The New Continent

28 Capítulo 27 – Cicatrizes.


Berry

23 Fevereiro, 2200, 20:47.

Parecia que todas as verdades se tornaram questionáveis, e o impossível se tornara algo verídico. Mesmo que alimentemos a esperança por menor que ela seja as coisas normalmente tendem a falhar, entretanto esse lugar nos presentiara com chances e escapes de tal forma a questionar os astros, a natureza espiritual e até mesmo o nosso destino.

— Espere um segundo, você está me dizendo que o Will está lá embaixo com a Pietra? Você tem certeza do que está falando. – Perguntei cautelosamente sem criar falsas esperanças.

— Eu tenho certeza, se não estivesse eu não teria vindo. Venham logo – Zenaya dizia apressada e voltava-se para fora do cômodo. Tina e eu nos entreolhamos e ambas pareciam processar as informações.

— Mas como isso é possível, você não acabou de dizer que ele estava morto! – Exclamei.

— É complicado de explicar, mas é era quase improvável que ele estivesse vivo...

— Como assim? Se não tinham certeza não poderiam descartar a hipótese de ele estar vivo. – Mesmo que de uma forma estranha eu ainda tentava-me por a par da situação.

— Imagine que a probabilidade de que ele estivesse vivo eram quase nulas. Eu sinceramente não faço ideia de como ele conseguiu sobreviver.

— Venha vamos lá embaixo, preciso entender mais dessa história toda.

Saímos da alcova e nos dirigimos até o primeiro piso, descemos a escada passando pelo corredor central até chegar à alcova do primeiro piso. Todos estavam aglomerados como um circo envolto do que imaginei ser Will. Ultrapassei entre as pessoas e lá estava ele, deitado sobre uma rede, seu peito nu exposto e repleto de arranhões e desacordado como uma múmia. Loren estava ajoelhada ao lado da rede aflita e do outro lado estava Anne verificando as feridas.

De alguma forma estranha eu não esperava vê-lo daquela maneira. Quando Zenaya mencionou o seu aparecimento, não disse que ele necessariamente estaria vivo e por um momento toda aquela euforia foi se esvaindo e tornando-se preocupação. Enquanto isso, depois de verificar os corte Anne tentava buscar pela pulsão, a menina verificava cada ponto de seu corpo.

— Ele está bem? – Perguntei no meio de todo aquele alvoroço.

— Eu não consigo achar pulsação. Infelizmente...

— Pare, não diga isso, ele vai ficar bem. O destino nos trouxe essa chance de salva-lo, então, não podemos desistir. – Berrou Loren no meio do Tumulto. Anne verificava pela segunda vez cada ponto e sem sucesso a sua expressão demonstrava todas as suas ações.

— Ele está morto Loren.

— Não está, eu sinto que ele ainda está aqui, por favor, continua. – Ordenou a Loira em desespero. – Vamos Will reaja.

— Desculpe, mas infelizmente eu não posso fazer nada, ele se foi. – Anne se levantava relutante.

— Berry, por favor! – O olhar de Loren para mim meu causara mais choque. – Não fique ai parada, tenta. – Eu não sabia o que fazer, contudo após alguns segundos em transe eu tive uma ideia.

— Anne, tire a mochila das costas dele e procure umas sementes rosa, talvez ele as tenha tomado. – Enquanto isso eu buscava por pulsação, e assim como Anne as não encontrava. – E então? Acho alguma coisa?

— Não, só umas sementes vermelhas, Azuis, Roxas e amarelas. – A menina gritava do outro lado da rede.

— Ele ainda pode as ter ingerido. Loren tampe as narinas dele, essa é a nossa única chance.

Posicionei minhas mãos contra os peitos de Will e comecei a pressioná-los contra seu próprio corpo. Repetia esses movimentos várias vezes seguida na esperança de que ele reagisse e como um presente de uma pequena porcentagem ele finalmente reagiu. Era como se sua alma voltasse num vôo rasante para o seu corpo.

