The New Continent

43 Capitulo 42 – Sacrifícios – Parte 1


Ralf / Loren / Zenaya

17 Março, 2200, 20:21.

Tudo ainda parecia ser algo inacreditável, a poucos segundos atrás os som das gargalhadas que poluíam o local foram substituído por sons de gritos e horror. As pessoas lá fora corriam sem direção à procura de abrigo enquanto as flechas dançavam no ar em busca do abates. O enorme portão de entrada parecia estar sendo arrombado por um exército em uma cavalaria e ainda sim o chão branco de neve começava a manchar-se de tinto.

— Ei, Sarah, eu sei que você ainda está muito assustada com o que aconteceu aqui, mas precisamos ir. – Eu tentava acudir a menina que se encontrava em choque no chão.

— Onde está o D2? – Uma voz masculina dizia em tom alto vindo do andar debaixo.

— Eu acho que ele foi lá para cima. – Uma voz feminina respondeu.

— Sarah – Sussurrei mais uma vez tentando tirá-la do transe. Sem ao menos ter outra alternativa eu coloquei a menina em meus braços e a levei em passos silenciosos até um cômodo no fim do corredor.

Era um cômodo pequeno, e lá estava o corpo da companheira do líder. Eu coloquei Sarah em um canto do cômodo da parede da entrada e fiquei esperando ao lado da mesma agachado aguardando alguém entrar. Por meio de sussurros eu escutei as duas pessoas se dividindo para cada lado do corredor, eles andavam em passos lentos espreitando cada cômodo. Eu não tinha armas, mas me preparava para atacar antes deles. Gradativamente eu via uma sombra se aproximando e quando próximo o suficiente eu coloquei meus braços para fora e a puxei a para dentro, era uma garota que carregava uma lança.

Eu joguei sua cabeça contra parede e retirei a lança de suas mãos em seguida a golpeei, e mais uma vez até deixá-la inconsciente, infelizmente o barulho da pancada fez com que o outro aliado viesse correndo até o nosso cômodo, porém dessa vez eu estava armado e pronto para a briga. O homem carregava consigo uma lança também e sem ao menos cogitar ele me atacou com a lança em direção ao meu peito, eu usei a minha lança como bloqueio e revidei com um chute no peito que o fez cambalear para trás e quase cair. Dessa vez eu fui em direção a ele pronto para apunhalar a lança em seu peito, quando ele chutou-me no calcanhar. Era uma dor incontrolável, aquele havia sido o lugar, na qual eu houvera sido atingido com uma flecha no último confronto, e a dor que me sondava parecia na mesma intensidade como se aquilo rasgasse toda a minha pele.

Eu cai de joelhos no chão, dando tempo do homem levantar-se. Dessa vez ele pegou sua lança e vinha em direção ao meu rosto e mais uma vez eu o bloqueei com a minha lança, porém o rapaz continuava a fazer força enquanto eu tentava deter a pressão da sua lança contra a minha. Cansado de fazer força ele me golpe-o com um chute me fazendo cair para traz e minha lança rolava pela escada abaixo, ele tentou me golpear mais uma vez no chão, porém dessa vez eu esquivei rolando para o lado enquanto ele cravou sua lança no chão de madeira, ele tentava retirar a lança e isso me deu tempo de levantar. Antes que eu pudesse medir as consequências eu corri até ele antes que ele conseguisse retirar a lança pulei sobre o mesmo e junto nós dois quebramos a sacada de madeira e caímos um andar abaixo, ele caiu de costas no chão com todo meu peso sobre ele, aquilo já havia o deixado atordoado, mesmo assim eu peguei minha lança que havia deixado cair e cravei sobre o seu peito matando-o. Meu peito arfava em exaustão, minhas roupas estavam sujas e cheias de sangue, e ao mesmo tempo eu não podia parar de lutar.

Eu me ergui do chão ensanguentado e fui até a entrada da cabana. Tudo aquilo parecia estar à beira do caos, coisas pegando fogo, armas por todos os lados, pessoas feridas e um mutirão de corpos mortos no chão – Tina – O nome da garota veio imediatamente à minha cabeça. No meio da fumaça era difícil enxergar as pessoas e eu não conseguia avistar nenhum rosto conhecido, entretanto algo dentro de mim precisava encontrá-la.

— Tina! – Eu gritava em meio aos destroços. Aquilo podia ser algo fatal para que inimigos me localizassem, no entanto eu preferia correr o risco.

