The New Continent
17 Capítulo 16 – Suspeitos.
Notas iniciais
Will
15 fevereiro, 2200, 19:45.
A tempestade ainda vagava lá fora com os relâmpagos e trovões. Estávamos todos reunidos na alcova do quarto do térreo ainda em choque com o que acabara de acontecer. O silêncio somente transportara as incertezas e angustias que cada um de nós mantínhamos escondidos em nossos pensamentos. Era como se o quebra-cabeça não estivesse incompleto, mas que viesse com uma peça extra fora daquele conjunto.
Mesmo todos relutantes em acreditar naquilo, Tina pareceu ser a mais surpreendida diante de toda aquela confusão, seu rosto começara a ficar pálido junto a uma leve tremedeira que não conseguia conter:
— O que? Por favor, eu não estou brincando, alguém pode me contar o que está se passando por aqui? – Perguntou Tina séria, entreolhando todos à sua volta.
— Estamos falando a verdade, você não se lembra de nada mesmo? –Perguntou Berry.
— Lembrar o que? De estar morta. Como posso estar morta se estou aqui. Por favor, eu não estou gostando nada disso. Já perdeu a graça – Relutou a morena.
— Tina, por favor, se acalma. Berry está falando a verdade. Não se sabe ao certo, mas... Seu corpo faleceu há alguns dias e não sabemos o que aconteceu para que você estivesse viva agora. Na verdade estamos tão surpresos quanto você. – Loren tentou acalmar a situação.
— Todos vocês estão me acusando de estar morta, é isso? Então o que vocês estavam fazendo lá fora era o meu enterro?
— Você não se lembra da febre? Da dor? Já faz quatro diz que seu coração parou de bater e seu corpo não reage.
— Febre? – Um silêncio permeou por alguns segundos e todos pareciam esperar uma reação, quando Tina pôs as mãos em sua cabeça e começou a tremer. Todos pareceram recuar sem saber como agir, até que ela estagnou-se e começou a chorar ofegante. Seu corpo parecia que iria cair no chão, mas ela foi acudida antes de tombar. –Eu me lembro. Lembro da dor, da quentura, do meu corpo desfalecer e do rosto da Loren. Ma-Mas... Como isso é possível?
— Essa é a resposta que todos queremos saber. – Acrescentou Cory. – Tina você tem certeza que não lembra mais de nada depois disso?
— Não, eu não me lembro mais de nada.
— Por favor, estamos exigindo demais dela. Seu corpo está fraco ela precisa descansar. – Disse Berry apaziguando a situação.
— Precisamos de respostas Berry, o que acabou de acontecer não foi algo normal. Tina, por favor, peço para que se esforce mais um pouco.
— Chega Cory, Não pode exigir tanto dela assim!
— Berry olha o que você acabou de testemunhar. Não podemos encarar a situação dessa forma. Espera que nada seja feito com relação a isso.
— Pare, não aguento mais você tomando as rédeas de tudo. As coisas não são como você acha que devem ser.
— Berry seu irmão tem razão como você espera dormir hoje com uma pessoa que acabou de ressuscitar do além. – Opinou Ralf.
— Olha só você acabou de chegar, quem você acha que é para se meter nas coisas por aqui hein.
— Eu só estou tentando ajudar garota. – retrucou o rapaz. – Eu não estou aqui para escutar baboseiras de uma garota mimada.
— Berry eles tem razão não podemos deixar essas interrogações. – Comentou Pietra.
— Mimada? Até você Pietra. Gente não é assim que se resolvem as coisas.
— E você tem alguma solução melhor maninha?
— Deixa Berry, eu posso tentar me esforçar. – Afirmou Tina.
— Não, você precisa descansar e relaxar, não se resolve nada de cabeça quente. Loren me ajude a levá-la lá para cima, eu vou fazer algo para ela comer.
— Mas Berry... – Começou Loren.
— Por favor, Loren, não começa, acho que já encerramos o assunto por aqui.