— Ele está vivo! – gritei a todos com um sorriso no rosto. E com um suspiro todos pareciam estar aliviados e comemoravam.

— Berry – A voz de Will quase não era audível.

— Silêncio! – Gritei para que todos se calassem. – Diga Will como você está se sentido.

— Eu não sei muito bem, mas eu acho que eu vou morre, mas antes me escuta...

— Fique tranquilo você não vai morrer. – Tentava passar o máximo de positividade.

— Só me escuta, eu tenho a solução para salvar o Cory e o Mike, você só precisa pegar a minha mochila e lá vai ter uma semente que consegue cicatrizar qualquer ferimento, dê a eles antes que ambos acordem, entendeu salve a vida deles por mim. – Os olhos de Will reviraram e ele começou a ter convulsões.

— Loren, me ajuda a virá-lo de lado. — Assim que o viramos, ele vomitou por alguns segundos e depois desmaiou. Busquei por pulsação, mas novamente não encontrei, contudo ainda conseguia sentir sua respiração. – Não consigo sentir a pulsação, deve estar muito fraca porque ele ainda está respirando.

— Mas enfim, o que vamos fazer? – Loren perguntou temendo a resposta. – Me diga que não vamos perdê-lo de novo.

— Eu não sei o que fazer. Anne você tem uma ideia?

— Eu também não sei, aliás, eu já tinha desistido antes de você. – Observei tudo a minha volta até ver as sementes na mochila de Will.

— Tive uma ideia, Tina, por favor, vá até lá em cima e pegue as sementes rosa. – Tina saiu do cômodo apressada sem pestanejar.

— Você vai mesmo deixar ele desacordado por dias? – Indagou Loren.

— Você tem um ideia melhor? Isso vai estabilizar o quadro dele e se tivermos sorte, com certeza ele voltará recuperado. – Em questão de segundos, Tina estava de volta com as sementes. Antes que eu pudesse fazer qualquer movimento.

— Você tem certeza que isso é o certo a fazer? – Ela segurava meus braços.

— Tenho, e não é a toa que meu irmão também foi uma vítima dessas sementes malucas, você vai precisar confiar em mim e nas sementes. – Ela soltou meus braços e assentiu. Coloquei as sementes em sua boca e torcia para tudo dar certo.

Depois de alguns minutos ele já havia parado de respirar – Precisava acreditar que tudo daria certo e que aquele era apenas o efeito das sementes – As pessoas olhavam assustadas sem entender o que estava acontecendo.

— Ele vai ficar bem? – Pergunto Nofre tímido no meio da multidão.

— Ele vai ficar sim, agora, por favor, não há mais nada o que fazer aqui. Então, vocês podem voltar a refeição. – Disse tentando manter a calma.

As pessoas pareciam se dispersar do cômodo e irem para fora. Depois de alguns minutos tentando me acalmar lembrei-me das palavras de Will – Ele disse que tinha o antídoto – Corri até sua mochila e lá haviam várias sementes de cores variadas espalhadas entre as ferramentas.

— Loren, ele disse qual era a cor da semente que ele queria que eu desse para o Cory e o Mike? – A menina me olhou confusa.

— Eu acho que ele não disse.

— Como eu vou saber qual é a semente certa? Se eu fizer alguma coisa errada eu posso matá-lo.

— E o que você pretende fazer? – Disse Anne que ainda permanecera no cômodo.

— Vocês vão ter que confiar em mim e para isso vão ter que fazer tudo o que eu mandar tudo bem? – As meninas se entreolharam confusas, mas por fim concordaram. – Ótimo, Anne amarre a Loren e não deixe que ela me atrapalhe. – Sussurrei em seu ouvido.

— O que? Como isso vai ajudar? – Indagou Anne.

— Não me questione, só faça! – A garota tirou uma corda da mochila e foi até Loren amarrá-la. – Não a solte em hipótese nenhuma.

