The New Continent

30 Capítulo 29 – Ao avesso.


Tina

24 Fevereiro, 2200, 11:25.

Por que sempre dói em quem fica? O mundo é um ciclo de mudanças e muita das vezes nos limitamos a elas. Parece que tudo em sua volta se transformar, e você sente um vazio inútil de estar estagnado, porém é através desse estado de inércia que conseguimos buscar fôlego para um salto muito maior. Berry havia nos deixado e eu ainda não conseguira sair do quarto onde trocamos nossas últimas palavras e declaramos o nosso adeus.

Fui até a abertura da janela do cômodo e olhei para a faixa de areia da praia e nenhum sinal de Berry, ela já houvera partido para longe dali, sendo assim, mentalmente eu desejava boa sorte. Depois de alguns minutos eu finalmente saí da alcova e me dirigi até a estufa. – Ela passava a maior parte do seu tempo neste lugar. – Peguei uma faca que havia em cima da bancada e uma série de lembranças invadiram a minha mente, desde os primeiros dias que eu a ajudava cortando legumes até as tentativas falhas dela em me ensinar a cozinhar. Abri um pequeno sorriso que logo foi fechado por uma pequena lágrima. Eu não entendia como, mas parece que a suposta morte não foi o suficiente e que desta vez era real e definitivo.

Em cada peculiaridade daquele lugar seu rosto era nítido em minha mente. – Infelizmente eu ia ter de me acostumar. – Fitei novamente para a parede de sangue, onde havia a mensagem da morte de Berry e pensava em como eu poderia ter evitado tudo aquilo. Olhei para a cumbuca de alimentos vazia e aquele resumia todo o sentimento de fim de um ciclo. Enquanto vagava por meus pensamentos fui surpreendida com a presença de Cory entrando no cômodo.

— Ela fez propositalmente, não foi? – Perguntou o Cory ofegante pelo cansaço de ter saído da rede e ter vindo até aqui.

— Do que você está falando... – Respondi confusa.

— Berry, ela inventou tudo isso. Ela nos fez acreditar que morreu por princípios bestas e egoístas. Não foi? – Gritou o líder.

— Veja bem Cory, eu concordo que ela possa ter deixado as coisas um pouco fora de controle, mas não foi por um motivo egoísta e muito menos besta. – Retruquei.

— Realmente desaparecer sem deixar noticias; forjar uma morte e nos convencer a tudo isso, é um motivo muito convincente e maduro, não é mesmo? – Mencionou o menino com desdém.

— Não venha me falar de maturidade, pois foi você quem mandou ela ir embora e não soube lidar com isso. Ela não teve brechas para se defender, então, não se coloque como a vítima dessa situação.

— Não valia nada mais quaisquer coisas que ela tivesse a dizer. Acredite eu já vivi uma história parecida assim com ela alguns anos atrás. Ela ainda não entende o peso da responsabilidade, não sabe o que uma atitude pode provocar na vida das pessoas, talvez ela aprenda isso sozinha. Assim como ela eu não me arrependo de nada.

— Como pode ser tão frio e amargurado, são nas horas difíceis que precisamos de alguém por perto, e se ela está passando por um momento como esse, não é lá fora longe de tudo que ela vai conseguir alguma coisa.

— Ela sempre cresceu com os mimos da minha mãe... – Desabafou.

— O quê? O que você disse – Não havia escutado seu baixo desabafo.

— Não é nada, a questão é que ela não precisa de nós. Os Mackleirs são fortes e aprendem melhor sozinhos.

— Ela nunca saiu daqui? Nunca foi a uma excursão conosco na floresta. Como pode ignorar o fato de que ela pode morrer, ela não vai conseguir nada sozinha a não ser morrer e ai como você vai viver com essa culpa.

— Como eu disse, eu não me arrependo de nada. Eu sou o líder aqui e eu faço o que eu quiser...

— Cala essa boca e pare de falar besteiras. – Uma voz masculina interrompeu o assunto, ficamos em silêncio por um tempo até que Mike apareceu na entrada da estufa. – O que foi? Vocês se calaram de repente. Enfim, eu só queria concertar um pequeno equivoco e lembrar a todos que eu sou o líder de tudo isso aqui, fizemos um acordo não lembram?

— Mike você está bem? – Perguntei surpresa pela sua melhora.

— Melhor impossível, eu estou cem por cento recuperado. – O menino parecia positivista.