Eu caminhei quase a metade do vilarejo, quando eu vejo o corpo de uma menina morena com uma flecha cravada em suas costa. Eu corri até o corpo e quando perto suficiente era uma menina morena muito semelhante a Tina, no entanto a garota estava morta. Naquele momento eu sentia uma sensação estranha, mas de certa forma estava levemente aliviado por não ser ela. Eu continue gritando seu nome e caminhando no meio da vila, as pessoas esbarravam e corriam por todos os lados e naquele momento eu não podia me dar ao luxo de perder tempo em ajudá-las, eu só torcia para que todos conseguissem sobreviver. Depois de tanto andar no meio da vila, a inalação da fumaça me sufocava, eu, então ia cada vez mais para as periferias da tendas para poder respirar.

Depois de dez minutos eu parei próximo a um arbusto e avistei a alguns metros de distância Tina sair no meio da fumaça. Sem ao menos manter o fôlego eu corri até ela e a abracei.

— Onde você estava. – Eu perguntei com uma lágrima de alivio caindo do meu rosto mantendo-a em meus braços.

— Eu estava procurando você – A morena ainda tentava recuperar o fôlego.

— Você sabe onde estão os outros? Você viu mais alguém vindo para cá? – Perguntei aflito.

— Alguns dos nossos estão na entrada do vilarejo, tentando conter a entrada de mais deles, mas parece que eles não vão conseguir segurar por muito tempo.

— Então vamos ajudá-los. – Afirmei.

— Não dá tempo olha aquilo. – Disse Tina apontando para a passagem no fim da vila – Eles estão tentando sabotar o nosso plano.

Quando eu olhei para trás havia um grupo de cinco pessoas sequestrando Frank e Victor para fora da vila pela passagem. Aquela invasão não era um simples ataque, eles sabiam do helicóptero e pretendiam sabotá-lo. Sem eles quaisquer esperança que podíamos ter começava a se esvair – Isso não pode acontecer. Imediatamente Tina e eu começamos a correr em direção a eles, no entanto quando nossa presença se tornou perceptível eles começaram a correr. Victor ao nos ver tentou resistir contra os dois rapazes que o seguravam e isso nos deu um pouco mais de tempo para tentar alcançá-los até que um dos homens que seguravam Frank o largou e socou o rosto de Victor deixando-o inconsciente. Assim que o moreno desmaiou um a um passava pela passagem apertada na fresta da rocha, primeiro passaram quatro homens levando Victor e quando o último ia passar com Frank um flecha atingiu a cabeça do rapaz deixando Frank livre.

— Corre – Gritou Tina. O menino um tanto confuso quanto nós começou a correr em nossa direção e nesse momento Sarah apareceu saindo da cortina de fumaça com o arco e flecha.

— Eu achei que você não... – Eu tentava buscar as palavras certas para concluir a frase.

— Você achou que eu não conseguiria mais ficar de pé, mas eu não posso deixar que eles levem mais ninguém, essa luta ainda não acabou. – Disse Sarah determinada.

— Gente não podemos parar, eles ainda estão com o Victor. – Disse Tina.

— Sarah leve Frank até o lugar mais seguro e secreto que vocês encontrarem, escondam-se lá e não saiam da lá até nós voltarmos entendido.

— Sim senhor. – Respondeu a Morena

— Então vão, nós vamos trazer o Victor de volta. – Frank e Sarah sumiram em meio a fumaça, enquanto Tina e eu corríamos em direção a passagem nas rochas.

...

Era como se meus ouvidos estivesse tampados por uma forte barreira de pressão a única coisa audível era a minha própria voz confusa dentro da minha cabeça. Minha visão estava completamente turva e eu só conseguia avistar alguns clarões em tempos sincronizados, entretanto , além disso uma fumaça acinzentada recobria o ar e dificultando qualquer reconhecimento. Meu corpo estava gelado, porém eu não conseguia parar de pensar em como a minha cabeça doía naquele momento.

Aos poucos os intervalos dos clarões ficavam maiores e os borrões ficavam cada fez mais nítidos, eu vi ao longe uma pessoa correr em minha direção, no entanto não conseguia identifica-la. Tomada por tanta dor eu passei a mão sobre a minha têmpora e meus dedos retornaram com sangue. – O que está acontecendo? – A pessoa cada vez mais se aproximava e eu tentava levantar aos poucos, quando finalmente consegui focalizar era uma mulher morena que carregava uma lança pronta para me acertar.