— O que você pretende fazer comigo, você ficou louca. – Gritou a loira tentando escapar.

— Agora Tina, traga o Maffy. Rápido! – A morena não relutou e simplesmente saiu do cômodo apressada.

— O que está fazendo, você pretende sacrificá-lo? – Ela tentava se soltar. – Você não pode fazer isso.

— Eu pretendo salvar vidas. E sim eu posso. – A morena voltou com o pássaro nas mãos. O bichano parecia estar dormindo. Peguei uma faca na mochila de Will e me dirigi até o animal.

— Pare com isso, alguém a impeça. – Gritava Loren. Peguei uma das asas do animal e fiz um corte. O pássaro acordou assustado e se rebatia de dor.

— Segure ele Tina. – Peguei todas as sementes nas mãos e dei ao animal. – Anne agora pode solta-la. – Desamarrada ela correu até o animal caído no chão.

— Você é louca, porque fez isso? – Seu olhar furioso tentava me intimidar.

— Eu fiz o que era necessário. Agora fique um tempo com ele e fique atento a qualquer mudança no ferimento.

— Mas... Uma dessas sementes pode matá-lo.

— Isso é um risco que vamos ter que correr. Se nenhuma dessas sementes tiver um efeito negativo, pense que ela poderá salvar duas pessoas. – Todas elas me olhavam como se eu fosse alguma espécie de cientista maluca. – Não fiquem ai paradas. Chamem os mais fortes para levarem o corpo de Will lá para cima, precisamos deixar todos em observação.

Tudo havia acontecido tão rápido que todas as minhas ações e pensamentos não passaram de reflexos e instintos. Por fim, minha cabeça lateja sob uma forte pressão – Precisava tomar um ar fresco. – Passei pela estufa onde algumas pessoas ainda estavam comendo e saí pela saída traseira onde ficava a fogueira e lá fora estava sentada Pietra sobre um tronco jogado na areia em um completo silêncio, com isso aproximei-me devagar e sentei ao seu lado. Após alguns minutos de alguma forma o ar puro me fizera sentir melhor.

— Muito obrigada por tê-lo salvo. – De alguma forma eu tentava quebrar o gelo da situação, porém só depois de alguns segundos ela respondeu.

— Eu não sei o que acontece com essas pessoas para ficarem caíndo pela floresta, não aguento mais carregá-los como uns bebês para cá. Eu definitivamente não tenho vocação para isso.

— Mesmo sem vocação você fez aquilo que era certo. Deve-se orgulhar disso. – Mesmo estando ali presente, seus pensamentos pareciam distantes e de alguma forma eu tentava trazê-los de volta. – E então, aonde o encontro?

— Ele estava a noroeste da fronteira do vale, um pouco distante até do vale das sementes. Ele estava caído no chão, mas ainda estava vivo.

— Você acabou de salvar uma vida, você não se sente especial?

— Não, porque eu não tive a chance de salvar quem eu mais queria.

— Eu entendo, mas Pietra não havia nada o que pudéssemos ter feito pelo Oliver.

— Berry, você ainda não tomou conta da situação?! Enterramos Oliver vivo, ele estava vivo e podia estar conosco agora se não fosse a droga dessas sementes. – Por um momento eu consegui compreender onde estavam seus pensamentos. – Era por isso que eu não queria te ajudar, remoer esse passado e descobrir a atrocidade que cometemos.

— Não é culpa nossa se nos colocaram aqui. Somos para eles com se fossem marionetes. Eu sei que podíamos fazer alguma coisa por ele e fizemos de tudo, por isso não há motivo para arrependimento. Eu sinto saudade da minha antiga amiga Pietra. – Depois de muito tempo desde que Oliver se foi, consegui ver uma lágrima singela escorrer de seus olhos.