— Também não exagere. Você e Cory ainda estão muito fracos, então, infelizmente eu vou ter que diminuir um pouco dessa porcentagem aí. – Trocamos alguns breves risos.

— Mas e, então, onde estão os outro? – Pergunto Mike enquanto pegava uma fruta e um cesto na bancada e começava a comer.

— Eles saíram, foram atrás de alguns recursos, mas acredito que ao anoitecer eles devem estar de volta.

— Eu vou atrás deles, com licença. – Disse Cory enquanto se voltava para fora do cômodo.

— Ei nada disso, você não está nem perto de estar bom. Você dois vão ficar aqui. Aliás, Will está aqui em coma e vocês precisam acompanhá-lo.

— Você pode ficar aqui. Eles devem estar precisando de mim por lá. – Retrucou Cory.

— Eu já disse que ninguém vai sair daqui hoje. Foi o Will quem salvou vocês dois, então, mesmo que estivessem bem, onde está a gratidão de vocês. Agora eu entendo o que a Berry sentia.

— Quem é Berry? – Indagou Mike.

— Ninguém. – Respondeu Cory. – Na verdade eu acho que você tem razão, eu estou um pouco cansado e vou me deitar, até logo. – O menino saiu do cômodo com um olhar amargurado.

— Eu disse alguma coisa que não deveria? – Perguntou Mike.

— Não, você disse tudo o que era para ser dito.

— Aliás, onde está todo mundo?

— Eles saíram com o Ralf para uma excursão, mas creio eu que logo eles estarão de volta... Mike fique a vontade para pegar água e comida, eu vou lá em cima, tudo bem?

O menino assentiu, então, subi as escadas e fui até a alcova. Cory havia deitado em uma das redes, em seguida fui em direção a outro cômodo que parecia uma despensa, Loren estava deitado no chão lado de Maffy que também dormia. A loira acordou com a minha presença e tentava se recompor.

— Me desculpe eu não queria assustá-la.

— Não se preocupe eu só estava tirando um cochilo. – Respondeu Loren afobada.

— Um cochilo?! Você passou a noite inteira aqui não foi? – Seu olhar se distorceu.

— Tudo bem, eu confesso. Eu dormi aqui, mas era porque eu acordava de vez enquanto para ver se o Maffy ainda estava e...

— Não precisa se explicar, eu entendo. Então, eu vim aqui perguntar se você não quer ir pescar comigo, como nos velhos tempos. Eu posso te ensinar algumas táticas bem úteis! – Fim minha oferta.

— Mas é claro, eu me contento em aprender o básico até. Eu vou me arrumar, você me espera lá em baixo?

— Mas é claro! – Trocamos sorrisos e por fim eu saí do quarto me dirigindo em direção à praia. Antes passei pela estufa e peguei duas lanças guardadas em um armário.

Avistei o mar e vi a oportunidade de ensinar Loren a pescar, que de certa forma ocuparia meus pensamentos me fazendo relaxar um pouco e aliviar a tensão. Antes de tudo tirei os calçados e caminhei a beira d’água para ver se havia peixes, e por sorte, tínhamos um dia farto com uma grande quantidade de cardumes. Depois de alguns minutos vejo Loren sair da cabana e se encaminhado até mim.

— Você não vai acreditar, acabei de esbarrar com o Mike no corredor, ele acordou! – Exclamou Loren entusiasmada.

— Eu sei, o bonitão acordou hoje mais cedo.

— Mas enfim, você acha que essa roupa está boa? Foi a única que eu encontrei na caixa. – Perguntou à loira.

— Está ótima, a pescaria não exige um uniforme.

— Perfeito, então, vamos logo começar. Aliás, não vi a Berry por aí, ela foi fazer mais um experimento maluco?! – Ironizou a menina.

— A Berry foi embora Loren. – Parece que de alguma forma esse assunto ainda vai me acompanhar pelo resto do dia.

— Foi embora? Embora para onde? O que foi que aconteceu? – A menina parecia confusa.

— Motivos pessoais, mas isso não nos importa, porque ela simplesmente foi sem deixar pistas de onde ia e pelo visto ela não vai voltar. – Tentei não dar falsas esperanças a menina.

— Mas e o Cory? Ele vai querer vê-la quando acordar!

— Eu acho que não, aliás, ele também já acordou.

— E como ele está?

— Está bem, na verdade está repousando lá em cima.

— Mas com a Berry fora, quem vai cuidar dos feridos, e o Will?