— Quando foi que você começou a se tornar tão egoísta? – Perguntou Cory. – E afinal quem é que te intitulou a tomar as decisões por aqui?
— Ao mesmo dia em que você se tornou tão soberbo. E o problema foi que isso aqui mexeu totalmente com a sua cabeça. – O olhar fulminante entre os irmãos deixavam todos constrangidos.
— Por favor, parem com essa discussão idiota. Vocês não vêem que isso não os levara a nada. Berry tomou uma decisão e eu concordo com ela. Já temos problemas muito maiores do que esse no momento.
— Obrigado, Will. Loren vamos?
— Eu não sou médica, mas sei algumas coisas de como cuidar de doentes, se quiser eu poderia ajudar. – Mencionou Zenaya.
— Não precisa se incomodar, eu não preciso da sua ajuda. –Disse Berry saindo do quarto levando Tina, Loren e até mesmo o próprio Maffy consigo.
— Eu só queria ajudar, mas... – disse Zenaya. – Tem algumas pessoas ainda que precisam amadurecer.
— Nossa que bicho mordeu a sua irmã, ela é bem esquentadinha assim sempre? – Ironizou Ralf.
— Pior que isso foi uma surpresa, desculpe-me pela minha irmã, mas nem ao menos eu sei o que deu nela. – Falou Cory.
— Eu não vou ficar aqui assistindo essa palhaçada de relações familiares. Boa noite para vocês – Pietra se despediu saindo em seguida.
— Já está quase escurecendo. E não há como acender a fogueira lá fora, acho melhor irmos dormir.– Comentei.
— Antes, Cory eu poderia falar com você, eu tive uma ideia e queria saber se você aprovaria – Acrescentou Ralf.
— Tudo bem, vamos lá em cima. Will deixo a organização das coisas aqui por sua conta. – Dessa vez Cory e Ralf deixaram o cômodo. Deixando a mim o encargo de organizador.
— Bom, vocês podem dormir por aqui mesmo, escolham as redes que quiserem. Zenaya lá em cima tem mais um aposento das garotas, se você quiser...
— Acho melhor não, a Berry... Enfim eu não me importo de ficar aqui em baixo.
— Tudo bem, vocês podem deixar suas coisas nas prateleiras, se sentirem fome vocês podem comer algumas frutas na estufa, mas lembrem-se sem nenhum exagero e o banheiro a natureza faz o seu serviço. Lembrem-se nunca entrarem no mar.
Todos pareceram ter entendido as regras e cada um foi se acomodando em seus respectivos espaços para irem descansar depois de um dia tão exaustivo e conflituoso.
Deixei a alcova e subi até o segundo andar na para ver como estavam às garotas. Berry já havia descido para preparar a refeição, Tina estava deitada numa rede sonolenta, enquanto Loren estava à beira da janela olhando o exterior. Aproximei-me dela devagar e entrei em seu transe:
— Ai que susto Will. – A menina arrepiou-se e em seguida sorriu.
— Te assustei? me desculpa. – Disse sem graça. – Mas e então o que você está fazendo?
— Estou pensando, a paisagem lá fora me ajuda a refletir melhor. – Ela olhava fixamente para o mar. – Sabe aquela sensação de que algo ruim vai acontecer e seu coração se comprime ao tamanho microscópico.
— Mau pressentimento?
— Sim, mas parece que isso esta indo muito além, algo mais forte. Eu não sei como explicar mas...talvez isso seja coisa da minha cabeça.
— Por que diz isso? Se depender de mim pode deixar essas coisas não vão acontecer.
— Tudo bem o super homem – A loira riu num sorriso singelo. – Eu não sei se concordo com a atitude de hoje. Eu gosto muito da Tina, e eu não sei nem o porquê. Acho que estava sofrendo de carência. Todos que me ajudaram eu aprendi a criar uma espécie de afetividade, e eu ainda posso acabar me machucando com isso, ainda não sei lidar com a perda. E o que acabou de acontecer foi à coisa mais estranha que eu já vivi e isso ta causando uma embolação na minha cabeça. Sinto-me muito dependente, como uma refém da minha própria vida. Não sei como eu pude ser tão tola para estar aqui.
