The New Continent
18 Capítulo 17 – Mar de dúvidas.
Notas iniciais
Will
16 fevereiro, 2200, 20:46.
Era como se todo esforço de anos desmoronasse em apenas segundos. Retornávamos a estaca zero de toda aquela estabilidade, pois a paz se acabou e só nos restara sofrer e recomeçar. Não soubera descrever o sentimento tão mesclado em diversas emoções, afinal quem tivera coragem de cometer tal atrocidade. Somente gostaria de dar fim aquela situação. Quem diria que a volta para o lar seria bem pior do que pensávamos.
Conforme as coisas em minha mente eram ligadas, um turbilhão de sensações e especulações se formara para construir um contexto obscuro. Mesmo depois da mensagem ainda me encontrara imóvel, vendo Cory cair de joelhos e chorar aos prantos como uma criança espantada, Nofre e Jihan pareciam estar assim como eu confuso. Imagens começaram a vagar sobre minha memória e foi então que saí do meu transe. Corri até a alcova do térreo e ninguém estava lá, subi até o segundo andar e fui de retirada aos aposentos das garotas, para minha surpresa tudo estava na maior normalidade, porém o que mais me chamou atenção foi ver Tina adormecida em uma das redes. Fui de encontro a ela em desespero e comecei a sacolejar seu corpo até que ela despertou:
— Tina! – Berrava em tons altos sem ao menos perceber. – Tina, por favor, me diz que é tudo uma brincadeira. Que nada disso está acontecendo.
— O que? Do que você está falando Will? Afinal o que está acontecendo? – A morena permanecia ainda sonolenta e confusa.
— Onde está a Berry? Por favor, me diga aonde ela está – Pronunciava as palavras rápido ainda segurando nos braços da garota.
— Eu não sei, ela não está lá em baixo. Will se acalme o que está havendo?
— Veja com os seus próprios olhos! – O tom de voz ficara mais baixo, acompanhado de um semblante sério.
— Me ajude a levantar, por favor. – A menina esticava os braços para minha direção. Andei de encontro a ela e a coloquei de pé. – Will, você pode me adiantar o que está acontecendo?
— Berry está morta Tina.
— O que?! Como... – A menina gaguejava.
— Eu não sei, não tenho a menor ideia do que está rolando. Isso não faz sentido. – Andava de um lado para o outro com as mãos sobre a têmpora. — Não foi você quem fez isso, não é? – Perguntei presunçoso. – E nem sabe alguém que tenha feito?
— Não! – Seu semblante indignou-se – Acha mesmo que eu teria feito uma coisa dessas.
O assunto se encerrou por ali, ajudei-a ir até o andar de baixo e então retornamos a estufa, aquele cenário repugnante. Jihan e Nofre estavam na parte de fora da casa à espera de qualquer outro membro, Cory permanecera comprimido no chão ainda chorando em silêncio, até que Tina após fitar aquele cenário, abaixou-se ao lado do rapaz e o abraçou, no entanto ele reagiu de maneira inesperada, colocando as mãos no pescoço da garota e a imprensando contra a parede:
— Foi você não é, sua vadiazinha. Desgraçada eu vou te mandar para o inferno pela segunda vez. – Ele apertava o pescoço de Tina até ela não conseguir respirar. Fui correndo em direção e eles e empurrei o dali segurando o no chão. – Me solta você vai ficar do lado dessa traidora.
— Pare Cory, ela disse que não fez nada. – Tina ainda repusera o ar.
— Não acredito nela, é uma mentirosa, me larga eu vou matá-la. – Seu braço conseguiu sair de meu controle, acertando com seu punho diretamente em meu rosto.
— Já chega, isso não é culpa dela – Eu tentava segura-lo caído sobre ele.
— É sim, tudo isso é culpa dessa desgraçada. – O moreno pegou um coco caído no chão e chocou sobre a minha cabeça me fazendo recuar dessa vez. – Eu disse que era para me largar.
— Corre Tina, Jihan e Nofre estão lá fora. – Antes mesmo de a morena correr ele a puxou pelos cabelos a jogando no chão ao meu lado.
— Volta aqui, você não vai se livrar de mim. – Cory nos olhava com um olhar insano e fumegante. Quando ele ia pisar sobre Tina, coloquei-me na frente recebendo um chute em cheio nas costelas – O que você está fazendo, protegendo ela, saia logo da minha frente ou vai morrer com essa aí. – Uns segundos de pausa se permeou – Eu não queria te machucar, mas foi você quem pediu. – Já estava sentindo a força de seus pés sobre minhas costas, até que em seguida seu corpo caiu repentinamente desacordado ao nosso lado.