— Não se preocupe, vai ficar tudo bem. Ela deixou tudo sob controle. Enfim, vamos começar! – Tentava mascarar minhas expressões.

— Vamos, por onde começamos? os pequenos?

— Não, eles possuem uma área de contato menor e são muito mais rápidos, vamos começar pelos maiores. – Fomos à busca dos peixes maiores até finalmente acharmos. – Primeiro passo é o silêncio, eles não podem sentir-se ameaçados. E segundo você precisa criar uma noção de espaço e movimentação e, por fim, segure firme a lança e como uma flecha no ar você precisa controlar a precisão e a velocidade. – Finquei a lança na água e, com isso peguei o peixe. – Viu?! Agora a sua vez.

Ficamos ali a tarde inteira, depois de muito exercício de pescaria e muitas tentativas falhas Loren conseguiu finalmente pegar dois peixes grandes. A tarde se alastrou rapidamente entre a pesca e os intervalos de conversas. De alguma forma aquilo me lembrara os primeiros dias de pescaria com Loren, antes de todos os problemas acontecerem. Eu via em seu olhar a bondade, os olhos inocentes de uma pessoa que não merecia estar ali. – Graças a ela estou viva. – Quando o pôr do sol começou a surgir no horizonte, sentamos na beira da areia e ficamos observando aquela grandiosidade.

— Mas, então, como você aprendeu a pesca? – Perguntou Loren despretensiosamente.

— Bom, meu irmão trabalhava numa pescaria numa praia onde morávamos. Ele me ensinou tudo o que eu sei.

— Nossa você tem um irmão?! E qual é o nome dele?

— Ele se chamava Tyler.

— Ai me desculpe eu não queria...

— Tudo bem, ele já morreu faz um bom tempo. Ele trabalhava na pescaria e durante as suas folgas ele pegava a sua prancha e ia surfar na praia. Até que em um dia de maré forte ele decidiu enfrentar o mar e acabou perdendo para uma onda colossal que alagou toda a costa do litoral. O corpo dele desapareceu por dias até ser encontrado uma semana depois numa outra praia, porém infelizmente já era tarde demais.

— Então, é por isso que você também surfava?

— Sim, mas não só por isso. Depois que ele se foi, eu quis ser ele, seguir os seus passos. Comecei a surfar, trabalhei na mesma pescaria em que ele trabalhava e comecei a construir os seus sonhos, sair dali para conhecer o mundo. Foi, então, que eu vim parar aqui, pois o CAIG parecia oferecer uma ótima oportunidade e aqui estou eu. – No fim do discurso não consegui conter um lágrima que consistia em cair.

— Pelo jeito com que você fala, ele parecia ser uma ótima pessoa. – Mencionou a Loira.

— Sim e era, eu daria qualquer coisa para tê-lo de volta. Por isso eu não entendo a relação desses dois, eles ainda não sabem o poder de corrosão da dor. – Sequei aquela pequena lágrima e levantei-me. – Vamos, precisamos preparar o jantar não é mesmo?!

Loren se levantou e juntas fomos em direção a cabana, porém antes de entrarmos, fomos até a beira da selva e recolhemos alguns galhos finos para servir de espetos. Depois de reunir os galhos começamos a fincá-los nos peixes para mais tardes acendermos a fogueira. Loren tomou a rédea de tentar fazer uma espécie de molho, ela juntou alguns frutos e juntas começamos a cortar-los, por fim, depois de tudo pronto, finalmente acendemos a fogueira e ficamos a espera dos outros chegarem.

Loren foi até o segundo andar e levou à comida de Cory e Mike, depois de alguns minutos ela voltou com um sorriso no rosto, a comida parecia ter sido aprovada. Ela sentou ao meu lado e ficamos em frente a fogueira com os palitos de peixe, porém dessa vez em silêncio sem trocar quaisquer palavra. Após algumas horas vejo Pietra caminhado em direção a cabana no fim da praia. A menina arrastava um a pele de um animal nunca visto antes. A morena foi se aproximando até finalmente chegar até nós.

— Foi à vez de vocês cozinharem hoje?! A Berry está muito preocupada com o Cory para fazer isso. – Ironizou a morena.

— Na verdade...

— Ela não está aqui. – Interrompi Loren antes que ela pudesse continuar.

— E aonde ele foi? Ela nunca sai dessa cabana. – Perguntou Pietra intrigante.

— Ela saiu com os outros, disse que voltaria logo. – Loren me olhou com um olhar confuso.