— Foi uma culpa conjunta e eu entendo que você não queira aceitar. A verdade aqui é que voltamos aos primórdios e só os mais fortes sobrevivem.

— Tudo bem, eu ainda sim te agradeço o que você fez por mim e por todos aqui. Eu vim só para respirar um ar puro, ou seja, eu já estou indo, qualquer coisa lembre-se que eu estou aqui. – Levantei-me e andei em direção a entrada da estufa.

— Ei espera! – Olhei para trás e a morena mexia em seus bolsos e dali tirou um objeto. – Tome aqui, Will me pediu para entregá-la.

Era uma semente vermelha e como um estalo os pontos se ligaram, então, eu corri até a cabana e subi até o primeiro andar, fui diretamente para alcova e lá estava Loren e Tina. Elas me olhavam assustadas e sem ter menor ideia da situação.

— O que está acontecendo? – Perguntou Tina enquanto eu vasculhava a mochila de Will.

Quando finalmente eu achei as pequenas sementes vermelhas, fui até Cory e Mike deitados nas redes e os fiz engolir. Eu torcia para que meu raciocínio estivesse correto e também para que o efeito anestésico durasse por mais algumas horas. Era como um mar de incerteza numa pequena gota de esperança.

— O que você fez? – Perguntou Tina confusa.

— Eu acho que consegui, salvei a vida deles. – O suor escorria na têmpora. — Agora só nos resta esperar e rezar para que tudo dê certo.

— E vai dar certo, tem que dar. – A morena apoiava as mãos em meu ombro.

— Com licença eu vou ver como o Maffy está. – Loren saía do cômodo com um olhar indignado, enquanto Ralf entrava chamando minha atenção.

— Ei Berry, eu preciso falar com você. – O Moreno parecia sério.

— Aconteceu alguma coisa? – Perguntei apreensiva.

— Não, mas poderíamos falar a sós. – O suspense de alguma forma me assustara.

— Tudo bem, Tina, por favor, fique de olho neles por mim, eu já volto. – Tina concordou enquanto eu e Ralf íamos para fora do cômodo em direção a varanda. – Então, diga o que você quer me falar.

— Bom, eu estava conversando com os outros e decidimos fazer uma nova excursão para o cercamento, então, amanhã de manhã estaremos de saída.

— Espera, essa excursão não é necessária agora. Além do mais, alguns de nós estão a beira da morte, sendo assim, eu acho que essa excursão pode esperar.

— Não, não podemos esperar. Esse é o melhor momento para isso. Estamos com estoque de alimento, muitos de nós já estão se recuperando e temos um maior número de pessoas para carregar as toras.

— Eu ainda não acho certo arriscar, espere as coisas se normalizarem.

— Você quer que eu espere por incertezas? Me desculpe, mas não sabemos nem quando eles vão acordar e ao menos se vão, eu não posso esperar.

— Quando é que você se tornou líder para tomar as atitudes por aqui? Achei que me chamou para entrarmos num consenso.

— Novamente me perdoe, mas parece que o líder não está presente e as pessoas aqui são livres para fazerem o que querem, ou seja, eu não obriguei ninguém a querer ir. Na verdade, essa foi uma vontade do seu irmão, então, acho que eu não preciso de uma permissão, apenas uma notificação.

— Tem certeza que isso não é o seu empoderamento de ex-líder?

— Olha só garota, eu vim aqui em paz. Tivemos nossas desavenças no passado e eu quero deixar isso de lado, então, eu peço para que você não venha deduzir coisas que você não sabe sobre mim. Aliás, foi você quem se afastou por um bom tempo e não deu satisfação para ninguém, por isso, não sejamos hipócritas, porque essa conversa não precisava nem ter acontecido.