— Não diga isso, bem ou mal fomos todos enganados. Afinal precisamos um do outro e eu conto com você para isso. Sobretudo eu entendo que talvez essa angústia de não poder prever o dia seguinte, de não ter uma rotina. Viver acompanhado pelo medo, realmente mexe com a gente, mas precisamos ser forte. Nós vamos conseguir.
— Sinto saudade do controle da minha vida. Somos apenas rodeados de incertezas. – As lágrimas escorriam daqueles grandes olhos azuis.
— Me escute e preste bem atenção. Seja lá qual for o problema, conte sempre comigo, eu vou estar sempre à disposição. – Ela finalmente olhou para mim e sorriu me dando um forte abraço.
— Que pouca vergonha é essa aí, beija logo – Surpreendi-me ao ver Tina acordada.
— Não é nada disso só estávamos conversando. – Mencionou Loren envergonhada.
— Eu acho que eu já vou dormir, Boa noite para vocês. – Disse deixando o Cômodo.
— Vai lá galanteador. – Brincou a morena em meio aos risos.
Desci até o térreo e antes de ir dormir, passei na cozinha para pegar um pouco de água, quando eu entrei no cômodo lá estava Berry e Pietra, ambas com semblantes sérios e por dedução percebi que ali houvera uma pequena discussão e eu houvera atrapalhado.
— Não sabia que ainda estava acordado Will. –Disse Berry.
— Faça o que quiser eu vou dormir. – Pietra levantou de um dos bancos e saiu se esbarrando em mim.
— Sim na verdade eu só vim tomar um pouco de água. –Respondi confuso.
— Fique a vontade. As garrafas estão debaixo daquela bancada. – Apontou a morena de olhos acinzentados para uma bancada de madeira em um dos cantos da estufa da cozinha.
Direcionei-me até a bancada indicada, bebi uns três goles de água e fui diretamente para a alcova. Todos já estavam dormindo exceto Ralf que não havia voltado da tal conversa. Deitei sobre a mesma rede da outra vez e por sua vez o cansaço fez com que não tivesse dificuldade nenhuma de pegar no sono.
Acordo no meio da madruga escutando um barulho do ranger na madeira que não me deixou dormir. Esfrego as mãos sobre o rosto e concomitantemente levanto da rede e vou conferir a origem de tal som. O barulho vem da estufa e lentamente me aproximo. Da soleira da porta vejo um vulto, tenho a apreensão por alguns segundos hesitante em continuar. Depois de respirar fundo eu parto em direção a escuridão do cômodo:
— Ei quem é você? – O corpo se vira rapidamente e vejo Zenaya com uma faca em uma das mãos. – Zenaya? O que está fazendo acordada há essa hora com uma faca?
— Ai desculpe Will, eu não queria assustar ninguém, na verdade eu estava muito apertada e precisei ir lá fora, eu levei essa faca para me sentir segura.
— Ah tudo bem, me desculpe eu então por ficar te interrogando a essa hora da madruga. Você não vem dormir?
— Sim, estava indo fazer isso agora.
Voltamos para o quarto e dessa vez vi Ralf deitado em uma das redes, voltei ao meu recanto de sono e fiquei de espreita com tal situação, vive Zenaya se deitar a algumas redes da minha e adormecer, voltei a olhar para o teto e assim passei o resto da noite até conseguir dormir novamente, dessa vez sem interrupções.
Na manhã seguinte a natureza resolveu nos presentear, com uma temperatura agradável, o sol radiante e uma brisa fresca. Por algum momento aquele clima me lembrara os primeiros dias de horror que passei sozinho nesse lugar, um paraíso ilusório. Quando eu acordei todos já houvera despertado, fui cambaleando até a estufa onde Berry preparava a refeição matinal. Cory e Ralf estavam cortando os cocos, enquanto Nofre e Jihan tentavam pescar numa tentativa falha e Loren e Zenaya faziam uma espécie da faxina no andar de cima.