Ainda desorientada eu tentei correr cambaleando no meio da neve, até uma lança acertar a mulher antes mesmo que eu pudesse e distanciar. No meio da fumaça Cory saiu em minha direção.

— Você está bem? – Perguntou o moreno já colocando as mãos em minha testa averiguando o arranhão.

— Eu estou bem, mas o que está acontecendo? – Perguntei confusa e desta vez eu conseguia escutar minha própria voz no ambiente externo.

— Estamos em guerra, um grupo desconhecido estão nos atacando e começaram a lançar pedras enormes na vila através de catapultas, talvez você tenha caído próximo a uma destas pedras gigantes e desmaiado.

— Isso já está acontecendo a quanto tempo? – Antes que ele pudesse me responder o garoto jogou seu corpo contra o meu nos fazendo cair na neve e uma flecha passou como um traçante por poucos centímetros das nossas cabeças.

— Não temos tempo, para conversar, precisamos achar um lugar seguro, tome. – Disse Cory pegando um arco e um estojo de flechas do chão. – Fique com isso para se defender, você sabe usá-las não é? – Antes mesmo que eu pudesse responder o moreno me levantou e me puxou para um canto da vila.

Corríamos pela periferia das tendas e todo aquele cenário parecia uma ilusão, construções incendiadas ou completamente destruídas por pedras gigantes, de certa forma aquilo não parecia ser real, pois minutos atrás a única coisa que se conseguiam ver naquele lugar eram sorrisos e pessoas felizes e cheias de esperança. Além disso, os gritos de socorro das vítimas fazia daquele lugar um cenário agonizante e completamente assustador, só de pensar na situação de dor e misericórdia daquelas pessoas, aquilo já me fizera revirar o estômago. Eu me perdi tanto em meus pensamento, que só recobrei a consciência quando Cory parou abruptamente e eu esbarrei em seu corpo.

— Onde ele está. – Perguntou Cory a um outro homem que eu não consegui identificar a princípio.

— Atrás daquela pedra, está cercado agora, ele irá ser encurralado. – A voz me fez identificá-lo era Xiantong e ao observar a situação eu olhei para a pedra indicada e eles se referiam a Will.

— Ainda a chance para ele. Loren use as flechas que eu te dei para fazer nossa cobertura. Eu e Xin vamos atacá-los.

— Mas eu não sei usar essas flechas – Disse em pânico.

— Eu sei que a Zenaya já te ensinou algumas técnicas com o arco e flecha você só precisa se concentrar em acertar próximos a eles de modo com que eles recuem, entendeu! Precisamos salvar a vida dele.

— Entendido. – Disse com veemência.

— Então, vamos! – Disse o moreno se referindo ao líder da vila.

Os garotos corriam em direção a pedra onde Will estava para auxilia-lo, enquanto eu me posicionei atrás de um arbusto congelado e começava a atirar as flechas. Na primeira tentativa a flecha não chegou nem a metade do caminho. Minhas mãos inteiras tremiam e meu coração estava completamente acelerado, a segunda tentativa foi ainda mais falha do que a primeira e isso fez com que os homens se aproximassem de Will. – O que eu estou fazendo? Eu não consigo fazer isso. – A terceira flecha chegou até eles, porém ela foi direto ao chão, todavia o Cory e Xiantong conseguiram alcançar Will. E por um momento eu não sabia se aquilo seria bom, pois agora a vida dos três dependiam de mim. Eu olhei para o estojo de flechas e só havia mais duas delas, eu não podia errar.

— Loren anda logo atira neles. – Gritou Cory

Eu posicionei a flecha sobre o arco e apontei na direção dos inimigos, antes de atirar eu respirei fundo e tentava me forçar a parar de tremer. Os inimigos iam alcançá-los em segundo quando eu disparei a flecha, dessa vez ela serviu de distração ela chegou próximo o inimigo fazendo os recuar, mas acertou a pedra isso fez com que o três disparassem correndo para longe dali, contudo os inimigos começaram a correr em suas direções. – Eu só tenho mais uma flecha. – Eu posicionei mais uma vez a flecha...

— Atira! – Gritou Cory.