— Eu já entendi, eu realmente provoquei muitos estragos por aqui que eu jamais esperava, por isso, agora eu não sou mais ninguém além da culpada. Tudo bem, eu aceito a minha cruz, mas eu não vou deixar me calarem mais uma vez e tirarem a minha voz, o que eu tiver de dizer será dito, porém parece que as pessoas por aqui não escutam muito, então, vai em frente não a ninguem que o impeça de ir, na verdade eu desejo boa sorte. – Nos encaramos por alguns segundos. – Mais alguma coisa ou eu já posso ir?

— Pode ir. – Ele mantinha convicção em sua voz.

Retornei a alcova e Tina estava dormindo sentada em um dos cantos do cômodo, fui até ela e cutuquei seus ombros. A menina acordou em um susto, então, tentei acalmá-la.

— Ei ei, sou eu Berry, se acalme.

— Ai desculpa eu peguei num sono...

— Eu entendo você deve estar bem cansada, pode ir dormir eu fico aqui com eles.

— Acho melhor não, eu ficar, porque caso Cory ou Mike acordem e só vejam você aqui isso talvez possa ser um choque. Eu acho melhor você ir dormir lá em baixo.

— Você tem razão, mas você não comeu nada. Eu vou buscar um prato para você.

— Não precisa, eu vou ficar bem.

— Eu insisto.

Direcionei-me até a estufa e peguei um pouco do resto do ensopado, pus em uma vasilha feita da casca do coco e levei até a fogueira em suas últimas labaredas prestes a se apagar. Tentei aquecer ao máximo a comida e retornei para entregar a Tina, a menina agradeceu e então eu voltei ao primeiro piso, entrei na alcova e todos dormiam – Uns até com alguns leves roncos. – Ver aquele ambiente cheio de alguma forma me trouxe uma sensação estranha e inesperada, quase todas as redes já estavam ocupadas e aquilo me fizera pensar na conclusão de um objetivo. – Cory havia conseguido, ele reuniu pessoas de diversos locais um busca de um objetivo de liberdade, isso era incrível.

Retirei os calçados, a jaqueta e deitei-me em uma das redes. A sensação de leveza pela primeira vez me dominava, por isso, eu tentei relaxar ao máximo e tirar uma boa noite de sono, porém os emaranhados de meus pensamentos me impediam. O acidente de Will, a luta de interesses e os conflitos com as pessoas me fizera imaginar o peso da liderança, e de algum modo eu comecei a enxergar um pouco o lado de Cory, não é fácil estar no comando, mesmo assim alguma atitudes ainda me incomodavam. Entre todos esses questionamentos parece que nesse lugar não existe certo ou errado, mas sobreviver ou morrer.

Depois de uma série de levantamentos de questões eu finalmente peguei no sono e tudo parecia calmo e tranquilo até que fui acorda com uma voz chamando meu nome.

— Berry acorda, ele acordou. – Tina sacolejava meus ombros.

Eu ainda não conseguia processar direito as informações. O sol entrava pela janela e iluminava todo o cômodo e as outras redes já estavam vazias.

— O que já está de manhã? – Tentava abrir os olhos com certa dificuldade.

— Sim, já amanheceu, mas essa não é a questão. Cory acordou não quer vê-lo. – Parece que aquela informação surgiu como uma bomba.

— Ai meu Deus, você está falando sério. – Um surto de felicidade brotara em meu peito. – É lógico que quero ir vê-lo.

— Então vamos, o que você está esperando.

Levantei rapidamente da rede, calcei as botas e pus a jaqueta, então, finalmente subimos. Entramos no cômodo e ele estava sentado em uma das redes de costa para a entrada.

— Espere aí, venha quando eu te chamar. – Surrou Tina. Ela foi até ele ajoelhou-se a sua frente e segurou em suas mãos. – Cory, eu acho que tem uma pessoa que você gostaria de ver. – Disse a morena sorrindo. – Você quer vê-la?

Ele não respondia e nem se movia, parecendo uma estátua. Tina fez um sinal para que eu entrasse e finalmente pude vê-lo frente a frente, seu rosto estava pálido, seus olhos vazios e de alguma forma ele não tivera nenhuma reação expressiva.