Senti-me um inútil sem ter o que fazer, logo fui até a beira do mar lavar o rosto e quando retornei prestei minha ajuda a Berry com a comida, que aceitou sorriso. Conversamos por algum tempo e toda aquela menina que ontem tomou tal atitude parecia ter desaparecido, encarnado na primeira vez que a conheci, ainda sim alguma coisa em seu olhar me deixa inquieto.
Deu à hora da comida e todos se reuniram na cozinha para comer, Berry subiu para levar a comida até a Tina que ainda se encontrara fraca e cansada. Começamos a comer, porém o clima da situação se mantivera estranho como algo vazio. Ninguém conversava entre si, todos estavam com rostos sérios e um estado de tensão vagava por ali. Até que Cory começou seu discurso repentino:
— Bom, primeiramente onde está a Pietra?
— Ela acorda muito cedo e sempre vai caçar, e como uma espécie de rotina. Não conte com a presença dela durante o dia. – Afirmou Loren.
— Tudo bem, tudo bem. Iríamos precisar dela, mas eu acho que se todos participarem nós iremos conseguir. Chega de enrolações, o fato é o seguinte, eu e Ralf estávamos conversando ontem à noite e ele nos sugeriu uma ideia bem pertinente, irei ser breve. Já repensamos todas as questões geográficas e estruturais e chegamos à conclusão de cercarmos uma parte da faixa litorânea para usarmos para banho e até mesmo encanamento futuro. Vamos poder usar o mar sem medo de sermos engolidos por uma criatura estranha. O que vocês acham?
— Isso não é meio arriscado, afinal como vão fazer para fazerem isso? – Perguntou Zenaya.
— Ah sim, ai vem a segunda parte, precisaremos de vocês para recolhermos o máximo possível de madeira da floresta para construirmos a barreira. Vamos cortar a madeira entrelaçá-las em cordas e assim criar um cordão da ponta das pedras até a faixa de areia. Vamos aproveitar o formato côncavo da praia para isso. Então todos estão de acordo? – Começaram com os burburinhos até que todos concordaram com a ideia. – Ótimo, terminem de comer e vamos começar hoje mesmo, preciso do número máximo de vocês para isso, tudo bem.
Todos levantaram a mão, com exceção de Berry. Ela alegou ficar para cuidar de Tina e descobrir mais coisas sobre o ocorrido. Em seguida após todos terminarem de comer, começamos a aprontar as mochilas e equipamentos para partirmos. Olhei meu relógio de pulso e havia uma mensagem de Steve dizendo: “Preciso falar com você”. Ignorei a momentaneamente e continuei a agilizar minhas tarefas.
Os aventureiros se reuniram todos ao lado de fora da cabana, para refazerem o plano e ficarem preparados a qualquer coisa. Até mesmo o Maffy aos ombros de Loren. Cada um com suas mochilas nas costas, botas no pé e a determinação estampada nos rostos, lembrando fortes soldados as vésperas da guerra. Antes de irmos Ralf fez umas considerações finais:
— Bom, todos estão certo de quererem ir? – As pessoas ali assentirão com a cabeça, então o moreno continuou a falar – Tudo bem. Vamos andar por um bom pedaço até ao cume de pinheiros. A madeira dos pinheiros são mais forte para construirmos a barreira. Não teremos muitas paradas de descanso, pois o caminho e longo e não há muito tempo para isso. Comida encontraremos no caminho e por fim tomem cuidado com a selva. Ficaremos todos juntos para evitar qualquer tipo de problema. Entendido?
Os peregrinos assimilaram total informação e assim começamos a transcorrer selva à dentro. Íamos em fileira ajudando uns aos outros a atravessar quaisquer tipo de obstáculo. Ainda me surpreendia em vagar por aquele lugar, uma natureza fascinante e encantadora com uma enigmática aparência magnética.