Seguindo as ordens eu atirei, a flecha não chegou a acertar algum inimigo, mas isso deu tempo o suficiente para Cory virar e atirar sua lança certeira contra um dos homens. Os meninos finalmente me alcançaram e estavam longe da zona de perigo dos inimigos.

— Conseguimos – Disse Cory com a respiração ofegante.

— Só um segundo, agora que estamos a salvo, quando é que você criou intimidade para me chamar de Xin? – Disse Xiantong em um tom sarcástico. Nós três soltamos um breve sorriso. Talvez aquela situação em outro momento poderia ser motivo para boas gargalhadas, no entanto devido a tal estado atual aquilo só serviu de um pequena distração para aquele caos.

— Muito obrigado. – Disse Will referindo-se à todos ali.

Naquele momento um estrondo tomou conta do lugar, todos olhares se direcionavam para o inicio da vila e aquilo parecia ser o fim de toda esperança. Eles finalmente haviam conseguido arrombar os portões e, em seguida, animais enormes começaram a invadir a vila.

— O que é isso? – Perguntou Cory aterrorizado.

— Esses são os Mentralius fêmeas, foram eles que nos atacaram da primeira vez. – Disse Xiantong.

— Como se não pudesse ficar pior. – Ironizou Cory.

— Não podemos perder tempo com esse bichos, precisamos fechar os portões agora e evitar que mais deles entrem aqui.

— E como vamos fechar os portões? – Perguntei

— Existe uma alavanca do lado dos portões, vocês precisariam fechar aquelas alavancas novamente, mas isso seria uma ideia suicida. – Disse Xiantong.

— Vocês se arriscaram por mim, agora é a minha vez. Foi você quem me disse que a honra de um líder só é válida se ele é quem se arrisca pelos seus. Então, eu vou fechar aqueles portões nem que isso seja a última coisa que eu faça.

— Isso é loucura, você só iria de encontro a morte em vão. – Disse Xiantong.

— Que eu morra lutando... Existe um grupo de aliados que estão contendo os animais lá na frente, eles farão a distração para que eu chegue até as alavancas. Eu preciso que você e Cory façam a minha cobertura pelo chão e você Loren. – Disse o ruivo apontando para mim. – Eu quero que você suba na barreira de gelo e seja os meus olhos, além disso preciso que use suas flechas mais uma vez para afastar possíveis inimigos. Para tudo isso dar certo precisamos estar perfeitamente sincronizados.

— Mas eu não tenho mais flechas. – Disse mostrando a aljava.

— Eu te arranjo, eu também perdi a minha lança. – Falou Cory enquanto se distanciava em meio a fumaça.

Enquanto Cory partiu em busca das armas, Will e Xiantong me levaram até um lugar que eu pudesse subir no muro de gelo. Eu escalei as pedras de gelo apreensiva com medo de ser vista por algum inimigo e, assim, ser atingida por uma lança ou flecha. Quando eu finalmente conclui a subida, eu conseguia ver a vila inteira lá de cima, olhei para os portões e avistei as alavancas e logo a alguns metrôs de distância as criaturas enormes estavam sendo contidas por um grupo de pessoas que as impedia de avançar.

— Eu estou vendo as alavancas, o caminho está desobstruído e os animais estão distraídos por um grupo de contenção, essa é a nossa chance. – Não demorou nem alguns segundos e Cory já estava de volta com as armas. Lá debaixo ele me jogou um arco e as flechas e já estávamos preparados para iniciar a missão. Eu não estava completamente confiante para executar o plano, no entanto eu me senti sem opções naquele momento.

— Eu vou seguir na frente, e vocês dois vão fazer a minha cobertura lateral, entendido! – Os dois meninos simplesmente assentiram com a cabeça. – E você Loren. – Gritou o menino lá debaixo. – Será os meus olhos guias. – Então, vamos.

Os meninos começaram a correr em direção aos portões da vila enquanto eu tentava os acompanhar correndo por volta do muro de gelo.

— Dois homens a direita – Eu gritei lá de cima.

— Deixa esses comigo. – Cory foi em direção aos rapazes, pegando-os de surpresa com a sua lança.

— Tem uma construção destruída obstruindo o caminho, cuidado! – Eu tentava coordená-los da melhor forma possível. De repente apareceram mais cinco pessoas tentando cercá-los. – Cuidado tem cinco inimigos a esquerda.