— Ninguém vai matar ninguém por aqui – Reconhecia aquela voz, ao virar-me vi Pietra em pé com um pedaço de madeira nas mãos. –Ande logo, levantem-se. Fiquem tranquilo ele não morreu, a pancada só foi o suficiente para deixá-lo inconsciente. Afinal que merda esta acontecendo aqui. – Levantei-me e ajudei Tina a levantar, ela agradeceu, enquanto Pietra analisava a cena do crime. – Ele fez isso?
— Não, não sabemos quem fez isso, na verdade ele jogou a culpa para Tina, foi esse o motivo da briga. – Limpava minhas roupas da sujeira que estava no chão. – Sabe quem fez isso?
— Não, não faço à menor ideia. O sangue ainda está fresco, mas parece que isso já foi entorno de algumas horas e ainda não sei o que, mas tem algo estranho por aqui.
— Tipo? – Indaguei.
— Eu não sei, preciso tomar um ar depois disso. – Pietra recolhe suas tralhas e sai pela entrada dos fundos.
Fitei toda aquela cena e depois vi o corpo de Cory no chão, olhei para Tina e então pegamos Cory pelas mãos e pés e os levamos até uma rede da alcova do térreo. Retornei a estufa e comecei a analisar aquele acidente. As marcas de sangue vinham da bancada de onde normalmente Berry costumava cortando os alimentos até a entrada dos fundos, seu corpo deve ter sido arrastado com muita brutalidade. Segui as marcas e encontrei Pietra sentada em um toco com os olhos cheios de lágrimas, pela primeira vez vi a garota mostrar um pouco de sentimentalismo. Retornei para dentro da cabana, não queria atrapalhar aquele momento, além do mais as marcas se perdiam na areia que ainda tinha vestígios de sangue.
Sai então pela entrada principal, e vi Jihan e Nofre correr em direção a selva de encontro a uma pessoa, forcei um pouco a visão e vi Zenaya, A menina parecia cansada, se ajoelhou na areia assim como nós e foi seguida dos amigos que a abraçaram e fizeram companhia. Com todo o reboliço não tivera nem ao menos tempo para beber água, mesmo assim não gostaria de voltar à estufa para ver todo aquele terror sombrio. Não tinha ideia de como agir, pensar e nem gostava do fato de ficar estático sem fazer nada. As imagens da falecida nadavam em minha mente, seu sorriso, seu rosto, seu olhar e até mesmo sua morte.
Retornei a cena do crime e parece que em cada canto eu vi o assassinato em tempo real, seu corpo sendo jogado, arranhado, arrastado e logo despedaçado pelo excesso de sangue, queria ter esperança de ter sido apenas um sequestro ou algo assim, porém a provas me aliciava somente a um único pensamento, a morte. Não aguentava mais sentir o cheiro da carnificina, peguei alguns frutos no cesto de alimentos e saí para longe dali em direção aos outro lá fora. Quando eu me aproximei-me deles todos estavam conversando entre si, quando notaram minha presença todos levantaram e começaram a se ajeitar:
— Will, os meninos me contaram o que aconteceu. Eu sinto muito. – A oriental demonstrava solidariedade.
— Eu também sinto muito, ela era uma boa pessoa, não merecia uma morte como essa. – Todos permaneceram mudos e imóveis – Então, está tudo bem com você Zenaya?
— Sim estou bem. Eu não disse que não era para se preocupar. – Brincou a menina.
— Muito bom, vejo que os seus pés já estão melhores. – A garota assentiu e em seguida peguei os frutos em minha mão e os ofereci – Vocês querem? – Cada um pegou um e começaram a devorar. – Então, sobre o que estavam falando.
— Estávamos conversando sobre o que aconteceu com o desmoronamento hoje, do sumiço de Ralf essas coisas – Interrompeu Jihan.
— Ah sim, afinal Zenaya o que esteve fazendo o dia inteiro para ter voltado tão tarde?
— Não está desconfiando de mim não é? – Perguntou a indignada.
— Sinto muito, mas eu estou tentando entender o que aconteceu aqui. – Respondi de maneira ríspida.
— Tudo bem, eu entendo, mas eu não tenho nada haver com isso! – Afirmou a menina. Antes de começar ela respirou fundo e prossegui. – Bom, depois que eu deixei vocês para voltar para cá, durante o percurso minha perna começou a latejar incessantemente e eu tive de parar, usei da minha água para limpar os arranhões e tentar por os ossos do pé no lugar, nesse momento quando eu consegui por, não pude conter a dor e acabei soltando um berro muito alto, e o som acabou atraindo um Tetradius até mim e então tive de me esconder...