Depois de andarmos por cerca de uma hora encontramos arbustos frutíferos, eram pequenas esferas amareladas, testamos alguma delas e o único perigo é conseguir comê-las sem fazer qualquer tipo de careta de seu gosto extremamente azedo. Paramos por uns dois minutos e continuamos a caminhar até chegarmos a um riacho:
— Temos um riacho aqui, tomem cuidado. Eu vou na frente. – Cory pulou entre umas três rochas e chegou ao outro lado do rio. – É seguro, podem vir.
Começamos a ir um por um, primeiro Ralf, em seguida Jihan, Nofre, Loren até que na vez de Zenaya a menina escorregou os pés entre as pedras e caiu.
— Zenaya está tudo bem com você? – As vozes iam quase que em único som.
— Está tudo bem, fiquem tranquilos, eu só torci o pé. – Disse a oriental ofegante – Acho que não vou conseguir continuar.
— Sem problema, precisamos te tirar daí. Puxe a minha mão. – Estendi o braço até ela e a puxei para cima. – O que pretende fazer?
— Eu acho que vou voltar à dor está piorando, vou ver se lavo esta ferida de uma vez e faço um curativo nisso logo.
— Eu vou com você, não se preocupe.
— Não, não precisa se incomodar eu irei ficar bem, eu posso voltar sozinha. – Insistiu.
— Mas... Eu não posso te deixar ai desse jeito, você quem me ajudou daquela vez lembra.
— Eu sei, mas agora é diferente, eles precisam de você para carregar as madeiras, não se preocupe comigo só peço para que pegue uma faca e me entregue e que leve a minha mochila por mim tudo bem?
— Claro, Claro eu levo sim, se cuida hein.
— Eu vou. – Finalizou a com um sorriso.
— Ei ela está bem? Vocês vão demorar muito aí?
— Não eu já estou indo, tome cuidado Zenaya.
A garota se despediu retornando cambaleando novamente os nossos passos, enquanto eu prossegui atravessando o riacho de encontro ao resto.
— O que aconteceu com ela? – Perguntou Ralf.
— Ela torceu o pé disse que queria voltar, eu quis evitar que ela fosse sozinha, mas ela insistiu.
— Tudo bem, vamos continuar não podemos perder mais ninguém. – Gritou Cory.
Continuamos a caminhar por longas horas até avistarmos um quadrúpede aparente inofensivo. Cory retirou sua lança e a jogou contra a cabeça do animal, a morte foi rápida e brutal:
— Quem ai está afim de um pedaço de carne no almoço? – Ironizou o moreno.
Fomos de encontro ao animal e começamos a descamar a sua carne, o sangue foi para todos os lados. Loren ficou afastada para que Maffy não presencia-se aquela cena horrenda. Ascendemos uma fogueira improvisada, sentamos a volta do fogo e comemos a carne do animal pré-assado. Todos se deliciavam exceto a loira.
— Não vai comer? – Indaguei.
— Não sei como vocês conseguem, é nojento.
— Faz parte da sobrevivência, prove garanto que não irá se arrepender – A menina olhava ainda relutante até que a convenci.
— Tudo bem, me empreste uma faca, acho que eu deixei a minha na cabana.
Retirei a mochila das costas, peguei a faca e a entreguei. Loren cortou um pedaço da carne e a pôs para assar. Depois de um tempo ela comeu e deu um sorriso lambuzado.
— Não disse que iria gostar.
— Não é tão ruim assim, na verdade é menos nojento do que eu pensava.
Depois de nos satisfazer continuamos a andar e dessa vez sem pausas. Andamos cerca de mais duas horas até chegarmos ao pé do cume. Subimos a alguns metros dos pinheiros mais grossos e o desmatamento começou a acontecer. Todos pegaram suas serras e começaram a cortar as árvores, a queda delas fazia um barulho estrondoso, mesmo sentindo remorso aquilo se tornou algo necessário. Estava com dificuldade em conseguir cortar até que Ralf veio-me auxiliar.
— Você não vai conseguir nunca arrancar isso aí, precisa primeiro arrancar os galhos com a faca está vendo – O rapaz arrancava os galhos com a maior facilidade. – Viu?