— Compreendo, mas, enfim, olha o animal novo que eu consegui encontrar. Eu pensei que a pele dele poderia ser um ótimo tapete, eu não sei se a carne dele é boa, mas parece ser muito macia. Você me ajudaria a limpar o sangue dele lá na praia Tina?

— Sim, mas é claro. – Respondi.

— Eu também posso ajudar se quiser. – Loren se propôs a ajudar.

— Não, não precisa se incomodar, mesmo assim obrigado. Você precisa cuidar dos peixes não é mesmo, ou eles vão queimar. Vamos Tina! – Pietra seguiu até o mar arrastando o animal e fui logo atrás e quando finalmente estávamos próximos ao mar ele mudou totalmente de expressão em um rosto sério e sombrio. –Diga logo de uma vez para onde ela foi, eu sei que está mentindo. – Infelizmente eu tinha sido pega de surpresa.

— Mentir? – Indaguei.

— Anda logo, aproveita que estamos a sós e fala logo para onde ela foi. Eu sei que ela não foi com eles, ela nunca deixaria o Cory aqui sozinho e, além disso, ela nunca receberia ordens do Ralf para ir em uma excursão. Então, anda logo, fala para onde ela foi.

— Eu não sei. – Disse cabisbaixa e com raiva por não saber a resposta.

— Não sabe? Como assim não sabe?! Ela foi fazer mais um daquelas experiências loucas? Ela não disse nada para você?

— Não Pietra, ela foi embora por vontade própria. Com a ajuda de Cory.

— Cory?! – Indagou à morena. – O que ele tem haver com isso?

— A história é complicada de explicar, mas resumindo, Cory deu uma ordem de expulsão para ela e ela se foi sem dizer para onde ou sem qualquer informação de como encontrá-la.

— E você a deixou ir?! Por que não a impediu? Por que não fez nada para que ela ficasse? Ela não vai sobreviver um dia nessa selva. – Berrou Pietra inconformada.

— Eu tentei, eu pedi para que ela ficasse, mas todos aqui somos livres para fazer o que quisermos. Ela escolheu ir e pediu para que não fossemos atrás dela.

— Ela está com o orgulha ferido, isso sim. Não sabe o que a selva tem a oferecer. E há quanto tempo ela foi?

— Ela foi logo pela manhã, deve estar longe daqui. Você não pretende ir atrás dela não é?!

— Eu vou sim, essa maluca está tentando se matar e se eu puder fazer alguma coisa para evitar isso, eu vou fazer.

— Pietra não! Já escureceu, e eu já disse que ela deve está muito longe daqui, não vai encontrá-la. Além disso, você passou o dia inteiro fora de cabana, deve estar cansada. Eu não posso deixar você ir também.

— E como você disse, todos aqui somos livres para fazermos o que queremos, por isso, eu já estou indo, adeus! – A menina colocou a mochila nas costas, pegou a lança nas mãos e partia novamente para a selva.

— Pietra! – Gritava para chamar sua atenção, mesmo assim ela ignorava meus berros e seguia em frente.

Ela caminhou pela faixa de areia até desaparecer no meio da selva. – Eu não sabia mais o que eu podia fazer. – Voltei em direção a fogueira e Loren estava de pé observando tudo o que acontecia da cabana.

— Porque mentiu para ela? – Perguntou à loira.

— Eu tentei evitar que isso acontecesse.

— Do que está falando? Aonde ela foi?

—Eu não sei, não sei o que ela pretende fazer com tudo isso... E talvez eu não deva me envolver. – Loren me olhava sério, no entanto um silêncio predominou pelo local. Meus pensamentos mais uma vez chacoalhavam em minha mente. – Eu acho que eu perdi a fome, eu já vou me deitar.

Levantei-me e fui até a alcova, deitei em uma das redes e fiquei fitando o teto por alguns minutos. – Eu só quero que esse dia acabe. –Eu fiquei ali sozinha e em silêncio até que o sono me dominasse por completo.

...

Ao amanhecer, acordei com o som do vento uivando do lado de fora, o tempo estava nublado em um céu cinzento. Olhei para as outras redes e não havia ninguém em nenhuma delas, então, levantei-me e fui até o lado de fora e nenhum sinal de vida. Subi até o segundo piso e fui até a alcova, lá estava Cory, Mike e Will nas redes. – Onde está a Loren. – Novamente fui até a despensa, e ela estava lá deitada junto ao Maffy. Assim como o dia anterior ela acordou com a minha presença.