— Espere aí – Repetia as palavras diversas vezes – Tetradius?
— Sim, Tetradius é uma espécie de um animal que parece uma pantera roxa com dentes enormes e manchas pretas, eles normalmente são muito violentos e ...
— Deve ter sido o mesmo que me atacou. – Depois de analisar a história, pedi para que ela continuasse a falar.
— Como eu estava dizendo, me escondi na fenda entre duas rochas e um arbusto, vi a criatura rondando pelo perímetro e fiquei abaixada esperando que ela fosse embora, só que o problema maior não foi esse, logo em seguida chegaram um grupo no entorno de cinco pessoas e eles dilaceraram o animal, eles arrancaram toda a sua pele e depois decidiram arma uma fogueira e comer o bicho, como não podia confiar neles, optei por esperar, só que depois de comerem eles continuaram ali, conversando e bebendo algum liquido estranho. A questão é que de tanto esperar eu acabei dormindo no esconderijo e quando acordei já havia anoitecido, meu pé já estava melhor e eles já houveram partido, e então eu resolvi voltar, foi só isso.
— Entendo. Vamos entrar?! Vocês parecem estar cansados. –Todos concordaram e assim fomos em direção a cabana, conforme íamos do outro lado da praia estavam Loren com Maffy em seus ombros, a menina parecia exausta e cambaleava como um zumbi. Corri até ela para socorrê-la e a abracei. – Loren, você está bem? Onde você estava?
— Por favor, só me de um copo de água. – A loira recuperava o fôlego.
— Nofre, por favor, pegue um pouco de água. – O menino parrudo correu em direção a cabana até voltar com um cantil de água, entregando a Loren, a menina bebeu e devolveu a ele. – Agora se acalme vai ficar tudo bem, o que aconteceu?
— Por favor, leve Maffy com você. – A menina entregou o bichano para Nofre que o levou para dentro da cabana – Bom, quando chegamos ao monte de pinheiros, no momento em que vocês começaram a cortar as árvores, o barulho da queda delas no chão assustou o Maffy que voou desorientado para a floresta, corri atrás dele por algum tempo e o perdi, Fiquei procurando entorno de uns quarenta minutos até encontrá-lo em cima de uma árvore, tive de convencê-lo de descer e assim que notei já estava longe demais de vocês e não sabia como voltar, caminhei até encontrar uma rota alternativa que havia feito com Pietra alguns dias atrás e segui por ela até chegar aqui, estou exausta. – Menina agachou-se pondo as mãos no joelho e mostrando os ombros descobertos pelos cabelos, onde havia alguns arranhões.
— O que é isto em seu ombro – Apontava para as feridas.
— Eu não sei, deve ter sido o Maffy, quando se assustou e saiu voando. – Loren olhava a ferida. – Vamos entrar, aqui fora está começando esfriar.
— Loren antes de ir preciso lhe contar uma coisa.
— O que foi Will? – Fiquei em silêncio durante um tempo – Anda logo Will, o que foi?
— Berry morreu.
— O que?! Do que você está falando. Não pode estar falando sério.
— Quando chegamos aqui, encontramos a casa toda revirada e ensanguentada. Uma mensagem na parede alertando-nos de sua morte e não restara nem ao menos o corpo. Pelo visto foi um assassinato brutal, mas ainda não se sabe quem cometeu o porquê.
— Não pode ser, olha as coisas que estão acontecendo nesse lugar. E a Tina, como ela está?
— Se acalme ela está bem.
— Graças a Deus, Afinal quem teria coragem de cometer uma atrocidade com essa?!
— Eu não sei, mas eu vou descobrir. – Um silêncio se estabeleceu por algum tempo. – Venha vamos embora.
Retornamos a tenda e todos já se preparavam para deitar-se. Exigi que todos dormissem no mesmo aposento do térreo, para a segurança de todos. Ralf ainda não houvera voltado e isso de alguma forma me deixara com um pingo de preocupação. Quando todos foram se deitar eu continuei acordado na varanda do térreo olhando o mar, acredito que nenhum de nós conseguira dormir e que todos estavam parados olhando para o teto apenas refletindo, por isso optei por ficar matutando olhando as marolas.