— Obrigado eu vou tentar, mas minha faca ficou com a Loren, você viu ela por aí?
— Ela foi cortar as árvores ali em cima com o Jihan. – Ralf apontou para Jihan a alguns metros acima da montanha. Andei até lá e encontrei-o.
— Jihan você viu a Loren?
— Sim ela veio subindo comigo mais depois não a vi mais, por que?
— Eu estou procurando por ela, mas ainda não encontrei, mesmo assim obrigado.
— Quer que o ajude a procurar? – Assenti e o garoto e eu começamos a gritar pelo seu nome e nada de encontrar-la.
Reuni-me até aos outro para alertá-los do sumiço de Loren.
— Como assim ela sumiu? Ela estava aqui agora a pouco. – Indignou-se Cory.
— Gente, gente eu achei umas pegadas por ali, acho que ela foi por lá.
Seguimos andando aquelas pegadas que subiam para o alto do cume, as árvores ficavam cada vez mais sombrias e o frio aumentava subitamente. Chegamos até uma parte aonde não houvera mais pegadas, porém continuamos a prosseguir caminho até chegarmos ao fim da linha no topo de um abismo de onde havia uma paisagem contempladora e hipnotizante.
— Nossa que Incrível – Mencionou Nofre de olhos arregalados e cansados.
— Eu nunca imaginei que esse lugar fosse tão bonito daqui de cima – Apontou Jihan para aquele cenário fantasioso.
— Gente, não podemos perder tempo, precisamos encontrar-la – Relatou Cory impaciente.
Nesse momento um barulho estrondoso começou a ecoar naquele perímetro, alastrando-se no ar velozmente, o chão sobre nós começou a tremer e sem ao menos tempo de reação, tudo desabou em baixou de nossos pés nos levando com a terra. Ao contrário de cenas cinematográficas de câmera lenta, tudo aconteceu tão de pressa como um ato involuntário que nada se passou pelas nossas cabeças soterradas.
Aos poucos consegui abrir os olhos a visão estava meio turva, porém gradativamente vi um teto de madeira com um ventilador ligado. Fui descendo minha visão e vi uma estante com livros, discos, troféus e fotografias, tudo aquilo me era familiar, quando percebo uma senhora abrindo a porta do quarto:
— Bom dia Will, está preparado para o seu grande dia?- A senhora entra no quarto com uma bandeja de café da manhã. Eu sabia que eu conhecia aquele rosto.
— Vó? O que está acontecendo? – Perguntei ainda zonzo. – Onde estão os outros?
— Calma querido, você provavelmente estava sonhando, hoje é o seu grande dia no CAIG. Está nervoso? – Perguntou em meio a sorrisos me entregando a bandeja.
— Não , não pode ser eu já me inscrevi para o CAIG, e vó não é nada daquilo que vocês estão pensando é horrível eles enganam as pessoas...
— Como assim? Você está dizendo isso é porque não quer mais participar do concurso?
— Não vó, não é nada disso. Você não tem ideia das coisas que eles fazem com as pessoas é surreal.
— Tudo bem, me conte essa história enquanto estivermos indo para lá, seus pais não vão poder te levar então eu vou com você. – Ela dizia enquanto se virou para sair do quarto.
— Ei vó, volta aqui eu estou falando a verdade. – Quando minha avó ousou a virar já não era mais seu corpo que tomava aquele espaço, mas sim o de Steve.
— Você devia ter escutado a sua avó o otário. – Seus risos me recordavam o medo e fui tomado de uma raiva avassaladora.
Depois de uma sessão de horrores acordei soterrado pelo barro com o coração acelerado e coberto de terra. Tudo não se passou de mais um pesadelo. O sol já estava se pondo, afinal quantas horas fiquei desacordado? Levantei com dificuldade, conforme saia lembranças do desabamento começou a retornar a memória, meu corpo estava todo dolorido, não sabia como sobrevivi a aquela queda.