— Xin eu vou precisar da sua ajuda. – Disse Cory ao líder, e ambos os garotos foram em direção ao grupo inimigo. – Vamos tentar contê-los o mais rápido que pudermos, vocês precisam seguir.

Will ultrapassou os entulhos deixando Cory e Xiantong cuidado daquele grupo inimigo. Os meninos se mantinham recuado para não serem atacados, pois estavam em menor número. Enquanto isso, eu continuava a trilhar o caminho com o ruivo.

— Estamos quase lá, só mais uns dez metros. – De repente no meio da fumaça surge uma pessoa camuflada apontando uma flecha para Will. – Will abaixa! – Gritei em desespero.

O garoto não hesitou e se jogou no chão, com isso a flecha passou sobre o ruivo sem atingi-lo. Eu apanhei o arco e a flecha e atirei em direção ao atirador, num tiro tão preciso que acertou o seu peito.Eu não conseguia acreditar como eu havia feito aquilo de tão longe, mas de certa forma aquilo me encorajava a continuar.

— Vamos só mais um pouco. – Gritei animada.

Foram questões de poucos segundos, mas quando estávamos quase chegando uma flecha passou a centímetros do meu rosto e o susto me fez cair no chão. Assustada eu tentei procurar o atirador, mas já era tarde demais. Como um míssil, uma pedra gigantesca saltou no ar em direção a vila numa visão quase que hipnotizante. Eu só consegui chamar pelo seu nome, o ruivo assustado parou e uma pedra gigante o atingiu com o desmoronamento de uma construção.

Will! – Eu gritava enlouquecida.

Em seguida mais flechas começaram a tentar me atingir e eu me abaixei no chão para me proteger. Eu olhava para trás e via Xiantong caído no chão sendo enforcado por um homem e o Cory havia desaparecido do meu campo. Tudo havia saído do controle e nós havíamos falhado naquela missão. Como se as coisas não pudessem ficar pior eu senti algo prendendo as minha pernas, então, eu olhei para o lado e haviam uma pessoa mascarada que prendia as minhas pernas por uma corrente que carregava nas mãos.

— Fim da linha loira. – Era uma voz feminina completamente assustadora.

...

Era como se aquele estrondo representasse um barulho sussurrado da morte. Aqueles enormes portões se abrindo e aquelas feras gigantescas grunhido e adentrando a vila declarando a nossa derrota. Medidas de contra ataque naquele momento só nos mandariam mais cedo para o além, de modo que, nossa única escolha era adotar estratégias de contenção e defesa para prolongar um receio inevitável, já que a esperança era um sentimento que vagava bem distante daquele lugar.

As feras chegavam a quase três metros de altura, seus corpos acinzentado de pelos ásperos, dentes que ultrapassavam a linha da boca, patas torneadas e olhos amarelos reluzentes que os faziam animais completamente assustadores, e como monstros eles avançavam sobre os guerreiros da fronte como criaturas insaciáveis por sangue e horror.

Eu recuei alguns metros para trás longe do portão, onde havia uma certa margem de segurança formada por destroços de madeira das construções destruídas, na qual os atiradores de flechas estavam. Por um instante me passou pela cabeça a ideia de fugir e deixar tudo para trás, no entanto a alguns metros dali eu avistava Nofre e Jihan dando suporte para outros aliados. Sendo assim, eu me aproximara dos meninos em busca de um plano.

— Nofre e Jihan eu preciso da ajuda de vocês agora. – Disse firme tentando passar confiança na voz.

— Diga – Respondeu o Nofre assustado com a cena dos aliados e os animais.

— Nofre eu preciso que você faça uma vista dos feridos da vila e levem os para a tenda dos animais, no entanto uma observação, apenas leve os que conseguem andar, aqueles que não puderem infelizmente você terá de abandoná-los ouviu?! Acha que pode fazer isso? – Perguntei olhando no fundo dos olhos dele. O meninos simplesmente assentiu com a cabeça sem questionar. – E você Jihan eu preciso que você atravesse toda a vila e vá até a tenda do líder e traga mais armas, mas só uma coisa tenham cuidado vocês dois, pois existem inimigos por todos os lugares aqui dentro. Eu sei que fazendo isso estão arriscando suas vidas, no entanto é um risco necessário entenderam. Eu encontro vocês na tenda dos animais daqui a dez minutos. – O meninos pareciam levemente encorajados com as minhas palavras e então partiram para o fundo da vila.

