minha melhor opção, eu faria de tudo para dar o fora daquele lugar. Desde, então, eu repito os mesmos passos de dança daquela competição todos os dias até alcançar a perfeição, se eu não tivesse errado aquela última sequencia as coisas seriam diferentes e a Cloe ainda estaria viva. – As lágrimas pesadas desciam do meu rosto sem eu ao menos querer.
— Você não pode afirmar isso, suas decisões te levaram até aqui e não a como prever nada. Você não pode mais mudar o passado e hora de mudar e apenas o agora. – Ralf me acolheu e me abraçou.
— Quando eu a vi pela primeira vez ela era completamente igual a Cloe, o jeito de se expressar, falar e até os detalhes do seu rosto. Era como se o destino nos unisse de novo. Eu sei que ela não é a Cloe, mas mesmo assim ela é uma menina muito especial e o que eu sinto aqui dentro também.
— A vida é muito curta para não arriscar. Talvez logo logo, esse sentimento pode estar bem distante de você.
Finalmente já conseguíamos ver os portões da vila, eu sequei minhas lágrimas e seguimos para os portões. Assim que anunciada a notícia, o povo gelado inteiro festejou, a felicidade pairava aquele lugar e eu precisava viver aquele sentimento junto com eles.
— Você sabe aonde ela está? – Perguntei ao Ralf.
— Provavelmente na tenda grande no final da vila.- O moreno respondeu.
Eu segui até lá o mais rápido que eu pude, chegando próximo a tenda eu fui a sua busca nos cômodos debaixo, estranhamente eles estavam vazios, talvez, todos da tenda estavam comemorando lá fora. Eu subi as escadas e entrei em um dos cômodos, ele dava para ver toda a visão da vila e de todo povo que se alegrava lá fora, eu me perdi alguns segundos naquela visão, quando de repente:
— O que você está fazendo ai? – Eu me virei para entrada do cômodo e Anne estava de prontidão parada em frente a porta. – Por que não está lá fora comemorando com os outros?
— Eu gostaria muito de comemorar lá fora, mas antes eu preciso ser verdadeira comigo mesma.- A menina se aproximou, eu peguei em suas mãos. – Eu não sei como te explicar isso, você pode até me achar estranha, mas ei não aguento mais viver esse sentimento sozinha. Eu to apaixonada por você. – Por uns segundos a loira ficou em silêncio confusa sem quaisquer reação, e depois de alguns segundos ela soltou um leve grito rouco, da sua boca começou a escorrer sangue e seu corpo começou a ficar fraco, ela caiu em meus braços e, então, meu coração acelerou como nunca em toda a minha vida.
Assim que a loira foi escorregando pelos meus braços eu pude ver o rosto de um homem barbado de cabelos compridos, um sorriso de escárnio e um olhar completamente aterrorizante. Eu olhei novamente para o corpo de Anne e lá estava cravada uma lança ensanguentada presa nas suas costas da loira – Eu não conseguia acreditar no que meus olhos estavam vendo.
Foram segundos tão rápidos que eu havia ficado paralisada, aos poucos o homem que acertou Anne se aproximava de mim e eu não conseguia reagir. Eu mais uma vez iria estragar tudo, eu já me preparava para a dor e morte, quando Ralf apareceu e pulou sobre o assassino. Os dois travavam uma luta no chão enquanto eu estava completamente em choque.
— Sarah! Pega a lança... Sarah! – Ralf gritava em desespero e eu não conseguia mexer meu corpo.- Sarah anda logo, reage!
Ralf não conseguiu imobilizar o rapaz por muito tempo, em alguns segundos o homem tomou as rédeas e agora ele que batia em Ralf. Eu escutava os sons dos ossos se chocarem em cada soco. Foi, então, que o assassino juntou as mãos no pescoço de moreno e começou a sufoca-lo. Automaticamente, sem pensar eu peguei a lança das costas de Anne e cravei no pescoço do homem. Ele morreu instantaneamente. Eu soltei a lança e cai ajoelhada no chão em pânico.
— Não Sarah, você não pode desistir agora, anda vamos logo sair daqui nós estamos sendo atacados.
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