Meus ossos estalavam enquanto me movimentara, olhei ao redor o estrago e logo comecei a procurar pelos outros, antes mesmo de remoer a terra encontrei duas mãos entrelaçadas e soterradas na terra, fui cavando rapidamente até encontrar Jihan e Nofre. Os garotos acordaram assim que os tirei dali, assustados:
— Olha só não é nada disso que você está pensando. Eu e Nofre estávamos de mãos dadas por causa do acidente que eu tentei segurar ele e ele acabou me levando junto, foi só isso. – Jihan dizia apressadamente.
— Calma, eu não estava pensando em nada, mas agora que você comentou, pode deixar que eu vou guardar seu segredinho – Ironizei rindo.
— Eu já disse que não é nada disso...
— Deixa de enrolação, procure o resto das pessoas. – Os meninos começaram a trabalhar.
Cavamos por algum tempo até que eu achei Cory, puxei o para fora e após uns impulsos no peito ele acordou em desespero.
— O que está acontecendo aqui? – O peito dele arfava em busca de ar.
— O monte desabou, caímos aqui e eu na faço a mínima ideia de quanto tempo ficamos desacordados, acho que talvez umas cinco horas, pois já vai escurecer.
— E o resto do pessoal? Todos estão bem?
— Não sei. Não encontramos Loren ainda e já reviramos tudo atrás do Ralf, encontramos apenas um buraco na terra que esperamos ter sido o dele.
— Então vamos embora daqui, já sofremos muita coisa por hoje. – Ajudava Cory a levantar-se.
— Concordo, Jihan e Nofre. – Os garotos cansados olhavam para nós — Venham vamos embora daqui
— Mas e o Ralf?- Indagou o gordinho.
— Acho que ele já foi. – A circunstância me fizera fugir de qualquer sentimentalismo.
— Sem a gente? Ralf nunca nos deixaria aqui. – Acrescentou o magricelo.
— Já procuramos o por toda a parte e o máximo que encontramos foi aquele buraco, vamos embora logo, antes que possamos perder mais alguém. – Os rapazes desolados desistiram de procurar.
Reunimo-nos mais uma vez, porém dessa vez tivemos de planejar outro caminho para a volta. Provavelmente a noite ia nos alcançar antes que chegássemos à cabana. Ficamos quase que colados uns nos outros para não nos perdermos, tínhamos mais umas quatro horas de viagem pela frente. Andamos em torno de meia hora só até chegarmos à rota principal, ainda sim presenciávamos de um bom pedaço de terra pela frente. Nossos corpos estavam exaustos, relutávamos contra nós mesmo para poder dar sequencia a caminhada inóspita.
Por um momento uma série de recordações e preocupações com os outros que ficaram pra trás revoaram minha cabeça, principalmente com Loren, as palavras da menina do dia anterior vieram-me à tona eu esperava que ela estivesse errada, mas eu não pudera fazer nada a arriscar mais alguém. Almejava encontrá-los todos vivos e seguros assim que chegássemos. Durante o percurso nem se quer qualquer pista de ninguém do grupo, ou melhor, família, já os considerava como parte de mim. À noite nos pegou no meio do caminho, porém isso não foi obstáculo para desistência, continuamos a prosseguir sem parar.
Gradativamente nossos corpos chegaram ao limite, usávamos da persistência um do outro, afinal faltavam apenas poucos quilômetros. Quando finalmente chegamos à faixa de areia da praia, ajoelhamos na areia e pedíamos para nunca mais levantarmos dali. A emoção não durou muito tempo até vermos a tenda toda apagada, sem nenhum sinal de vida ou de tochas acesas.
Levantamos e fomos cambaleando até a entrada da cabana ao entrarmos tudo estava escuro, num breu total. Chamamos por alguém e nada de respostas. Pegamos algumas das tochas do lado de fora e as ascendemos, a estufa estava toda revirada como se um furacão estivesse invadido aquele lugar, manchas de sangue por toda a parte, um cenário de carnificina, e o mais assustador que nos deixou paralisado foi ver a mensagem escrita em sangue em uma das paredes:
“Berry foi a primeira a visitar o inferno, se preparem para os próximos.”
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