Aquele plano não foi ao menos revisado antes de ser colocado em prática, haviam grandes possibilidades das situações saíssem ainda mais do controle, entretanto naquele momento eu só queria os levar para longe daquele lugar assustador.

— Vamos eles estão atacando! – Gritou um dos atiradores aliados. Quando eu tomei conta da situação, os guerreiros que restaram da fronte já haviam recuado e os animais agora avançavam sobre nós, os atiradores se posicionavam e começavam a atirar sobre os animais, contudo as flechas não pareciam surtir nenhum efeito verdadeiro contra o eles, pois continuavam de pé ainda mais enraivecidos.

Por outro lado, aquele contra ataque nos deu tempo o suficiente de fazer alguns aliados retornarem as margens mais seguras da barricada. De repente, uma série de pedras começaram a sobrevoar o céu e atingir a vila, todos começaram a correr desenfreadamente para trás. Não haviam mais locais seguros naquele lugar até que a chuva de pedras gigantes cessou e a fumaça se alastrou ainda mais. Contudo, agora estávamos separados e mais vulneráveis ao ataque. No meio daquela fumaça eu me encontrava perdida e sufocada, cambaleava no meio daquele tumulto e as vozes berrante por todos os lados me deixava ainda mais confusa. – Eu preciso sair daqui – Eu tentava ignorar as vozes e seguir um caminho até que eu novamente me encontrei à frente da vila, eu havia voltado para o mesmo lugar. Antes que eu pudesse pensar em voltar eu senti uma forte pressão sobre as minhas costas que me fez cair a alguns metros de distância, eu olhei para trás e uma daquelas enormes criaturas cinzentas me encarava com um olhar sedento pronta para o abate.

O animal começou a correr contra mim como uma fera desesperada, enquanto eu tentava me levantar e arrastar-me para trás, meu coração batia acelerado até que uma rajada de flechas acertou o bichano, e de repente o animal enlouquecido começou a sacudir-se e grunhir de dor ele havia perdido completamente o controle, quando eu olhei para as flechas mais uma vez, uma delas havia acertado seus olhos e os mesmos sangravam sobre seu rosto. – É isso, nós precisamos acertá-los nos olhos. – Em seguida, Kim apareceu do outro lado da fumaça com o arco e flecha, o menino havia me protegido mais uma vez.

— Nós precisamos sair daqui — Gritei para Kim erguendo-me do chão e indo em direção ao meio do vilarejo. Juntos nós caminhamos pela névoa de fuligem e finalmente chegamos a cabana dos animais. Jihan aguardava na entrada temeroso e ansioso.- Onde está o Nofre? – Perguntei apreensiva.

— Ele está lá dentro cuidando dos feridos. – Respondeu Jihan.

— Você trouxe as armas? – Perguntei. O menino simplesmente assentiu com a cabeça. – E a caixa de primeiro socorros?

— Não se preocupe também está lá. – Insistiu o moreno.

— Agora eu quero que você e Kim vão até os atiradores, levem as armas e diga que eles precisam acertar nos olhos daqueles bichos, entendido?! – Mais uma vez os meninos concordaram saindo dali levando as armas necessárias para a luta.

Quando eu entrei na cabana só havia nove feridos, Nofre já tentava auxiliá-los com faixas de compressão e ataduras. Conversei com cada um deles e a situação grave me fizera acreditar que apenas quatro tivessem uma verdadeira chance de sobreviver. No entanto, eu precisava tentar evitar quaisquer morte mesmo que ela fosse algo quase que inevitável. Depois de alguns minutos Kim e Jihan chegaram novamente a cabana com olhares completamente horrorizados.

— O que foi? O que está acontecendo? – Perguntei preocupada. – Vocês não conseguiram chegar lá? Não conseguiram enfrentar os monstros?

— Não, não é isso, eles conseguiram conter os monstros, mas é que um exército enorme agora está entrando para matar todos nós. – O magrelo gaguejava entre as palavras de tanto nervosismo.

— Como assim, um exército?... – Antes mesmo que eu pudesse continuar, um forte barulho ecoou sobre a porta, era como se algo muito forte quisesse entrar.

— Nós vimos vocês dois entrando aí, saíam logo e a morte pode ser algo bem menos doloroso. – Era a voz grave de um homem do outro lado da porta de madeira tentando arrombá-la. Nós estávamos cercados agora e um exército batia a nossa porta à espera da nossa morte.