— Quem é ela? – Finalmente pude escutar a sua voz.

— Ela é a Berry, sua irmã não lembra? – Tina olhava em seus olhos e pronunciava em um tom sereno.

— Ela não é a Berry, minha irmã morreu. E que eu saiba mortos não podem estar aqui. – Sua a voz era ríspida sem qualquer tom afetivo.

— A questão é que eu não morri, eu estou aqui Cory, Sou eu Berry. – Abaixei-me junto a Tina.

— Eu já disse que ela não é a minha irmã! – Ele gritava furioso.

— Cory, por favor, fique calmo. Sou eu a Berry e eu posso explicar, você pode não estar me reconhecendo agora, mas eu sou a sua irmã e... – Antes meus que eu pudesse terminar a frase sua mão foi de encontro ao meu rosto num tapa. – O que você está fazendo?

— Eu te reconheço muito bem, minha irmã morreu e você deveria estar morta junto com ela porque você morreu para mim. – Ele bufava de ódio e rancor. – Além disso, eu quero que você suma daqui, você não é bem vinda nesse lugar.

— Cory...

— Para de dizer meu nome, Tina tira ela daqui ou ela vai aprender a morre pela segunda vez. Vá embora daqui.

Eu não sabia o que fazer, meu mundo havia se tornado um caos. Eu simplesmente levantei, olhei por mais uma vez em seus olhos antes de ele gritar novamente como um louco para que eu fosse embora e, então, finalmente eu saí do cômodo, desci as escadas e fui para alcova arrumar as minhas coisas, eu fui expulsa do meu próprio lar e talvez essa fosse a minha punição final. Enquanto arrumava minha mochila Tina entrou no cômodo com um olhar desamparado.

— Me desculpa, eu não entendo porque ele agiu dessa forma, você não precisa ir, talvez mais tarde vocês possam resolver as coisas de uma outra forma.

— Não Tina, tudo o que era para ter sido decidido já foi. Ele não vai voltar atrás, eu vi o ódio mortal sobre mim no seu olhar, eu causei muitas feridas, mas eu tentei concertar todas elas, então, eu vou embora sabendo que eu fiz o máximo que eu podia.

— Berry, não você não vai sobreviver lá fora. Você não conhece todas as coisas horríveis que podem acontecer na floresta.

— Eu sei, mas eu vou aprender. Eu sobrevivi lá por três dias apagada, eu acho que consigo sobreviver, contudo agora eu sei que eu estou livre. E eu não me arrependo de nada que eu possa ter provocado.

— Você pode me dizer, então, aonde você vai ficar? Para que eu possa ao menos ver se você está bem.

—Bom, na verdade eu não sei para onde ir, pois sair daqui não estava nos meus planos, mas tudo bem, vai dar tudo certo. – Eu finalmente já havia terminado de arrumar a mochila. – Olha só, antes de ir eu só peço uma coisa, cuide deles por mim. Você acha que pode fazer isso?

— Posso, assim como vou.

— Era isso que eu queria ouvir. Agora mais uma pergunta. Onde estão os outros? Já partiram?

— Sim, todos eles já foram, exceto por Loren que está na varanda lá em cima e a Pietra que como sempre foi caçar.

— Ótimo, tudo parece estar sob controle, então eu já posso ir. Adeus! – Por fim, nos abraçamos.

— Até logo!

— Aliás, caso Maffy não fique bem, diga a Loren que eu sinto muito. – Ela simplesmente assentiu.

Eu finalmente saí do cômodo sem conseguir segurar as lágrimas, era como se eu estivesse em um desafio de subir escadas que eu não sei se conseguiria. O preço de me sentir livre me trouxera uma vida sem regras e objetivos, agora era só eu, minhas escolhas, meus pensamentos e minhas conquistas. Tinha agora total controle sobre minhas decisões em uma vida que eu ainda não tinha opções.