Voltei até a estufa e fiquei mais uma vez observando atenciosamente aquele cenário, tentando a partir dali construir uma linha de raciocínio. Primeiramente, não dei pauta ao motivo pela qual o assassino fez isso, mas quem é o assassino. Comecei a organizar meus pensamentos no âmbito mais abrangente até restringir-se a um único suspeito. Comecei a vagar em minhas memórias e retirei Herly, não conheço absolutamente nada do rapaz, mas sei de seu mau caráter e nas atrocidades que ele pode cometer, e se ele estivesse nos seguido e nos vigiando, tecnicamente isso não me surpreenderia vindo de um psicopata como ele. E quem sabe esse novo grupo que Zenaya falou, eles estavam relativamente próximos daqui e não faço ideia sobre o caráter de nenhum deles, ou até mesmo um elemento x que ainda não conhecemos.
A lista só fazia crescer afinal podia ser qualquer um além deles, parei para um instante e olhei o cenário, depois de alguns segundos tive um flash, por um momento não quis acreditar, no entanto as evidências batiam. O nome, o nome de Berry estava escrito na frase, isso quer dizer que ao menos a pessoa a conhecia, ninguém diz o nome antes de morrer. Além disso, as marcas de sangue ainda úmidas mostravam de alguma forma à hora em que tudo aconteceu e esta hora foi cronometrada para hora em que voltaríamos, ou seja, tudo foi esquematizado quem fez isso sabia do tempo que tinha para dar cada passo. Talvez esse seja o motivo de ter levado o corpo consigo. Infelizmente só podiam ser um de nós. Novamente não queria acreditar, mas infelizmente somente a gente sabia da ida até os pinheiros, ao menos que temos um ótimo espião nos espionando, infelizmente à porcentagem disso acontecer era muito pequena.
Minha cabeça já começara a doer de tanto estipular ideias, contudo tinha de continuar. Numa análise geral os únicos fora de suspeitas eram Cory, Jihan e Nofre, não havia como nenhum deles ter feito algo assim o tempo e espaço estariam fora da realidade. Então comecei por Pietra, a garota sempre foi fria e calculista, ultimamente ela e Berry estavam discutindo por algum tipo de coisa que não faço à menor ideia, tempo ela teve de sobra foi a única a não ir conosco, essa eu não poderia deixar escapar.
Tina, a menina foi a única a estar mais próxima do crime e ainda me espanta ao vê-la sem nenhum arranhão, por que o assassino não teria matado-a. Existe o problema em não conseguir andar, mas e se tudo não passar de um fingimento, afinal a garota voltou dos mortos. Esta certamente é uma das suspeitas. Era doentio suspeitar dos meus companheiros, mas como Steve sempre diz não confie em todo mundo. Pensando em Steve lembrei-me de sua mensagem, mas mais uma vez a dei de ombros. Cheguei mais próximo das paredes de madeira e reparei alguns arranhões. Rapidamente me lembrei das facas e, sobretudo me veio à imagem dos outros três.
Zenaya presenciara nos últimos dias duas vezes com o instrumento nas mãos, relembrei a madrugada passada e aquela resposta não me convencera. Mas se realmente ela fosse a culpada estaria desmentindo toda a sua história. Não vejo um motivo, mas a garota teve a oportunidade perfeita para isso. Agora o que mais me doía pensar era Loren, a garota também é uma das fortes suspeitas. Ela continha a faca, e apareceu com arranhões nos ombros, o tempo em que ficamos desacordados foi o suficiente para que ela fizesse tudo isso. E o seu cansaço exacerbado também é algo duvidoso junto aquelas palavras do dia anterior. Talvez seja a única suspeita com motivo plausível para que Tina não sofresse com nada, mas novamente estaria desmentindo a sua história.
Por fim Ralf o rapaz nem somente apareceu depois do assassinato, levando o mesmo fato de Loren ele também teve tempo suficiente enquanto ficamos desacordados e também é o mais forte entre todos os suspeitos para arrastá-la dali. Foi ele quem teve o plano para sairmos da cabana, e no caminho desapareceu do nada. Se fossemos por um motivo, Ralf poderia ter feito isso por vingança a Quaila, mesmo aparentemente normal, ele pode ter achado que a culpa da morte da moça ainda fosse de Cory.
Era muitas suspeitas sem nenhuma certeza e isso me gerava agonia. Já estava muito tarde, minha cabeça latejava freneticamente, preferi guardar minhas especulações para mim mesmo. A madrugada nos acolhia com um frio tenebroso, já era hora de dormir, antes de ir para alcova para descansar, arrumei todos os móveis e deixei tudo na perfeita ordem, só restara limpar o sangue, mas o sono me acolhia de tal maneira que não resisti a ir direto para rede e me desconectar de Alfalumia.
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