— Onde estão os outros? – Perguntei

— Eu não sei, eu fiquei até mais tarde esperando que eles chegassem, mas ninguém apareceu. – Respondeu a loira, enquanto esfregava os olhos.

— E a Pietra? Alguma noticia dela?

— Ela também não apareceu.

— Tudo bem, pode voltar a dormir. Não temos muitas coisas para fazer por hoje. O céu está escuro e parece que vai chover... E o Maffy está bem?

— Por enquanto sim, a cicatriz das assas desapareceu, e até agora ele não apresentou nenhum surto, contudo ele não come desde então.

— Ótimo, qualquer coisa eu vou estar lá embaixo.

A menina voltou a se deitar, enquanto eu fui dar uma segunda olhada na alcova para ver os meninos. Quando avistei as redes Cory já não estava mais lá. Desci depressa até o térreo e vasculhei cada cômodo, assim que entrei na estufa, pela janela eu conseguia ver Cory cambalear pela faixa de areia em direção a floresta. Corri até ele e ele tentava ir mais depressa.

— O que está fazendo?! – Gritei em um tom alto. – Por um acaso está tentando fugir?

— Fugir? Eu não estou fugindo de coisa nenhuma. Eu não sou um prisioneiro aqui, então, eu posso ir aonde eu quiser. Eu não vou ficar aqui parado, enquanto tem pessoas que podem estar precisando de mim.

— Realmente, eles precisam demais de um menino em recuperação física. Cory, por favor, não torne isso mais difícil do que está sendo. Sua irmã pediu para que eu cuidasse de você e essa promessa eu não posso negá-la.

— Não fale mais dela para mim. Ela está morta!

— Não Cory, ela não está morta. Você só esta querendo fazer alguma coisa para se livrar da culpa e arrependimento.

— Engraçado... – Desdenhou o moreno. – Eu não me sinto nem um pouco arrependido.

— O que esse lugar te transformou. – Disse sem querer acreditar nas minhas palavras. – Vem logo, vamos voltar porque logo irá chover.

— Você não manda em mim, eu vou aonde eu quiser. – Retrucou Cory.

— Não, não vai. – Disse enquanto apontava uma lança para Cory. – Eu não quero continuar insistindo, pois eu já disse que eu iria cuidar de você. Eu estou cansada de ser reprovada pelas minhas ações, dessa vez eu não vou deixar passar.

— O que é isso?! Está me ameaçando? – Indagou Cory.

— Sim, eu estou. E se eu não posso cuidar de você vivo. Eu talvez possa cuidar do seu funeral.

— Ei vocês dois, eu não sei o que está acontecendo aqui, mas eu acho melhor vocês esfriarem a cabeça. – Disse Mike aparecendo de repente.

— Essa louca acha que pode mandar em mim. – Murmurou Cory.

— Ela não pode, mas eu como líder acho que posso. Sendo assim, ela está certa e você não vai a lugar nenhum.

— Vocês só podem estar de malucos.

— O único maluco aqui é você, que está tentando se matar. Respeite seus limites. Anda logo, ou eu adio o seu sofrimento e mando-a ir com tudo com essa lança em cima de você. – O menino voltou atrás passando por nós sem dizer uma palavra e indo e direção a cabana. – Eu não aguento mais acordar aqui com a gritaria de vocês, isso aqui acontece com frequencia?

Dei um breve sorriso e ele retribuiu, sendo assim, voltamos novamente para a cabana. Cory já havia subido para a alvoca e Mike o seguiu. Sentei em um banco de madeira da estufa e fiquei observando o lado exterior até que a chuva se iniciasse. Ela perdurou durante o dia inteiro e ao final do dia nos encontrávamos em uma estaca zero, Ralf não havia retornado, Pietra e Berry estão desaparecidas e Will ainda não houvera despertado.

O dia seguinte foi formado pela mesma monotonia. O céu estava nublado e frio, com isso, a pesca de certa forma parecia estar comprometida, pois a água gelada afastara os peixes da margem. O dia transcorreu de forma estável sem quaisquer picos, com apenas algumas tentativas de cozinhar e breves conversas. De alguma forma toda aquela intimidade nos trouxera um ar quase que de normalidade ao ambiente como se estivéssemos vivendo uma vida cotidiana. Ao anoitecer parece que esse paradigma havia sido quebrado com a finalmente chegada de Ralf e o resto do grupo.